O Legado do Tabuleiro
1 Redzone Familiar
O domingo na mansão de Tribeca mantinha a tradição dos almoços barulhentos, mas a calmaria de cinco anos atrás havia sido substituída pela energia caótica de dois adolescentes que pareciam testar os limites da paciência um do outro a cada segundo.
A mesa de jantar estava impecável, servida com a gastronomia impecável de Sofia e o café forte que Garret fazia questão de passar. James estava sentado à cabeceira, revezando o olhar entre as notificações de seu tablet e o prato, enquanto Hope observava os dois jovens sentados à sua frente com uma sobrancelha arqueada, antecipando a tempestade.
Thomas, agora com dezesseis anos, ombros largos que mal cabiam na cadeira e o maxilar marcado herdado de James, usava o moletom oficial do time da escola. Ele digitava furiosamente no celular, rindo de alguma mensagem de Michael Galoni. Do outro lado da mesa, Maya, com seus dezesseis anos recém-completados, os cachos castanhos presos perfeitamente e os óculos de leitura apoiados no nariz, sublinhava uma apostila de macroeconomia avançada com uma caneta marca-texto neon.
— Dá para você parar de estalar os dedos na tela desse celular, Thomas? — Maya disparou, sem tirar os olhos do livro, a voz afiada. — Algumas pessoas aqui apreciam o silêncio para absorver conteúdo útil, algo que claramente não está acontecendo no seu lado da mesa.
Thomas travou a tela do celular lentamente, soltando uma risada sarcástica que fez o canto de sua boca subir, exatamente como James fazia em Wall Street.
— Conteúdo útil, tia Maya? — Thomas enfatizou o "tia" com um deboche cortante. — É domingo. Ninguém na face da Terra estuda macroeconomia no domingo, a menos que queira ser a pessoa mais isolada da St. Jude’s. O Galoni e eu revisamos as jogadas da liga ontem à noite. Isso sim é estratégia de verdade.
Maya fechou a apostila com um estalo seco, fixando seus olhos castanhos nos escuros dele.
— Estratégia? Correr atrás de uma bola de couro oval enquanto rapazes com o dobro do seu tamanho tentam te amassar contra a grama não é estratégia, Thomas. É entretenimento rudimentar para as massas. Claire Mackenzie e eu estamos organizando o comitê de debates acadêmicos. Isso exige cérebro, não testosterona.
— Rudimentar? — Thomas inclinou-se para a frente, apoiando os antebraços musculosos na mesa. — Esse "entretenimento rudimentar" é o que mantém o nome da St. Jude’s no topo do estado. Garanto que ninguém acorda às cinco da manhã na sexta-feira para ver você e a Claire debaterem o teto de gastos públicos, Maya. Mas o estádio fica lotado para me ver lançar cinquenta jardas na redzone.
Garret interrompeu a mastigação, apontando o garfo na direção de Thomas com um sorriso orgulhoso que fez Sofia lhe dar um tapinha no braço.
— O garoto tem um ponto, Maya — Garret interveio, rindo. — Eu me lembro de quando o James e eu limpávamos o chão com a defesa de West Valley. A cidade parava. É o sangue dos quarterbacks.
— Por favor, Garret, não alimente o ego inflado do seu neto — Sofia pediu, balançando a cabeça com um sorriso terno. — Maya está certa em focar nos estudos, mas, Maya, querida, feche esse livro só durante a refeição.
Hope soltou uma risada baixa, trocando um olhar divertido com James.
— Sabe, James... essa cena me dá uma sensação terrível de déjà vu — Hope comentou, cruzando os braços. — Um quarterback arrogante e uma Styles decidida a rebaixar o ego dele. Onde foi que eu já vi isso?
James deixou o tablet de lado, um sorriso de canto desenhando-se em suas têmporas grisalhas. Ele fixou o olhar no filho, mantendo a postura imponente que o tempo só havia refinado.
— Thomas, a arrogância só é válida se você entregar o resultado na sexta-feira contra a equipe de New Jersey — James disse, a voz grave e pausada. — Se o Galoni não fechar a linha de bloqueio, você vai ser amassado e a sua tia vai usar isso como argumento macroeconômico na próxima semana.
— Ele não vai passar pela linha, pai. O Michael está voando nos treinos — Thomas respondeu, embora tenha suavizado o tom sob a autoridade do pai.
— Tanto faz — Maya resmungou, ajeitando os óculos com desdém. — Só espero que os seus treinos de elite não interfiram no horário do carro de manhã. Eu não pretendo me atrasar porque o quarterback precisou de mais dez minutos para passar gel no cabelo.
— Eu não passo gel, Maya. É natural — Thomas rebateu, piscando provocativamente para ela. — Mas se você quiser uma carona na sexta, promete que deixa a Claire Mackenzie longe da área VIP do estádio. O Galoni quase errou um passe no último treino porque ela ficou encarando ele da arquibancada.
— A Claire tem muito mais bom gosto do que você imagina, Thomas. Ela só estava analisando a mecânica falha do running back de vocês — Maya rebateu, pegando o copo de suco e dando um gole elegante, embora suas bochechas tenham corado levemente com a menção dos amigos.
Elise, assistindo a tudo de sua ponta da mesa, deu um leve toque com a colher na xícara de porcelana, silenciando os dois adolescentes com um único olhar soberano.
— As alfinetadas de vocês estão excelentes para o almoço, meus jovens — a matriarca sentenciou, com um sorriso perspicaz. — Mas lembrem-se de que moram sob o mesmo teto. Guardem um pouco dessa energia para quando as notas do bimestre saírem. Quero ver quem vai dar o primeiro sorriso de vitória nesta mesa.
Thomas e Maya se encararam por mais um segundo longo através da mesa. Havia irritação, orgulho e uma teimosia absurda dividindo o espaço. Mas no fundo daquele choque de realidades, uma faísca diferente — imperceptível para os pais, mas perigosamente presente — brilhou entre o quarterback implacável e a CDF da St. Jude’s. O jogo da nova geração havia oficialmente começado em Tribeca.
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