O Legado do Tabuleiro
20 O Eco do Espelho
O grande dia havia chegado para a alta sociedade de Toronto e Nova York. O casamento de Chloe Vance e Thomas Lâfrer era o evento do ano, projetado milimetricamente para selar a união das duas famílias e consolidar a fusão internacional da holding. A catedral gótica estava adornada com milhares de orquídeas brancas, e os bancos eram ocupados por acionistas, investidores e a elite corporativa.
Maya Styles compareceu. Vestindo um elegante vestido de seda azul-da-prússia, ela manteve-se no seu canto desde o início da cerimônia. Enquanto Sofia, Garret, James e Hope se emocionavam na primeira fileira, Maya observava tudo com uma neutralidade gélida. Ver Thomas no altar, vestindo um fraque impecável, trocando juras eternas com Chloe, não disparava absolutamente nenhum gatilho de tristeza ou ciúme em seu peito. Aquela velha eletricidade estava morta. Nada ali a afetava. Seus olhos focavam no vazio, e seu único pensamento, torturante e insistente, era o desejo de ter Lucas Carter de volta.
Durante a recepção de gala em um sofisticado salão de festas com vista para o skyline, Maya permaneceu isolada. Ela segurava uma taça de champanhe, bebendo em goles lentos no canto do salão, enquanto checava o celular a cada cinco minutos, na esperança inútil de ver uma notificação com o nome dele.
Antes mesmo que os noivos cortassem o bolo de sete andares, Maya recolheu sua bolsa de festa de forma discreta. Ela não aguentava mais o barulho dos brindes artificiais. Despediu-se rapidamente dos pais e pegou um táxi de volta para o seu apartamento.
Ao entrar no silêncio do seu imóvel, o peso das últimas semanas desabou sobre seus ombros. Ela tirou os sapatos de salto, deixando-os jogados no hall, e caminhou até o quarto. Deitou-se na cama de casal, ainda vestindo o traje de festa, e finalmente se permitiu chorar. Era um choro doloroso, carregado de saudade, solidão e do arrependimento que a corroía por dentro.
Mais cedo, enquanto terminava de se arrumar em frente ao espelho do quarto, Maya havia tirado uma foto com o celular — uma imagem que capturava sua beleza, mas também a melancolia profunda em seu olhar. Com os olhos vermelhos e o peito apertado, ela pegou o aparelho, abriu o aplicativo e postou a foto, marcando a localização da holding para que ficasse registrado o contexto do dia, acompanhada da legenda que resumia sua alma:
"Casamento de Chloe e Thomas. Só queria que você estivesse aqui."
O Olhar Distante
A milhares de quilômetros dali, em um fuso horário completamente diferente e em um novo país onde tentava reconstruir sua vida do zero, Lucas Carter estava deitado na cama de seu modesto apartamento. O quarto estava às escuras, iluminado apenas pelo brilho gélido da tela de seu celular.
Ele vinha acompanhando os portais de notícias sociais de Nova York que cobriam o casamento de Thomas e Chloe. Nas fotos oficiais e nos registros dos convidados, Lucas, com seu olhar analítico e atento, notara um padrão. Em todas as imagens em que Maya aparecia ao fundo, ela estava completamente sozinha. Não havia brilho em seus olhos ao olhar para o altar; ela passava o tempo todo bebendo isolada no canto ou encarando fixamente a tela do celular, alheia à festa.
Lucas conhecia Maya melhor do que ninguém. Ele sabia que aquela expressão não era de dor ou arrependimento por Thomas. Era outra coisa. Era o mesmo vazio que ele próprio sentia todas as noites desde que deixara Manhattan.
De repente, o feed dele atualizou. A nova postagem de Maya entrou na tela. Lucas travou o olhar na foto dela vestida de azul e, logo em seguida, leu a legenda: Só queria que você estivesse aqui.
O coração de Lucas deu um salto violento no peito. Ele encarou a frase por longos minutos. A vulnerabilidade implícita naquelas palavras desarmou toda a mágoa que ele vinha cultivando. Ele percebeu, com clareza, que ela não estava bem e que aquele recado tinha um único destinatário.
