O Livro dos Mortos
4 Parte Três: Serana
— Mãe! – Gritou, se lembrando de que esquecera as chaves antes de ir para o psicólogo. Esperava que sua mãe ainda estivesse em casa e que desse a bronca que já estava acostumada a levar sempre que esquecia as chaves.
— Lição número de 1 de boa convivência: Nunca esqueça suas chaves. – Era como se ouvisse a voz de sua mãe na cabeça. – Por que não posso ser incomodada no trabalho, principalmente por causa de chaves.
— Não seja tão ranzinza, Laura. — Ela podia ouvir agora a voz de Ethan, seu padrasto, enquanto ele pegava as chaves de seu carro em cima da bancada da cozinha e dava um beijo na testa de sua mãe. — Ela é uma adolescente. Esquecer chaves é com eles mesmo.
Ethan era o tipo de cara que qualquer mulher iria querer. Era simpático, sempre com um sorriso manchado estampado no rosto, com os olhos semi puxados devido a sua descendência japonesa e o cabelo sempre bagunçado. Estava distraído naquela manhã, esquecendo seu celular e de ajeitar sua gravata. Se não fosse por sua mãe, ficaria por isso mesmo.
— E por ser uma adolescente, ela deve se lembrar disso. — Retrucou Ethan, encarando Serana com um olhar de repreensão, mas com um sorriso maternal. — Não se esqueça, hoje você tem consulta com o Dr. Andrews. Não se atrase e, por favor, não me ligue.
Sua mãe, de fato, tinha constantes reuniões com a Angel Enterprises, ainda mais se considerar o fato de que ela era uma CEO de uma empresa pequena subsidiada pela Angel. Dizia que não podia atender celulares ou ser chamada para atender parentes pois senão dava direito aos funcionários de o fazer também.
A pior coisa que tinha feito era não ter ido para a casa no almoço, preferindo passar o dia com James e Josie antes de enfrentar a vida. O casal era seus melhores amigos, e era ainda melhor que sua mãe, pois não perguntaram absolutamente nada sobre como fora o psicólogo, então decidiu caminhar um pouco e observar o lago do Prospect Park antes de criar coragem. É claro que esta coragem não veio, então só percebeu as horas quando viu o sol descer o céu.
Encostou no muro liso de pedregulhos e deixou-se arrastar até o chão ao lado das grades negras de seu portão. Ela não atendeu o interfone e muito menos se preocupou em ir lá fora para ver quem estava a gritando, então era provável que estivesse no trabalho. Cruzou os braços e decidiu que iria esperar sua mãe chegar. O relógio dizia que eram quase sete horas, então faltava pouco para ela chegar dizendo o quanto o dia foi estressante.
Serana cruzou os braços e observou a rua, enquanto pessoas andavam apressadamente de um lado para o outro, e lojas começavam a fechar suas portas para enfim poderem relaxar ao mesmo tempo em que se preocupavam com o dia seguinte: Podia ver um homem de avental branco e quase nenhum cabelo na cabeça fechar o seu açougue; um homem de terno e cartola xingando um outro que andava apressadamente com uma maleta em sua mão e, por um segundo, pôde ver um garoto com aljavas cruzar a esquina. Sabia que era sua mente pregando peças, visto que ninguém parecia notar o quão estranho era.
Resistiu a vontade de segui-lo e pegou o celular, para jogar Angry Birds até que sua mãe chegasse. Estava cansada, e não iria dormir sentada no chão de frente para sua casa. Ela não iria dormir de modo algum, de qualquer jeito. Não queria saber a continuação de seu sonho, não queria sentir a voz daquele homem invadir sua mente como farpas. Sem perceber, desfocou a atenção do celular e começara a fechar os olhos. Não foi o suficiente para dormir de verdade, e quando notou o que estava fazendo, abriu os olhos, espantada.
Por alguns instantes, Serana não estava no chão, na rua da sua casa. Ela parecia ter voltado aos seus sonhos quando olhou para frente e o branco parecia infinito. Não, não era infinito. Ao fundo, parecia ver um mancha negra se aproximando dela. Em um rápido pulo se levantou, se sentindo mais leve e mais acordada, e. então, voltara para sua rua novamente, ainda com o olhar incrédulo olhando para o açougue, que agora não tinha ninguém. A rua estava completamente vazia, o que era bom. Ninguém poderia a olhar de maneira estranha, como ela mesmo sabia que se olharia.
