O Legado de Pontmerci
13 Você se perdoou? Você perdoaria?
Notas iniciais
Capítulo 13
Anne adorava o Savoy. Era um dos vários prédios de Londres que preservavam a arquitetura original de seu tempo, bem como a elegância. Assemelhava-se a um palacete imperial e o mobiliário interno, ela suspeitava, provinha completamente de marceneiros e antiquários franceses. Todos à moda Louis XIV. Não gostaria de viver para sempre em meio a tamanha pompa, porém, vez ou outra era interessante sentir-se sendo puxada para o passado. Imaginando se teria sobrevivido ou não a revolução.
─ Bom dia. – cumprimentou caminhando empertigada em direção a recepção. – Procuro pela Madam Josephine de Pontmerci. – disse prontamente. O recepcionista limitou-se a lhe lançar um olhar avaliativo, passando para a lista de hóspedes em seguida.
─ Quarto cento e treze. – respondeu por fim, batendo a sineta. Quase imediatamente, um lacaio surgiu junto ao balcão, o que abriu um sorriso nos lábios da senhora Holmes. – Hogswarth, acompanhe esta senhora até o quarto cento e treze.
Mais de cem degraus depois, estavam parados diante da porta em questão. Ainda incerta, Anne considerou dar meia volta e voltar para junto de seus filhos...
─ A quem devo anunciar, senhora? – interpôs o rapaz, estudando o perceptível nervosismo dela.
─ Anne... Holmes. Anne Holmes para ver Madam de Pontmerci.
Satisfeito, Hogswarth bateu a porta e, ao receber o sinal para que entrasse, caminhou até o centro do cômodo para fazer seu anúncio.
─ Com licença, senhor, mas uma senhora Holmes está aqui para ver Madam de Pontmerci. – enunciou com uma voz bastante profunda.
Do lado de dentro, Anne ouviu sons de pés batendo contra o chão e também o de uma porta se abrindo. Visivelmente, o segundo som deixara o pequeno lacaio de voz retumbante intimidado. Suficiente para fazê-la deduzir quem estava do outro lado da porta que se abrira. Em três segundos, pôde ouvir a voz com o inglês arrastado de Madam de Pontmerci mandando que ele a avisasse para entrar. Obediente como um cachorrinho, mas ainda andando empertigada, a senhora Holmes o fez.
Louis vestia um terno completo e parecia, até então, ter estado sentado em uma escrivaninha, compondo uma carta. Os olhos da morena repousaram nele num primeiro momento, em um gesto cortês de saudação, passando para sua mãe logo em seguida. Os trajes de sua mãe e seus olhos fundos diziam que, ao contrário de seu filho, ela não estava nem um pouco descansada. Um longo peignoir de seda rendada preta e seus cabelos não haviam sido corretamente desfeitos do penteado que a vira usar no dia anterior. E, claro, os olhos fundos mostravam que havia chorado durante a noite.
─ Pardon, madame Holmes. – começou Louis, apologético. – Mas, deveria ter avisado de sua visita repentina. Uma nota no café da manhã, talvez?
─ Eu sei, senhor de Pontmerci e sinto muito por chegar assim. – concordou com um aceno quase agressivo de cabeça. – Geralmente meus movimentos são mais... planejados. No entanto, não tive certeza quanto a esta visita até tomar o primeiro cabriolé até a casa de um casal de amigos está manhã. – explicou-se, também apologética.
Josephine a observava com vivo interesse.
─ Se me derem licença, vou me trocar. Fiquem à vontade. – disse tornando a fechar a porta sem fazer qualquer ruído.
Os olhos da senhora Holmes mais uma vez buscaram os de Louis de Pontmerci que lhe sorriu gentilmente, acenando para que se sentasse. Ainda obediente e sentindo-se intimidada, quase perdida no território do, assim julgado, inimigo, sentou-se delicadamente em uma das cadeiras estofadas de verde água. Seu anfitrião, por outro lado, permaneceu de pé a encará-la enquanto se acomodava contra o estofado, partindo até a sineta em seguida.
─ Vou pedir para que subam com um bule e alguns sanduíches. – comentou tornando a caminhar na direção dela. – Mamãe se recusou a tomar café da manhã comigo. Com sorte, comerá alguma coisa agora...
─ Está tudo bem com ela? – inquiriu Anne, soturnamente, mirando-o se sentar diante dela com as pernas cruzadas.
─ Creio que isso se deva a morte de meu pai. – ponderou Louis. – Se passaram apenas algumas semanas, tudo ainda é muito recente para ela.
