O Livro dos Mortos
5 Parte Quatro: Luke
— Hallowen? — O balconista chamou sua atenção antes de pegar a lata de coca cola e o dinheiro de sua mão.
Havia esquecido como os humanos eram detalhistas e sempre se preocupavam com que as pessoas estavam vestindo. É pela roupa que sabem em quem confiar ou não, a voz dentro da sua cabeça disse, mas sabia que ela estava errada. Estava com o capuz abaixado, mas o arco e a aljava cheia de flechas preso as suas costas, e o moletom que ele mesmo rasgara o denunciava. O que o balconista deveria estar pensando? Um vigilante ou coisa assim?
— Que seja. — Não esperou a resposta, pegando o dinheiro e colocando na caixa registradora, erguendo as sobrancelhas. — As crianças de hoje em dia só sabem se fantasiar.
Luke não respondeu nada. Aceitou ser chamado de criança e ser desconfiado por um humano qualquer, pois sua noite já havia sido ruim o suficiente para se preocupar com atenções humanas. Nenhum demônio foi avistado em Nova York além daquela criança, e dado pelo modo como se conectavam, sabia que a informação já havia sido dada. Cada demônio, cada raça desprezivel ou um Treva agindo por conta própria estaria empenhado em encontrar aquele livro. Não se importava com bruxas ou feiticeiros, mas se uma relíquia fosse perdida, é claro que tudo de ruim poderia acontecer, principalmente com o mundo em que vive.
Com um aceno de cabeça, abriu a lata e saiu do mercado, colocando o capuz de volta na cabeça. Olhou ao redor, para a rua vazia e para o fim dela. Tudo o que queria era ver um vampiro sugando o sangue de alguma fanzinha louca que era apaixonada pelos caninos para descontar toda sua frustração da noite. No dia seguinte, teria que voltar até seu negociador para conseguir alguma informação além de um demônio em uma garotinha. Continuou sua caminhada, como sempre fazia todas as noites. Normalmente, comprava um fardo de latinhas, andava um pouco e voltava para casa, porém, queria fazer diferente. Andar sem rumo parecia ser o mais divertido no momento.
Não deu nem cinco passos quando se viu em frente a um casarão abandonado. Bebeu um pouco do refrigerante em sua mão, enquanto tentava entender o que estava acontecendo ali. Nunca sentiu o que estava sentindo, como um sol por debaixo de sua pele, esquentando-o de dentro para fora, e era isso que o fazia continuar vidrado na casa. O portão estava aberto, juntamente com a porta de madeira. As duas janelas estavam fechadas, mas as cortinas balançavam como vento passasse por elas, o que já era estranho para que continuasse observando.
Resistiu a vontade de ir até a casa quando viu quatro homens saírem de dentro dela, todos de capa negra e máscaras brancas — um Coven, um a qual ele nunca viu, mas havia tanta poucas pessoas que provavelmente seria um clã novo, mas não fazia sentido. Para um coven nascer, era preciso a relíquia sagrada. Observou, enquanto cuidadosamente seguiam em direção ao fim da rua. O homem com os dedos cheios de aneis sempre na frente, e em hora alguma resolveram olhar para trás ou encarar aquele minusculo garoto em pé bebendo seu refrigerante. E então, eles desapareceram. O garoto não sabia ao certo se eles apenas viraram a esquina sem ele perceber ou usaram magia para se teleportar para outro lugar, mas de repente não estavam mais lá.
E então, veio aquele grito, que o fez derrubar sua latinha no chão, espirrando refrigerante em seus pés. Um grito humano, feminino, que parecia ser de dor, ecoando por toda a casa em sua frente, fazendo cada parte do seu corpo tremer, e aquele sentimento de queimação piorar. Não conseguiria se sentir bem consigo mesmo se deixasse aquele grito continuar, mas ele também não gostava de nenhum humano, então por que? Por que queria fazer isso? Por que querer se arriscar por alguém que não conhecia, mas que o assustava só com aqueles gritos? Durante toda a sua vida, ouviu gritos de vampiros, lobisomens, demônios e vários outros seres, de longe ou assistindo de perto, então por que se mexer somente quando ouvia aquele grito específico?
