O Lobisomem De Liveway
2 Capítulo 1 - A Viagem.
Notas iniciais
Beijos,
EUQOPÉ-ELLE3
Capítulo I – A Viagem.
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Era quase Halloween.
Hoje era dia trinta de outubro e o sol já se perdia no horizonte. Por detrás dos poucos prédios em Liveway e por detrás da pequena cadeia montanhosa que se encontrava relativamente longe da cidade. Eu assistia à cena sentada na varanda que ficava aos fundos do Mausoléu, a mesma em que eu ouvira a conversa de Alice com Roman, enquanto eu repassava a minha vida mentalmente.
Antes eu era apenas uma garota perseguida por alguém que matava aqueles que me magoavam, e, agora, eu estava a um passo de me tornar uma bruxa com um Guardião Sombrio, uma alma encarregada de me proteger, mas que tomou forma humana e palpável. Ele parecia mal no inicio, principalmente quando eu não o conhecia, mas agora estava tão manso que eu usava suas pernas como travesseiro.
- Você sabe que nada vai aparecer agora, não sabe? – indagou pegando o livro das sombras de minha mãe das minhas mãos.
Eu suspirei.
- Sei. Papai e Alice me disseram que não apareceria nada até eu me tornar uma bruxa, como ela... Como a minha mãe – respondi. – Thanatos, você acha que isto é certo?
Ele pensou, mas eu sabia que pensar não fazia o seu tipo. Thanatos era mais do tipo explosivo e instintivo. Pensar não fazia o seu jeito. O Guardião tinha o costume de fazer uma escolha e deixar o futuro decidir se era certo ou errado. Ele apostava para ver. Algo corajoso, mas o nome Isabelle, nunca estivera ligado à coragem.
- Eu não sei – respondeu-me. – Argh, você se preocupa demais com o futuro!
Olhei para o seu rosto, acima do meu.
- Eu não te culpo por você não saber – concordei. – Argh, você é muito relaxado!
Agora eu era capaz de ver a semelhança que todos comentavam e viam entre nós dois. Eram os mesmos olhos, cabelos, tom de pele, feições... Porém, suas feições eram mais masculinas e rústicas, já as minhas, eram mais delicadas e femininas. Mas tenho uma leve impressão de que se ele fizesse as sobrancelhas, seriam como as minhas.
- Por que você se parece absurdamente comigo? – perguntei passando meus dedos por sobre seu rosto. – É assustador...
- É normal que uma alma perca a sua aparência normal quando incorporada em outro corpo – respondeu Alexander aparecendo do arco onde ficava a escada em espiral que levava a essa área. – Alice tem uma teoria de que a alma amórfica de Thanatos se expropriou de seu código genético para ganhar uma forma também.
O olhar dele sobre mim era neutro, enfim havíamos conseguido chegar a um impasse. Ele me chamava de Isabelle ou Malback (sem tom pejorativo) e eu o chamava de Alexander ou Van Cruce. Tentávamos nos entender, mas às vezes, sempre havia um deslize e acabávamos brigando. Acho que era uma espécie de mágoa pelo que ele me fez no meu primeiro dia de trabalho.
Sabe... Jogar alguém em uma cova não é a melhor maneira de dizer “bem-vinda”.
- Ah – eu respondi com um som de esclarecimento. – E porque ele não é uma garota?
Alexander deu de ombros.
- Nem mesmo os bruxos têm a resposta para todos os segredos do universo – respondeu.
A figura de Alexander era algo que me deixava desconsertada. Ele era bonito, tão bonito que eu me surpreendia com a sua agressividade e com sua arrogância. Com os cabelos cor de cobre, olhos cinzentos, pele pálida... O estilo antigo-contemporâneo que ele tinha de se vestir.
- Pare de babar nas roupas dele – Thanatos brigou.
Olhei para o meu Guardião, envergonhada.
- Tem certeza de que você não veio para me ferrar? – critiquei.
Naquele dia, ele vestia-se com um casaco de veludo preto, com o modelo justacorps (justo na cintura) parecido com um casaco da marinha ou de algum guerreiro, camiseta social branca por debaixo, um broche em formato de caveira no colarinho, calça jeans preta com uma corrente prateada caindo ao lado e botas de motoqueiro.
Alexander milagrosamente deixou isso passar, o que era bem raro, e se encostou à grade à minha frente e ficou me encarando por um tempo constrangedor.
- O que foi? – perguntei.
- Você parece melancólica hoje – respondeu cruzando os braços.
- Oh, você notou? – comentei constrangida.
Logo ele percebeu que eu estou confusa?
- Sim – ele respondeu. – É por causa da falta de Roman? Não se preocupe, ele vai voltar logo.
