O Legado do Tabuleiro
18 Ritmos Diferentes
A noite havia caído sobre Manhattan, trazendo consigo uma chuva fina que batia de leve contra as imensas janelas do apartamento de Maya. Sozinha, vestindo um moletom confortável e com os cabelos presos em um coque despojado, ela tentava se concentrar na leitura de um novo plano de marketing para a holding, mas sua mente insistia em repassar os eventos estressantes dos últimos dias na empresa.
O som agudo da campainha quebrou o silêncio do ambiente. Maya franziu o cenho, caminhou até a entrada e, ao olhar pelo olho mágico, um sorriso imediato iluminou seu rosto. Ao abrir a porta, ela deparou-se com Lucas, que equilibrava uma caixa grande de pizza em uma das mãos, uma garrafa de refrigerante de dois litros sob o braço e, na outra mão, uma sacolinha de confeitaria cuidadosamente protegida.
— Eu notei que a diretora de publicidade estava prestes a colapsar de fome, então decidi trazer o kit de sobrevivência Styles — Lucas anunciou, entrando no apartamento com um sorriso contagiante.
— Lucas! Não brinca que você conseguiu encontrar... — Maya começou, os olhos brilhando enquanto fechava a porta.
— Pizza de quatro queijos com borda recheada, refrigerante trincando de gelado e, para o grand finale... — ele tirou um pote de vidro da sacola, exibindo um pudim de leite condensado perfeitamente caramelizado. — O pudim daquela doceria perto da East Side. Eu sei que são as suas coisas favoritas no mundo.
— Você é oficialmente o melhor namorado do planeta — Maya declarou, jogando os braços ao redor do pescoço dele e lhe dando um beijo estalado na bochecha antes de pegar as embalagens.
Eles se acomodaram no tapete felpudo da sala de estar, usando a mesa de centro como apoio. Entre risadas, conversas bobas sobre o dia a dia e dinâmicas de trabalho, eles comeram juntinhos, dividindo as fatias de pizza e saboreando o pudim diretamente do pote. O clima era de uma leveza preciosa.
— Espera, não move — Lucas disse, pegando o celular do bolso e passando o braço pelos ombros de Maya, puxando-a para perto. — Precisamos registrar que eu consegui fazer você esquecer as planilhas por pelo menos uma hora.
Maya encostou a cabeça no ombro dele, segurando uma colher suja de caramelo, e sorriu espontaneamente para a câmera. Lucas tirou uma sequência de fotos e, logo em seguida, escolheu a mais bonita para postar em suas redes sociais com a legenda: "Cuidando da minha diretora favorita. Noite de pizza e o melhor pudim da cidade."
A Faísca e o Estouro
Do outro lado da cidade, na cobertura luxuosa de Thomas e Chloe, o ambiente exalava uma formalidade fria. Thomas estava sentado no sofá de couro preto, com um tablet em mãos, supostamente revisando os relatórios de auditoria da holding, mas seu olhar estava distante. O celular ao seu lado vibrou com uma notificação de atualização da rede social. Sem pensar muito, ele desbloqueou a tela.
A foto de Maya e Lucas preencheu o visor. O sorriso radiante dela, a intimidade com que estava aninhada nos braços de Lucas e a simplicidade daquela noite de pizza atingiram Thomas como um soco no estômago. O visor do celular quase trincou sob a pressão de seus dedos. Uma onda de fúria cega, misturada com uma pontada dilacerante de ciúme possessivo, subiu por seu peito. Ele jogou o celular contra o estofado do sofá com violência, praguejando entredentes.
Chloe, que saía do closet terminando de prender os brincos para um evento de caridade no dia seguinte, parou no meio da sala ao ouvir o estalo do aparelho e ver a expressão transtornada do noivo. Caminhando com passos firmes, ela pegou o celular do sofá antes que a tela se apagasse. Seus olhos leram a publicação de Lucas e a imagem de Maya.
A paciência de Chloe, que já andava no limite desde o jantar em Tribeca, evaporou.
— Você está de brincadeira com a minha cara, Thomas?! — Chloe explodiu, a voz fina e carregada de indignação, jogando o celular na mesa de centro. — Você está tendo um ataque de pelanca por causa de uma foto da sua tia com o namorado dela?!
Thomas levantou-se do sofá em um salto, postando-se diante de Chloe com o semblante completamente rígido e os olhos injetados de puro ódio.
— Cala a boca, Chloe! Você não sabe de nada, então não se mete! — ele rosnou, a voz grossa e ríspida, assustando a noiva com o tom agressivo.
— Como é que é?! Eu sou a sua noiva! — ela gritou de volta, dando um passo desafiador na direção dele. — Eu não sou cega, Thomas! Desde que chegamos a Nova York, você age como um robô comigo, mas basta aquela garota respirar no mesmo corredor que você perde o controle. Eu exijo respeito! Se você acha que eu vou aceitar passar vergonha por causa dessa sua obsessão ridícula e doentia, você está muito enganado!
Thomas deu um sorriso sarcástico, completamente destituído de calor, aproximando-se a centímetros do rosto dela, com uma frieza assustadora.
