O Livro dos Mortos
6 Parte Cinco: Serana
Nunca em toda a vida seus olhos presenciaram tanta coisa estranha. Primeiro, Serana foi atacada por uma coisa invisivel, quase como um choque potente, vindo de Jonathan, que insistia em querer saber onde estava. Onde estava o que? Ela não sabia, e por mais que gritasse de dor ou dissesse que não sabia do que estava falando, os choques eram cada vez piores. Logo em seguida, veio aquele garoto e ela mal conseguiu respirar quando o viu. Era exatamente igual ao dos seus sonhos, com a exceção das roupas. Ela pensou em Jonas Sullen, um homem que morava embaixo da Williamsburgh Bridge e que sempre era arrogante, mas apesar de tudo, conseguia fazer suas três peças de roupa serem diferentes a cada dia, com cortes ou emendas. A blusa de moletom cortada para se parecer uma camiseta e o jeans rasgado, além do cabelo desgrenhado e os pés descalços o faziam uma versão mais jovem de Jonas.
Todo o resto, era como um super héroi. Serana nunca achou que principes encantados e hérois de quadrinhos poderiam realmente existir, sempre achou que fossem besteiras de crianças que achavam que o mundo fosse somente cachorrinhos e arco iris, mas ali estava um de seus sonhos voando para a vida real. Os cabelos dourados, as aljavas e o arco de madeira que ela já estava enjoada de ver nos sonhos, os olhos azuis fuzilando friamente o vilão. Tipo, se ele era um héroi, então Jonathan era o vilão, certo? Ela pensou dessa forma, e foi exatamente por isso que, quando teve a oportunidade, tentou correr na direção do seu salvador. O que não esperava era o garoto atirar uma flecha em sua direção que, de alguma forma que ela não entendia, se enrolou em seus pés, criando um nó perfeito.
Toda a conversa entre o garoto e Jonathan se transformou em um ruído dentro de sua cabeça. Ela achava que o garoto de arco e aljava fosse o heroi de seus sonhos, que a única razão de suportar tudo aquilo fosse o pensamento voltado nele, que sempre parecia salvar o dia, ou então só o fato de parecer uma fotografia durante todo o sonho já a acalmava, sabendo que ele era melhor do que todos os outros. Mas naquele momento, tudo o que sentira foi raiva. Raiva por ter uma mente tão fértil, raiva por se comportar quase igual a uma criança, as mesmas que achavam que tudo era cachorrinho e arco iris. Não era. E a prova disso era os Cachinhos Dourados em sua frente.
E então, começaram a brigar. Serana não entendera por que, não estava ouvindo nada da conversa de ambos. Antes disso tentava matar o garoto com os olhos, mas quando o viu retirando uma flecha da aljava presa em suas costas e mirar em Jonathan, decidiu focar na corda em seu pé. Não teve muita sorte, enquanto o garoto pulava do corrimão para o primeiro andar e Jonathan, ao se abaixar e vê-la tentando sair das cordas, retirou uma faca de baixo de seu sobretudo. O sorriso malicioso a fez arrepiar, até mais do que o próprio pensamento de que iria morrer; Jonathan não parecia ser uma pessoa, e suas marcas e olheiras só fazia a garota ter uma ponta de certeza sobre isso.
O rapaz não a atacou quando a parede explodiu, fazendo-o largar a faca e cair para o primeiro andar. A explosão a deixou surda momentaneamente, mas não se importava. Focava na faca que estava no chão, debaixo de vários pedregulhos, desistindo quando percebeu isso. No primeira andar, ouvia mais flechas atingindo um corpo humano. Ela era a próxima. Sabia que era. Pensou na sua mãe, que provavelmente já estava em casa, preocupada com ela. Pensou em James, morto no cômodo ao lado, pensou em Josie, provavelmente com o mesmo fim de James, em algum canto de Nova York e, por fim, pensou no quão fraca seria se todos esses sacrificios fossem em vão. Não, ela não podia deixar isso ter sido tão em vão. Pelo menos, poderia tentar lutar.