Ele estava tentando me consolar?
O.K. Isso era algo novo para mim...
Roman havia pedido licença para Alice. Seu pai estava na cidade e ele precisava passar um tempo com seu progenitor. Eu não compreendia qual era a relação de Roman com seu pai, e sentia que eu nunca compreenderia. Desde que eu dei um fora nele, nada mudou, mas ele passou a se esconder de mim. Principalmente esconder coisas da sua vida de mim.
Quando eu pensei que havia superado uma barreira, ele montou outra.
- Não é só por Roman – respondi. – É por... Bem, tudo isso.
Sim. Há algumas semanas atrás eu acreditava que Alexander era apenas um jovem problemático e um tanto sociopata por seu modo grosseiro e impulsivo comigo, mas descobri que ele era algo mais. Ele era um vampiro. Um vampiro que sugava sangue e matava pessoas, porém, somente com o consentimento de Alice.
Já Roman, o carismático e amigável garoto a quem eu admirara e que tinha um leve interesse romântico por mim... Era um lobisomem. Um lobisomem que uma vez rosnou para mim e quase me atacou quando se transformou. Se não houvesse sido pelo fantasma da mãe dele, eu estou quase certa de que Roman teria me matado.
No entanto, o meu problema de hoje, era a incerteza de que isso era certo, quer dizer: tornar-me uma bruxa. Será que eu poderia abdicar de meus poderes “adormecidos” se eu quisesse?
- Oh, esqueci-me que para você é difícil aceitar a assustadora verdade – ele comentou se virando para o céu já escuro, com o sol escondido por detrás das montanhas, dos prédios e das árvores.
Concordei com a cabeça, mesmo com o sarcasmo presente em sua voz... Percebi que ele parecia preocupado com o meu nível de aceitação. Perguntei-me se, por acaso, ele havia nascido vampiro ou se ele havia sido transformado... Porque, do modo com que ele me tratava, era como se ele nunca houvesse passado pelo choque de descobrir um mundo fantástico.
- Alexander, você sempre foi... Um vampiro? – perguntei erguendo a cabeça para ele. – Por que, pelo jeito que você zomba de mim... Parece que você nunca passou por uma situação parecida. Com uma crise de querer a normalidade, digo.
Ele me olhou por um tempo e desviou o olhar para longe.
- Eu não gosto de falar sobre a minha vida – ele respondeu. – Gosto de guardá-la apenas para Alice e para mim mesmo.
Eu nunca fui capaz de entender essa devoção de Alexander para com Alice. Esta estranha gratidão que ele parecia nutrir por ela e que se mesclava a um amor puro e intenso. Ele parecia gostar de ter algo “que só ele compartilhava com Alice”. Eu achava que ele era insensível e grosseiro, mas depois que eu conheci esse lado apaixonado e devotado de Alexander... Passei a ver com outros olhos.
Quase me atrevo a dizer que o admiro.
Ele parecia ser capaz de fazer qualquer coisa para vê-la totalmente feliz. E com qualquer coisa, digo de fazer de tudo para ficar com ela, até deixá-la ser feliz com outro homem... Mas havia algo que eu ainda não entendia no linguajar de Alice. Algo que algumas vezes eu a ouvi falando como: “meu tempo está acabando”, ou “eles cuidarão bem de Liveway”; ou “dói-me partir e deixá-la tão pouco instruída”.
Parecia até que ela ia viajar ou, na pior das hipóteses, ela iria morrer a qualquer instante... E eu não gostava de pensar nisso. Nem achava que eu tinha intimidade para puxar esse tipo de assunto com ela ainda... Eu não queria reconquistar todo o tempo perdido perguntando: “Alice, por que você fala como se fosse morrer a qualquer momento?”.
- O que falta em você, Isabelle, é um pouco de coragem para perguntar o que te incomoda – Thanatos bufou, lendo meus pensamentos.
Alexander arqueou uma sobrancelha para nós. Era tão injusto que o guardião fosse capaz de ler os meus pensamentos e eu não pudesse ler os dele! Mas eu ia encontrar um jeito de me vingar.
- Vamos entrar? Acho que já está na hora — Alexander mudou de assunto, decidindo que não queria saber do que se tratava.
Ele se desencostou do parapeito e me estendeu a mão.
Hesitei em pegá-la. Sentia que, com aquele simples gesto, eu estaria abdicando e dando as costas à normalidade de uma vida pacata – mesmo que eu nunca a tivesse de fato. Encarei os olhos de Thanatos, encontrando um sutil apoio, e peguei a sua mão fria. Ficando em pé com sua ajuda, para o Guardião se levantar logo em seguida.
