O Legado do Tabuleiro

7 A Trégua do Silêncio



​O retorno para Tribeca marcou o início de uma nova dinâmica que Thomas não sabia exatamente como decifrar. Desde o momento em que acordaram colados naquela barraca nas montanhas, Maya havia erguido uma barreira invisível, mas não de hostilidade — de indiferença absoluta.

​No primeiro dia de volta à rotina, na imensa cozinha da mansão, Thomas entrou arrastando os pés, pronto para a habitual batalha matinal por espaço no balcão. Ele intencionalmente largou sua mochila pesada a poucos centímetros do notebook dela.

​— Bom dia, Styles. Se quiser metade do sanduíche de torrada, vai ter que pedir com educação hoje — ele provocou, com um sorriso de canto já ensaiado.

​Maya nem sequer desviou os olhos da tela. Ela calmamente pegou sua xícara de chá, fechou o caderno de anotações sem pressa, recolheu suas coisas e se levantou.

​— Pode ficar com o balcão todo, Thomas. Bom treino para você — ela disse, com a voz mansa, saindo da cozinha com passos tranquilos.

​Thomas ficou estático, com a faca de manteiga no ar. Ele franziu o cenho, olhando para a porta vazia. Nenhuma alfinetada. Nenhuma reclamação sobre a jaqueta do time jogada na cadeira. Nada.

​Os Olhares na St. Jude’s

​A calmaria se estendeu para os corredores de pedra da St. Jude’s Academy, e o efeito foi quase imediato no círculo social de ambos. Na hora do almoço, Maya e Claire estavam sentadas sob a sombra de uma das grandes macieiras do pátio central. Maya lia distraidamente, enquanto Thomas passava a poucos metros dali, rindo alto e jogando a bola de futebol americano com Michael Galoni.

​Normalmente, uma troca de olhares feios ou um comentário sarcástico de Maya teria acontecido. Mas ela sequer ergueu a cabeça. Thomas, por sua vez, desacelerou os passos, olhando na direção dela por três segundos longos, esperando o habitual confronto silencioso. Maya virou a página do livro.

​Claire Mackenzie parou o garfo no meio do caminho, estreitando os olhos para a amiga.

​— Certo, pode parando. Quem é você e o que você fez com a Maya Styles? — Claire disparou, cutucando o braço da amiga. — O Quarterback de Ouro acabou de passar por aqui quase tropeçando nos próprios pés para chamar a sua atenção, e você nem piscou. Vocês não brigaram hoje de manhã. Vocês não brigaram ontem no corredor. O que está acontecendo?

​— Nada, Claire. Só estou focada nos exames finais — Maya respondeu, sem tirar os olhos das linhas. — Descobri que economizo muita energia quando deixo o Thomas falando sozinho.

​Do outro lado do pátio, perto dos armários do vestiário, Michael deu um tapa na nuca de Thomas para despertá-lo.

​— Cara, você vai acabar quebrando o pescoço se continuar olhando para a bancada dos CDFs desse jeito. O que houve? Ela te deu uma resposta muito inteligente e você ainda está tentando processar?

​Thomas ajeitou a alça da mochila, visivelmente incomodado, embora tentasse manter a pose marrenta.

​— Ela não me deu resposta nenhuma, Michael. Esse é o problema. Ela está agindo como se eu fosse um fantasma naquela casa desde que voltamos do acampamento. Nem me olha na cara.

​— E isso não é bom? — Michael riu, abrindo o armário. — Você passou um ano reclamando que a garota não saía do seu pé. Agora tem o seu reino livre.

​— É... — Thomas resmungou, chutando de leve a base do armário. — Deveria ser bom. Mas está estranho para caramba.

​O Peso do Silêncio na Mesa

​À noite, a imensa mesa de jantar de Tribeca parecia mais silenciosa do que o normal. Garret e James debatiam em voz baixa sobre os gráficos de fechamento da holding, enquanto Sofia e Hope serviam o risoto. Thomas estava sentado em seu lugar de sempre, observando Maya fixamente.

​Ela estava perfeitamente arrumada, mas não pronunciara uma única palavra desde que se sentara. Comia devagar, com o olhar perdido em algum ponto abstrato da toalha de mesa de linho.

​— Maya, querida? — Sofia chamou, tocando suavemente na mão da filha. — Você mal tocou na comida. Está tudo bem na escola? O comitê de debates está te pressionando demais?

​A pergunta fez todos na mesa se calarem. James e Garret olharam para ela, e até Thomas parou o garfo, prestando atenção.

​Maya piscou, como se estivesse acordando de um transe. Ela olhou para a mãe e forçou um sorriso gentil, deslizando o guardanapo pelos lábios.

​— Está tudo bem, mãe. Só estou pensando sobre algumas coisas... Alguns projetos futuros e o volume de matéria do último ano. Não se preocupem.

​— Certeza, filha? Você está muito quieta — Garret comentou, analisando o rosto da caçula com o cenho franzido. — Geralmente você e o Thomas estão disputando quem tem os melhores argumentos a essa hora.