Se arrastou até a faca, não importando com como o chão estava cheio de pequenas pedrinhas, e como essas pequenas pedrinhas arranhava seus braços, deixando pequenos filetes de sangue contra o chão. Mordeu os lábios e continuou em direção a faca. A faca estava debaixo de uma pedra do tamanho de uma bola de basquete, mas em formato retangular. Usou toda a força que tinha para levantar a pedra com uma mão e pegou a faca com a outra mão. A pedra abaixou antes mesmo de sua mão voltar para o seu corpo, esmagando o indicador. Ela afagou seu grito com a outra mão, e deixou a lágrima da dor escorrer sob seu rosto. Reuniu forças novamente e levantou a pedra, retirando o indicador. Inchou, e sangrava, e doía. A dor provava que nada daquilo era um sonho e que, até então, estava realmente sendo caçada.
Ignorou a dor e usou a faca contra a corda presa aos seus pés. A luta lá embaixo parecia ter cessado, mas ainda era possível ouvir ambos conversando. Não se atreveria a olhar, já tinha visto o suficiente por uma noite. Depois de longos dois minutos tentando cortar a corda em vão, pois de alguma forma conseguira cegar a faca, a mesma decidiu sair de seus pés por vontade própria.
— Obrigada. — Disse em voz baixa para o nó no chão. Não achou estranho agradecer a uma corda, até porque tudo já estava estranho.
Após se levantar, jogou a faca para o lado e se assustou com o urro que veio do primeiro andar, e a voz parecia com a de Jonathan. Se aproximou do parapeito e olhou para baixo. Não havia tanta destruição como pensava que teria, mas havia estática no ar. O garoto que julgara ser seu salvador estava em cima de Jonathan, que havia fechado os olhos e tomado uma expressão suave, como se estivesse… morto? Não, mais que isso, algo no jeito do garoto loiro, a flecha em sua mão e o risco na testa de Jonathan. Serana já havia sonhado coisas o suficiente para saber que o rapaz não estava morto, mas também perdera a palavra no meio de sua mente.
Não quis esperar a palavra surgir, voltando para onde estava antes de Jonathan a puxar para o corredor: no guarda roupa. Sem despertar a atenção do garoto, que agora se levantava, voltou para o quarto, passando por James sem o encarar e entrando dentro do guarda roupa, deixando uma fresta para que pudesse olhar para fora. A garota estava tão em choque, que só percebeu que sentara quando o celular saiu de seu bolso. Ela nem sequer se lembrava que estava com o seu celular. Segurou-o contra o próprio peito, enquanto ouvia os passos se aproximando do quarto. Passos firmes, semelhantes aos de vinte minutos atrás. Temeu que Jonathan tivesse vencido a luta e estivesse voltando para terminar o serviço, dessa vez indo em direção ao lugar certo.
Não foi Jonathan quem passou pela porta, e o seu coração se acalmou para então voltar a bater apressadamente. O garoto de cabelos claros e olhos azuis não era um heroi dos contos de fadas, ela devia se ligar a esse fato. Pela fresta da porta do guarda roupa, pôde observar a expressão séria se dissolvendo em um olhar de surpresa, enquanto observava o corpo de James no chão; as bochechas se enchendo com o ar sendo preso, o corpo rijo enquanto analisava todo aquele sangue ao redor do corpo com um olhar calculista — um olhar que estava acostumado a ver tudo aquilo. Apesar de tudo, ela se lembrava daquele olhar: havia o visto inúmeras vezes em seus sonhos, quando o via ajoelhado, com sangue ao seu redor, enquanto encarava o nada em sua frente. Será que era aquele momento?