Sem perceber, suas pernas se moveram em direção a casa. O sentimento de queimação ficando menor cada vez mais que se aproximava, com certo cuidado para não ser ouvido, mas era impossivel ouvir qualquer coisa com aquele grito. Era estranho as pessoas que passavam por perto não prestarem atenção, com seus fones ou smartphones. Talvez seja esse o problema desse século, mas ele já viu coisas piores. Parou em frente a porta de madeira, seguindo os olhos para uma escada que dava em um segundo andar, com um pequeno corrimão e parte desse corredor a mostra, separado apenas por outro corrimão. O grito vinha do segundo andar, isso era claro. Subiu as escadas, furioso por não prestar atenção no ranger delas e parou, olhando para o que estava acontecendo no corredor.
Ele já tinha visto aquela garota antes, vestida daquele mesmo jeito. Os cabelos cacheados caindo pelos ombros,a pele clara estava com alguns arranhões, os olhos fechados em um temor terrivel, enquanto sangue escorria de seu nariz. Mal notou o homem ao lado dela até o mesmo encará-lo e dar um passo para frente. Usava a mesma capa e a mesma máscara, mas não tinha motivo para estar machucando uma humana. Ela era humana? Olhou novamente para a garota, fazendo a queimação dentro de si se tornar apenas o calor das roupas. Não havia presas, não havia pelos, não havia aurea e, se fosse alguma bruxa ou outra coisa, seria forte o suficiente para se defender, coisa que não fazia, com medo. Ainda não tinha aberto os olhos, então não sabia se era 100% humana.
Desprendeu o arco de suas costas e apertou-o firme com a mão direita, enquanto a esquerda voltava para as costas, dessa vez para puxar uma flecha de sua aljava. Puxou o arco com a flecha na base e apontou para o homem mascarado. Agora que estava ali, não tinha mais como voltar. Iria se arrepender por isso, mas o que na vida já não tinha feito e não se arrependido? E se ela não for humana?
— Isso não é de seu assunto, semideus. — Ouviu a voz do homem de máscara, e percebeu o quão familiar soava.
Abaixou o arco, um pouco espantado, mas ainda pressionando a flecha fortemente contra o mesmo. Aquele era…
— Jonathan? — Cerrou as sobrancelhas, esperando o homem de máscara agir.
Este último continuou com a mão apontada para ele. Era Jonathan, e agora, não só a voz o denunciava. Era grande, um pouco maior que Luke e musculoso, a pele do pescoço que transparecia por debaixo da capa quando se mexia revelava uma cicatriz um tanto quanto feia, uma característica de seu antigo conhecido. Não queria enfrentá-lo, mas aquela mão ainda estava em sua direção, então não ousou colocar a flecha de volta na aljava. Então, de repente, a mão foi em direção a máscara, retirando-a e jogando-a contra o chão. Pôde ver que era realmente o rosto de Jonathan, e ele estava espantado ao vê-lo, provavelmente se lembrando de quem era.
— Luke? — Não se lembrava de quão feio era o rosto de Jonathan. Haviam olheiras profundas contornando seus olhos, e vários arranhões tingiam a pele de suas bochechas ossudas, mas uma cicatriz, a do canto da boca que descia até o queixo, era a mais visivel, se ele já não tivesse consciencia dela. Não restava quase nada nos pelos das sobrancelhas e a marca de um raio em sua testa era ocultada pelo cabelo liso penteado para frente. Ele não precisava ver a marca, só precisava saber que ela estava lá.
A atenção dos dois se viraram para a garota, que aproveitou o momento de surpresa de todos e resolveu correr. Não foi rápida o bastante para a flecha de Luke. Ele tensionou o arco e mirou no peito dela, que corria em sua direção, provavelmente para passar por ele e fugir dali. Por um breve momento, se assustou, encarando-o, e aquela expressão era tão familiar que não conseguiria, não poderia deixá-la escapar. Soltou a flecha, mas a direção da mesma foi para a perna. O garoto já estava acostumado a ver seus dons em ação, mas observou mesmo assim, enquanto a flecha amolecia e se transformava em uma corda, enrolando os pés dela, e a ponta acertando o chão de madeira, fazendo a garota cair.
Ela estava ali por um motivo. Um grande motivo. Jonathan não mata humanos, nem poderia se quisesse, já que os feiticeiros tem um dos sistemas mais rigorosos para punir seus Trevas, então por que estava ali? A garota caiu no chão, aparentemente desistindo de puxar a corda, não entendendo nada do que havia acontecido ali, naquele momento.
— Caramba, Luke! — A exclamação espantou até mesmo ele, enquanto assistia Jonathan levantar as mãos para cima. — Eu achei que você tinha sido morto naquela vez.
