O Livro dos Mortos
8 Parte Sete: Erick
Era tarde, já passava de meia noite, mas ele decidiu que iria pegar o carro de qualquer jeito.
— Você não vai sair! — Ouviu de sua mulher, que logo jogou em sua direção o vaso de cerâmica vermelho de duzentos dólares, um presente de sua mãe, contra ele. Desviou, enquanto o objeto batia contra a parede, transformando-o em mil pedaços diferentes.
Erick teve um dia estressante no trabalho. Em sua mesa, cinco projetos que precisavam de marketing até semana que vem se espalhavam e pareciam rir de sua cara. O pior foi ter que ser recebido até a sala de seu chefe e descobrir que a empresa estava a beira da falência, e que os gastos teriam que ser reduzidos e, como Marcos era um chefe “bom”, decidiu que não despediria ninguém, mas muito dos funcionários teriam que receber um pouco menos que já recebiam, e Erick era uma dessas pessoas. Aquilo foi a gota d’agua pra ele, que já achava que recebia menos, e, por conta disso, pedira demissão no mesmo instante que ouvira aquilo.
Reuniu suas coisas, achando que o dia não poderia ficar pior, mas como a vida tinha suas surpresas, assim que chegou em casa foi recebida por sua mulher em prantos, com uma mesa cheia de papéis, uma calculadora e um caderno, com um lápis em cima dele. Pegou um desses papéis, e notou que era uma ordem de despejo. O dono da casa precisava dela de volta. Pegou outro papel, e era uma conta de luz. Todos os papéis eram contas, e ele não estava de bom humor para resolver aquilo naquela hora.
E foi nesse ponto em que sua mulher começou a dizer que parecia que ele não se importava com a família, que gastava todo o dinheiro naquele bar no final da cidade, que ele era tudo, menos o homem que bancava aquela casa, já que a mulher nunca se interessou em arrumar um emprego. É claro que ele disse isso, e o resultado foi toda aquela discussão que ele queria muito evitar. Deixou-a falando, enquanto refazia o seu caminho para fora da casa, e foi quando ouviu aquele grito, e foi quando ela jogou o vaso na direção dele, quase atingindo-o.
Ele ignorou, lançando apenas um olhar contra ela. Do lado de fora, a rua estava calma, iluminada pelas luzes dos postes até o final do quarteirão, e preenchida pela brisa serena, quase gélida. A lua estava no meio do céu, com vários pontinhos brilhantes ao seu redor: as estrelas. Seria uma noite perfeita, se o som da voz da sua esposa não fosse o único som que podia ouvir. Fechou os olhos e inspirou calmamente, enquanto dava os passos em direção ao carro, que ainda estava na rua. A porta batendo atrás dele e a voz da sua esposa se elevando o fez parar no meio do caminho.
— Eu quero o divórcio! — Ela gritou, fazendo o cachorro do vizinho começar a latir. — Acho que a minha vida teria sido melhor se eu não tivesse te conhecido.
A gota d’agua se transformou em uma chuva tempestuosa quando ouviu aquilo. Se virou na direção dela e correu, com a raiva estampada no rosto. Segurou nos ombros de Helena com tal fúria que era visivel nos olhos azuis assustados dela e apertou.
— E minha vida teria sido melhor se eu não tivesse tido um filho com uma mulherzinha inútil! — Gritou em resposta e então a empurrou.
Erick não esperou para ver Helena tropeçando, caindo no chão e batendo a cabeça. Não esperou para ver sua esposa olhando para ele com medo, enquanto que do corte da testa escorria sangue. Ao invés disso, decidiu que iria até o carro, que não gastaria uma saliva a mais com ela e que deixaria com os vizinhos a função de a confortar, pois as luzes das casas ao lado começavam a acender.
Entrou dentro do carro, deu a partida e pisou no acelerador, indo cidade afora, claro que para o bar onde sua mulher havia dito. Aquele era o seu único lugar de sossego, o único ponto daquela cidade morta que o fazia se sentir bem. Talvez fosse as mulheres, ou a maioria dos amigos que fizera lá, não sabia ao certo, mas sabia que gostava de ir lá… gostava e muito.
