O Legado do Tabuleiro
17 O Reflexo no Vidro
A manhã na sede da holding estava em ritmo frenético. Na sala envidraçada que outrora pertencera a Hope, Maya Styles parecia uma força da natureza. Ela não parava por um único segundo. Caminhava de um lado para o outro com o tablet em mãos, organizava pilhas de relatórios sobre a mesa, abria gavetas de arquivos físicos para checar contratos antigos e ditava comandos rápidos pelo telefone no viva-voz. Seu blazer azul-marinho estava perfeitamente alinhado, mas a agitação de seus movimentos denunciava o quanto ela usava o trabalho como um escudo para manter a mente ocupada.
Do outro lado do amplo corredor, na sala de reuniões principal, o vidro do escritório oferecia uma visão panorâmica das ações de Maya. Ali, sentados ao redor da mesa de centro, estavam James, Garret e Thomas. Os três Lâfrer e Styles revisavam alguns papéis secundários, mas a conversa entre os mais velhos corria por trilhas triviais sobre o fim de semana.
— Eu estava dizendo ao James, Thomas — Garret comentou, encostando-se na poltrona de couro e tomando um gole de café. — O clube de golfe de Long Island mudou o traçado do buraco sete. Agora exige muito mais precisão no drive. Nós devíamos ir lá no próximo sábado.
— Com certeza. Da última vez, o Garret quase perdeu três bolas no lago por pura teimosia — James brincou, soltando uma risada curta, olhando para o neto. — O que acha, Thomas? Um pouco de esporte fora dos gramados profissionais faria bem para você relaxar essa postura de executivo.
Thomas não respondeu imediatamente. Ele estava com os braços cruzados, o corpo virado na direção da janela de vidro. Seus olhos escuros e fixos não desviavam de Maya. Ele observava a forma como ela prendia o cabelo com uma caneta, como andava decidida pela sala, ignorando o mundo ao redor. Aquela frieza calculista que ele cultivara nos últimos cinco anos parecia derreter toda vez que a via naquela rotina.
— Thomas? Está na Terra? — Garret chamou, arqueando as sobrancelhas ao notar a total distração do neto.
— Sim. Estou ouvindo — Thomas respondeu, a voz grossa e monótona, sem desviar o olhar do vidro. — Sábado parece bom. Só preciso checar a agenda de imprensa com a Chloe.
Nesse exato momento, o fluxo no corredor mudou. Lucas Carter surgiu no final do andar. Ele vestia um terno cinza moderno e trazia uma sacola de papel elegante de um dos restaurantes mais bem cotados do distrito financeiro. Lucas caminhou direto para a sala de Maya, bateu duas vezes por cortesia e empurrou a porta de vidro.
Ao ver o namorado, Maya estancou no meio da sala, deixando uma pasta de arquivos sobre a mesa. O cansaço em seu rosto foi imediatamente substituído por um sorriso genuíno de alívio.
— Você não para nunca, não é? — Lucas disse, a voz ecoando suave enquanto ele colocava a sacola de almoço sobre a mesa dela.
— O mercado de Nova York não espera eu respirar, Lucas — ela respondeu, aproximando-se.
Antes que ela pudesse dizer mais nada, Lucas deu um passo à frente, envolveu a cintura de Maya com firmeza e a puxou para si. Ele a beijou com vontade, um beijo profundo, apaixonado e cheio de propriedade, que fez Maya esquecer os papéis por um instante. Ela correspondeu, colando seu corpo ao dele e segurando os ombros de Lucas, entregando-se àquela demonstração pública de afeto e segurança.
Do outro lado do vidro, a cena caiu como uma bomba silenciosa na sala de reuniões.
Garret Styles endireitou o corpo na cadeira, observando o beijo da filha através do vidro com um semicerrar de olhos pensativo.
— Olha só para eles — James comentou, quebrando o silêncio, cruzando as mãos sobre a mesa e observando o casal na sala em frente. — O rapaz realmente tem presença. Pelo que a Hope me contou, ele tem sido um suporte incrível para a Maya nos últimos tempos. Sabe, Garret... do jeito que as coisas estão indo rápido, talvez o assunto seja sério. Não me surpreenderia se logo os dois decidissem se casar também. Seria uma excelente aliança familiar e traria uma estabilidade definitiva para a Maya aqui em Nova York.
O som da palavra casar ecoou nos ouvidos de Thomas como um estalo de chicote.
Seu maxilar trincou instantaneamente. Os olhos dele focaram na mão de Lucas que ainda repousava na cintura de Maya. Uma onda de fúria possessiva e um sofrimento reprimido rasgaram o peito de Thomas, fazendo seu sangue ferver. A maturidade que ele tanto ostentava ruiu por completo diante do painel de vidro.
Sem dizer uma única palavra, Thomas levantou-se da poltrona em um sobressalto violento. O movimento brusco fez a cadeira de couro rolar para trás, batendo contra o aparador. Ele pegou seu paletó com um puxão ríspido, o rosto completamente rígido e os olhos injetados.
— Eu tenho um compromisso com o setor de auditoria agora — Thomas mentiu, a voz saindo absurdamente gélida e cortante. — Com licença.
Ele virou as costas e saiu da sala de reuniões a passos largos, batendo a porta de madeira com uma força controlada, mas que deixou o eco de sua raiva no recinto.
Garret e James acompanharam a saída do rapaz com os olhares atentos. O silêncio voltou a reinar na sala do conselho, mas agora carregado de uma revelação incômoda. Garret soltou um longo suspiro, voltando a olhar para o vidro onde Maya e Lucas agora começavam a arrumar os pratos do almoço na mesa, conversando de forma leve.
— Ele não esqueceu, James — Garret declarou, a voz baixa, grave e preocupada, olhando para o amigo de décadas. — Cinco anos de distância, uma noiva perfeita no Canadá, e bastou ver a Maya com outro homem para o Thomas perder o controle desse jeito.
James Lâfrer passou a mão pelo rosto, o semblante pesado pelo fantasma do passado que insistia em não morrer.
— Eu notei, Garret — James admitiu, com um tom de amargura e resignação na voz. — O rapaz ainda tem sentimentos profundos por ela. A ferida só estava anestesiada, mas o sangue deles... o sentimento que eles criaram ainda está ali, destruindo qualquer barreira que a gente tente impor. Só nos resta torcer para que a Maya se mantenha firme com o Lucas, ou esse tabuleiro vai ruir outra vez.
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