- Então... Você é tão forte quanto Edward Cullen? – perguntei esperando uma resposta nem um pouco educada dele.
Ele pareceu ficar pensativo, mas a resposta não foi a que eu esperava.
- Edward Cullen... Acho que eu o invejo – respondeu.
Tenho certeza de que a minha mandíbula caiu.
- Você o... Inveja? – perguntei incrédula.
Eu não esperava que Alexander “invejasse” Edward Cullen. Na verdade, achei que ele seria o primeiro a jogar uma pedra e dizer que ele era um vampiro gay que morria de vontades em dar para Jacob Black. Mas ele deu de ombros.
- Se aquele “vampiro” não é repelido por cruzes ou alho, não é queimado pelo sol ou água benta, e seu único inimigo é o fogo... Só posso dizer que ele é o Super-Homem vivendo em um mundo onde é muito raro de se encontrar uma Kryptonita – ele continuou.
Mas então me lembrei de o como ele não reagiu de modo estranho quando estava olhando para a cruz no altar da pequena igreja.
- Mas você não pareceu ser repelido pela cruz no altar – comentou Thanatos enquanto descia as escadas atrás de nós.
- Isso é porque ela era só decorativa. Não é abençoada. Quer dizer, se alguém pegasse dois gravetinhos no chão e fizesse uma cruz com eles, tudo o que iria acontecer comigo era um ataque de risos – ele respondeu olhando para mim sobre o seu ombro. Mostrando um raro bom humor em seus olhos.
- E alho? – inquiri.
- Como verbena é para Stefan e Damon Salvatore – respondeu se aproximando das portas da capela pequena e luxuosa.
Caramba. Quer dizer que Alexander era fã de vampiros nas horas vagas? Provavelmente ele deveria ser fã da Anne Rice também, claro. Se ele conhecia obras como Crepúsculo e Diários do Vampiro.
- Agora sabemos como cuidar de você quando ficar mal – Thanatos disse cruzando os braços.
Alexander olhou para mim de soslaio. Provavelmente cogitando que a ameaça de Thanatos foi algo que passou pela minha mente – o que não era tão mentira assim. Mas, como ele havia desistido de dar atenção àquilo que o Guardião diz, apenas ignorou e abriu a porta.
Fiquei um pouco surpresa quando me deparei com Atuérpia – a enfermeira da escola – e César Villanueva – seu filho de aparência bizarra. Mas percebi que fazia um tempo que eles apareciam com frequência para conversar com Alice, minha tia e futura instrutora de magia. Tudo o que eu não sabia era por quê.
Então fiquei curiosa... Roman é um lobisomem, Alice é uma bruxa e Alexander é um vampiro. E o que pode ser César e sua mãe? Certa vez, ele comentou que gostava de árvores... Será que ele era uma Dríade? Duende? Fada?
Não tenho palpites racionais. Sou nova nesse mundo.
- Isabelle! Já estava indo te chamar – Alice disse sorrindo, pegando meu braço e me puxando para um banco com ela.
- O que eles fazem aqui? – perguntei em tom de confidência, referindo-me a César e sua mãe.
- Vieram conversar comigo – ela respondeu, sorrindo.
Por algum motivo, naquela noite, Alice me pediu para que eu trouxesse uma vela branca e não viesse com roupas muito pesadas, mesmo que o clima estivesse muito frio. Por isso eu vim somente com um vestido longo vermelho e um casaco de couro preto por cima. Estava muito frio em Liveway. E eu estava congelando.
Tinha haver com coisas de bruxaria, eu acho. E só de pensar em um motivo, eu já sentia os pelos de meu braço se eriçar. Sem contar o fato de ela ter dito para o meu pai que eu voltaria tarde para casa naquela noite.
- Mas também vieram ajudar – complementou Alexander indo ao lado de Alice.
- Ajudar? – perguntei confusa, olhando para os dois. – Em quê?
- Como pode: duas pessoas da mesma família ser tão distintas? – Thanatos perguntou com curiosidade.
Todo mundo me olhou questionando, mas eu apenas olhei para Thanatos com um suspiro. Eu já havia cansado de argumentar com ele. E acho que todo mundo também, pois César apenas revirou os olhos com sua mãe e ambos se viraram para mim.
- Sua tia nos disse que você vai a um lugar bem perigoso – César disse cruzando os braços.
- Vamos? – perguntei confusa, para a minha tia.
- Vamos – ela respondeu sorrindo, passando suas mãos por meus braços. – Vou te levar para conhecer o Templo Da Deusa.
