​A manhã na sede da holding estava em ritmo frenético. Na sala envidraçada que outrora pertencera a Hope, Maya Styles parecia uma força da natureza. Ela não parava por um único segundo. Caminhava de um lado para o outro com o tablet em mãos, organizava pilhas de relatórios sobre a mesa, abria gavetas de arquivos físicos para checar contratos antigos e ditava comandos rápidos pelo telefone no viva-voz. Seu blazer azul-marinho estava perfeitamente alinhado, mas a agitação de seus movimentos denunciava o quanto ela usava o trabalho como um escudo para manter a mente ocupada.

​Do outro lado do amplo corredor, na sala de reuniões principal, o vidro do escritório oferecia uma visão panorâmica das ações de Maya. Ali, sentados ao redor da mesa de centro, estavam James, Garret e Thomas. Os três Lâfrer e Styles revisavam alguns papéis secundários, mas a conversa entre os mais velhos corria por trilhas triviais sobre o fim de semana.

​— Eu estava dizendo ao James, Thomas — Garret comentou, encostando-se na poltrona de couro e tomando um gole de café. — O clube de golfe de Long Island mudou o traçado do buraco sete. Agora exige muito mais precisão no drive. Nós devíamos ir lá no próximo sábado.

​— Com certeza. Da última vez, o Garret quase perdeu três bolas no lago por pura teimosia — James brincou, soltando uma risada curta, olhando para o neto. — O que acha, Thomas? Um pouco de esporte fora dos gramados profissionais faria bem para você relaxar essa postura de executivo.

​Thomas não respondeu imediatamente. Ele estava com os braços cruzados, o corpo virado na direção da janela de vidro. Seus olhos escuros e fixos não desviavam de Maya. Ele observava a forma como ela prendia o cabelo com uma caneta, como andava decidida pela sala, ignorando o mundo ao redor. Aquela frieza calculista que ele cultivara nos últimos cinco anos parecia derreter toda vez que a via naquela rotina.

​— Thomas? Está na Terra? — Garret chamou, arqueando as sobrancelhas ao notar a total distração do neto.

​— Sim. Estou ouvindo — Thomas respondeu, a voz grossa e monótona, sem desviar o olhar do vidro. — Sábado parece bom. Só preciso checar a agenda de imprensa com a Chloe.

​Nesse exato momento, o fluxo no corredor mudou. Lucas Carter surgiu no final do andar. Ele vestia um terno cinza moderno e trazia uma sacola de papel elegante de um dos restaurantes mais bem cotados do distrito financeiro. Lucas caminhou direto para a sala de Maya, bateu duas vezes por cortesia e empurrou a porta de vidro.

​Ao ver o namorado, Maya estancou no meio da sala, deixando uma pasta de arquivos sobre a mesa. O cansaço em seu rosto foi imediatamente substituído por um sorriso genuíno de alívio.

​— Você não para nunca, não é? — Lucas disse, a voz ecoando suave enquanto ele colocava a sacola de almoço sobre a mesa dela.

​— O mercado de Nova York não espera eu respirar, Lucas — ela respondeu, aproximando-se.

​Antes que ela pudesse dizer mais nada, Lucas deu um passo à frente, envolveu a cintura de Maya com firmeza e a puxou para si. Ele a beijou com vontade, um beijo profundo, apaixonado e cheio de propriedade, que fez Maya esquecer os papéis por um instante. Ela correspondeu, colando seu corpo ao dele e segurando os ombros de Lucas, entregando-se àquela demonstração pública de afeto e segurança.

​Do outro lado do vidro, a cena caiu como uma bomba silenciosa na sala de reuniões.

​Garret Styles endireitou o corpo na cadeira, observando o beijo da filha através do vidro com um semicerrar de olhos pensativo.

​— Olha só para eles — James comentou, quebrando o silêncio, cruzando as mãos sobre a mesa e observando o casal na sala em frente. — O rapaz realmente tem presença. Pelo que a Hope me contou, ele tem sido um suporte incrível para a Maya nos últimos tempos. Sabe, Garret... do jeito que as coisas estão indo rápido, talvez o assunto seja sério. Não me surpreenderia se logo os dois decidissem se casar também. Seria uma excelente aliança familiar e traria uma estabilidade definitiva para a Maya aqui em Nova York.

​O som da palavra casar ecoou nos ouvidos de Thomas como um estalo de chicote.

​Seu maxilar trincou instantaneamente. Os olhos dele focaram na mão de Lucas que ainda repousava na cintura de Maya. Uma onda de fúria possessiva e um sofrimento reprimido rasgaram o peito de Thomas, fazendo seu sangue ferver. A maturidade que ele tanto ostentava ruiu por completo diante do painel de vidro.

​Sem dizer uma única palavra, Thomas levantou-se da poltrona em um sobressalto violento. O movimento brusco fez a cadeira de couro rolar para trás, batendo contra o aparador. Ele pegou seu paletó com um puxão ríspido, o rosto completamente rígido e os olhos injetados.

​— Eu tenho um compromisso com o setor de auditoria agora — Thomas mentiu, a voz saindo absurdamente gélida e cortante. — Com licença.

​Ele virou as costas e saiu da sala de reuniões a passos largos, batendo a porta de madeira com uma força controlada, mas que deixou o eco de sua raiva no recinto.

​Garret e James acompanharam a saída do rapaz com os olhares atentos. O silêncio voltou a reinar na sala do conselho, mas agora carregado de uma revelação incômoda. Garret soltou um longo suspiro, voltando a olhar para o vidro onde Maya e Lucas agora começavam a arrumar os pratos do almoço na mesa, conversando de forma leve.

​— Ele não esqueceu, James — Garret declarou, a voz baixa, grave e preocupada, olhando para o amigo de décadas. — Cinco anos de distância, uma noiva perfeita no Canadá, e bastou ver a Maya com outro homem para o Thomas perder o controle desse jeito.

​James Lâfrer passou a mão pelo rosto, o semblante pesado pelo fantasma do passado que insistia em não morrer.

​— Eu notei, Garret — James admitiu, com um tom de amargura e resignação na voz. — O rapaz ainda tem sentimentos profundos por ela. A ferida só estava anestesiada, mas o sangue deles... o sentimento que eles criaram ainda está ali, destruindo qualquer barreira que a gente tente impor. Só nos resta torcer para que a Maya se mantenha firme com o Lucas, ou esse tabuleiro vai ruir outra vez.