O Legado do Tabuleiro
21 O Estopim na Noite de Natal
A noite de Natal em Tribeca deveria ser um cenário de trégua e celebração, mas o ar na mansão dos Styles e Lâfrer parecia carregar a eletricidade estática que precede uma tempestade. Na enorme sala de estar, a árvore de Natal de três metros de altura brilhava com luzes douradas. Toda a família estava reunida. Sofia e Garret Styles, os patriarcas, observavam o ambiente; James Lâfrer conversava animadamente, enquanto Hope e o filho, Thomas, dividiam as atenções com Chloe Vance. Para o resto do mundo, Thomas parecia finalmente ter aceitado seu destino ao lado da esposa, trocando sorrisos perfeitamente genuínos. A maturidade que o casamento exigia parecia ter se assentado sobre os ombros do rapaz.
Do lado de fora, na sacada fria da casa, Maya Styles observava os flocos de neve caindo lentamente sobre Manhattan. Ela usava um vestido longo de veludo vermelho-fechado, mas seus pensamentos estavam a milhares de quilômetros dali. Fazia exatamente cinco meses desde aquela ligação misteriosa. Cinco meses desde que ouvira a voz de Lucas Carter pela última vez. O silêncio esmagador que se seguiu a fizera chegar a uma dolorosa conclusão: ele com certeza não voltaria mais. E, de alguma forma, ela estava preparada para carregar essa cicatriz, aceitando que o preço de seu erro fora perder o único homem que a amara de verdade.
Expirando o ar gelado, Maya abraçou os próprios ombros, deu as costas para a vista de Nova York e retornou para a sala. Ela caminhou lentamente e sentou-se no sofá ao lado de seu pai. Garret, sentindo a aproximação da filha, passou o braço direito pelos ombros dela, puxando-a para um abraço protetor. Maya encostou a cabeça no peito do pai, mas seus olhos estavam fixos no vazio, os pensamentos completamente perdidos.
Notando o silêncio pesado e o olhar distante da filha caçula, Garret inclinou o rosto, diminuindo o tom de voz.
— Você está bem, minha querida? — Garret perguntou, com um tom carregado de preocupação paternal. — Você mal tocou no champanhe e parece estar em outro planeta.
— Estou bem, pai. Só um pouco cansada da maratona do fim de ano na agência — Maya mentiu, forçando um sorriso que não chegou aos olhos.
James Lâfrer mudou o rumo da conversa ao ouvir a menção à agência, atraindo a atenção de todos na sala, incluindo Thomas e Chloe, que se aproximaram com suas taças ao lado de Hope.
— Já que estamos falando sobre o fim de ano, Garret, acho que é o momento ideal para alinhar a nova diretriz que discutimos com o conselho de Toronto — James começou, adotando sua postura corporativa imponente. — Nós decidimos que, a partir do próximo trimestre, a agência de publicidade de Nova York passará a responder diretamente ao comitê de marketing liderado pela Chloe e pelo meu filho, o Thomas. Queremos centralizar as decisões para evitar os focos de resistência que tivemos nas últimas campanhas.
Maya endireitou o corpo no sofá instantaneamente, desfazendo o abraço do pai. O cansaço em seu rosto desapareceu, substituído pela altivez gélida de uma diretora que não aceitava que pisassem em seu território.
— Espera um pouco, James — Maya interveio, a voz saindo firme e pausada. — Nós nunca fechamos esse acordo. A agência de Nova York é totalmente autônoma desde a gestão da minha irmã, a Hope. Eu não vou submeter os meus planos de mídia ao crivo de Toronto, muito menos a duas pessoas que acabaram de chegar ao tabuleiro administrativo. Isso é um retrocesso e eu não aceito.
Chloe Vance deu um passo à frente, cruzando os braços, um sorriso petulante surgindo em seus lábios perfeitamente pintados de batom vermelho.
