O Legado de Pontmerci
14 Código de Conduta Holmes - Parte 2
Notas iniciais
Capítulo 14
Mary e John se entreolhavam continuamente enquanto observavam os sobrinhos e o filho tomarem seus sorvetes com desânimo. A cada colherada ficava mais claro que haviam sido interrompidos em um grande estratagema. Em seu íntimo, o médico se divertia com a semelhança de ambos os gêmeos com Anne quando, em seus primeiros anos em Baker Street, tinha presença vedada durante as resoluções dos casos de Holmes. Por outro lado, preocupava-se. O que deveria ser tão importante para que aqueles três tentassem enganá-los com uma desculpa tão falha quanto uma ida até a sorveteria?
Sua esposa parecia estar refletindo o mesmo, pois trazia o mesmo olhar consternado em seus olhos azuis. Violet lançava olhares constantes na direção da porta, possivelmente esperando pelo retorno da mãe ou uma abertura para que saísse correndo. Dentre seu irmão e seu primo, era a mais desanimada na mesa. Seu sorvete de menta estava praticamente intocado, completamente derretido ao fundo.
─ Então, sem segunda rodada? – brincou John, sem obter resposta. Mary sorriu, despertando de suas reflexões.
─ Que tal uma volta pelo Regent’s Park antes de voltarmos para casa? – sugeriu taticamente, sabendo que naquele estado, uma caminhada era sempre o melhor remédio para os Três Mosqueteiros.
William largou sua colher instantaneamente e fitou o pequeno Holmes, os olhares dos dois segundos depois repousando sobre Violet. Ela ergueu um sorriso na direção de Mary e assentiu, rebaixando-o um pouco ao virar-se para o irmão. O movimento não passou despercebido por Watson. Deixaram o estabelecimento em direção a um novo comboio que os levaria até o Regent’s. O parque ficava a dois quarteirões de distância do 221 B e, quando eram bebês, costumava ser o lugar mais visitado pelos gêmeos durante seus passeios matinais de carrinho.
Ainda hoje, Violet se encantava com a imagem de seu pai usando sua melhor cartola e sobretudo para empurrá-la por aqueles caminhos de pedra; sem perder a oportunidade de exibi-la para as velhas alcoviteiras. Isso, claro, quando no melhor de seus humores, pois geralmente as espantava com um único olhar cortante e daí era Anne quem deveria explicar-se. Todavia, sua fama já era tão grande nos arredores do bairro que, bastava a ela dizer “O senhor Holmes...” para que os passantes percebessem ser dispensável um pedido de desculpas.
Àquela altura do dia, o lugar encontrava-se já cheio delas. Senhoras que a conheciam desde pequenina e que, poderia-se dizer, acompanharam seu crescimento tal qual a senhora Hudson. Violet, contudo, não sentia carinho especial por nenhuma delas. Apenas pela sua senhoria que adorava lavar seus cabelos e trançá-los com fitinhas coloridas. Ainda assim, fazia suas visitas ao Regent’s quando queria ler em paz ou para observar os meninos soltando papagaios. Ela própria desenvolvera um interesse absurdo por eles quando menor, mas este jazia no fato, na verdade, de que possuía uma grande curiosidade no voo.
─ Violet. – chamou a voz tranquila de Watson. – Algum problema? – indagou quando sua sobrinha assentiu em olhar para ele. Seu reflexo natural foi acenar que não com a cabeça, mas John conhecia mais daquele mesmo ar despistador da família Holmes. – Minha querida, sabe que pode falar com seu velho tio Watson sobre qualquer coisa que a esteja afligindo.
─ Eu sei. – suspirou Violet, exausta. – Lembra-se de quando escreveu que a fêmea consegue ser mais letal do que o macho? – perguntou brandamente em resposta.
─ O caso de madame Isadora, sim... Mas... – concordou o médico, confuso.
─ Bem, digamos que eu espero do fundo meu coração que o senhor esteja errado. – ponderou a menina apressando o passo na direção de sua madrinha, deixando Watson ainda mais perplexo para trás.