Ela pensou que ele teria compaixão, que demonstraria um pouco de respeito, mas ele apenas sorriu e cochichou para si mesmo, algo que fez o coração de Serana explodir em mil pedaços. Só percebeu que estava chorando quando largou o celular, deixando-o cair silenciosamente sobre seu colo e deixou as lágrimas lavarem seu rosto da poeira que ocorrera com a explosão. Tocou no pingente de chave no seu cordão, e o mesmo estava tão frio, como um metal dentro da geladeira deixada por algumas horas.
Serana observou enquanto o rapaz se aproximava de James, um pé após o outro, calmo, como se olhasse para qualquer coisa que não fosse um garoto morto. Tocou a cabeça do menino e Serana só observou que o segurava quando a mão se ergueu e a cabeça fez o mesmo, presa a mão. De onde estava, só conseguia ver a face de perfil — os olhos fechados, a boca semi aberta, sangue escorrendo por ela — mas era o suficiente para que deixasse o choro e o luto a consumir por inteiro. Em algum lugar de Nova York, havia uma Josie igual ao rapaz. Fechou a boca ao perceber que chorava ao ponto de soluçar. Não foi rápida o suficiente. O garoto estava levantando.
Sem pressa, o garoto começou a vir em sua direção, em direção ao guarda roupa, fazendo-a arregalar os olhos e apertar a mão contra a boca ainda mais forte, fazendo os nós dos dedos esbranquiçarem. Abriu o guarda roupa, deixando o ar gélido arrepiar os cabelos de sua nuca, enquanto o observava olhar em sua direção, o olhar calculista, os fios dourados em sua cabeça bagunçada, o moletom rasgado e a calça jeans empoeirados pela batalha anterior, um corte na bochecha e o corpo tão rigido que parecia fazer força para continuar de pé. Estava ferrada. Estava muito ferrada, até que…
Sem qualquer motivo aparente, os olhares frios a deixaram, e, por um breve momento, ela não queria que o fizesse, e a face séria começara a se transformar em um verdadeiro espanto. Estendeu a mão, a qual ela pensou que a agarraria e a jogaria para fora do guarda roupa, e tateou a sua frente, como se estivesse escuro e procurasse algo a qual apoiar. Para a surpresa de Serana, se virou, e continuou encarando o rapaz morto.
Era o momento dela. O momento a qual podia acabar com tudo aquilo. Mas com o que? O que tinha dentro do guarda roupa que poderia nocautear um garoto de 1,75? Suas mãos não seriam o suficiente, seu corpo era tão magro e tão leve que não faria nenhum sentido.
— Se eu fosse você, não faria isso. — A voz dele ecoou pelo cômodo, não tão grossa e nem tão fina, só uma pequena voz de um adolescente de dezessete anos, mas que parecia conter toda uma sabedoria de séculos.
É claro, ela não deu muita importância para esses fatos. Talvez fosse a adrenalina do medo, mas o seu corpo se moveu sem antes ela pensar em fazê-lo. Cerrou os punhos e mirou nas costas dele, um rápido soco que não faria tanta diferença, mas o mexeria do lugar. Ao invés de acertá-lo, sua mão atingiu o vento e, em um piscar de olhos, o rapaz estava ao lado do soco, como se estivesse ali o tempo inteiro. Segurou o pulso dela, e um calor irradiava de sua mão calejada, fazendo-a sair do guarda roupa. Logo em seguida, a puxou para frente com toda a força que podia, jogando-a no chão e dissipando os seus pensamentos. No meio de tantos pontos sob os seus olhos, conseguia ver o rapaz assustador como se estivesse em seus sonhos; um heroi. O sorriso branco, os cabelos esvoaçando. Espera, como os cabelos dele poderiam estar esvoaçando se não havia vento algum?
— Precisa trabalhar no seus reflexos, você poderia ter desviado das minhas garras antes de te derrubar no chão de cinco maneiras possiveis. — E então, todo aquele encanto desapareceu ao ouvir a voz cheia de arrogância. — Além do mais, esse soco não faria nada nem com uma barata. Precisa se apoiar antes de tentar socar alguém, ou então… — Ele assoviou, apontando para ela no chão.
