O Legado do Tabuleiro
6 O Abrigo na Floresta
A decisão de James e Garret de passar o final de semana prolongado em um camping nas montanhas foi recebida com eufonia pelos casais mais velhos, mas para Maya, pareceu uma sentença de exílio da civilização. O trajeto de duas horas de estrada na imensa SUV da família foi uma prévia do teste de paciência: Thomas passou metade do caminho controlando a playlist do carro com hip-hop em volume alto, enquanto Maya tentava, sem sucesso, ignorar a presença dele se concentrando em um livro digital de macroeconomia.
Quando o carro finalmente estacionou na clareira cercada por pinheiros altos e o cheiro fresco de terra molhada, o primeiro problema logístico se apresentou.
— Certo, crianças — James anunciou, descendo do carro e batendo as mãos para afastar o frio da montanha. — Eu e a Hope pegamos a barraca master azul. Garret e Sofia ficam com a verde. Sobrou a barraca de trilha para vocês dois.
Maya travou no lugar, a mochila de lona estancada no meio do caminho. Ela olhou para o pai, esperando que aquilo fosse uma piada de mau gosto corporativo.
— Pai, você só pode estar brincando. Eu não vou dividir uma barraca de trilha — que eu sei perfeitamente que tem o espaço de um armário — com o Thomas. Ele tem quase um metro e noventa de puro espaço físico inútil!
— De nada pelo elogio ao meu físico, Styles — Thomas cantarolou, puxando a lona da barraca do porta-malas com um sorriso de canto. — E pare de reclamar. É uma viagem de integração familiar. Deixe de ser mimada pelo menos no meio do mato.
— Eu não sou mimada, Lâfrer! Eu apenas prezo pelo meu espaço vital e pela minha higiene mental — ela rebateu, marchando atrás dele até a área gramada onde as estruturas seriam montadas.
A montagem da barraca foi um espetáculo à parte. Maya tentava ler o manual de instruções impresso com precisão científica, enquanto Thomas simplesmente ignorava o papel, encaixando as varetas de fibra de vidro com a confiança cega de quem achava que sabia tudo.
— Thomas, pare! Você está colocando a vareta B no conector de teto inverso. A estrutura vai colapsar na primeira rajada de vento — Maya exclamou, batendo com o papel no braço dele.
— Relaxa, CDF. Eu sei como funciona a física de um teto flexível — ele riu, forçando a barra até que a lona tensionou com um estalo seco, quase atingindo o nariz de Maya. — Viu? Perfeito. Um palácio de lona para a realeza de Tribeca.
— Se isso cair na minha cabeça de madrugada, eu juro que uso o seu travesseiro para te sufocar — ela ameaçou, embora o canto de sua boca tivesse esboçado um leve tremor de riso que ela engoliu rapidamente.
Histórias ao Redor do Fogo
À noite, o frio da montanha apertou, forçando todos a se espremerem ao redor da grande fogueira que James e Garret haviam acendido. O estalar da madeira seca misturava-se com o som das risadas. Sofia e Hope preparavam espetinhos de marshmallows enquanto relembravam as primeiras viagens que fizeram juntos, anos atrás, quando a holding ainda era apenas um rascunho de papel em uma mesa de centro de faculdade.
— Vocês precisavam ver o James tentando armar uma barraca na época da faculdade — Garret contou, rindo alto enquanto segurava um copo de metal com bebida quente. — Ele tentou usar uma pedra como martelo, errou o pino e passou o final de semana inteiro com o dedão do pé enfaixado.
— Isso é calúnia empresarial, Garret! — James protestou, abraçando Hope de lado enquanto dava uma risada grossa. — A pedra estava com defeito de fábrica.
— O Thomas herdou essa mesma teimosia mecânica, James — Sofia comentou, olhando divertida para os dois jovens sentados em troncos opostos. — Viram como ele quase destruiu a lona hoje à tarde?
— Ei, a barraca ficou de pé! — Thomas defendeu-se, jogando um pedaço de graveto na fogueira e olhando fixamente para Maya através das chamas. — E com zero ajuda da bancada acadêmica, que só sabia ler o manual com cara de poucos amigos.
— Eu estava tentando salvar as nossas vidas de uma hipotermia, caso você não tenha notado — Maya retrucou, mas o tom não tinha a agressividade dos corredores da escola; estava suavizado pelo calor do ambiente e pela atmosfera leve que a família criava.
Perguntas no Escuro
Quando a fogueira começou a baixar e os casais se recolheram, o verdadeiro desafio começou. O interior da barraca de trilha era, como Maya previra, ridiculamente estreito. Dois sacos de dormir de alta performance estavam dispostos lado a lado, sem quase nenhum espaço de respiro entre eles.
Maya deitou-se de costas, rígida como uma estátua, os braços colados ao corpo dentro do tecido térmico. Thomas entrou logo em seguida, trazendo consigo o vento frio da noite e o cheiro sutil de fumaça de lenha. O espaço ficou instantaneamente menor. Quando ele se acomodou de lado, seu ombro roçou levemente no dela.