─ Ela o amava muito. – acrescentou Anne, gentilmente. No entanto, o comentário não pareceu reafirmar as ponderações dele, mas colocá-lo em uma posição de dúvida. Na alta nobreza, ela sabia, era incomum que uma criança tivesse certeza do amor entre seus progenitores. Tudo era muito gentio, ao menos na Inglaterra.
─ Imagino que sim. – assentiu Pontmerci. – Não saberia dizer ao certo... Meus pais nunca demonstrariam uma rusga na minha frente. Para a família dele, isso, a infelicidade no casamento, exteriorizá-la em público, seria mal educado. – explicou dando de ombros. Anne riu.
─ Parece com algo que minha mãe diria. – observou brandamente. – Acredito que estivesse escrevendo alguma carta antes da minha abrupta interrupção. – tornou a observar cautelosamente. – Fique à vontade para continuar, se quiser.
─ Oh, não, de jeito nenhum. – negou ele de bom humor. – Posso fazer isso em outro momento.
─ Nada importante?
─ Bom, importante para mim, mas nada que me faça descumprir com os princípios de um bom anfitrião. – comentou virando-se para olhar o papel e o tinteiro com a caneta. – Escrevia para minha... minha noiva, Isabelle de Grenouille.
─ Noiva? Ora, meus parabéns! – cumprimentou-o um pouco mais animada, mas recaindo ao pensar que... – Milverton, ele sabe...? – perguntou com legítima preocupação.
─ Se soube, não foi por mim. E, pelo sim e pelo não, preferi não fazer alarde a respeito. Por isso não mencionei nada ao senhor Holmes. – foi a resposta tensa de Louis. Aparentemente, não havia calor em seus olhos, mas, antes que ela pudesse ser atrevida o suficiente para lhe questionar acerca daquela união, a porta que separava aquela sala do apartamento de Madam de Pontmerci se reabriu, revelando-a completamente recomposta com um soberbo traje de luto e a bengala já quase amiga íntima da senhora Holmes. – Bem, senhora Holmes, a senhora veio para ter um particular com mamãe e não serei eu a ficar aqui de fedelho bisbilhoteiro. Vou descer para um dos restaurantes. Foi um prazer revê-la. – disse despedindo-se dela com um beijo polido nas costas de sua mão. – Uma bandeja está subindo. Por favor, mamãe...
─ Não se preocupe comigo. – interrompeu a matriarca, aceitando de bom grado um beijo reverencial na bochecha.
Por fim, estavam à sós novamente. E devido aos remanescentes sentimentos quanto a última vez em que tal fenômeno acontecera, nenhuma das duas sabia ao certo o que dizer. Anne, porém, reconhecia que, como visita surpresa, era seu dever expor quais eram as suas intenções em visitá-la. Muito embora, para uma mulher com os anos de Josephine em fazer sala, estivesse bastante claro o que sua sobrinha queria.
─ Signor de Pontmerci não parece muito satisfeito com o noivado. – foi seu começo inesperado, que quase fez sua anfitriã rir.
─ Ora, o que aconteceu com a jovem destemida que me enfrentou ontem? Sua respiração está trêmula, minha cara. – desdenhou Madam, sentando-se elegantemente sobre a poltrona onde antes estivera seu filho. Anne bufou, colocando-se de pé com violência, mas um gesto de mão da mais velha a deteve antes que gritasse. – Acalme-se. Se não gosta que piadas sejam feitas a sua custa, não dê oportunidade aos outros. Quanto ao noivado de Louis, você também não estaria fazendo juras abobalhadas de amor se estivesse passando por tempos incertos como este. – advertiu ela com um olhar esperto para Anne.
─ A senhora acha que Milverton sabe...? – inquiriu Anne, acalmando-se.
─ Você o julga ingenuamente, criança. – zombou Josephine risonha. – Charles Milverton tem em mãos uma chance dupla de assassinato e para a destruição de um legado que vem sendo construído desde antes de nós duas nascermos. Ainda que saiba, acha que ele trocaria o que pode fazer, pela possibilidade de criar uma rusga entre namorados? Mon Dieu! – desdenhou balançando a cabeça lentamente em reprovação.
Anne já estava se arrependendo de ter ido até ali. Nunca se julgara uma pessoa burra, mas a maneira e a facilidade com que era repreendida por Madam, quase fê-la duvidar de si mesma. E seria capaz de apostar a vida de seus filhos que era justamente isso o que a velha queria que fizesse.