Olhou para o telefone e se espantou ao ver que ligaram para ela seis vezes, e em nenhuma das vezes o seu telefone vibrou. Ligou de volta para o número, a qual pertencia a James. Ninguém atendeu, o que era estranho, vindo especialmente dele. Quando o mesmo ligava, ou atendia ou iria ouvir grandes xingamentos quando ligasse de volta. James nunca deixava de atender ao primeiro toque. Tentou o número de Josie.
— Alô? – Havia barulho ao fundo, e a garota parecia ofegante. – Serana?
— Josie? O que está acontecendo? – Perguntou rapidamente, conseguindo ouvir um ruído bem forte ao fundo. Eram carros? – James me ligou e...
— James está morto. – A garota respondeu, e somente naquela hora foi que Serana notou o tom de choro vindo da garota.
A frase foi um soco no estômago de Serana. James estava morto. Um de seus únicos amigos de quando se mudou para Nova York, agora estava morto. Não sabia o motivo, mas a memória de quando ambos estavam sentados num parapeito de um prédio tomando coca cola veio a sua mente. Ela não queria acreditar. Não podia.
— Como assim ele está morto? – Perguntou novamente, enquanto ouvia um som parecido com um trem ao fundo e a respiração cansada de Josie.
— Uns homens vieram e fizeram algumas perguntas. – Josie parecia querer chorar.
— Que tipo de homens? Que tipo de perguntas?
— Eles perguntaram por você, Serana...
Josie não disse mais nada. Logo em seguida, um chiado. Serana desligou o telefone, ainda tomada pela surpresa. James realmente estava morto? Ela não queria acreditar naquilo, não podia, mas Josie não era de brincar dessa forma. Ainda mais, por que parecia que estava correndo? E por que o telefone parou de funcionar de forma tão repentina? Com essas perguntas ainda se formando em sua mente, Serana decidiu não ficar parada.
Sentiu um formigamento percorrer todo o seu corpo e os olhos arderem enquanto corria pela rua, em direção ao possível lugar onde James deveria estar. Pelo barulho de trem na ligação com Josie, era possível que ela estivesse perto da Seventh Avenue Express, e próximo ali usavam uma casa abandonada para os encontros de amigos. Se virasse a próxima esquina, chegaria a um atalho que ajudaria a dobrar o tempo até essa casa. Para Serana, que conhecia Nova York na palma de sua mão, era fácil pegar atalhos e chegar rápido em certos lugares.
Estava sonhando? Achava que sim, isso tudo não podia ser real. Foram menos de vinte minutos para chegar em frente ao casebre abandonado, e menos ainda quando ela decidiu que correria. Chega de sentir medo, chega de achar que tudo poderia piorar quando, na verdade, tudo já estava pior.
A casa estava do jeito que Serana se lembrava: muros medianos cobertos de musgos, com um portão de barras de ferro que um dia foram prateadas, mas que agora estavam consumidas pela ferrugem. Na parte inferior negra havia um espaço, do tamanho que cabia uma Serana agachada sem nenhum problema, mas a garota não precisaria fazer isso. O portão duplo estava aberto, revelando um caminho de quase pedras. As que faltavam estavam embaixo da grama alta ou foram pegas para quebrar janelas para se conseguir entrar.
Serana parou na entrada, observando a casa. Os dois andares da mesma pareciam estar vazios. Nenhum vulto passava nas quatro janelas de vidro com buracos no primeiro andar e nenhuma cortina manchada se moveu em ambas as janelas do segundo andar. Haviam marcas de balas na tinta marrom gasta da casa e a porta de madeira com cupins na extremidade ainda estava fechada.
Ficou ainda mais apreensiva. Essa casa nunca ficava vazia, era um dos motivos que fazia a mãe de Serana não gostar de James ou de Josie. As pessoas com quem eles andavam não eram de grande admiração, em sua maioria jovens adolescentes que tentavam escapar do mundo por meio de coisas ilícitas. Foi uma das coisas que passaram pela cabeça da garota quando ouviu que James estava morto. Mas aí teve a parte em que estavam procurando por ela.
