O Livro dos Mortos

7 Parte Seis: Jonathan


Luke era um tolo. Se achava que um feiticeiro caía somente por perder os seus poderes, então sem dúvidas era mais do que um tolo, era um covarde. Se realmente cresceu com eles, então deveria aprender que, mais do que guerreiros, feiticeiros não eram piedosos. E agora, o que iria acontecer? Ele conseguiria retirar aquela maldição, e conseguiria voltar com força total, pronto para acabar com ele e recuperar aquela garota.

Não fora dificil escapar daquela casa. Qualquer soldado dos feiticeiros poderia ler o Livro dos Mortos e aprender sobre portais e, como era um ensinamento do livro sagrado, ele poderia usar portais mesmo sem nenhum resquício de magia no sangue. Se Luke realmente cresceu com feiticeiros, então deveria saber disso. Quando o portal desapareceu, Jonathan se viu no meio da Times Square que, mesmo a noite, estava lotada de pessoas. Havia perdido sua capa no confronto contra Luke, então todas as suas cicatrizes estavam visiveis, sua camiseta estava com sangue, possivelmente com sangue da garota, e sua face estava a mostra. Todos os olhares, mesmo que momentaneamente, se voltavam para ele, como se fosse um cachorrinho ferido. Cerrou uma das mãos em um punho apertado, tentando reprimir todos aqueles olhares, apenas porque sabia que iria se vingar uma hora.

E então, caminhou. As luzes eram mais brilhantes, os cheiros mais fortes, o suor que escorria de sua testa era mais perceptivel. Não fazia nem dez minutos, mas ele já odiava ser um humano. O pior de tudo isso era a dificuldade de enxergar a magia. A Times Square, com todos aqueles outdoors, carros e arranha céus, era mágica, mas ali tinha mágica de verdade. Mágica essa que ele não podia ver. Mais uma coisa que Luke tirou dele. Tirou seus pensamentos de Luke, mexendo seus pés e ignorando todos os olhares.

Jonathan continuou caminhando até encontrar um beco, aparentemente, sem saída. Olhou de um lado para o outro, percebendo que a multidão havia diminuído, se comparado a onde estava. Deu de ombros, e entrou no beco, não se preocupando com quem o visse. Era um humano, estava fedido, estava sujo, estava tudo, mas ainda deveria funcionar. Atravessou todo o caminho em silêncio, passando por sacos de lixos enfileirados, latões de reciclagem e alguns gatos brigando pelo que parecia ser uma espinha de um peixe completo. Ao vê-lo, se dispersaram, e apenas o gato negro conseguiu ficar com a espinha do gato. Sorriu ao seu lembrar das palavras de sua mãe: “Por onde passam os feiticeiros, os gatos da escuridão o seguirão”.

E então, parou os seus passos, enquanto encarava a parede sem reboco a sua frente. Do seu lado esquerdo, havia apenas um prédio enorme de quase nove andares, sem janelas até o terceiro andar e do seu lado direito, a porta dos fundos do que parecia ser um restaurante. Havia dois sacos de lixo do lado da porta, o que significava que ninguém apareceria tão cedo por ali. Esticou sua mão, colocando-a contra a parede sem reboco e fechou os olhos. Não conseguia lembrar de muitas palavras em latim, afinal, nunca fora expert em poções, mas sabia dizer o suficiente para o que queria:

— Testor te, Merlin. — Disse, em um quase sussurro.

— O que você quer, Jonathan Robin? — Ouviu de trás de si, no mesmo instante em que abaixara sua mão e olhou para baixo.

Jonathan se virou e não deixou de sorrir. Em sua frente, aquele homem de capa negra, com a máscara do Coven e cheio de anéis no dedo, sua cura. Ajoelhou quando ele deu um passo para frente. Não sabia se deveria contar sobre o que aconteceu consigo, sobre como estava ferido, então decidiu que começaria pela primeira noticia ruim do dia:

— Eu fracassei. — Disse, sem coragem de olhar para ele. — Houve uma complicação, um semideus…

— Eu sei o que aconteceu, Jonathan Robin. — Ele retrucou. A voz cortando sua fala como uma faca.

— Sabe?

— Você falhou.

— Eu não…

— Você deixou os seus sentimentos o dominarem. — Mais um passo, e Jonathan sentiu a mão dele repousando suavemente sobre o seu ombro, a luva de couro arranhando sua pele. — Deixou com que a amizade entre ambos ficasse entre o confronto, e isso fez com que o Semideus vencesse. Isso fez com que você, Jonathan Robin, se amaldiçoasse.

Então ele sabia. Nada disse, enquanto sentia os seus olhos arderem. Pensou nos ensinamentos da academia da destruição, sobre o que era ser um soldado. Acima de tudo, soldados não devem chorar.

— Levante-se, Jonathan Robin.

Jonathan o obedeceu, ainda não tinha coragem para encarar seu chefe, em sua frente, mas a mão enluvada segurou seu queixo fez com que o seu rosto encontrasse com a máscara branca, com buracos negros e um sorriso pintado de vermelho. Ele queria muito poder ver os olhos dele, queria saber se iria ser castigado ou morto, mas estava tudo tão estranho, e a paralisia tomava conta de si. Depois de algum tempo em silêncio, Jonathan enfim deixou a ira sobressair, falando tudo de uma única vez:

— Dê-me poder novamente, retire minha maldição! — Gritou, não causando efeito algum no homem em sua frente, provavelmente o outro já esperava isso. — Retire, e dessa vez eu concluírei o trabalho. Recuperarei a garota e matarei quem ficar na minha frente.

— Eu não farei isso. — As palavras dele vieram até os seus ouvidos como um corte. Se não fosse pela mão em seu queixo, ele tinha total certeza que despencaria até o chão. — Não há mais espaço para você no meu exército, Jonathan Robin. Você é fraco, sem motivos, sem raiva, facilmente manipulado, sem… poder. Não mágica, mas poder.

A mão de Merlin saiu de seu queixo, indo parar em sua clavícula, a palma abertamente estendida. Tocou na regata, enquanto sua voz se estendia de maneira simpática.

— Ao menos, você não é de todo inútil. — Disse, enquanto retirava a mão, mostrando a luva manchada de um líquido vermelho. — Isso é o sangue da garota?

Jonathan não o respondeu. Primeiro porque era uma pergunta retórica, e segundo porque ainda estava em choque. Ele perdera tudo, e só lhe restara o orgulho. O que era o orgulho sem nada? Observou, enquanto seu ex-mestre o deu as costas e se distanciou lentamente, um passo na frente do outro.

— Olhe pelo lado bom, Jonathan Robin. — Ouviu, depois de quase quatro metros os separando. — O motivo pela qual você se tornou um Treva agora pode ser facilmente alcançado sem esforço algum.

E então, ele viu Merlin se transformando em uma nuvem de fumaça negra, que mirou em direção ao céu, estilhaçando as janelas dos prédios próximos, fazendo cães de rua latirem até perderem sua voz, e desapareceu entre a negritude do céu noturno.

Jonathan, depois de muito segurar, deixou uma lágrima sair de seu olho, enquanto cerrava seus dois punhos próximo ao corpo. "Sem poder. Não mágica, mas poder". Iria fazer Merlin calar a boca, custe o que custar.