— Maya, por favor, vamos deixar o orgulho profissional de fora no Natal — Chloe alfinetou, com tom condescendente. — Toronto tem o controle dos fundos majoritários agora. A centralização é uma decisão puramente técnica para otimizar os lucros. Você deveria ser madura o suficiente para entender que a sua agência é apenas uma engrenagem, não o império inteiro dos Styles.
— Otimizar os lucros ou alimentar o seu ego de dondoca corporativa, Chloe? — Maya rebateu, levantando-se do sofá, postando-se de frente para a esposa de seu sobrinho. A discussão começava a mudar de rumo, os ressentimentos guardados há meses cobrando o preço. Gazela ferida, ela não recuaria. — Você está em Nova York há meses e a única coisa que fez foi tentar palpitar no trabalho dos outros porque não tem capacidade de criar nada do zero.
— Maya! Olha o tom! — Garret advertiu, levantando-se logo em seguida.
— Não, pai! Eu cansei das indiretas dessa mulher! — Maya exclamou, os olhos faiscando.
Chloe, sentindo-se humilhada diante da família de Thomas, perdeu a postura refinada e deu um passo agressivo na direção de Maya, apontando o dedo em seu rosto.
— Você é uma frustrada, Maya! Uma invejosa que não suporta ver o sucesso do meu casamento e da nossa gestão! Você vive pelos cantos com essa cara de santa sofredora, mas todo mundo sabe o que você é. Uma oferecida! Uma oferecida que tentou estragar o meu noivado desde o primeiro dia em que pisamos aqui!
A palavra oferecida quebrou a última barreira de autocontrole de Maya. Em um reflexo de pura fúria acumulada por meses de sofrimento, a caçula dos Styles avançou contra Chloe. As duas se engalfinharam no meio da sala de estar, as mãos puxando tecidos e cabelos em um confronto físico violento.
— Chega! Separa isso agora! — James gritou, a voz ecoando pelo teto alto.
Garret e Thomas correram para o meio do conflito. Thomas segurou Chloe pela cintura, puxando-a para trás, enquanto Garret envolveu os braços ao redor de Maya, afastando-a com força. As duas respiravam arfantes, com as roupas desalinhadas e os rostos vermelhos de raiva.
— Me solta, Thomas! Olha o que essa louca fez! — Chloe gritava, tentando se soltar do abraço do marido, apontando para Maya. — Ela é uma vagabunda! Uma oferecida que se joga para cima de você pelos cantos e que nem o namoradinho idiota aguentou! O tal do Lucas correu de Nova York porque descobriu a piranha que você é!
Maya soltou uma risada histérica, uma gargalhada carregada de puro ódio e escárnio, olhando fixamente para a cara de Chloe e, em seguida, para o rosto pálido de Thomas, que parecia prever o desastre iminente.
— Você quer falar do Lucas, Chloe?! Você quer falar sobre o motivo dele ter ido embora?! — Maya disparou, a voz ecoando como um trovão na sala, fazendo todos estancarem. — Então engole a verdade, sua imbecil! O Lucas foi embora porque ele entrou no meu apartamento e pegou o seu marido perfeito me prensando contra a parede! O Lucas me deixou porque o Thomas foi até a minha casa me agarrar contra a minha vontade! Ele queria largar você, Chloe! Meu sobrinho implorou para ficar comigo e disse que o seu casamento era uma farsa de aparências! O Lucas só se foi porque o filho da minha irmã é um lixo obsessivo que não aceita ter sido rejeitado por mim!
O silêncio que se instalou na imensa sala de Tribeca foi absoluto e aterrorizante.
Chloe Vance congelou, virando o rosto lentamente para olhar para Thomas, que estava com os olhos arregalados, a boca entreaberta e o suor frio escorrendo por sua testa. Sofia cobriu a boca com as duas mãos, soltando um suspiro de puro choque. Hope deu um passo atrás, cambaleando ao ouvir a acusação devastadora sobre o próprio filho.