Tudo bem, eu não sabia o que era o “Templo da Deusa”, mas eu vi um choque perpassar pelos olhos claros de Atuérpia. Parecia que ela ficou preocupada e assustada com a decisão de minha tia, pois a cor sumira de suas faces.
- Alice... Você tem certeza disso? – perguntou Atuérpia com preocupação. – Já faz um tempo que o Templo da Deusa deixou de ser território nosso... Pode ser perigoso levar uma quase-bruxa tão inexperiente e ir com um grupo muito grande.
- Mas seria menos perigoso ir com mais pessoas do que ir somente eu e Isabelle para aquele lugar. Poderíamos acabar encurraladas – Alice respondeu.
- Bem, poderíamos improvisar por aqui mesmo... – Atuérpia tentou.
- Atuérpia, eu quero que a tradição continue... – Alice insistiu.
- Mesmo quando ela pode custar a sua vida e a vida da sua sobrinha? – perguntou a mulher, cruzando os braços.
Eu já não entendia mais nada. Como assim “O Templo da Deusa deixou de ser território nosso”? Ou “pode ser perigoso”. Que tradição é essa que poderia custar a minha vida e à vida de Alice?
- O que está havendo? – perguntei confusa.
As duas continuavam trocando olhares intensos quando enfim pararam de se encarar e se viraram para mim. Ambas pareciam querer explicar, mas não tinham palavras.
- Há um lugar chamado de Templo da Deusa – começou César com descaso. – Ele é um lugar sagrado para as Bruxas... Como uma Igreja para os fiéis católicos. Historicamente, é o lugar onde a bruxaria começou. O lugar onde, quase que obrigatoriamente, toda a bruxa deveria ser iniciada quando chegasse por volta dos 12 anos. Mas...
- Há algum tempo atrás – Atuérpia continuou pelo filho, passando sua mão pelo braço dele. – O único lugar que julgávamos verdadeiramente seguro e verdadeiramente nosso, foi descoberto pelos caçadores de criaturas... E assim, eles dizimaram grande parte da população bruxa e conseguiram quase que nos erradicar – ela disse com pesar. – Por isso, eu insisto Alice: é muito perigoso. Você quer realmente expor sua herdeira a isso?
Vi que Alice vacilou ao me olhar. Eu vi que ela achava que tinha uma enorme obrigação para com a sua raça – tudo bem, a nossa raça -, mas ela também tinha a grande obrigação de me manter segura. Eu era a única herdeira – pelo menos até agora – do Clã de feiticeiros “Franklin”.
- Como você sabe tanto sobre isso? – perguntou Thanatos a César.
- Mamãe... Contou-me algumas histórias – ele explicou dando de ombros. – Não é como se eu fosse um bruxo ou algo assim.
Ignorei aquela conversa desnecessária. O que me importava agora era Alice. Ela parecia estranhamente triste e eu acho que eu entendia o que se passava em sua cabeça.
- Claro que eu não posso te obrigar a fazer nada que você não queira fazer, Isabelle – ela disse com um sorriso pesaroso.
- Mas eu quero – respondi, surpreendendo a todos, menos Thanatos (claro).
Alice pareceu surpresa, tanto quanto Atuérpia e César – que sussurrou uma quase inaudível “louca” -, e tanto quanto Alexander. E eu jurei ver um sorriso irônico se formar nos lábios do vampiro.
- Você pode acabar morrendo! – Atuérpia argumentou. – Mesmo não sendo iniciada como uma bruxa, sangue mágico corre por suas veias e eles não vão descansar até que ele todo tenha derramado no chão. De preferência, embaixo de seu corpo inerte e sem vida...
- Eu vou porque eu não tenho medo deles – eu disse, realmente sentindo-me irritada. – Eu não os conheço. Não sei até onde vai esse “poder” deles... Mas sei de uma coisa: eles mataram a minha mãe. Se toda a bruxa é iniciada no Templo da Deusa... Se ela foi iniciada no Templo da Deusa eu quero ser também. Eu não vou baixar a minha cabeça a eles só porque não passam de um bando de ignorantes.
- Isabelle... – Alice ia dizer algo, mas com o seu tom de orgulho ferido, eu percebi que ela tentaria me convencer a mudar de ideia, mesmo que eu não quisesse.
- Alice, nós vamos fazer isso pelo o que somos – eu pedi pegando as mãos delas na minha. – Vamos mostrar a eles que eles não podem simplesmente bancar os colonizadores e erradicar toda uma cultura por termos uma crença e por sermos diferentes... Vamos fazer isso por nós.
Ela sorriu e acariciou meu rosto, emocionada.
- Você fala coisas muito bonitas para uma jovem bruxa – disse com um sorriso, por eu entendê-la.