Quando as luzes da cidade ficaram para trás, deu um meio sorriso, sabendo que faltava poucos minutos para conseguir enfim tomar sua cerveja em paz. Sempre imaginava que quando saía da cidade, deixava todos os seus problemas com ela. Talvez fosse esse o real motivo por gostar tanto daquele bar.
E foi no meio dos pensamentos que Erick não prestou atenção na estrada, e um vulto tentou passar correndo na frente do carro, sendo atingido pelo mesmo. Seu coração disparou quando ouviu as batidas no teto e o barulho de um corpo caindo no chão. Freou no mesmo instante, deixando marcas na pista, e saiu imediatamente do carro, indo até o que atropelou. Ele poderia ser tudo, mas não queria ser um assassino.
Assim que se aproximou, percebeu que era um humano, e não um animal. Se fosse um cervo, teria deixado para trás, mas agora que vira o que era, preferiu se ajoelhar e tentar socorrer de alguma forma. Era uma mulher, que caíra de bruços. Os longos cabelos negros cobriam o seu rosto, enquanto a camisa branca com mangas largas até o cotovelo estava sujo, talvez antes mesmo do atropelamento, o short jeans parecia velho, e havia vários arranhões nas pernas da mulher.
— Não, não, não. — Erick se aproximou ainda mais, segurando a cabeça da mulher e afastando os fios negros de seu rosto.
Apesar de todo o restante do corpo, o rosto dela era impecável. Parecia ter entre os vinte ou vinte e cinco anos, usando um batom vermelho e delineador, com os olhos totalmente fechados. Ele gritou por socorro, mas não havia casas por perto, não havia carro passando e a cidade estava muito longe. Estava com medo de erguê-la, e também não queria deixá-la ali. O que ele poderia fazer?
Ele se assustou quando ela abriu os olhos, mas não deixou, em momento algum, de segurá-la. As íris dos olhos dela eram da cor de rubi, e reluziam o mesmo brilho. Ela o encarou por um momento, e não havia expressão em sua face. Parecia que tinha fechado os olhos por dois segundos e voltado a abri-los, e não realmente ter sido atropelada.
— O que aconteceu? — A voz dela era calma, enquanto se sentava, deixando até mesmo Erick perplexo.
— Você foi atropelada. — Respondeu. Decidiu que não falaria que foi por ele e, mesmo que estivesse ímplicito, não falaria isso. — Precisa ir para o hospital.
— Eu não quero ir pro hospital. — Disse, sem mudar o tom de voz. — Quero ir para casa.
Erick paralisou-se por um tempo. Ela não estava ferida, não estava com nenhum corte profundo, não parecia sentir dor, e não havia uma expressão furiosa pronta para entregá-lo a policia. Ao invés disso, ela só queria ir para casa. O que ele seria se, pelo menos, não fizesse isso por ela?
— Tudo bem. Eu te levo para casa. — Respondeu. Tentou segurar o seu braço, mas ela se esquivou, provando tanto para ele quanto, talvez, para ela mesma que poderia muito bem se levantar, e que estava realmente bem.
Sem cambalear, rumou em direção ao carro com passos rápidos. Erick correu um pouco para ir na frente dela e abrir a porta do carona para a mulher. Ela o encarou por um tempo, de cima a baixo, antes de dar de ombros e finalmente entrar no carro. Erick suspirou, indo para o outro lado do carro e entrando no mesmo. Suspirou ainda mais antes de dar a partida e olhar para a mulher. Ela parecia ter ficado ainda mais linda, com os olhos cor de rubi na estrada, com as maçãs do rosto mais destacadas e a boca ainda mais vermelha. Pigarreou, tentando esquecer tudo aquilo.
— Você mora na cidade? Em qual bairro você…
Ela não disse nada, mas seu braço conseguiu o calar, enquanto apontava para o outro lado, aparentemente para uma estrada de barro que Erick nunca vira em toda a sua vida passando por ali.
— Tudo bem… — Disse, deixando-se vencer pela mulher.
Virou o volante e então o carro estava se mexendo. A estrada de barro era toda cheia de buracos, e a única paisagem que podia enxergar era a de árvores densas. Nenhum som, senão pelo próprio carro, revelou para o rapaz que sua companhia não era muito de conversar, então decidiu que era ele quem deveria, talvez, iniciar alguma coisa:
— Você não fala muito, ein?! — Tudo bem, ele não era muito de “iniciar diálogos”.
