​A fuga de Maya transformou a mansão de Tribeca num campo de minas emocional. Ela corria pelos corredores como uma intrusa em sua própria casa, calculando rotas para evitar Thomas na cozinha, na sala de jantar e até na biblioteca da St. Jude's, onde se escondeu nas fileiras de literatura medieval.

​— O Quarterback de Ouro quase tropeçou para chamar a sua atenção no almoço e você nem piscou. O que está acontecendo? — Claire a questionara no pátio.

— Nada, Claire. Só estou focada. Energia economizada ao deixar o Thomas falando sozinho é energia que uso nos estudos — Maya respondera, sem tirar os olhos do livro.

​Mas a calmaria era falsa. Passava das dez da noite quando a porta de Maya foi aberta com um estrondo. Thomas fechou-a atrás de si, encostando-se na madeira, com as mãos nos bolsos e o maxilar trincado.

​— Thomas! O que você está fazendo? Eu já te disse para bater! — Maya disparou, levantando-se da escrivaninha.

— Eu estou cansado disso, Maya! Estou farto de você fugir de mim. Que porra está acontecendo? O acordo de amizade foi para o lixo?

— Não está acontecendo nada, Thomas. Eu estou ocupada. Tenho exames, tenho a holding... Você é quem está paranoico.

— Mentira! — ele deu dois passos rápidos na direção dela. — Você não está ocupada. Você está com medo. Com medo do que quase aconteceu na piscina. Com medo de admitir que a gente não consegue ser só amigo. Você está com medo de mim, Styles.

​A proximidade era sufocante. Maya sentia o calor dele sugar o ar do quarto.

— Eu não tenho medo de você, Thomas Lâfrer — ela sussurrou, a voz trêmula. — Eu tenho medo do que eu sinto quando você chega perto demais. Eu não consigo me controlar perto de você. E eu odeio isso.

​O silêncio foi elétrico. Thomas piscou devagar, a fúria em seu olhar transformando-se em uma intensidade devoradora.

— Você me odeia... — ele repetiu a frase, a voz descendo para um sussurro áspero, enquanto sua mão direita subia lentamente, roçando na curva do pescoço dela. — Mas você me quer, Maya. Do mesmo jeito que eu quero você.

​Thomas inclinou o rosto e capturou os lábios dela. Maya gemeu baixinho, agarrando-se na gola da camiseta dele. O beijo evoluiu rapidamente para algo intenso e desesperado. Thomas segurou a cintura dela com força, impulsionando-a para trás até que as costas dela batessem na escrivaninha. Papéis caíram no chão. Ele se encaixou entre as pernas dela. Maya arfava, sua língua travando uma batalha voraz com a dele. As mãos dela seguravam o cabelo dele enquanto Thomas deslizava a mão pela curva do quadril dela, subindo por dentro do blazer que ela ainda vestia.

​Eles estavam num transe de desejo puro, uma bolha de eletricidade que parecia protegê-los do mundo.

​— ...e se a gente fechar o acordo com os fundos de Hamptons até sexta-feira... — a voz grave e familiar de James Lâfrer ecoou repentinamente do corredor, acompanhada pela voz de Garret. — Eu acho que a Hope e a Sofia vão adorar a ideia de antecipar a viagem.

​O som das vozes subindo as escadas agiu como um balde de água gelada. Thomas travou, parando o beijo no meio de um movimento voraz. Maya permaneceu encostada na escrivaninha, completamente descabelada, os lábios vermelhos e inchados, e o blazer amassado. Em pânico, ela pegou a primeira coisa que viu — o seu celular — e o segurou com as duas mãos, encarando a tela preta com uma seriedade ridícula.

​A maçaneta girou. Garret e James entraram no quarto, ainda conversando sobre os detalhes financeiros.

— ...e aí a gente... — Garret parou a frase no meio, franziu o cenho e olhou de Thomas para Maya. — Mas o que... Thomas? Você aqui no quarto da Maya?

​Thomas, ofegante, forçou um sorriso divertido e prepotente.

— Eu só vim conferir se a presidente do comitê de debates sabe a diferença entre uma tese de economia comportamental e um relatório de finanças domésticas. Ela estava quase chorando por causa de um algoritmo errado no relatório da holding e eu, como um bom primo civilizado, vim salvar o dia. Mas ela é teimosa demais para aceitar ajuda.

​James e Garret trocaram um olhar confuso. Thomas estava na porta, descabelado; Maya estava na escrivaninha, descabelada e segurando o celular como se fosse um artefato sagrado.

​— Você está bem, filha? — Garret perguntou, analisando os lábios inchados da caçula. — Você parece... bagunçada.

— Eu estou bem, pai. Só estou focada. O Thomas é insuportável e estava tentando bagunçar a minha lógica. Eu já disse para ele sair. Eu estou... lendo um artigo importante no celular.

​James cruzou os braços, observando o filho com um olhar severo. Thomas deu de ombros, piscou para Maya e saiu do quarto. James e Garret continuaram ali, em silêncio.

​— Nós subimos para avisar que decidimos antecipar a nossa viagem para a casa de Hamptons para este final de semana — James anunciou, com a voz séria. — Hamptons. A casa de praia. Mais tempo confinada com Thomas.

​Quando saíram do quarto de Maya, James e Garret caminharam pelo corredor em silêncio.

— Garret... — James começou, baixando o tom de voz. — Você viu o mesmo que eu lá dentro? Thomas descabelado, a Maya descabelada, aquela desculpa ridícula... Tem algo rolando entre eles. E não é amizade civilizada.

​Garret soltou um suspiro demorado.

— Eu notei... Eu vi os lábios dela. Eu vi o blazer amassado na cintura. Eu não quero acreditar, James. Eles são tia e sobrinho. Moram sob o mesmo teto. Isso seria um desastre.

​James encostou-se no parapeito da escada.

— Você lembra do que aconteceu com a Hope e comigo, Garret? — James relembrou, com a voz cheia de memórias pesadas. — O romance proibido. A guerra que quase destruiu as nossas famílias. A história... será que a história vai se repetir, Garret?

​Garret olhou para o amigo.

— Nós não podemos deixar isso acontecer, James. Não podemos. Hamptons vai ser um teste. Nós precisamos garantir que eles fiquem em lados opostos do tabuleiro naquele final de semana. Antes que tudo saia do controle de vez.

​Cada um se recolheu para o seu quarto. James entrou e Hope estava lendo um livro na cama. Ele se sentou ao lado dela, com um semblante pesado.

— Hope... eu acho que a gente tem um problema sério com o Thomas e a Maya. Eu acabei de entrar no quarto dela e eles estavam em uma situação... estranha. Eu acho que está rolando algo ali. Algo que a gente não pode permitir.

​Enquanto isso, Garret entrou em seu quarto e Sofia estava organizando as malas. Ele a abraçou por trás, escondendo o rosto no ombro dela.

— Sofia, meu amor... eu estou com medo. Medo pela Maya. Eu acho que ela e o Thomas... tem algo acontecendo entre eles. Eu acabei de entrar no quarto dela e eles estavam bagunçados. Eu vi o jeito que eles tentaram disfarçar. Se isso for verdade... se a história da nossa família estiver se repetindo... eu não sei o que eu vou fazer.

​A trégua fora quebrada, e as cartas na mesa agora estavam manchadas com o peso de uma história proibida que ameaçava o futuro de Tribeca.