─ Essa moça deve ter uma constituição de ferro, se não se acovardou até agora. – comentou a senhora Holmes com escárnio.
─ Isabelle? – exclamou Madam séria. – É uma jovem bem nascida com excelente disposição, cinco anos mais nova do que Louis. Porém, isso não me surpreende. Os homens do alto escalão sempre gostaram de andar com florezinhas em seus braços e, bem, meu filho cresceu assistindo a tudo isso... Certamente iria querer a mesma coisa para si. – ponderou com indiferença.
─ Se serve de consolo, Holmes e eu possuímos seis anos entre nós e estamos muito bem. – interpôs Anne com certo orgulho.
─ Não me importa a idade dela, criança. Esta é até razoável. Contudo, Isabelle não tem nada que a recomende por si mesma. Não obstante o bom temperamento e a beleza, é deveras ingênua. Os primeiros anos de casamento serão duros com ela, quando for jogada aos leões. – comentou a outra.
─ Os velhos companheiros de Sebastian e suas honoráveis esposas, quando Louis assumir o cargo do pai, suponho. – desdenhou a senhora Holmes, cruzando as pernas.
─ Louis não assumirá a posição de Sebastian de pronto. – disse Josephine exasperada. – Ele está, é claro, seguindo os passos dele dentro da Assembleia e utilizando-se da influência de seu bom nome para tal, mas, lá existe um forte termo de meritocracia ultimamente. Se tudo correr bem, é claro, deve acontecer dentro de três ou quatro anos.
─ Entendo. Tempo suficiente para Isabelle se ajustar.
─ Todas nós nos ajustamos. – disse Madam simplesmente. – Embora eu creia que a senhora não tenha sofrido tanto. O senhor Holmes parece gostar de uma resposta atrevida; meu marido as apreciava apenas quando se direcionavam a pessoas de quem ele não gostasse. Meu período de ajuste ainda não terminou, devo dizer. E acredito que tenha sido esse o fator determinante para a escolha da filha de Grenouille. Louis vai querer alguém em quem possa confiar, sem imprevisibilidade ou duplo sentido. – concluiu solenemente, assentindo para que a camareira entrasse com a bandeja logo em seguida.
Anne recusou a xícara de chá e os minis sanduíches, observando a mocinha servir a matriarca, questionando suas preferências com toda a calma do mundo. Com sua saída, instaurou-se um silêncio incomodo entre elas, enquanto Josephine mordiscava com pouco interesse um dos minis sanduíches.
─ De todo modo, não veio aqui para saber da vida de meu filho. E se fosse sobre os progressos do senhor Holmes, não teria sido tão clara para dizer ao lacaio que deveria ser anunciada a mim. – observava a velha, deixando a comida de lado para bebericar o chá.
─ De fato, eu vim ouvir uma história. – respondeu Anne retesando-se em sua poltrona. — A sua história, Madam de Pontmerci. – acrescentou pausadamente.
A xícara de Josephine retornou lentamente para o pires, ao passo que ela observava o semblante determinado de sua sobrinha. Suas próprias feições estariam taciturnas, mas seu coração palpitava rápido; fazendo-a ter certeza de que precisaria de seus sais em algum momento. Contudo, com graça, repousou sua xícara sobre a mesinha ao seu lado e viu-se sorrindo na direção de sua ouvinte.
─ A minha história? – repetiu com um risinho cortante. – Ou as partes dela que incluam sua mãe? – indagou com esperteza. As mãos de Anne se fecharam sobre seus joelhos e ela se sentiu encurralada, como nunca estivera antes. Nem em suas primeiras discussões com Sherlock ou como quando tivera a oportunidade de argumentar contra o falecido professor Moriarty. O rubor subiu-lhe pelas faces e ela não se deu ao trabalho de responder. – Imaginei que seria o caso.
As venezianas estavam abertas. As cortinas brancas moviam-se elegantemente, denunciando o frescor quem em Londres fazia do lado de fora daquele quarto. Porém, ali dentro, a velha dama francesa sentia-se completamente abafada pela culpa. O que poderia dizer aquela menina...? Nada do que havia para ser dito melhoraria as coisas. Estaria ela em busca de alguma anedota envolvendo sua querida Susanna? Estórias de quando eram garotinhas; em meio ao luto, encontrava-se cheia delas. Mas não era isso o que Anne viera buscar, era capaz de reconhecer isso em seu rubor. A humilhação de implorar por informação a alguém que detestava.
