O Legado do Tabuleiro
3 As Regras do Tabuleiro
O quarto de Maya era o reflexo exato de sua mente: meticulosamente organizado, com prateleiras repletas de livros de economia dispostos por ordem de autor e uma mesa de estudos onde cada caneta parecia ter uma coordenada geográfica própria. Era o seu refúgio sagrado em Tribeca. Ou pelo menos deveria ser.
A porta foi aberta sem qualquer cerimônia, e Thomas cruzou o batente segurando um tablet que exibia o novo organograma da holding da família. Ele nem sequer olhou para Maya, caminhando direto até a cama dela e se jogando no acolchoado de linho egípcio, sujando os lençóis claros com a meia preta que usara no treino.
— Você perdeu o juízo ou o quê? — Maya disparou, levantando-se da cadeira de solavanco. Ela apontou para os pés dele. — Saia da minha cama agora mesmo, Thomas! E quem te deu permissão para entrar no meu quarto sem bater?
— A porta estava encostada, Styles. E nós temos um problema prático para resolver antes do jantar — Thomas rebateu, girando o tablet nos dedos com uma calma irritante. Ele se inclinou para trás, apoiando as costas nos travesseiros dela. — O assessor do meu pai acabou de mandar o cronograma do evento da St. Jude. Eles querem que a gente faça a abertura do projeto juntos. Você apresentando os dados técnicos do pavilhão de tecnologia e eu... bem, sendo o rosto do setor de esportes.
— Eu não vou dividir o microfone com você — Maya cruzou os braços, os olhos faiscando de pura indignação. — Você não consegue formular uma frase sobre o legado da empresa sem mencionar um touchdown ou usar uma metáfora barata de vestiário. Vai arruinar a imagem profissional que eu passei meses construindo no comitê acadêmico.
Thomas soltou uma risada anasalada, aqueles olhos escuros e cortantes subindo pelos detalhes do rosto de Maya com um misto de deboche e pura provocação.
— Engraçado você falar de imagem profissional, CDF, quando todo mundo na escola sabe que você só ganhou aquela presidência porque decora os manuais de instrução. No mundo real, as pessoas querem carisma. Elas querem ver o legado Styles Lâfrer com energia, não uma leitura de slide entediante.
— Carisma? Você chama essa sua arrogância prepotente de carisma? — Maya deu dois passos rápidos na direção da cama, parando bem diante dele, a respiração acelerada pelo ódio. — Você é o quarterback titular só porque herdou o físico do James. Mas no momento em que precisar usar mais de dois neurônios para defender o sobrenome da nossa família em uma reunião de acionistas, você vai desabar.
Thomas congelou por um segundo. O sorriso de deboche sumiu de seus lábios, substituído por uma intensidade fria e perigosa. Ele se levantou da cama lentamente, usando sua estatura física imponente para encurtar o espaço entre eles, forçando Maya a inclinar a cabeça para trás para continuar sustentando o olhar.
— Você adora me reduzir a um pedaço de músculo com uma jaqueta do time, não é? — a voz dele desceu um tom, áspera e séria. — Mas você esquece que eu conheço as regras do jogo tanto quanto você. Eu jogo sob a pressão de dez mil pessoas assistindo e cobrando o meu rendimento. Você joga escondida atrás de pilhas de papel onde ninguém pode te tocar. Sabe o que é o seu problema, Maya? Você tem pavor de qualquer coisa que saia do seu controle. Inclusive de mim.
A proximidade era sufocante. Maya podia sentir o calor que emanava dele, o perfume marcante invadindo seus sentidos de uma forma que a deixava desconfortável e irritada. Ela deu um passo firme para trás, mantendo o queixo erguido.
— Eu não tenho medo de você, Thomas. Eu tenho preguiça. Agora sai do meu quarto antes que eu jogue esse seu tablet pela janela.
Thomas sustentou o olhar dela por mais alguns segundos, o maxilar trincado, antes que um sorriso de canto lento e cínico voltasse a surgir em seu rosto.
— Até o jantar, titia. Tente não usar o seu blazer de velha nojenta.
Ele virou as costas e saiu, batendo a porta com força suficiente para fazer os quadros na parede tremerem.
O Teatro do Jantar
Quando o jantar foi servido na imensa mesa de jantar de Tribeca, a atmosfera estava carregada. Maya sentou-se ao lado de sua mãe, Sofia, mantendo os olhos estritamente fixos no prato de porcelana. Thomas sentou-se exatamente à sua frente, ao lado de James, focado em cortar seu filé com uma precisão quase teatral. Durante os primeiros vinte minutos, os dois operaram em um sistema de ignorância mútua absoluta. Se Maya pedia a salada, Thomas desviava o olhar; se Thomas estendia a mão para o sal, Maya recolhia os braços.
