O Legado do Tabuleiro

13 Os Novos Caminhos do Tabuleiro



​O tempo não parou para curar as feridas deixadas em Tribeca. Com a mudança consolidada, as rotinas foram reformuladas para garantir que as vidas de Maya e Thomas corressem em linhas paralelas que jamais voltariam a se cruzar.

​Maya foi transferida para a East Side High, a antiga e tradicional escola de Nova York onde seu pai, Garret, e sua mãe, Sofia, haviam estudado décadas atrás — o mesmo lugar onde a história de sua família realmente começara. Caminhar por aqueles corredores de tijolos aparentes e carvalho escuro trazia uma sensação estranha de nostalgia e melancolia.

​Durante o intervalo, Maya pegou-se parada no corredor principal, diante do imenso painel de vidro que guardava a memória esportiva do colégio. Seus olhos vagaram pelas fotos em tom de sépia e pelas imagens coloridas mais recentes. Ali estava uma fotografia antiga da "velha guarda": seu pai, Garret, jovem e sorridente com o uniforme do time de futebol americano, ao lado de James, o avô de Thomas. Logo abaixo, em uma seção dedicada aos anos 2000, havia uma foto de destaque de sua irmã, Hope, brilhando em seu uniforme de capitã das líderes de torcida.

​Maya suspirou, tocando o vidro friamente, sentindo o peso de pertencer a uma linhagem que parecia condenada a repetir os mesmos dramas.

​— Sabe, a lenda diz que se você encarar essa foto do time de 95 por mais de cinco minutos, o fantasma do quarterback da época aparece para pedir um passe — uma voz masculina, descontraída e com um tom ligeiramente rouco, soou logo ao seu lado.

​Maya sobressaltou-se de leve, virando a cabeça. Um rapaz alto, de cabelos castanhos claros desalinhados e olhos verdes expressivos, estava encostado no armário vizinho, segurando uma pasta de couro. Ele tinha um sorriso amigável e despretensioso no rosto.

​— Desculpe, não queria te assustar — ele completou, estendendo a mão de forma cortês. — Sou Lucas Vance.

​Maya piscou, recolhendo os braços e analisando o rapaz por um segundo antes de apertar a mão dele.

​— Maya. Maya Styles.

​Os olhos de Lucas brilharam com um estalo de reconhecimento. Ele olhou para a foto antiga de Garret no mural e depois voltou a olhar para ela, sorrindo de canto.

​— Styles... Então você é fruto da velha guarda? O seu pai é o Garret Styles, o cara que financiou metade do novo laboratório de mídia da escola?

​— Sim, sou filha dele — Maya respondeu, a guarda ligeiramente alta, acostumada com o interesse corporativo que seu sobrenome atraía. — Você conhece a história dele?

​— Todo mundo que joga ou estuda a história da East Side conhece o seu pai e o James Lâfrer — Lucas explicou, desencostando-se do armário e apontando para o painel. — Meu tio jogou no mesmo campeonato que eles. Ele sempre dizia que a coordenação de jogadas daqueles dois era imbatível. É bizarro ver você aqui agora. Sabe... você não tem muito a cara de quem curte a nostalgia dos anos noventa. Parece mais focada em quebrar algum recorde acadêmico.

​Maya não pôde deixar de soltar uma risada curta, a primeira em semanas. A leveza de Lucas era um contraste bem-vindo com a densidade que a cercava em casa.

​— Eu estava apenas... tentando entender como vim parar no início de tudo — ela admitiu, relaxando os ombros.

​— Bem, se precisar de um guia que conheça os lados menos assustadores da East Side, eu sou o seu cara — Lucas ofereceu, com uma piscada amigável. — Estou indo para a aula de história da arte agora. Quer companhia até o pavilhão central?

​Maya olhou para o corredor, sentindo que aquela nova amizade poderia ser exatamente o escudo de que precisava para reconstruir sua mente.

​— Eu adoraria, Lucas. Obrigada.

​A Sombra de um Pai

​Enquanto isso, na imensa e silenciosa mansão de Tribeca, o Thomas de outrora havia sido completamente sepultado. Ele agora se tornara um rapaz frio, metódico e calculista — uma cópia exata e assustadora da postura corporativa implacável que seu pai, James, ostentara nos anos mais duros da holding. Ele não sorria, não provocava e usava cada minuto de seu dia para estudar, treinar e planejar seu próprio exílio. Ele havia se inscrito secretamente em universidades fora do país, com um único objetivo: colocar uma fronteira internacional entre ele e o resto da família.

​Naquela manhã, o som dos talheres contra a porcelana era o único ruído na mesa de café da manhã. James e Hope comiam em silêncio quando Thomas entrou na sala de jantar. Ele vestia um moletom preto, os olhos escuros focados em um envelope pardo que trazia nas mãos. Ele sentou-se à mesa, serviu-se de café puro e largou o documento exatamente no centro, entre os pais.

​— O que é isso, Thomas? — Hope perguntou, com a voz mansa, o cenho franzido pela apreensão constante que sentia perto do filho.

​— Minha passagem de saída — Thomas respondeu, a voz gélida, destituída de qualquer emoção. Ele empurrou o papel na direção de James. — É a carta de aceitação oficial da McGill University, no Canadá. Eu fui aceito no programa de elite deles.