- Certamente, só podiam ser parentes – César comentou com um suspiro cansado. – Deve ser coisa de família. Jane Marie, Alice e Isabelle Franklin, as três bruxas inconseqüentes.
Eu me virei para Atuérpia contrariada, para César meneando de cabeça baixa, para Thanatos com um meio sorriso de orgulho, e para Alexander, com um sorriso para lá de estranho em seus lábios vampirescos.
- Eu não vou forçar ninguém a ir – eu disse dando de ombros. Então olhei para Alice, para deixar claro que ela também estava na votação. – Quem quiser ficar, que fique.
- Fui eu quem deu a ideia... É claro que eu vou com você Isabelle – Alice respondeu prontamente.
- Bem, — Alexander disse se levantando de um dos bancos da igreja. – Eu vou... Aonde Alice for.
O.K. Eu fiquei com inveja da minha tia. Como ela era capaz de rejeitar um homem tão bonito – sim, muito, muito, bonito – que rastejava aos pés dela? Alexander era grosseiro e arrogante às vezes, mas parecia saber quando ser romântico. Pelo menos, quando ele está com Alice, ele se transforma incrivelmente para um bobo apaixonado.
Olhei para Thanatos, mesmo que a resposta dele fosse meio óbvia.
- Eu sou o seu guardião, eu tenho que ir para aonde você for – respondeu revirando os olhos.
Olha a diferença.
Com Alexander é: “eu vou aonde Alice for e, se for necessário, a protegerei e morrerei por ela” Ou quase isso. Thanatos comigo é: “aff, eu tenho a obrigação de ir aonde você for mesmo”. Era uma entonação e sentido totalmente diferente.
- Bem, acho que é isso então. Vamos Thanatos, Alice, Alexander e eu. – comentei com um suspiro satisfeito. Era mais da metade.
- Eu vou também – César disse se levantando. – Infelizmente, Isabelle, eu não sou do tipo que foge de uma boa luta... Se as coisas serão como você disse ser, eu não vou recuar agora. Gosto de desafios. Gosto de quando as coisas são perigosas.
- César! – Atuérpia pareceu não gostar da atitude do filho. – O que você pensa que vai fazer?! Você não vai a essa expedição maluca e mortal!
Mas ele olhou para ela como se não desse muita atenção, o que eu não achei muito justo. Tipo, ela era mãe dele. É claro que eu entendia também o lado de Atuérpia. Afinal, ela era mãe dele e era comum que se preocupasse com o bem estar do seu filho. Eu duvido que, se minha mãe não estivesse morta, a minha me deixasse fazer essa loucura.
- Mãe... É disso que eu gosto – ele respondeu. – Você pode se acovardar para sempre em seu consultoriozinho, mas eu não. Se você não quiser ir, não vá. Mas eu vou.
Ele se levantou do banco e andou até nós. César já havia se livrado das muletas e agora seu joelho se recuperava bem, ao que parece. Mas eu percebi que ele não gostava muito de falar sobre si mesmo, ou de sua vida, ou de seu machucado. E podem acreditar eu tentei.
Não era raro encontrar César e sua mãe no cemitério ultimamente. Para ser sincera, eles estavam lá com frequência. Atuérpia sempre estava com Alice, claro que quando ela não estava comigo, e César sempre acabava ficando sozinho dando voltas pelo cemitério e analisando a vegetação.
Mas havia algo de frio nele. Como se ele estivesse... “morto” sentimentalmente. Quer dizer, o máximo de emoção que ele já fez – além de emoções como sarcasmo, escárnio e tudo o mais irônico – foi tocar numa planta enquanto eu cuidava e dizer que eu fazia um bom trabalho.
Como se eu houvesse perguntando, hã?
- Então eu não tenho escolha – Atuérpia disse com um suspiro. – Vocês vão então e eu fico. Caso algum de vocês sobreviva para contar a história, pelo menos encontrarão uma boa enfermeira\\bruxa para ajudar com os feridos.
Agora que ela comentou daquele jeito... Vi que realmente era bom que ela ficasse ali. Seria bom para a estratégia.
- Estratégia? Pff – Thanatos disse com um sorriso de sarcasmo. – Que estratégia? Estamos indo para um território inimigo. Tão bem armados quanto camponeses com pedras... É claro que estamos ferrados.
- Urgh, larga a mão de ser pessimista homem! De onde saiu esse pensamento? De mim é que não foi – eu disse tentando quebrar o clima. – Relaxe, eu sei que vai dar tudo certo.
- Malback, tem uma diferença muito grande entre “querer que tudo dê certo” e “saber que tudo vai dar certo”. Alice sabe quando as coisas vão dar certo, você apenas quer que tudo o que você espera realmente aconteça – Alexander disse.