— Minha espécie não gosta muito de falar com vocês. — Retrucou, com o mesmo tom de voz de antes.
Por um momento, o ar parecia ter ficado mais rarefeito, e Erick se perguntou o que ela queria dizer com aquilo, mas decidiu não perguntar nada, até que ela por si só completou:
— Jovens.
— Ah. — Suspirou, sem perceber. Ele não era muito velho, era? — Então vocês, jovens, estavam usando drogas?
Pela falta de resposta, sentiu que havia feito alguma burrada. Tirou os olhos da estrada por um momento, para observá-la, e a flagrou o fitando com um olhar de confusão. Os olhos pareciam brilhar e, por um breve momento, Erick queria olhá-los pro resto da sua vida. Resistiu a essa vontade e apontou para seus olhos, antes de voltar a encarar a estrada.
— Meus olhos vermelhos, você quis dizer. — Erick balançou a cabeça positivamente. — Eu li um livro amaldiçoado e agora sou uma vagante canibal.
Novamente, ele não soube o que fazer, e olhou para a garota. Os olhos dela estavam semicerrados, o corpo ereto, a garganta se mexendo, parecendo um animal olhando para e presa. Erick queria parar o carro, sentindo um medo insano tomar conta de si. Esse medo desapareceu quando a garota relaxou, e um sorriso de leve surgiu nos lábios vermelhos.
— Estou brincando. — Até o tom de voz parecia ter ficado mais amigável. — Pare aqui.
Erick a obedeceu depois de suspirar e dar um sorriso. Ela realmente havia o assustado. As árvores desapareceram, dando lugar a um lugar deserto, sem qualquer alma viva. Não havia casa, não havia animais, muito menos havia um fantasma perambulando por aqui ou ali. Foram mais de dez minutos dirigindo, agora iria voltar para o seu caminho e seguiria para o bar, para contar para os amigos sobre aquela drogada que atropelara e brincara com sua cara.
— Mas é aqui mesmo? — Erick perguntou, se livrando de seus devaneios. — O lugar está deserto e não acho que possa ter alguma casa por…
— Quer transar? — Ouviu, de repente.
— O que? — Dessa vez olhou para ela, e a viu mordendo os lábios e o olhando com uma expressão que o fez estremecer.
— Eu sei que você estava me olhando o percurso todo. — Retrucou, quase que imediatamente, retirando sua blusa de mangas e revelando um sutiã balconet de renda rosa. O que estava acontecendo?
As coisas saíram do controle quando a garota se inclinou para beijá-lo. Um beijo jovem, cheio de paixão, quente, com gosto de batom e suor misturado com alguma bebida forte que Erick desconhecia naquele momento. Tudo o que conhecia era que queria aquilo. Dane-se Helena, fazia tempo que não experimentava algo diferente, fazia tempo que queria algo diferente. A vida de casado era monótono, e casar-se com Helena talvez fosse a coisa mais retardada que fizera na sua vida. Retribuiu o beijo, puxando-a para cima dele, enquanto desabotoava o short jeans, e ela fazia o mesmo com sua camisa.
— Tem algo que preciso te contar. — Ela disse, entre os beijos.
Erick demorou para perguntar o que era. Não se importava com DST’s, na sua carteira tinha preservativos, e nem com qualquer outra coisa senão os beijos daquela garota. Agora, teria mais o que contar para os seus amigos: além de atropelar uma drogada, conseguiu levá-la para o meio do nada e transar com ela por livre vontade.
— O que? — Perguntou, depois seguiu para o pescoço dela, dando beijos suaves e curtos.
— Helena mandou um oi.
O que se seguiu foi rápido demais para Erick associar. Ele ouviu o nome de sua mulher, e sentiu sua garganta sendo aberta, espirrando sangue na garota e em todo o seu carro. Não sentiu dor, parecia estar num sonho maluco em que sabia que aquele sangue era dele, mas ao mesmo tempo não era. Colocou a mão no pescoço, tentando cobrir todo aquele sangue e foi em vão. Sua visão começara a escurecer, e a última coisa que vira foi os olhos vermelhos da garota em cima dele, manchada de sangue e com um sorriso de excitação.
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