​Três meses se passaram voando sob o ritmo implacável corporativo de Nova York. Durante esse período, Maya tentou se ancorar com todas as forças na calmaria que o namoro com Lucas proporcionava. Ela sentia que estava, finalmente, reconstruindo suas bases. No entanto, o destino em Tribeca nunca permitia que as águas ficassem calmas por muito tempo.

​Era o fim de uma tarde exaustiva de terça-feira. Maya destrancou a porta de seu apartamento, largando a bolsa e as chaves sobre o aparador da entrada. Ela soltou um longo suspiro, massageando a nuca, aliviada por finalmente estar em seu refúgio. Antes mesmo que pudesse tirar os sapatos de salto, a campainha ecoou pelo ambiente, abrupta e insistente.

​Franzindo o cenho, achando que Lucas havia esquecido a chave ou que Thiago e Beatriz haviam passado para entregar mais algum relatório urgente, ela girou a maçaneta e abriu a porta.

​Não era o Lucas. Era Thomas.

​Ele estava parado no batente, com o paletó do terno desfeito, a gravata frouxa e os olhos escuros completamente acesos por uma intensidade perigosa. Antes que Maya pudesse pronunciar uma única palavra de protesto, ele deu um passo agressivo para dentro do apartamento, chutando a porta para fechar atrás de si. Thomas a agarrou pela cintura com força possessiva, prensando o corpo dela contra a parede do hall de entrada.

​— Thomas, o que você está f—

​A fala dela foi sufocada quando os lábios dele colidiram contra os seus com uma violência faminta. Não havia espaço para delicadeza ou formalidades corporativas ali; era um beijo carregado de cinco anos de um desejo represado, uma mistura ardente de amor, tesão puro e desespero. A boca de Thomas se movia contra a dela com uma urgência febril, a língua dele invadindo o espaço com domínio, enquanto suas mãos grandes subiam pelo blazer dela, arranhando o tecido e apertando sua cintura com força, puxando-a para colar totalmente os quadris.

​Maya arregalou os olhos em choque, o coração disparando de forma violenta. Suas mãos subiram imediatamente para o peito de Thomas, empurrando-o com força, tentando criar distância.

​— Para! Thomas, me solta! — ela conseguiu exclamar entre os dentes, virando o rosto.

​Mas ele não parou. Thomas desceu os lábios pelo maxilar dela, distribuindo beijos quentes e molhados que fizeram a pele de Maya arrepiar por completo, alcançando o pescoço dela com uma mordida leve que arrancou um gemido involuntário de sua garganta. Aquele magnetismo primitivo e devastador que sempre os unira agiu como um veneno. A resistência de Maya começou a fraquejar sob o calor sufocante daquele abraço. O desejo era quente demais, uma corrente elétrica que nublou sua razão. Suas mãos, que antes empurravam, cravaram-se nos ombros estruturados dele, e ela acabou cedendo, devolvendo o beijo com a mesma intensidade selvagem, puxando os cabelos da nuca de Thomas enquanto o gemido dele ecoava contra a sua boca.

​O momento era puramente carnal, explícito na urgência com que os corpos se buscavam na penumbra do hall. Thomas pressionava o joelho entre as pernas dela, a respiração de ambos transformando-se em um som único e arfante.

​— Maya... — uma voz masculina, trêmula e carregada de uma decepção dilacerante, cortou o ar da sala de estar.

​O impacto daquela voz foi como um balde de água congelada. Maya empurrou Thomas com uma força descomunal, desfazendo o contato instantaneamente. Olhando por cima do ombro do sobrinho, ela viu Lucas parado no meio da sala. Ele tinha a própria chave do apartamento na mão, os olhos verdes arregalados, fixos na cena, os lábios entreabertos em uma expressão de pura dor e traição.

​— Lucas... Não! Espera, não é o que você está pensando! — Maya gritou, a voz falhando, o desespero tomando conta de seu ser enquanto ela tentava ajeitar a roupa desalinhada.

​Lucas não gritou. Ele não avançou em Thomas. Ele apenas deu dois passos para trás, balançando a cabeça negativamente, com um sorriso amargo de quem acabara de ver seu pior pesadelo se concretizar.