Olhou para trás. Ninguém parecia a estar seguindo e não havia movimento nem de pessoas e nem de carros. Olhou para a grama alta, na esperança de encontrar alguma coisa pudesse ser de ajuda – um pedaço de madeira, ferro ou então uma máquina de viagem do tempo, principalmente essa última – mas, se lesmas fossem ótimas armas para se arremessar, não havia nada.
Seguiu em silêncio até a porta de madeira, com o coração ainda mais acelerado do que nunca. Segurou na maçaneta e empurrou, com força, como estava acostumada a fazer, pois ela sempre emperrava. Com um estrondo, alto o suficiente para que qualquer assassino ouvisse e atirasse dardos envenenados nela, a porta se abriu, revelando o hall principal da casa.
Normalmente, Erick, um dos amigos de Josie, estaria sentado folgadamente no sofá, com a cabeça nos braços do sofá de modo que seus dreads azuis não se bagunçassem, expelindo fumaça pelo recinto, enquanto David e Rebecca, amigos de James, estariam se pegando na cozinha com uma bancada americana e uma geladeira estragada, com a desculpa de estarem pegando vodka, que secretamente guardavam dentro da casa. Jessie e Elena estariam em outro cômodo, acedendo cigarros que faziam Serana tossir descontroladamente. James e Josie estariam no segundo andar, no único quarto que tinha uma cama, conversando e esperando Serana parar de reclamar com David sobre o modo de vida alcoólatra que levava.
Agora, o lugar estava completamente vazio. Se já era sinistro antes pela falta de iluminação, agora era pior, também pela falta de pessoas. O medo não estava passando a cada passo. Sentia como se alguém fosse saltar de trás do sofá velho de Erick e a sequestrar, ou que então homens de máscaras sairiam da cozinha de David e Rebecca e a matariam. Cada passo era um pensamento diferente em relação a sua morte. Subiu as escadas de madeira, tomando cuidado para não as quebrar e tentando fazer o mínimo de barulho possível, mas era difícil com tanta madeira rangendo e quase cedendo aos seus pés. Sabia que embaixo das escadas havia uma pequena sala, onde se deveria guardar tralhas, mas que provavelmente estariam cheios de cigarros do Erick, ou então o narguilé que ele insistia em chamar de Rose.
Segundo andar. O corredor não era muito grande, mas era o suficiente para que tivesse seis pares de portas, e não era tão largo, só o máximo para que duas janelas cobertas por cortinas ficassem uma ao lado da outra. Serana não perdeu tempo e entrou na quarta porta da esquerda. Era o único lugar mobiliado de todo o segundo andar, e seria o único lugar onde encontraria James, se ele ainda estivesse lá.
Seus passos foram a única coisa que ouviu até se aproximar do cômodo, para logo em seguida ouvir um suspiro. Ao abrir a porta, viu que o local continuava do mesmo jeito. Um guarda roupa de madeira que tocava o teto e uma cama com um colchão fino sem nenhum tipo de lençol. Não havia janelas, mas havia um James. A garota colocou a mão na boca quando viu seu amigo, atirado com suas costas apoiadas na cama, a boca sangrando e a barriga subindo e descendo em um ritmo frenético.
Ela sempre admirou James. O garoto não era alto, não era musculoso e muito menos inteligente, mas tinha um ar confiante, um brilho em seus olhos verdes e um sorriso quase branco que fazia qualquer garota se encantar. Agora, parecia ter perdido todo o brilho e toda a confiança, e seu sorriso se perdera na expressão de dor. A camisa azul xadrez estava manchada por sangue, a calça brim encharcada com, Serana esperava que fosse, água. Havia um rastro de sangue que se iniciava no centro do cômodo e se seguia para onde o garoto estava.
Quando James a viu, tentou falar alguma coisa, mas tudo que saiu de sua boca foi um grunhido gutural. Líria se aproximou dele, tentando pressionar algum lugar de seu corpo para parar de sangrar, como nos filmes, mas o que podia fazer? Onde havia ferimento? Procurou por seu corpo, mas parecia que toda a fonte do sangramento saía de sua boca.