— O evento na St. Jude na próxima semana vai ser o nosso maior movimento do trimestre — James Lâfrer anunciou, limpando os lábios com o guardanapo e quebrando o silêncio. — Garret e eu fechamos os últimos detalhes com o reitor. Nós vamos anunciar a fusão dos fundos de investimento da holding para a nova ala de engenharia e alta performance.
— Vai ser fantástico — Garret Styles interveio, os olhos brilhando com o entusiasmo dos negócios. — A imprensa de Nova York vai cobrir em peso. O foco vai ser a transição de liderança. Queremos mostrar ao mercado que a nova geração já está pronta e perfeitamente alinhada. Thomas na liderança esportiva e a Maya comandando a bancada acadêmica.
— É uma jogada de mestre, James! — Sofia comentou, eufórica, trocando um olhar animado com Hope. — Isso vai calar os boatos sobre qualquer instabilidade na transição familiar da holding. Os jornais de Tribeca vão amar a narrativa dos herdeiros prodígios.
Toda a mesa começou a debater os detalhes com entusiasmo, as vozes subindo de tom enquanto projetavam o impacto das ações na bolsa de valores. Maya, no entanto, apenas mexia na comida com o garfo. O tédio e a irritação de ter que encenar aquele papel de "família perfeita em perfeita harmonia" ao lado de Thomas faziam seu estômago revirar.
Sem dizer uma palavra, ela empurrou a cadeira silenciosamente, aproveitou a distração dos adultos e se levantou.
— Com licença, vou pegar um copo de água na cozinha — murmurou para Sofia, retirando-se da sala com passos rápidos.
Jogo de Cego na Cozinha
A cozinha de Tribeca estava na penumbra, iluminada apenas pelas luzes embutidas sob os armários de laca preta. Maya se encostou contra a ilha de mármore, soltando um suspiro pesado enquanto segurava um copo de vidro vazio.
— Fugindo do debate econômico, Styles? Achei que esse fosse o seu habitat natural.
Maya nem precisou se virar para saber quem era. Os passos pesados e aquela voz arrastada eram inconfundíveis. Thomas entrou na cozinha, com a camisa social agora com as mangas dobradas até os antebraços, revelando as veias marcadas.
— Eu só queria cinco minutos longe da sua presença e da hipocrisia desse jantar, Thomas — ela disse, abrindo a geladeira para pegar a jarra de água.
— Hipocrisia? — ele caminhou até o outro lado da ilha de mármore, inclinando-se sobre o balcão, observando-a encher o copo. — Eu achei que você estivesse adorando. Afinal, o papai e o tio Garret passaram metade do tempo elogiando o seu relatório de finanças. Você deve ter tido um orgasmo mental com aquilo.
Maya bateu a jarra de vidro contra o mármore com força, fazendo a água espirrar de leve.
— Você não consegue ser sério por um segundo, consegue? — ela deu a volta na ilha, parando a centímetros dele, o copo na mão trêmulo pela raiva contida. — Nós vamos ter que fingir que nos suportamos na frente de centenas de investidores na próxima semana. Se você cometer um deslize, se você agir como o idiota imaturo que você é na escola, você não vai estar prejudicando só a sua reputação vazia. Vai estar mexendo com o meu futuro na holding!
Thomas não recuou. Em vez disso, ele estendeu a mão lentamente e segurou a borda do copo que ela segurava, estabilizando os dedos trêmulos de Maya. O toque de seus dedos quentes contra a pele fria dela causou um choque invisível na penumbra da cozinha.
— Você se estressa demais, Maya — ele sussurrou, a voz perdendo o tom de deboche, restando apenas uma provocação sombria e magnética. — Eu sei exatamente quando acelerar o jogo e quando manter a bola protegida. Eu não vou errar no palco. Mas se você continuar me olhando como se quisesse me rasgar em pedaços na frente dos nossos pais, eles vão acabar percebendo que a nossa briga não é mais sobre quem usa o escritório da casa.
Maya tentou puxar o copo de volta, mas a mão de Thomas continuou firme, mantendo-os conectados pelo vidro. Ela prendeu a respiração, os olhos cravados nos dele, sentindo aquela tensão perigosa e inexplicável começar a fechar o cerco ao redor dos dois.
— Me solta, Thomas — ela pediu, a voz saindo um pouco mais baixa do que pretendia.
— Jogue de acordo com as regras na semana que vem, CDF — ele soltou o copo devagar, dando um passo para trás com um sorriso enigmático que quase parecia um aviso. — E talvez eu deixe você ganhar a primeira rodada no tabuleiro.
Thomas deu as costas e saiu da cozinha, deixando Maya sozinha no escuro, com o coração batendo descompassado e o gosto amargo de quem sabia que o jogo estava ficando perigosamente fora de controle.
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