​— Você me disse que estava pronta, Maya... — Lucas sussurrou, a voz embargada pela decepção. — Eu respeitei cada segundo do seu tempo. Mas o tempo todo... o seu tempo era dele.

​Lucas deu as costas, jogou a chave sobre a mesa de centro e saiu do apartamento a passos largos. O som da porta batendo ecoou como um tiro no peito de Maya.

​— Lucas! Volta aqui! Lucas! — ela clamou, dando um passo para ir atrás dele, mas Thomas segurou seu braço.

​— Deixa ele ir, Maya! Ele não importa! Olha para nós, olha o que acabou de acontecer aqui! — Thomas exclamou, a respiração ainda opressa pelo desejo, tentando puxá-la de volta.

​A fúria de Maya explodiu. Ela fechou o punho e desferiu um soco violento contra o peito de Thomas, empurrando-o com tanto ódio que ele cambaleou para trás.

​— Me solta, seu monstro! Seu desgraçado! Olha o que você fez! — ela gritou, as lágrimas de puro desespero finalmente transbordando. — Sai da minha casa! Me deixa em paz de uma vez por todas! Você destruiu a única coisa boa que eu tinha!

​— Eu não fiz nada sozinho, Maya! Você me beijou de volta! Você se entregou! — Thomas rebateu, a voz grossa ecoando pelo apartamento enquanto ele tentava segurar as mãos dela. — Eu não posso te deixar em paz porque eu te amo! Eu tentei fugir para o Canadá, tentei noivar com a Chloe, mas eu te amo desde garoto e você sabe disso!

​Maya estancou, olhando para o rosto transtornado de Thomas. Ela limpou as lágrimas borradas com as costas da mão e, de repente, uma calmaria gélida e assustadora tomou conta de seu semblante. Ela olhou para Thomas de cima a baixo e soltou uma risada curta, carregada de desdém e clareza.

​Pela primeira vez em cinco anos, o véu da ilusão caiu. Ao olhar para Thomas ali, ela não viu o amor de sua vida; ela notou que aquilo que os unia era somente um desejo carnal e doentio, uma obsessão nascida do proibido. O sentimento real, o afeto estruturado, o respeito e o carinho que traziam paz à sua alma... tudo aquilo pertencia a Lucas. O sentimento havia mudado, e ela acabara de perceber que precisava desesperadamente do homem que acabara de expulsar.

​— Você me ama, Thomas? — ela perguntou, a voz saindo cortante, gélida como o inverno canadense. — Isso não é amor. Isso nunca foi amor. É só tesão. É só o capricho de um garoto mimado que não aceita perder o controle do tabuleiro. E eu acabei de acordar. Eu não sinto mais nada por você além de nojo por ter deixado você tocar em mim.

​Sem dar tempo para ele digerir o golpe, Maya virou as costas, pegou o celular sobre o aparador e saiu correndo do apartamento, deixando Thomas sozinho na penumbra de sua sala.

​O Sumiço no Mundo

​Maya desceu os lances de escada correndo, os saltos batendo contra os degraus até alcançar o saguão do prédio.

​— Lucas! Lucas! — ela gritou ao sair na calçada sob a chuva fina, olhando para os lados da avenida movimentada, mas a silhueta dele já havia desaparecido na imensidão de Manhattan.

​Ela correu até o estacionamento, pegou seu carro e dirigiu até o apartamento de Lucas. Bateu na porta dele por mais de vinte minutos, esmurrando a madeira até que o vizinho de corredor reclamasse, mas ninguém atendeu. O silêncio lá dentro era absoluto. Desesperada, Maya voltou para o carro e começou a ligar. Uma, duas, dez, trinta vezes. O celular de Lucas chamava até cair na caixa postal, até que, finalmente, a gravação indicou que o aparelho havia sido desligado totalmente. Ele havia sumido no mundo.

​Com o coração em pedaços e a alma completamente exausta, Maya retornou ao seu apartamento na madrugada. Ao abrir a porta, esperando encontrar o vazio, ela deparou-se com Thomas na cozinha. Ele havia tirado o paletó e estava, calmamente, passando um café na cafeteira elétrica, como se o espaço pertencesse a ele.