A partir dali, as coisas pioraram de forma avassaladora. A barreira do segredo familiar havia sido implodida.
— O que foi que você disse, Maya?! — James Lâfrer deu um passo à frente, o rosto vermelho de pura fúria. Ele virou-se para o filho, os olhos injetados. — Thomas... me diz que isso é mentira! Me diz que você não cometeu essa canalhice de ir atrás da sua tia e quase destruir a fusão das nossas famílias por causa dessa sua obsessão nojenta! Eu vou acabar com você!
— James, acalme-se! — Hope tentou segurar o marido, em prantos pelo rumo que as coisas tomaram.
— Acalmar nada, Hope! — Garret Styles interveio, a voz vibrando com um ódio paternal devastador. Ele caminhou até Thomas, apontando o dedo indicador no peito do genro e sobrinho com violência. — Se você encostou um único dedo na minha filha contra a vontade dela, Thomas, eu mato você aqui mesmo! Eu não me importo com porcaria de holding, eu não me importo com conselho! Você é um covarde, um moleque sem caráter que desonrou a nossa casa e a sua própria mãe!
— Garret, ele é meu filho, abaixa o tom! — James gritou, defendendo o sangue de Thomas, mas ainda querendo esganá-lo.
— Ele é um monstro, James! Olha o que ele causou na vida da minha filha! — Sofia chorava ao fundo, sendo amparada por Hope.
A discussão tornou-se generalizada. Chloe gritava com Thomas, desferindo tapas em seus braços e exigindo o divórcio ali mesmo; James gritava com Garret defendendo a autoridade da família Lâfrer; e Garret avançava contra Thomas, que tentava se defender em meio ao caos de acusações cruzadas e gritos histéricos. A sala de estar parecia um Coliseu de destruição moral.
No centro daquele inferno familiar, sentindo o estômago revirar de nojo e exaustão por ver toda aquela hipocrisia e baixaria que vinha controlando sua vida por anos, Maya Styles puxou todo o ar de seus pulmões.
— SILÊNCIO! — ela gritou com toda a força de sua alma.
O grito agudo e cortante de Maya quebrou a gritaria instantaneamente. Todos na sala pararam e viraram os rostos para ela, assustados com a autoridade e o desespero na voz da jovem.
Maya respirava de forma opressa, os olhos vermelhos, mas o semblante completamente firme. Ela ajeitou o decote do vestido de veludo com um puxão ríspido e olhou para cada um deles — para os pais Garret e Sofia, para a irmã Hope, para James Lâfrer, para Chloe e, por fim, com total desprezo, para Thomas.
— Já chega — Maya declarou, a voz agora saindo baixa, firme e cortante. — Olhem para vocês. Olhem a baixaria que vocês estão fazendo na noite de Natal por causa de um passado que já morreu. Thomas, chora o seu casamento fracassado com a Chloe. Chloe, engole o marido que você aceitou por interesse. E vocês — ela olhou para James e Garret —, parem de agir como se estivessem defendendo a minha honra, porque a única coisa que realmente importa para vocês são as ações da holding. Isso tudo já passou. O Lucas se foi, o Thomas casou, e eu estou seguindo em frente. Eu sugiro que vocês façam o mesmo e engulam esse jantar de Natal com o veneno de vocês.
Sem dar tempo para nenhuma tréplica, Maya caminhou até o aparador da entrada com passos decididos. Ela pegou sua bolsa de grife e a chave de seu carro de luxo. Girou a maçaneta da mansão, bateu a porta com força e desceu pelo elevador particular até o subsolo.
Segundos depois, o motor potente de seu carro de luxo rugiu no estacionamento subterrâneo. Maya arrancou em alta velocidade, deixando a mansão e toda a podridão daquela família para trás, dirigindo sem rumo pelas ruas iluminadas e frias de Nova York, finalmente livre do peso daquele segredo.
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