O silêncio que se seguiu não era tenso, mas denso, preenchido apenas pelo som da respiração de ambos e pelo farfalhar das folhas das árvores do lado de fora.
— Maya? — a voz de Thomas ecoou no escuro, baixa, sem o tom de deboche ou a arrogância das quadras.
— O que foi, Thomas? Dorme.
— Posso te fazer uma pergunta real? Sem alfinetada, sem piada.
Maya hesitou por alguns segundos, olhando para o teto escuro da lona.
— Depende da pergunta. Fala.
Thomas virou o corpo um pouco mais na direção dela, apoiando a cabeça no braço. Mesmo na penumbra, ela conseguia sentir a intensidade do olhar dele.
— Por que você me odeia tanto? Tipo, desde quando a gente era moleque em Tribeca e os nossos pais juntaram as coisas. O que eu te fiz de tão grave para você me tratar como o seu arqui-inimigo público número um?
Maya abriu a boca para disparar a lista habitual de respostas: porque você é arrogante, porque você tem privilégios demais pelo futebol, porque você faz barulho na cozinha. Mas conforme as palavras ganhavam forma em sua mente, elas pareceram vazias, superficiais perto da calmaria daquela noite. Ela tentou buscar uma memória real, um motivo palpável que justificasse tanta energia gasta em rancor.
E, para o seu próprio choque, ela não encontrou nada.
— Eu... — Maya começou, a voz falhando de leve. Ela soltou um suspiro demorado, a rigidez de seus ombros cedendo aos poucos. — Eu não sei, Thomas. Acho que... não sei o porquê. Acho que a gente só começou a bater de frente por causa do espaço, e virou um hábito. Uma regra do nosso próprio jogo.
Thomas ficou em silêncio por um longo tempo, processando a resposta dela. No escuro, Maya ouviu o som de uma risada baixa e rouca vinda dele.
— Um hábito idiota, não acha? — ele comentou, a voz mansa. — A gente gasta metade dos nossos dias tentando descobrir como irritar o outro na escola.
— É cansativo — Maya admitiu, virando a cabeça de lado para encará-lo no escuro. A distância entre os seus rostos era de poucos centímetros. — Mas você também não facilita, Lâfrer. A sua arrogância no corredor da St. Jude é testada em laboratório.
— É a minha armadura, Styles. Do mesmo jeito que os seus manuais de economia são a sua — ele rebateu, com um tom de voz que fez o estômago de Maya dar uma leve reviravolta. — Mas é bom saber que você não tem um motivo real para querer a minha cabeça em uma bandeja.
— Não durma vitorioso ainda. Eu posso inventar um motivo amanhã de manhã — ela sussurrou, o tom divertido entregando que a guarda estava completamente baixada.
Eles continuaram conversando por quase uma hora, falando sobre coisas pequenas, medos bobos sobre o futuro da holding e memórias de infância que compartilhavam na imensa casa de Nova York. Aos poucos, o cansaço da estrada e o peso do dia venceram a resistência de ambos, e o silêncio finalmente os envolveu.
O Despertar Inesperado
Quando os primeiros raios de sol começaram a atravessar a lona verde da barraca, trazendo um calor suave que afastava o sereno da madrugada, Maya começou a despertar. Seus sentidos foram voltando lentamente, trazendo uma sensação estranha de peso e conforto que ela não costumava sentir ao acordar.
O espaço estava quente. Ela piscou os olhos devagar, tentando focar a visão na claridade matinal, e foi então que percebeu a situação.
Os sacos de dormir haviam se movido com os movimentos da noite. Maya estava completamente de lado, com a cabeça apoiada diretamente no peito de Thomas. O braço esquerdo dele estava passado por baixo do pescoço dela, envolvendo seus ombros de forma protetora, enquanto a mão direita de Thomas descansava espalmada na curva de sua cintura, puxando-a para perto. Suas pernas estavam sutilmente entrelaçadas sob as camadas de tecido térmico.
Thomas ainda dormia profundamente, o rosto sereno e relaxado contra os fios loiros do cabelo de Maya, a respiração calma e compassada fazendo o peito dele subir e descer contra a bochecha dela.
Maya congelou. Seu coração deu um solavanco violento dentro do peito, a adrenalina disparando instantaneamente. Ela não conseguia se mover sem acordá-lo, e por um segundo torturante e confuso, ela percebeu que uma parte de sua mente não queria se mover dali por nada. O calor dele, a firmeza daquele abraço involuntário e a ausência total de barreiras criavam uma atmosfera perigosamente confortável.
Ela ficou ali, imóvel na penumbra do amanhecer, ouvindo as batidas do coração de Thomas contra o seu ouvido e percebendo que as regras do tabuleiro haviam mudado drasticamente enquanto eles dormiam.
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