​James Lâfrer largou o garfo lentamente, pegando o envelope. Ele leu os papéis com os olhos semicerrados, analisando os termos corporativos e os detalhes da bolsa esportiva.

​— Canadá, Thomas? — James perguntou, a voz grossa e ponderada, mantendo a postura firme. — A McGill é uma instituição fantástica, mas fica a horas de distância de Nova York. Você recebeu propostas excelentes de Columbia e da NYU. Por que ir tão longe?

​— Porque eu finalmente vou sumir daqui no fim do ano — Thomas disparou direto, olhando nos olhos do pai com uma frieza que fez Hope encolher-se levemente na cadeira. — Eu fechei o contrato com o comitê atlético deles. Eu vou jogar no time da faculdade deles como quarterback titular e vou me formar em administração de empresas. Vou construir o meu próprio espaço longe da holding, longe de Tribeca e longe de vocês.

​A conversa tornou-se instantaneamente intensa. Hope colocou a mão sobre o peito, os olhos marejados diante do desapego brutal do filho.

​— Thomas... você está fazendo isso por causa da... por causa do que aconteceu? Você está se punindo ou punindo a nós? — ela questionou, com a voz embargada.

​— Eu não estou me punindo, mãe. Estou me salvando — Thomas rebateu, virando o rosto para ela, o semblante rígido. — Eu cumpri a minha parte. Fiquei em silêncio, mantive a distância que vocês exigiram e não quebrei as regras do tabuleiro de vocês. Mas eu não vou passar os próximos quatro anos respirando o mesmo ar de uma família que prefere salvar as ações da bolsa a encarar a realidade. Eu assino os papéis hoje à tarde.

​James observou o filho por um longo tempo. Ele viu no maxilar trincado de Thomas e na determinação implacável de suas palavras a mesma teimosia que ele próprio tivera na juventude. James sabia que tentar prender Thomas em Nova York só aumentaria o ódio e a chance de uma nova explosão.

​— Se essa é a sua decisão, Thomas... se você acha que tem a capacidade de gerenciar a sua carreira e os seus estudos sob a pressão de outro país, eu não vou te impedir — James declarou, com a voz pesada, mas demonstrando um respeito profissional pelo movimento do filho. — Os Lâfrer não imploram por presença. Vá para o Canadá. Mostre a eles o que o nosso sangue sabe fazer em campo.

​Thomas assentiu uma única vez, pegou a carta de volta, tomou o último gole de café e levantou-se da mesa sem dizer mais nada, deixando os pais sozinhos com o eco de sua partida iminente.

​O Roteiro de Maya

​Na nova casa dos Styles, a atmosfera era mais acolhedora, embora carregada de uma calmaria melancólica. No escritório de Garret, a família estava reunida após o jantar para discutir os planos futuros. Sofia servia o chá enquanto Garret revisava alguns layouts de marketing da holding no tablet.

​Maya sentou-se na poltrona à frente do pai, com uma postura madura e decidida. Ela olhou para os pais com uma serenidade que havia conquistado nos últimos meses na East Side High.

​— Pai, mãe... eu tomei a minha decisão sobre a universidade — Maya anunciou, chamando a atenção de ambos.

​Garret ergueu os olhos, deixando o tablet de lado.

​— E então, minha querida? Decidiu ceder aos convites da Ivy League? Boston está esperando por você.

​— Não, pai. Eu vou fazer faculdade aqui mesmo, perto de casa, na faculdade da cidade — Maya respondeu, convicta.

​Sofia franziu o cenho, surpresa, mas sem discordar imediatamente.

​— Na faculdade da cidade, Maya? Com as suas notas, você tem portas abertas em qualquer lugar do país. Por que quer ficar?

​— Porque eu cansei de fugir e de mudar de cenário para tentar esquecer os problemas — Maya explicou, com um sorriso triste, mas firme. — E eu decidi mudar o meu curso. Eu não vou cursar economia pura. Eu vou fazer Publicidade e Propaganda.

​Garret ajeitou os óculos, genuinamente surpreso com a mudança de direção da filha que sempre fora focada em números.

​— Publicidade, filha? Por quê?

​— Porque a holding já tem analistas de números o suficiente, pai. O que a nossa empresa precisa para a nova geração é de uma identidade sólida, de alguém que saiba como comunicar o nosso legado para o mercado sem que a gente precise se esconder atrás de fachadas — ela explicou, lançando um olhar cúmplice para o pai. — Quero ajudar a gerenciar a imagem da empresa da família diretamente daqui. Quero estar por perto, apoiar você e a mãe, e construir uma estrutura que não dependa de segredos para se manter de pé.

​Garret olhou para a filha caçula e sentiu um orgulho profundo expandir seu peito. Ele estendeu a mão sobre a mesa, apertando os dedos de Maya com carinho.

​— Se o seu coração e a sua mente estão alinhados com isso, Maya... você tem o meu total apoio. A publicidade da Styles vai estar em mãos brilhantes.

​As peças do tabuleiro haviam se movido definitivamente. Enquanto Thomas se preparava para cruzar as fronteiras rumo ao frio do Canadá, focado em se tornar um líder implacável através da administração e do esporte, Maya escolhera fincar suas raízes em Nova York, buscando na publicidade e nas novas amizades uma forma de curar o passado e reescrever o futuro de sua própria história.