Sem se permitir pensar nas consequências ou no orgulho, Lucas tocou no ícone de chamada.
No apartamento em Nova York, o celular de Maya começou a vibrar sobre o colchão. Ela limpou as lágrimas rapidamente e, ao olhar o visor, seu coração quase parou ao ler o nome de Lucas. Com as mãos trêmulas, ela deslizou a tela e atendeu, a voz saindo embargada.
— Lucas?... É você mesmo?
Do outro lado da linha, a voz de Lucas soou com um tom leve, resgatando aquela velha ironia afetuosa que ela tanto amava, tentando quebrar a densidade da distância.
— Alô? É da central de atendimento das diretoras abandonadas de Nova York? Eu vi uma foto de uma mulher incrivelmente bonita de azul, mas com uma cara de quem acabou de mastigar um limão azedo no casamento do ano. Achei melhor ligar para ver se o champanhe estava estragado.
Maya soltou uma risada trêmula entre o choro, as lágrimas voltando a rolar, mas dessa vez de puro alívio por ouvir aquela voz.
— Lucas... meu Deus, onde você está? Por que você sumiu assim? Eu liguei tantas vezes...
— Eu precisei de um tempo para respirar, Maya — Lucas respondeu, a voz tornando-se mais mansa e séria, embora mantivesse o carinho. — O ar de Nova York estava meio sufocante com tantos quarterbacks no ambiente. Mas eu vi a sua foto. E vi a legenda. O que está acontecendo? Você deveria estar comemorando o casamento do seu... grande amor do passado, não?
— Não! Não fala isso, Lucas, por favor — Maya desabafou, sentando-se na cama, a voz firme e carregada de uma urgência desesperada em se declarar. — Escuta o que eu vou te dizer, porque eu passei os últimos três meses morrendo um pouco a cada dia sem você. O Thomas e eu somos passado. Aquilo que aconteceu no meu apartamento... foi o maior erro da minha vida, mas também foi o dia em que eu finalmente acordei. Quando ele me beijou, eu não senti nada do que eu achava que sentia antes. Não havia amor ali, Lucas. Era só um fantasma de um desejo antigo, um capricho carnal que morreu naquele segundo.
Ela respirou fundo, segurando o celular com as duas mãos, deixando o coração falar sem nenhuma barreira.
— Depois daquele dia, depois que você saiu por aquela porta, a minha vida virou um completo vazio. Eu não penso no Thomas. Eu não me importo com o casamento dele, eu passei a cerimônia inteira desejando que fosse você ali comigo. Desde que você se foi, eu só penso em você, Lucas. Eu descobri que o amor de verdade, o respeito, a paz e o futuro que eu quero... tudo isso só existe nos seus braços. Eu amo você. Amo de verdade. Por favor, não me deixa aqui sozinha.
Lucas ouviu cada palavra em absoluto silêncio. Do outro lado da linha, no novo país, ele fechou os olhos, absorvendo o impacto daquela declaração confessional e verídica que tanto esperara ouvir. O peito dele subia e descia com a força das emoções.
— Lucas? Você ainda está aí? — Maya perguntou, o silêncio do outro lado fazendo seu estômago revirar de ansiedade.
Lucas abriu os olhos, soltou um longo e pesado suspiro, processando tudo o que acabara de escutar. Ele sabia que o sentimento dela era real, mas a distância e as feridas do tabuleiro de Tribeca ainda exigiam tempo para se assentar em sua mente.
— Eu preciso processar isso, Maya... — Lucas sussurrou, a voz cortada e misteriosa. — Durma bem.
CLICK.
A ligação caiu. Lucas desligou o aparelho, deixando o silêncio do novo país preencher o quarto. Em Nova York, Maya olhou para a tela apagada do celular, o coração batendo forte. Ele não dissera que a odiava, não dissera que tudo estava acabado; ele apenas precisava de tempo. Pela primeira vez em meses, a esperança acendeu uma pequena chama no peito da herdeira dos Styles.
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