Fuzilei Alexander com o olhar, certamente, isso não ajudou em muita coisa.
- É. Concordo com o sociopata – respondeu Thanatos dando de ombros.
Alexander soltou um som que veio do fundo de seu peito. Era um rosnado. Acho que ele ainda ficava ressentido quando o chamavam – ou melhor, quando Thanatos o chamava – de “sociopata”.
- Bem, vamos começar então – Alice disse com um suspiro cansado.
Eu estava começando a crer que a minha tia já estava tão cansada das discussões daqueles dois tanto quanto eu mesma. Eu havia conseguido deixar Alexander em paz, e fazer com que ele me deixasse em paz, porém, Thanatos parecia gostar de provocá-lo. E eu acho que sei – mais por imaginar – o quão perigoso pode ser provocar um vampiro.
E não me parece ser uma boa ideia.
- Muito bem, o que faremos? – perguntei seguindo-a para fora da igreja.
- Vamos para o lado de fora. Precisamos de um lugar maior – ela respondeu sorrindo. – Você vai adorar ver isso, Isabelle!
Sem muita escolha, eu tive que seguir Alice. Eu não queria sair de lá. Porque lá era quentinho e, mesmo que fosse imundo, era aconchegante. Acho que Roman tinha razão. Com o tempo, você se acostuma com o cheiro de coisa morta pelo ar.
Um dia eu sonhei em trabalhar de meio período na Starbucks, em uma pizzaria, numa McDonald’s... Mas acho que nunca havia cogitado em trabalhar em um cemitério, mesmo que eu esteja começando a me sentir uma vagabunda. Ultimamente, Alexander tem feito todos os meus trabalhos de cuidar das raríssimas plantas de Alice enquanto ela me ensina o superficial da magia.
E eu ainda ganho por isso!
Não me parece muito justo. Acho que Alexander deveria ganhar em dobro só para cobrir o que eu deveria fazer. Pode parecer engraçado – quer dizer, um vampiro botânico? Parece uma comédia –, mas ele realmente gosta do que anda fazendo. E acho que estou a um passo de ser considerada amiga de Alexander.
Ou quase.
- Aqui – Alice disse parando em uma área limpa de túmulos e com poucas plantas.
Quando o vento lampejou por meu corpo, estremeci sem me conter. Cara, como estava frio! Nem o meu casaco de couro e aquele vestido agüentavam o frio que fazia em Liveway. A única coisa que me confortou era que Alice também estava somente com um vestido branco e leve, sem casaco. O que deveria significar que ela estava com mais frio do que eu.
“Ou não...” cogitei quando nem a vi tremer ou bater os dentes.
Ela entregou um caderno velho e aberto a Alexander e pediu:
- Tente desenhar isso para mim, Alex.
Surpreendi-me como prontamente ele se abaixou no chão e começou a imitar um símbolo que estava desenhado no livro das sombras da minha tia Alice.
- Espere aí... Por que ele, que não é bruxo, mas sim um vampiro, é capaz de ler o que está escrito em seu caderno, enquanto eu não sou nem capaz de ver o que está escrito no caderno da mamãe? – reclamei confusa à minha tia.
Alice suspirou.
- Eu consigo ler porque Alice não está morta – Alexander respondeu. – E porque ela me deixa ler; e porque eu sou o assistente dela...
- E porque você baba nela. E porque você beija o chão que ela pisa. Etc. e Etc. Podemos continuar agora ou você já está apenas se preparando para louvar a cor dos cabelos dela e fazer odes aos dedos dos pés dela também? – Thanatos continuou impaciente.
Alice olhou para o meu guardião com vergonha e depois olhou para mim. Eu dei de ombros. Esse pensamento também não havia sido meu. As pessoas tendiam a achar que tudo o que Thanatos falava era apenas o que se passava em minha cabeça. Mas pelo incrível que pareça, ele pensava por si só também.
E usava o meu conhecimento para ferrar as pessoas.
Alexander continuou agachado no chão atendendo ao pedido de Alice, mas eu ouvi quando ele soltou outro rosnado. E eu estava começando a achar que se continuasse assim, o lobisomem seria ele e não Roman.
- Alexander, você tem alguma cisma com lobisomens? – perguntei casualmente. – Porque, você sabe, parece que vampiros e lobisomens não se entendem muito bem, mas você e Roman parecem se suportar bastante.
Ele ergueu o olhar do desenho que fazia com giz branco para mim, e voltou a se concentrar em copiar bem. Parecia que aquilo, o desenho, era algo complexo. Houve um momento em que ele teve que puxar uma bússola do bolso. Incrível. Que tipo de pessoa andava com uma bússola?