E ele estaria. Se lembrava como se fosse a uma semana atrás, mas que na verdade se passaram mais de anos...
— Longa história. — Foi a única coisa que disse a respeito disso, trocando olhares entre a garota choramingando e Jonathan, com um sorriso no rosto. — O que você está fazendo com uma humana?
— Humana? — Jonathan franziu as sobrancelhas, proferindo a palavra com um certo tom de ironia. — Não foi o que me disseram.
Não tinha porque mentir, mas ainda não conseguia acreditar nas palavras dele. Encarou mais uma vez a garota, que agora chorava. Por que ela tinha que ser tão linda? Viu Jonathan dar mais um passo para frente, e o seu reflexo o fez pegar mais uma flecha das costas. O feiticeiro recuou, dessa vez surpreso e, pela primeira vez, Luke o viu com um certo rancor nos olhos.
— O que está fazendo, Luke?
— Bonita a sua máscara. — Retrucou, olhando para esta última, que estava no chão com a frente para ele, como se o encarasse com aqueles olhos vazios. — Trocou de coven?
— Que droga, Luke. — Jonathan levantou as mãos, mostrando indignação em seu olhar. — Você desaparece por anos sem falar nada e quer chegar se achando um heroi? Ela é uma da minha espécie.
— A garota não parece ser um problema, já que nem consegue desamarrar uma corda. — Disse o óbvio, e quase sorriu quando a viu falar palavras em sussurro, provavelmente xingando-o. — Seus amigos lá fora, por outro lado…
De repente, a face amigável de Jonathan não era mais uma face amigável. O olhar ficou sério, a boca não formava um sorriso, dando ainda mais detalhe para aquela cicatriz horrorosa de sua boca. Não teve mais conversas legais, e Luke já esperava por isso. Ele pulou para cima do corrimão do corredor bem a tempo de faíscas douradas saírem silenciosamente de uma das mãos de Jonathan, que foram para onde ele estava agora a pouco. Pulou mais uma vez, dessa vez em direção para o primeiro andar, mirando a flecha em direção ao peito do feiticeiro e soltando-a do arco. Infelizmente, Jonathan conseguiu se desviar, e a flecha acabou acertando sua capa, prendendo-a contra a parede.
Aterrissou graciosamente no chão, enquanto encarava seu inimigo, que também olhava para ele, do corrimão, já sem sua capa, revelando uma camiseta branca. Os olhos estavam amarelados, e possivelmente era a mesma cor da marca de raio por baixo de seus cabelos.
— Você não entende. — A voz do feiticeiro era agonizante, quase como uma súplica de ajuda. — Precisa deixar eu levá-la.
— Você é um Treva. — Retrucou, tentando não focar a atenção somente em Jonathan. Precisava prestar atenção ao seu redor. Os raios que ele emitia possuía uma vibração. Precisava focar nelas. — Um feiticeiro com essa natureza é raro, agora cinco deles?
— Então todos os feiticeiros serão tratados como Trevas? — Jonathan abriu um sorriso, estendendo a mão. — O livro se foi, Semideus, e isso é apenas o começo de uma coisa grandiosa.
— Espero que não esteja falando de fim do mundo. — Disse. Não havia nenhum sinal de algum raio. — Odeio fins do mundo.
Esquerda! Foi uma pequena vibração dentro de seu corpo, algo que ninguém se importaria, mas conseguiu realizar um pulo alto o suficiente para que as faíscas passassem inofensivamente por ele. Sem antes tocar no chão, atirou duas flechas na direção de Jonathan. Este último se abaixou e levantou rapidamente, deixando com que as flechas zunissem por sua cabeça. Quando voltou a encarar Luke, sorriu. Ele não deveria ter sorrido.
As flechas atrás dele explodiram, fazendo a garota gritar e lançando o feiticeiro para frente, que caiu para o primeiro andar. Ele não esperou Jonathan se recompor, acertando-o uma flecha na barriga e fazendo-o ganir, como um lobo. O feiticeiro caiu para trás, aparentemente não disposto a se levantar. Luke o ouviu gemer algumas vezes, xingar também, mas ainda esperou um pouco, ainda com o arco em mãos, para poder se aproximar dele. Quando o fez, viu o que não queria: Jonathan fazia uma careta, com o olhar cortante na direção do rapaz, havia sangue escorrendo por sua boca, enquanto a marca em forma de um raio em sua testa, agora totalmente visivel graças ao cabelo que deslizou para o lado, brilhava em dourado, mas nenhuma faísca atingia o garoto. As cicatrizes agora eram pequenos riscos, sendo superadas pela sujeira e suor que escorria do rosto.