─ Se me permite, senhora Holmes. – começou, limpando a garganta. – A senhora me disse que eu era uma cliente e que permaneceria assim até que seu marido resolvesse esse caso. Além disso, disse-me que não se sentia responsabilizada em dividir meu luto e que, no que concerna a senhora, não sou sua parenta. E, devo dizer, está certa. Minha Susanna não era a sua Susanna. Nada do que eu venha a dizer sobre sua mãe irá mudar a sua memória a seu respeito. Os erros que cometi para com ela são apenas meus... E, assim como a senhora prefere que alguns capítulos de sua vida permaneçam longe do meu conhecimento, há capítulos da minha que eu também preferiria que a senhora não conhecesse.
“Os problemas que, a essa altura, deve ter deduzido acerca de meu casamento com o pai de Louis, não têm nada a ver com Susanna. Meu único erro para com minha irmã foi não ter desafiado meu marido à oportunidade de revê-la outra vez. No que tange todo o resto de nosso relacionamento, minha consciência está limpa. Meu conselho para você é que aceite o mesmo. Eu suspeito de que estivesse em paz antes da minha súbita chegada em sua vida; não deixe-me perturbá-la. Seus pais foram excelentes pessoas, que enfrentaram a adversidade e triunfaram. Os detalhes não importam. O que importa é que você os amou, perdoe o clichê, mas é verdade. Sempre amará. Mesmo quando se ver relembrando as vezes em que gostaria de tê-los estapeado com força... como eu mesma com meus próprios pais.”
Anne ouviu suas palavras silenciosa, mas atenta aos movimentos da matriarca. Enquanto falara, Josephine mantivera-se em uma posição estática. As mãos sobre os joelhos e os olhos presos na sobrinha a todo momento, com raros vislumbres na direção do assoalho. Estes, davam a certeza para ela de que, embora seu discurso fosse deveras eloquente, ainda escondia alguma coisa. Como nas várias vezes em que vira algum cliente tentando mentir para que sua imagem perante Sherlock não fosse muito deturpada ou durante comícios na Whitechapel. Em nenhum momento, Anne se esqueceria de quem era aquela mulher.
─ Madam está certa e eu aprecio suas palavras gentis. – assentiu brandamente a senhora Holmes, com os olhos baixos. – Mas, está mentindo. – interpôs friamente, erguendo seus olhos em encontro aos dela. – Algo aconteceu entre a senhora e a minha mãe, algo que prefere que eu não saiba. Não pelos motivos altruístas pelos quais está me engodando, mas porque tem medo das consequências que podem acarretar tal revelação. Então, vê? Eu estava certa. Não apenas uma esposa de diplomata que não conhece diplomacia, mas uma covarde.
Ao pronunciar de cada uma das acusações de Anne contra sua tia, esta não deu qualquer sinal de que havia sido atingida. Seu semblante permaneceu calmo e nem mesmo um sorriso desdenhoso ousou opor-se em seus lábios. Julgando estar aquela audiência acabada, a senhora Holmes pôs-se de pé e a caminho da porta. Sendo, então, parada pelo som da voz ainda ponderada de Madam de Pontmerci.
─ Você se acha tão inteligente, não é? Mas, talvez quando estiver tão velha quanto eu, entenderá o que quero dizer. – disse sem se levantar, a cabeça apenas meio virada para Anne, que tinha uma das mãos na maçaneta da porta. – Existem, minha criança, algumas verdades que se perdem no tempo. E por tanto tempo, que acabam perdendo o significado. Mas, se realmente precisa da minha reafirmação, lhe direi que: sua mãe era o elo mais novo de uma próspera família francesa e seu pai era um homem distinto, com uma promissora carreira o esperando aqui na Inglaterra. Ele aproveitou a chance e assim também fez sua mãe, dispondo-se a segui-lo apesar do conselho de meu pai de que odiaria Londres. – concluiu ainda sem fitá-la, mas restaurando o interesse da sobrinha naquela conversa.
─ No parque, a senhora havia dito que seu pai o desaprovou. – observou Anne, tornando a caminhar em direção a outra. Josephine soltou um risinho desdenhoso, seus olhos baixos ao chão.
─ É claro que desaprovara. – reafirmou com veemência. – Uma filha casada com um membro destacado da Assembleia francesa e a outra com um rapaz que se tornaria inspetor de polícia se viajasse para a Inglaterra. Contudo, ele confiava em Vladmir. E mamãe também. – disse dando de ombros.
─ E a senhora os envenenou contra eles?
─ Não. – respondeu Josephine irritada com a infantilidade da pergunta dela.