​A pouca sanidade que restava em Maya evaporou.

​— O que você ainda está fazendo aqui? — ela perguntou, a voz saindo sussurrada, mas tremendo de puro ódio.

​Thomas virou-se com a xícara na mão, adotando aquela postura madura e calculista que usava na holding.

​— Você saiu correndo atrás de um cara que não tem estrutura para aguentar os nossos problemas, Maya. Eu fiquei para garantir que você ficasse bem. Nós precisamos conversar sobre o que vamos fazer com a Chloe e o conselho—

​Thomas deu um passo à frente, deixando a xícara na bancada, e tentou se aproximar para envolvê-la em um abraço de conforto, inclinando o rosto para tentar beijá-la novamente.

​ESTALO.

​A mão direita de Maya voou com toda a força contra a face de Thomas. O impacto do tapa ecoou alto na cozinha, fazendo o rosto dele virar para o lado, a pele alva tornando-se instantaneamente vermelha pelo golpe.

​— Nunca mais ouse encostar um dedo em mim, seu verme — Maya sibilou, os olhos faiscando. — Eu mandei você sumir da minha vida!

​Thomas segurou o maxilar, os olhos escuros brilhando com uma mistura de choque e fúria reprimida pelo tapa.

​— Você enlouqueceu, Maya?! Eu estou aqui tentando resolver a nossa vida! Você acha que aquele publicitário de quinta categoria vai te dar o que eu posso dar? Ele é um covarde que fugiu na primeira dificuldade!

​— Não ouse falar o nome do Lucas! Você não chega aos pés do homem que ele é! — Maya gritou, dando um passo à frente, humilhando Thomas com cada palavra que saía de sua boca. — O Lucas me deu respeito, me deu paz, me tratou como uma mulher de verdade e esperou o meu tempo porque ele me amava de verdade! Sabe o que você é, Thomas? Você é uma cópia barata e estragada do pior lado do seu pai. Você é frio, você é egoísta, e a única coisa que você sabe fazer é destruir a vida das pessoas ao seu redor para alimentar o seu ego de quarterback frustrado. Você me dá nojo. A sua noiva merece um homem de verdade, não um moleque obsessivo que vive nas sombras da tia. Suma daqui agora, antes que eu chame a segurança da holding e jogue a sua dignidade na lama do mercado de Nova York!

​Thomas estancou. As palavras de Maya foram mais violentas do que qualquer soco ou tacle que ele já tomara em campo. A humilhação pública e cirúrgica desferida por ela rasgou a armadura de arrogância que ele construíra. Ele olhou para ela, o maxilar rígido, os punhos cerrados até as articulações estalarem. Sem dizer uma única palavra, Thomas pegou seu paletó, caminhou até a porta e saiu, batendo-a de forma definitiva.

​A Solidão das Linhas

​Os dias seguintes transformaram-se em semanas de um inverno rigoroso e cinzento na alma de Maya. Lucas havia sumido totalmente. Ele pediu demissão da agência de publicidade através de um e-mail formal enviado ao setor de recursos humanos, cortando qualquer vínculo profissional com a holding. Seus amigos em comum, incluindo Thiago e Beatriz, não sabiam de seu paradeiro; disseram apenas que Lucas entregara o apartamento e pegara um voo para fora do estado para recomeçar longe de Nova York.

​A rotina de Maya tornou-se um ciclo de profunda tristeza e isolamento. Ela ia para a empresa todas as manhãs, sentava-se na grande sala envidraçada que antes dividia com a alegria de Lucas, e trabalhava no automático. Thiago e Beatriz tentavam puxar assunto, traziam café e ofereciam apoio, mas respeitavam o luto silencioso da amiga.

​Ao fim de cada expediente, não havia mais surpresas de pizza com pudim, não havia mais mensagens descontraídas no celular, nem o abraço seguro que a fazia esquecer as pressões da família Styles e Lâfrer. Maya Styles agora pegava seus arquivos, descia pelo elevador da holding e voltava para o seu apartamento completamente sozinha, caminhando sob as luzes frias de Manhattan, acompanhada apenas pelo eco da escolha que fizera o homem que ela realmente amava sumir no mundo.