​— Certeza, pai. Só estou cansada — ela concluiu, pedindo licença com a cabeça e se retirando da mesa antes que o interrogatório continuasse.

​Thomas a assistiu sumir pelo corredor principal. Aquele silêncio dela estava incomodando mais do que qualquer grito ou ironia que ela já tivesse lançado contra ele.

​Conversa de Madrugada

​Passava das onze da noite quando Thomas finalmente perdeu a paciência. Ele andava de um lado para o outro em seu próprio quarto, incapaz de dormir, com a mente martelando na mesma questão. Ele precisava entender o que havia mudado.

​Sem fazer barulho, ele cruzou o corredor de Tribeca e parou diante da porta de Maya. Ele não hesitou dessa vez; deu três batidas leves e, antes que ela pudesse responder, girou a maçaneta e entrou.

​Maya estava sentada na cama, com as costas apoiadas nos travesseiros e o notebook no colo. Ela ergueu os olhos, surpresa, mas não irritada.

​— Thomas? O que você está fazendo aqui? Já está tarde — ela disse, fechando a tela do computador pela metade.

​Thomas fechou a porta atrás de si e caminhou até a beira da cama dela, parando com as mãos enfiadas nos bolsos da calça de moletom. Ele parecia menos o quarterback implacável e mais o garoto que crescera no quarto ao lado.

​— Eu preciso que você me diga o que eu fiz, Maya — ele disparou direto, a voz grossa ecoando na calmaria do quarto. — Você não olha na minha cara. Você não discute comigo na escola, não me provoca na cozinha, e passou o jantar inteiro parecendo uma estátua de gelo. Se eu fiz alguma idiotice naquele acampamento ou... ou se o jeito que a gente acordou te deixou puta, fala logo. Mas para de me tratar como se eu não existisse.

​Maya observou o semblante dele. Havia uma vulnerabilidade genuína nos olhos de Thomas, uma preocupação que ela raramente via sob a fachada de atleta marrento. Ela soltou um suspiro demorado, fechando completamente o notebook e colocando-o de lado na cama.

​— Você não fez nada, Thomas — ela respondeu, a voz calma, fazendo um gesto para que ele se sentasse na ponta da cama.

​Thomas hesitou por um segundo, mas acabou se sentando, curvando o corpo para frente para ficar mais perto dela.

​— Então por que a trégua repentina? A escola inteira está achando que a gente assinou um tratado de paz secreto.

​— Porque eu fiquei pensando no que você me perguntou na barraca — Maya confessou, olhando para as próprias mãos unidas sobre o lençol. — Sobre o porquê de a gente se odiar tanto. E quando eu percebi que nenhum de nós dois tinha uma resposta real, eu me dei conta de que tudo isso já estava ficando ridículo. Nós passamos anos gastando energia brigando por território, por atenção ou por puro orgulho. Nós moramos na mesma casa, nossas famílias são unidas. É infantil continuar agindo assim.

​Thomas ouviu cada palavra, o maxilar relaxando aos poucos. Ele olhou para ela, assimilando a maturidade na decisão de Maya.

​— Então... você resolveu só me deixar em paz? — ele perguntou, com um traço de sorriso começando a surgir nos lábios.

​— Resolvi que a partir de agora nós somos amigos, Thomas. Ou pelo menos duas pessoas civilizadas que compartilham o mesmo sobrenome e o mesmo teto — ela disse, olhando diretamente nos olhos dele, com uma firmeza que trazia uma paz nova para o ambiente. — Chega de jogos. Chega de alfinetadas nos corredores.

​Thomas olhou para ela por um longo tempo. Uma parte dele sentia falta da adrenalina das discussões, mas a perspectiva de ter Maya como uma aliada, de poder entrar no quarto dela e conversar sem precisar erguer escudos, trazia uma sensação estranha e calorosa ao seu peito.

​— Amigos... — ele repetiu a palavra, testando o som dela. Ele estendeu a mão direita na direção dela, imitando o gesto que fizera no palco do evento, mas dessa vez sem nenhuma câmera por perto. — De acordo, Styles. Mas se você virar a presidente da holding antes de mim, eu ainda vou querer uma revanche no tabuleiro.

​Maya riu — uma risada leve, aberta e sem nenhuma barreira — e apertou a mão dele. Os dedos quentes dele se fecharam ao redor dos dela, selando o acordo.

​— Combinado, Lâfrer. Agora sai do meu quarto que eu preciso dormir.

​Thomas se levantou, caminhando até a porta com passos mais leves do que quando entrara. Ele parou no batente, olhou para trás e piscou para ela antes de apagar a luz do corredor.

​A partir daquela noite, as coisas na mansão de Tribeca começaram a mudar. O silêncio hostil deu lugar a pequenos olhares cúmplices durante o dia, e as peças do tabuleiro começaram a se mover em uma direção que nenhum dos dois conseguia prever.