— Aguente firme, James. – Disse, tentando encontrar alguma coisa para ajudá-lo. – Josie disse que você estava morto, não queria acreditar e...
Se interrompeu. O rapaz ainda estava vivo, mas o seu olhar ia para o teto. Não havia nada no teto, nada! Ele não podia estar morrendo, não queria acreditar nisso. Pegou o telefone, com os olhos encharcados de lágrimas e tentou discar para a emergência. Parou no segundo número, quando a mão fraca de James tentou segurar seu braço.
Pela primeira vez, James parecia a ter notado, tentando sorrir, mas parecia que isso o machucava. Serana limpou o rosto, pensando o quanto aparentava ser fraca quando o seu melhor amigo precisava dele. O braço que antes estava no pulso dela agora se dirigia ao bolso da calça brim.
— Se esconda. – Ela se espantou ao ouvir James, em meio aos grunhidos de dor, dizer essas palavras e logo em seguida a entregar a esfera.
Por que se esconder? O que havia ali de tão perigoso para ela precisar se esconder? Queria puxar James e o levar para longe dali. E faria isso. Pegou o telefone e continuou discando para a emergência.
— Não. – James grunhiu, enquanto notava que Líria não se mexia, colocando o telefone no ouvido.
— Emergência, como posso te ajudar? — A voz quase mecânica de uma mulher disse as palavras que possivelmente dizia a cada minuto.
— Meu amigo está morrendo. — Tentou estabilizar sua voz, mas só o fato de ter dito palavras tão verdadeiras fez com que lágrimas saíssem de seu rosto e a voz afinasse. — Por favor, me ajude.
— Primeiro, você precisa ficar calma. — A voz tentou tranquiliza-la. — Segundo…
Serana nunca soube qual era o segundo passo que teria que dar, pois abaixou o celular logo após ouvir o ranger da porta da entrada, provavelmente se abrindo completamente. A garota olhou diretamente para James, que trocava de olhares para ela e para o guarda roupa.
Se esconda — A voz parecia estar dentro de sua cabeça, como se a lembrasse do que James tinha dito. Ela não queria se esconder. Não queria deixar ele.
Deixou que mais lágrimas saíssem de seus olhos antes de apertar a mão de James. Queria dizer alguma coisa, mas estava completamente em choque. Quais poderiam ser suas últimas palavras para o seu amigo? Assim que ouviu os degraus da escada rangendo, obedeceu James, ainda hesitante de deixá-lo lá. Sentiu o coração pular para fora a medida que abria o guarda roupa e se ajeitava lá dentro. O guarda roupa não tinha nenhum tipo de roupa, nem mesmo perfumarias em estantes, não havia gavetas nem nada, e era do tamanho dela, o que facilitou e muito a sua entrada, mesmo em choque. Deixou uma fresta para olhar para James bem no momento em que eles surgiram pela porta.
Eles usavam capas negras, impedindo de Serana poder ver qualquer vestimentas além dos calçados, que eram sapatos sociais negros, todos usando a mesma coisa. Dois se posicionaram de costas para Serana e outros dois de frente, de modo que cercassem James. Usavam máscaras negras com um sorriso pintado em vermelho e buracos nos lugares de olhos. Eram tão profundos que não conseguia ver olho algum. Os que estavam mais próximos de James o ergueram, um segurando cada braço, enquanto os outros dois permaneceram imóveis. Só se mexeram quando um quinto integrante, também de capa e a mesma máscara, surgiu no ambiente, e os dois ajoelharam. Parecia ser o chefe. Suas mãos, além das luvas negras que Serana também notara em todos eles, possuia uma joia par em cada dedo, com cores gêmeas. Haviam dois anéis verdes, dois vermelhos, dois amarelos, dois roxos e dois negros. Ficou um tempo encarando James, que parecia não se importar com aquela figura misteriosa em sua frente.
— Ela não estava em casa. — A voz era familiar, isso ela sabia, só não sabia onde já ouvira antes. — O que eu disse, mesmo? Eu só te deixaria vivo se eu a encontrasse.