─ Mas então, se foi assim... por que eu nunca ouvi falar da senhora? Ou porque meus avós nunca se interessaram...? – indagava Anne andando de um lado para o outro diante da figura cabisbaixa de sua tia.
─ Essa é a verdade que não vale a pena saber. – respondeu finalmente encarando-a.
─ Por quê? – insistiu a sobrinha, cruzando os braços.
─ Porque não importa. Porque não muda nada. – disse Josephine simplesmente.
─ O que é? É assim tão terrível?! – exclamava a senhora Holmes, aflita. – Por que não pode simplesmente me dizer a razão de meus avós ou a senhora nunca terem aparecido?
─ Meus pais estavam velhos demais para fazer a viagem e eu... Eu estava ocupada no meu período de adaptação. – disse quase zombando da curiosidade dela. Ela mesma se esforçando para não deixar que suas mãos tremessem sobre o console da bengala.
─ Não se importava, quer dizer. – retrucou Anne friamente. – Não se importava com a família de sua irmã mais nova. – falava como se voltasse a ter sete anos de idade.
─ Oh, não seja ridícula. – finalmente permitiu-se desdenhar a grande dama.
─ Eu. – rebateu Anne exasperada. – Realmente, sou eu a ridícula aqui? – provocou com amargor. – Eles já estão mortos há mais de doze anos! E só ontem a senhora descobriu! Porque esteve ocupada demais seguindo só Deus sabe quais regras... Por que falar em primeiro lugar? Quando obviamente não se importa com a memória de sua irmã. A senhora diz que é por um bem maior, mas eu sei que é apenas um capricho pessoal.
Aquilo dito, finalmente Josephine se levantou. Tomando o caminho até a porta e abrindo-a.
─ Bem, suponho então que não temos mais nada a dizer uma a outra. Portanto, acho que deveria ir. – seu tom soou como uma fria advertência. Anne fitou-a sem fôlego depois de ter gritado e ainda bufando, caminhou até a porta.
Os olhos escuros de sua tia a acompanharam consternada, sua própria respiração visivelmente descompassada. Parou no vão entre a saída e o lugar onde Madam estava parada segurando a porta para ela, e fitou-a demoradamente.
─ Pouco depois de nos casarmos, Sherlock costumava comentar bastante a respeito das personalidades passionais das mulheres da minha família. Talvez, por isso nunca tenham-na mencionado, ou fosse o motivo por ela não se importar em deixar a França que, eu sei, tanto amava. Afinal, por que se importar em preservar laços com uma irmã tão fria quanto a senhora? – desdenhou passando por ela.
Sem esperar muito, Josephine fechou a porta. Mas sua mão permanecia presa a maçaneta, e ela encarava o mogno branco da porta em transe.
Estava de volta à carruagem que dividira com Sebastian durante a volta da recepção da rainha Vitória. As ruas de Londres adormecidas, mas ela sabia de uma casa que se iluminaria com uma visita surpresa sua.
─ A casa de minha irmã não fica muito longe. – disse cautelosamente, enquanto ele analisava seu caderninho de anotações, impassível. – Ela me mandou o endereço numa carta há alguns meses... Ficaria muito feliz se fôssemos até lá...
Havia se passado muitos anos desde a última vez em que vira Susanna e o máximo que ainda possuía dela era uma foto guardada em um fundo falso de um velho porta joias. Jamais teria comentado com Sebastian sobre vê-la, não fosse o fato de seu casamento estar o que poderia se considerar bem, na época. Todavia, o olhar que seu marido lhe dera como resposta, olhar que ela responderia com desdém a outros, nos olhos dele, fez com que ela se calasse, mas ainda tivesse esperança... e então, a resposta que lhe dera...
Aquele curto período em Londres. A sensação de que sua irmã estava a poucos metros dela e que não poderia vê-la sem permissão, ou estaria violando uma regra de seu contrato de casamento. A conversa com Mycroft Holmes. A visita nunca feita a Susanna, somada a resposta que seu marido lhe dera ao seu pedido... Fora a primeira vez em que, independentemente de onde seu casamento estivesse, tudo fora deixado de lado para que relembrassem de onde haviam começado. E, antes que Josephine se desse conta, havia soltado a maçaneta da porta e desfalecia-se aos prantos, caminhando até o quarto para alcançar um porta joias velho que Louis vivia insistindo em saber porque guardava.
Abrindo o fundo falso, puxou uma velha foto. Susanna sentada em um balanço, com Josephine ao seu lado de pé...
Você se perdoou? Você perdoaria?
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