— Você é apenas um Treva feiticeiro brincando de ser heroi, Semideus. — A voz de Jonathan era carregada de ódio, e cada palavra continha poder. O poder que ele estava tentando atingir Luke. — Você não entende no que está se metendo.
— Esse é o problema do meu sangue. — Luke relaxou, colocando o arco detrás das costas ao mesmo tempo em que pegava uma flecha com a outra mão. — Sempre queremos ser herois, e isso nos coloca de frente para coisas que não entendemos.
— Quando eu sair daqui…
— Ah, você não vai. — Ele se abaixou, colocando um de seus joelhos no chão bem ao lado do corpo imóvel de Jonathan. Encarou a flecha, enquanto se concentrava para fazer o que tinha que fazer, sussurrando as palavras obrigatórias: se katariémai, me ti dýnami tou Apóllona. Após a ponta de flecha começar a brilhar, como o sol, disse em voz alta: — Não até você me contar quem são vocês e porque estão atrás da garota.
— Quando descobrirem o que você está fazendo, também te matarão… — O feiticeiro cortou seus olhos, arregalando os olhos enquanto o semideus afastava seus fios negros da testa, revelando a marca de um feiticeiro da destruição: era parecido com um machucado aberto e profundo, no formato de um raio, só que ao invés de sangue, uma luz dourada brilhava, revelando que Jonathan tentava usar os seus poderes, mas era em vão. — Espera, o que você está fazendo?
Luke não disse uma palavra, enquanto tocava a ponta da flecha brilhante na testa de Jonathan. O corpo deste último começou a esquentar, enquanto a flecha corta sua testa, em direção ao simbolo de poder. Cada movimento deixava para trás um pequeno risco, ao qual era possivel perceber o vapor subindo e o sangue escorrendo pela testa. Não estava mais ouvindo o que o feiticeiro falava, embora soubesse o que era. Por mais poderosos que fossem, ainda eram humanos, e como qualquer humano, sentia o medo de perder a coisa que o tornava forte.
— Tudo bem. Merlin! — Luke parou a flecha antes da mesma tocar o simbolo de poder ao ouvir o nome. — O nome dele é Merlin.
— Tá me zoando? — Era óbvio que estava. Era uma blasfêmia alguem se chamar de Merlin.
A flecha se movimentou o suficiente para que sua ponta tocasse a cicatriz, fazendo ambas emitirem o mesmo ruído de aço se chocando e brilhando ainda mais. Jonathan, é claro, uivou de dor, com uma lágrima pronta para sair de seus olhos e uma careta que demonstrava aquilo que Luke já conhecia: súplica.
— Eu não estou zoando. — Disse, entre um uivo e outro. — Ele diz se chamar Merlin. O Merlin.
Luke parou por um instante, tirando a flecha da testa de Jonathan e deixando-o respirar.
— Você tá me dizendo que o carinha de túnica, cetro e barba grande é o chefe do seu novo coven? — Perguntou, dessa vez tentando levar a sério, mas ainda era impossivel.
— Deveria aprender a tratar todos os ancestrais com honra, Semideus. — Jonathan cerrou os dentes. Feiticeiros sempre foram tão sentimentais. — Sim, ele disse ser esse Merlin.
— E o que Merlin, o poderoso mago da idade média, quer com essa garota? — Diferente de todos os outros que já conheceu, a menina continuava em sua mente. Havia deixado-a lá em cima, sabia que ela estava bem, mas por quanto tempo ela estaria? Se realmente um coven estava atrás dela, mesmo com a relíquia desaparecida, então ela estava envolvida em algo muito sério.
— E eu lá sei? — Jonathan sorriu. — Quando seu deus pede uma coisa, a fé fala mais alta do que a lógica.
— Sabe, vocês feiticeiros são bem fáceis de manipular.