Casa? Se estivessem falando da garota, então eles invadiram a casa dela. Seu pensamento fora para sua mãe e Ethan, pessoas que moravam nessa tal casa. Rezava para que Laura ainda estivesse trabalhando, o que não era raro, mas que nessa última semana quase não acontecia. James, com uma expressão de dor, levantou seu braço em direção ao homem misterioso, e Serana imaginou que ele a entregaria. Ao invés disso, mostrou o dedo do meio, o que possivelmente era uma ideia tola para se fazer quando estava morrendo.
— Sabe, eu sinto pena de você. — A voz realmente demonstrava a sinceridade de suas palavras. — Só por ser um híbrido, ser considerado um Treva é algo terrivel que se pode acontecer com alguém. Nenhuma matilha te daria a honra de uma luta por sangue, nenhum coven te aceitaria, por mais habilidoso que fosse. E por culpa de quem? De um cachorro que quis sair da casinha por uma rainha má.
James continuava quieto, agora com os olhos voltados para o chão. Do que aquele cara estava falando? Seja lá o que fosse, fazia o seu amigo realmente ficar pensativo. Ele não a venderia, certo?
— Se fosse por mim, isso era inaceitável. Quem deveria ser um Treva são os pais, e não os filhos. — O homem continuou. — Que culpa tem o filho por ser um hibrido?
— E o que você quer? — James disse, com a voz fraca, quase cuspindo sangue. — Acha que se eu entregar ela, eu não saberia o que você faria comigo?
— Não pense só em você, pequeno James. — Retrucou, próximo a James, quase o tocando. — Se eu conseguisse o Livro dos Mortos, pense em quantas crianças hibridas eu poderia salvar. Pense em um novo mundo que eu posso criar.
— Querendo destruir todos os bruxos para isso.
O homem misterioso olhou para baixo, soltando um leve suspiro.
— Se é o que você acha que vai acontecer…
E com isso, olhou diretamente para James novamente, e estalou os dedos. James grunhiu de dor, sem ninguém ao menos tocar nele, o que fez Serana sufocar um grito. Logo em seguida, viu as lágrimas caindo assim que os olhos de seu amigo se fecharam e os homens de máscara o largaram, sem vida, contra o chão. Aquele era James, seu melhor amigo, estirado contra o chão, enquanto parecia chorar sangue. Tentou se conter, mas a memória de ambos brincando quando criança veio como um soco. Ele sempre fora tão confiante, ao contrário dela. Não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que deveria ir embora quando desse o momento. Largou os olhos de James e focou em um dos homens de máscara que se aproximava do guarda roupa. Ele havia escutado o grito sufocado dela?
Agora já era tarde demais. Ele abrira o guarda roupa e todas as máscaras se viraram na direção de Serana, nenhuma delas se mexendo. O homem a sua frente também havia se imobilizado, provavelmente esperando as luvas com joias dizer o que fazer. A garota não conseguia dizer uma palavra sequer, com tantos olhares em cima dela. Pensou em James e Josie, e esses pensamentos só a machucaram ainda mais. Haviam morrido por nada, todos os dois.
— Estranho. — O som veio do homem em sua frente. — Jurava ter escutado alguma coisa vindo daqui.
— Já delirando, Jonathan? — Um outro mascarado debochou.
— Por Merlin, Ed, cale a boca. — Jonathan retrucou, com um tom debochado, mas logo em seguida olhando para o homem central daquele estranho grupo. — Me desculpe, força do hábito. — Ela conseguiu captar uma coisa naquele jeito de falar: medo.
— Vamos. — O mascarada com as luvas de aneis já estava saindo, chamando todos os outros quatro.
Em questão de segundos, estava sozinha, com o corpo de James estirado ao chão. Sua cabeça turbilhava em mil perguntas e sua visão estava turva, ainda tentando entender o que havia acontecido. Não percebeu que seu coração batia aceleradamente até descer sua mão contra o peito. A respiração, ofegante, ela já havia notado. Correu até James e o virou, deitando sua cabeça no colo. Lágrimas tocaram a testa dele, que mantinha os olhos fechados e, se ignorar o sangue que saía de sua boca, até uma aparência angelical. Não conseguiu deixar de se culpar por aquilo ter acontecido.
— Eu sabia que não estava delirando. — A voz familiar veio da porta, retirando Serana de seus devaneios.
Era Jonathan.
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