- É comum vampiros e lobisomens não se suportarem. É que aos nossos olhos, lobisomens não passam de seres irracionais e babões. Seres espalhafatosos e que gostam de fazer barulho. Enquanto para eles, somos seres que se acham superiores. Melhor do que qualquer um – ele respondeu. – O que não passa muito longe da verdade. O rosnado de um lobisomem é mais alto do que um ronco de um motor velho... Acredite, Isabelle, você não verá vampiros mais tolerantes do que eu. Não temos o costume de nos misturar...
Alice olhou para ele com preocupação enquanto César... Ficava quieto em seu canto. Mas havia algo de preocupante no olhar de Alice que eu não entendi o que era. Parecia que um silêncio incômodo sempre se instalava entre eles quando Alexander falava de sua espécie.
- Você não gosta do que você é? – perguntou Thanatos.
Alexander ergueu o olhar e se levantou. Bufando.
- Eu tenho orgulho do que eu sou – ele respondeu passando o caderno para Alice. – Aqui está.
Ele havia desenhado um círculo com um losango no meio. Como uma seta. Apontava para o norte, e para o sul. Na extremidade do norte, tinha a letra L e na extremidade do sul tinha a letra A.
- Onde fica o Templo da Deusa? – perguntei.
- Em um lugar bem quente. Em um lugar bem quente e afastado – César respondeu. – Mas cheio de árvores... E natural.
Olhei para Alice sem compreender.
- É um segredo – ela respondeu sorrindo. – Bem, agora quero todo mundo dentro do círculo, por favor. Quem quiser desistir, é a última chance.
Sem ter muito o quê pensar, pulei para dentro e me postei ao lado de Alice. Thanatos suspirou me encarando e deu um meio sorriso. Entrando no círculo também. Alexander foi quase como um cachorro. Bastou ele olhar para Alice para tudo ficar ótimo para ele.
- Alex, tem certeza que você quer ir? – Alice perguntou parecendo preocupada. – Lá pode fazer muito mal. Tem muito sol e é muito quente.
O vampiro riu. Tipo, ele riu mesmo. Na verdade, gargalhou. Certo. Alexander Van Cruce, uns dos vampiros mais durões – e o único vampiro – que eu conheci, estava gargalhando. O que o amor não faz? Tinha que ser somente com Alice, certo?
Esse era o mesmo cara que me jogou em um buraco no meu primeiro dia de trabalho? O mesmo que ficava chamando “Malback” como se fosse pior dos xingamentos? O mesmo que apenas abria a boca para me xingar e me diminuir? O mesmo que apenas pensava em um jeito de monopolizar a atenção de Alice? O mesmo que vivia rosnando e de cara fechada?
Como as coisas mudavam perto de Alice.
- Desde que tenha sombra eu vou ficar bem. Não é como seu eu derretesse com calor – ele respondeu. – Eu vou ficar bem, mesmo que precise dormir dentro de um caixão.
- Você dorme dentro de um caixão? – perguntei curiosa.
- Durmo. Acho digno já que eu estou morto – ele respondeu revirando os olhos. – Ultimamente você anda bem curiosa sobre mim, Malback.
Dei de ombros. Tudo bem, não era só por eles. Era pelos vampiros em gerais. Porque já inventaram que eles poderiam andar pelo sol com anéis especiais, que eles brilhavam como diamantes, que eles eram bonzinhos, que eles eram bravinhos... É difícil decidir qual é a verdadeira verdade sobre eles.
- E você César? Vai recuar? – perguntou Thanatos cruzando os braços.
- Tá brincando? Árvores, clima abafado, calor, natureza... É claro que eu vou – ele respondeu entrando no círculo. – Lança logo o seu pó de pirlimpimpim e vamos lá.
Ninguém comentou sobre o tom petulante que ele tomou ao se dirigir a Alice, mas vi uma expressão de desgosto (claro) no rosto de Alexander. Sério, se ela já o rejeitou vinte mil vezes, porque ele simplesmente não aceita a derrota e se afasta dela? Não é o comum? Agora ele parecia gostar de bancar o “cavaleiro medieval sofrendo coita amorosa”.
Alice respirou fundo em uma profunda meditação e ergueu o rosto branco para o céu escurecido. O vento pareceu parar enquanto meus olhos se prenderam a ela, sedentos por curiosidade. Vi quando ela ergueu seus braços e fechou os olhos em profunda meditação.