— Eu estava me apoiando… — Resmungou, mas foi o suficiente para ele escutar.
— Sim, nesse belíssimo guarda roupa mágico. — O olhar dele passou para o guarda roupa, dando dois socos de leve no mesmo. — Bela madeira. Onde um híbrido licantropo conseguiu ele? Melhor ainda, pensava que híbridos de feiticeiros não pudessem existir.
— Espera, quê? Aliás, quem é você? — Serana retrucou, se permitindo colocar-se de pé, enquanto encarava o rapaz, que provavelmente fugiu de algum lugar e que era potencialmente perigoso. Não queria contar que tipo de sonhos sinistros e estranhos já teve com ele, pois achou que isso poderia deixar tudo ainda mais bizarro do que já estava.
— Já tive muitos nomes, mas atualmente, atendo por Luke. — Disse, fazendo uma perfeita reverência para a garota. — E quem é você?
— Isso não importa. — Disse ela, enquanto se virava. Aprendeu com James e Josie que não deveria demonstrar medo para pessoas desconhecidas, então adotar medidas de proteção, como ironia e reclusão, eram a sua saída. — Bem, obrigada por me salvar daquele homem estranho. Preciso ir.
Ela só deu um passo antes de sentir uma mão afundando em seu ombro, a obrigando a ficar parada. Sentiu o frio no estômago ficando mais forte enquanto ouvia os passos de Luke se aproximando.
— Você realmente acha que ele vai ser o único? — Ele sorria, como se ela tivesse contado uma piada. — Além disso, Jonathan não é do tipo de cara que ataca alguém sem motivos, mesmo com ordens. Você sabe de alguma coisa, e eu tenho certeza de que é algo na qual estou trabalhando.
— E se eu não tiver nada para contar?
Serana mal teve tempo de respirar quando sentiu a outra mão se afundar em seu outro ombro, e a mover em direção a parede, ao lado do guarda roupa. Os olhares que repousavam nela era os mesmos de antes; sem nenhum traço amigável, frios e com um brilho tão forte que parecia de mentira.
— Você tem. — Disse, com o mesmo tom de voz a qual se dirigiu a Jonathan. — E eu preciso que me conte.
— Você não parece o heroi que eu achava que era. — Serana deixou escapar o que estava em sua mente, demonstrando em sua voz o medo que queria esconder.
— Deixa eu te dizer uma coisa, criança: bem vinda ao mundo, onde não há herois, mas existem muitos vilões. — Disse, e então, arregalou os olhos, demonstrando surpresa. — Espera, como assim…
Ela não o deixou terminar a frase e, levantando seu joelho esquerdo em um belo golpe, acertou a virilha de Luke, fazendo-o a soltar em um grito ensurdecedor, que logo se transformou em um mar de xingamentos. Foi tempo o suficiente para conseguir correr até a porta, passando por James e sua poça de sangue sem encará-lo, sabendo que se distrairia e sabendo que iria chorar. Sair daquela casa era o ponto principal. Não conseguiu chegar até a porta antes de sentir uma pontada de dor pequena, quase uma mordida de algum inseto, nas costas.
Serana se apoiou no corrimão quando viu sua visão se embaçar. No primeiro andar, não havia ninguém, e muito menos havia sinal de que acontecera uma luta ali. Tateou suas costas e sentiu o ponta de uma flecha. A retirou, e forçou sua visão para ver a ponta, que não parecia existir. O reflexo que surgiu rapidamente mostrou que havia uma agulha. Tentou soltar um “droga”, mas tudo que saiu foi murmúrios, enquanto sua visão escurecia e todos os seus sentidos falhavam. Quando caiu no chão, se sentiu como se estivesse mergulhando na escuridão, sem sonhos e sem dores.
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