​A biblioteca da St. Jude’s Academy costumava ser o único santuário onde Maya conseguia organizar seus pensamentos sem o eco de bolas de couro batendo no chão ou risadas vindas do pátio de esportes. O cheiro de madeira antiga e folhas de papel acetinado trazia uma sensação de controle. Sentada na última mesa disposta entre os corredores de economia e direito internacional, ela revisava suas anotações para o próximo comitê de debates.

​— Você está forçando a caneta com tanta força que vai acabar rasgando a folha — comentou Claire, puxando a cadeira à frente e sentando-se com um copo de café gelado nas mãos. — Deixe-me adivinhar: o Quarterback Styles Lâfrer resolveu respirar perto demais de você no café da manhã?

​Maya soltou o ar pelo nariz, erguendo os olhos do caderno. Ela largou a caneta, cruzando as mãos sobre a mesa de carvalho.

​— Ele é simplesmente insuportável, Claire. Thomas acha que as regras da casa e da escola são meras sugestões feitas para os outros, enquanto ele tem passe livre para fazer o que bem entender. Hoje de manhã, ele fez questão de ocupar a mesa inteira da cozinha com os esquemas táticos do treinador, só para eu não ter espaço para abrir o meu notebook.

​— E o que você fez? — Claire deu um gole no café, com os olhos brilhando de diversão.

​— Peguei a jarra de suco de laranja e coloquei exatamente em cima do papel onde ele desenhava as jogadas de ataque. Ele ficou vermelho de raiva.

​— Vocês dois ainda vão queimar aquela mansão de Tribeca por puro orgulho — Claire riu baixo, balançando a cabeça. — Mas falando sério, você viu o mural de avisos da entrada? O diretor reuniu os líderes de grêmios e os capitães de equipe. Parece que a holding dos pais de vocês vai patrocinar o novo pavilhão de esportes e tecnologia da St. Jude. O que significa que...

​— Significa que vamos ter que aparecer juntos nos eventos de caridade da escola — uma voz grossa e cortante interrompeu, vinda do início do corredor de livros.

​Thomas surgiu de trás das prateleiras de madeira, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça de alfaiataria do uniforme, a gravata intencionalmente frouxa no colarinho. Ele não estava com a jaqueta do time, o que deixava evidente a largura de seus ombros sob a camisa branca social. Ele caminhou até a mesa com passos lentos, parando logo ao lado da cadeira de Maya.

​— O que você está fazendo aqui, Thomas? Esse lado da biblioteca é para quem realmente estuda — Maya disse, sem mudar a postura, embora o perfume importado dele tivesse invadido seu espaço instantaneamente.

​— Eu sei ler, Styles. Por incrível que pareça para a sua mente brilhante, o treinador exige notas altas para me manter em campo — ele se inclinou, apoiando as duas mãos na borda da mesa de Maya, reduzindo a distância entre os dois até que ela pudesse ver os detalhes castanhos nos olhos dele. — E o diretor acabou de me avisar. Como eu sou o capitão do time e você é a presidente do comitê acadêmico, os nossos pais querem a gente na linha de frente da apresentação do projeto. Sorrindo para as fotos como os herdeiros perfeitos.

​Maya sustentou o olhar dele, recusando-se a recuar um centímetro sequer. A proximidade física fazia seu coração acelerar, uma reação que ela odiava e atribuía puramente à irritação.

​— Então sugiro que você treine o seu melhor sorriso falso, Lâfrer. Porque se você abrir a boca para falar as suas bobagens arrogantes na frente dos investidores, eu mesma faço questão de desmanchar o seu comercial de TV.

​Thomas soltou uma risada abafada, um som rouco que arrepiou a nuca de Maya. Ele se endireitou, cruzando os braços e olhando para ela de cima com uma mistura de deboche e desafio.

​— Você adora ditar regras, não é? Mas na hora em que o holofote acender, vamos ver quem sabe jogar sob pressão de verdade, CDF. Vejo você em casa. Não atrase para o jantar, a mamãe odeia esperar.

​Ele deu um tapinha leve na mesa, virou as costas e se afastou pelo corredor, deixando um rastro de tensão para trás. Claire esperou que os passos dele sumissem completamente antes de se inclinar para frente, de olhos arregalados.

​— Maya... se o ódio de vocês fosse eletricidade, a fiação dessa biblioteca teria explodido agora mesmo.