Esperei algo incrível. Ser sugada por um buraco negro e parar em outro lugar, que um furacão aparecesse... Mas tudo o que aconteceu foi um relâmpago grosso cair sobre nós – sem, necessariamente nos eletrocutar ou nos transformar em pó -. Era como um feixe de luz branco azulado que se derramou pela borda do círculo e quase foi capaz de me cegar.
Senti meu corpo, de um modo bem estranho e bizarro, comprimir e esticar dolorosamente até eu cair – literalmente – em um chão fofo e gramado. E com cair, digo: cair de cara. Doeu. Meu corpo se chocou e me roubou o ar.
- Ai... – gemi baixinho.
Quando me levantei e fiquei de quatro (bem, não teve nada de sensual nessa pose, garanto!) senti meus ossos vibrarem e resmungarem por mim. Sentei-me na grama e olhei ao redor.
Fiquei feliz por ver que todos pareceram se machucar também. Quer dizer, menos César, que estava milagrosamente intacto e foi o primeiro a se levantar e limpar a terra de suas roupas. Depois foi Alexander que estalou seu corpo e se pôs de pé, oferecendo sua mão para Alice.
Thanatos também pareceu não sentir grandes coisas e se levantou, começando a esfregar suas roupas e tentar me colocar em pé.
- Todos estão bem? – Alice perguntou preocupada.
- Titia, eu acho que a senhorita tem que começar a aperfeiçoar suas aterrissagens – eu disse de brincadeira, mesmo que a dor houvesse sido muito real.
Ela deu de ombros com um sorriso envergonhado.
- Bem, eu não costumo viajar muito – ela respondeu.
Olhei a paisagem ao meu redor.
Estávamos no que parecia ser uma floresta. Havia muita grama, formiguinhas e insetinhos passeando pelas folhas caídas no chão, pedaços de troncos caídos. As árvores eram espessas e todo o frio que eu sentia em Liveway fora substituído por um calor abafado e úmido. Quase que de instantâneo, tirei o casaco e o joguei para Thanatos segurar.
Eu ouvia sons baixos de animais, mas não eram sons muito espalhafatosos. Eu havia dado na aula de biologia que grande parte dos animais que caçam à noite é silenciosa para não acordar a sua vítima.
- Onde estamos? – perguntei a Alice. – Parece uma floresta...
Ela sorriu para mim e passou o braço por meus ombros.
- Isabelle, bem vinda à Floresta Amazônica – ela disse sorrindo resplandecente.
Fiquei surpresa.
- Amazônia? Sério? Tipo no Brasil? – perguntei surpresa.
Alice concordou com a cabeça, parecendo orgulhosa. Nossa... Bem que eu estranhei que não era como nada que eu houvesse visto – quer dizer, pessoalmente. É fácil se obter imagem de florestas fechadas daquele jeito com ferramentas como televisão, internet, youtube... Mas ver pessoalmente era diferente.
Era como se a floresta em si tivesse algo mágico.
- Uau – eu soltei olhando ao redor.
- Virou um cachorro Isabelle? – Thanatos disse maldosamente. – Onde fica esse tal templo da Deusa? Alice você sabe o caminho? Teremos um guia?
Viram? Era em momentos de preocupação como esse que eu sabia que – por detrás do humor peçonhento dele – Thanatos era um bom garoto. Tá, talvez não um “bom garoto”, mas uma boa pessoa. Lá no fundo. Ele tinha muitas coisas em comum com Alexander.
- Não se preocupe Thanatos. Uma bruxa pode sentir o caminho para o Templo – ela respondeu com um sorriso. – Aposto que Isabelle o sente também.
Sim, eu sentia. Sentia-me estranhamente conectada com essa natureza em minha volta. Era como se parte dela fosse minha. Como se parte dela corresse e pulsasse por minhas veias. Papai sempre me dizia que o motivo para eu gostar de cuidar das plantas, era coisa da família da minha mãe.
À minha frente tinha um arco de árvores exóticas e verdes que parecia convidativo. Era como uma porta para outro mundo. Um arco de árvores que pareciam se curvar mesmo que não houvesse vento. Um arco que era mais do que convidativo. Era algo que parecia brilhar e dizer “venha” repetidas vezes.
- É por ali? – perguntei andando para lá quase que em transe.
- Viram? – Alice perguntou ao vampiro e ao meu guardião. – Comigo e com a Isabelle aqui, não tem como nos perdemos e sermos devorados por uma onça pintada... Vamos!
Todo mundo acabou aceitando com a cabeça e nos seguindo pela floresta.
Mas era estranho que César, tendo uma mãe bruxa, tendo uma conexão com a natureza e tudo o mais... Não fosse um bruxo. Quis saber o que ele era, mas esperaria por um momento oportuno de perguntar.
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