Jonathan pensara que ele não havia percebido, mas Luke trabalhava muito com seus reflexos para deixar de notar que o efeito do veneno estava falhando. Ouviu as faíscas atrás dele, provavelmente saindo de debaixo do chão, como o feiticeiro sempre agia em suas lutas, mas não foram mais rápidas que o semideus. Antes mesmo de sentir o choque, Luke pegou a flecha e cortou a cicatriz de Jonathan, que brilhou em um vermelho sangue antes de começar a desbotar, como uma antiga cicatriz quase curada. A colisão do choque veio em seguida, mas foi fraco o suficiente para continuar imóvel. O feiticeiro, agora um ex-feiticeiro, gritou de dor, fazendo cada osso de Luke se agitar. Por algum momento, sentiu pena dele. Não tinha o direito de remover as marcas de um feiticeiro, não tinha o direito de tirar poder de outro ser, mas ele era um Treva, certo? Trevas merecem.
Os olhos de Jonathan se fecharam. Não estava morto, apenas desmaiara de tamanha dor. Luke o encarou por mais algum tempo, pensando no que fizera. Bateu o punho no chão e se levantou. Já possuía auto piedade e culpa o bastante para uma pessoa, não precisava encontrar mais um motivo para se sentir ainda pior. Deixou-o ali para trás, subindo as escadas. Cada passo seu fazia a escada ranger, sendo o único som, além do ar saindo de seus pulmões, o que tornava tudo ainda mais estranho. Por que estava tão silencioso? Apressou os passos quando percebeu essa ocasião e, ao chegar no final, descobriu o motivo: a garota havia desaparecido e, no lugar onde havia deixado-a, restavam apenas os escombros da parede vitima da explosão e a corda que antes estava nos pés dela.
Apressou os seus passos, entrando na primeira sala que encontrara do lado esquerdo. Estava mobiliada, com uma cama e um guarda roupa fechado, mas o que mais deixou-o surpreso foi aquele rapaz, contra o chão, enquanto uma poça de sangue o rodeava. No que Jonathan estava metido? Se aproximou do rapaz com passos lentos e curtos, temendo que o mesmo fosse se levantar e grunhir para ele. Sorriu ao perceber que realmente estava com esses pensamentos infantis.
— Não seja idiota, Luke. — Murmurou para si mesmo. — Zumbis só surgem em terras amaldiçoadas.
Se abaixou, e tocou no pescoço do rapaz, sentindo um resquício de poder percorrendo por o seu corpo, como se acabasse de levar um pequeno choque ou estivesse próximo a um forno ligado. Realmente, todo aquele sangue era dele e, ele estava morto. Pegou os fios de cabelo e puxou a cabeça para cima, para conseguir visualizar o rosto. Não o conhecia, e nunca ouviu falar de um hibrido de feiticeiro com lobisomen, como ele. “Trevas se conhecem”, diria o demônio que aprisionara.
Largou a cabeça do garoto morto, deixando-o bater contra o chão, ao ouvir um engasgo vindo de dentro do guarda roupa. Havia a encontrado, e isso era bom. Caminhou sem pressa até o guarda roupa. O que diria a ela? Bom, não era ele quem deveria dizer alguma coisa. A garota foi salva, deixando muitas dúvidas no ar. Era ela quem tinha muito o que contar. A porta do guarda roupa foi aberta com um rangido semelhante ao dos degraus, e Luke não tentou disfarçar a expressão de espanto ao ver o que havia dentro. Ninguém iria contar nada, por que a garota não estava lá. Colocou a mão para dentro do guarda roupa, tentando tocar em alguma coisa invisivel, mas não havia nada lá. Não era um feitiço, realmente estava vazio. Deu um quase sorriso ao perceber que poderia estar escutando coisas. Os séculos de batalha poderiam realmente estar mexendo com a mente dele.
Se virou e olhou para aquele híbrido que morrera sufocado no próprio sangue. Ninguém daria falta dele, nenhuma família iria o procurar, pois provavelmente tinham vergonha “daquilo” ter nascido, qualquer um que o encontrasse e que não fosse um humano, o deixariam ali, e só se queixariam do cheiro podre de sangue, e mesmo que ainda estivesse vivo, poderia ser caçado e morto que ninguém iria se importar, só por ter nascido do fruto de um amor proibido. Um ser impuro. Isso também era ser um Treva. Cerrou suas duas mãos em um punho e mordeu o canto do lábio inferior, se segurando para não se perder em um ataque de fúria ou, na pior das hipóteses, chorar. Ele não era diferente daquele híbrido.
Relaxou ao ouvir passos tentando ser silenciosos atrás dele.
— Se eu fosse você, não faria isso. — Mas já era tarde demais.
Fale com o autor