— Você quer respeito, Chloe? Então comece a policiar o seu tom de voz comigo — ele sussurrou, cada palavra saindo como uma lâmina gélida. — Eu caso com você, eu divido os negócios com você, mas eu não te dei o direito de controlar a minha mente ou o que eu olho. Se a vida em Nova York está muito difícil para os seus padrões, o aeroporto para Toronto continua no mesmo lugar.
Chloe estancou, com os lábios trêmulos de puro choque diante da brutalidade das palavras dele.
Sem dar tempo para qualquer resposta, Thomas pegou a chave de seu carro esporte sobre o aparador, virou as costas e saiu do apartamento, batendo a porta de entrada com uma força estrondosa que fez os quadros da parede tremerem. Segundos depois, no subsolo do prédio, o eco do motor de seu carro rugiu alto. Thomas arrancou em alta velocidade, cantando pneu com raiva pelas ruas molhadas de Manhattan, tentando fazer a velocidade dissipar o fantasma de Maya que insistia em queimar seu peito.
O Tempo de Cada Um
De volta ao aconchego do apartamento de Maya, a tempestade lá fora parecia não existir. Lucas e Maya haviam deixado os pratos de lado e agora estavam caídos no sofá. O clima de romance havia se intensificado. Lucas segurava o rosto de Maya com delicadeza, distribuindo beijos apaixonados por seus lábios, descendo pelo maxilar e alcançando o pescoço, fazendo-a arfar de leve.
O clima foi esquentando. As mãos de Lucas tatearam a cintura de Maya por baixo do moletom largo, puxando o corpo dela para mais perto, enquanto o beijo tornava-se mais profundo, carregado de um desejo maduro que ele contivera por anos. Maya correspondia, sentindo a segurança daquele toque, mas à medida que as carícias ficavam mais íntimas e intensas, um peso antigo e uma hesitação natural começaram a travar seus movimentos.
Sentindo o coração disparar por um motivo diferente, Maya colocou as mãos espalmadas contra o peito de Lucas, empurrando-o de leve, quebrando o beijo. Ela respirava de forma acelerada, os olhos fixos nos dele, demonstrando uma mistura de nervosismo e vulnerabilidade.
Lucas parou imediatamente. Percebendo a mudança de energia, ele recuou as mãos para os ombros dela, olhando-a com total atenção e preocupação.
— Ei... tudo bem? — ele perguntou, a voz mansa e carinhosa, afastando uma mecha de cabelo do rosto dela. — Eu passei dos limites? Desculpa, Maya, eu não queria...
— Não, não... você não fez nada de errado, Lucas — Maya o interrompeu, a voz saindo baixa, quase como um sussurro tímido. Ela engoliu em seco, olhando para as próprias mãos unidas sobre o peito dele. — É só que... eu acho que preciso te contar uma coisa. Nós estamos namorando de verdade agora, e eu não quero segredos entre nós.
Lucas endireitou o corpo no sofá, mantendo a mão acolhedora sobre a dela.
— Pode falar comigo, Maya. Sabe que pode me dizer qualquer coisa.
Maya respirou fundo, reunindo coragem para expor sua maior intimidade, algo que ela nunca havia compartilhado com ninguém em toda a sua vida.
— Eu... eu sou virgem, Lucas — ela confessou, o rosto corando levemente sob a luz fraca da sala. — Eu nunca fiz isso antes. Com ninguém. Todo o drama com a minha família, o foco nos estudos e o medo de me entregar para a pessoa errada... eu acabei me fechando completamente para esse lado da vida. Eu quero estar com você, mas... eu fico nervosa.
Lucas ouviu cada palavra em silêncio. Longe de demonstrar qualquer frustração ou surpresa negativa, um sorriso incrivelmente doce e compreensivo surgiu em seus lábios. Ele segurou as duas mãos de Maya, levando-as até a boca e deixando um beijo terno nos nós de seus dedos.
— Maya, olha para mim — ele pediu, esperando até que ela erguesse os olhos. — Você não precisa ter medo, e muito menos se desculpar por isso. Para mim, isso só mostra o quanto você é preciosa e o quanto sabe guardar o que é importante. Eu te amo pelo que você é, não pelo que a gente faz entre quatro paredes. Tudo tem o seu tempo.
Maya sentiu uma lágrima de alívio escorrer por seu rosto, a segurança das palavras de Lucas desfazendo todo o nó que apertava seu estômago.
— Você não está chateado? — ela perguntou, com um sorriso tímido.
— Claro que não, sua boba — Lucas riu baixinho, puxando-a para os seus braços e acomodando-a deitada contra o seu peito, cobrindo os dois com a manta do sofá. — Nós temos a vida inteira pela frente. Nós vamos no seu ritmo, quando você se sentir totalmente segura e pronta. Até lá, eu estou perfeitamente feliz apenas segurando você assim.
Maya fechou os olhos, ouvindo as batidas calmas do coração de Lucas. Pela primeira vez em anos, ela sentiu que o tabuleiro do passado não tinha poder sobre ela. Ela estava protegida por um amor real, paciente e limpo, enquanto do lado de fora, a noite de Nova York continuava a seguir seu curso.
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