Mary ainda tinha a mente reflexiva, mas, diferente do que o marido pensaria, não se tratava dos irmãos Holmes, mas sim de sua mãe. Anne não era de se deixar abater por qualquer ninharia que lhe impunham no meio do caminho. Normalmente, daria todos os detalhes para John e ela a fim de que dessem gostosas risadas juntos. Agora, pelo contrário, mostrava-se reservada e reclusa em seus sentimentos. Muito fora dos padrões.
─ Violet. – ela chamou tentando alcançar a afilhada com o braço esticado em direção ao seu ombro. – Preciso falar com você...
─ Sim, tia Mary? – respondeu aproximando-se dela lentamente.
─ Gostaria de saber se... bem, sabe me dizer o que há de errado com sua mãe? – perguntou hesitante, puxando a pequena para perto de um dos bancos a fim de se sentarem.
Naquele momento, Violet desejou com todo o coração que sua madrinha houvesse lhe feito a mesma pergunta que seu tio. Pior do que uma conversa focada nela, era uma conversa focada em assuntos de sua mãe aos quais ela não possuía acesso a todos os detalhes, e sobre os quais não se sentia confortável em discutir com ninguém, além de seu irmão. Seu pai era da opinião de que nunca se devia supor qualquer coisa sem ter todos os dados em mãos... Como deveria agir numa situação como aquela?
─ Tia Mary, eu realmente não posso lhe dizer com certeza o que há de errado com a mamãe. – respondeu a senhorita Holmes com sinceridade. – E acho que, mesmo se soubesse, não caberia a mim contar...
─ Eu entendo, meu bem. – assentiu Mary. – É que me preocupo com ela e Anne nunca se colocou tão na defensiva assim... Possivelmente seu pai deve saber. – sugeriu ansiosa.
─ Também não sei ao certo, mas imagino que deva saber mais do que John ou eu. – concordou Violet analisando o semblante de sua madrinha. Seus olhos azuis realmente estavam preocupados e ela percebia que sua curiosidade era puramente voltada ao fato da senhora Holmes não estar se comportando normalmente. – Papai está em Hampstead hoje, mas prometeu voltar à noite... talvez...
─ Ah, eu jamais iria... Mas, quem sabe John não se saia melhor. Afinal, conhece-os melhor do que eu, não podemos negar isso. – comentou a outra rapidamente, sorrindo na direção do marido. – Vou manda-lo ter com Holmes. Obrigada de qualquer forma, querida. Sempre a nossa boa menina. – disse afagando o rosto da pequena com carinho.
─ Exceto quando ela rouba na amarelinha ou então no jogo de cartas. – comentou Nikolai, saltando por trás do banco onde ambas estavam sentadas e correndo em disparada na direção de William e John.
─ Ora, seu... – zangou-se Violet, pondo-se a persegui-lo com a bolsinha no ar.
†††
Em vias naturais, aquela situação toda não passaria de uma grande batalha perdida para John Holmes. E ele não era o melhor perdedor. Sabia reconhecer uma causa insustentável quando encontrava-se diante dela e a ideia de Violet a respeito de seu pai se encaixava perfeitamente em sua concepção. Ainda assim, não era bom perdedor e naquele momento sentia-se demasiadamente ansioso para provar a sua irmãzinha que estava errada, mesmo por uma causa que julgasse tola. Por outro lado, outro sentimento entrara em choque com seu orgulho desde que tomaram o caminho de casa: amor.
Pensasse o que desejasse daquela ideia, era inegável que deixara Violet aflita. E sua irmã nunca se afligia. Fosse pelo vislumbre de sangue, fosse por não conseguir entender alguma coisa que lesse. Ela simplesmente soltava um longo suspiro de frustração, apertava a fita em seu cabelo e seguia em frente como se nada importasse; geralmente atingindo o sucesso. No entanto, por alguma razão que Nick não compreendia, nenhum de seus métodos funcionara para aquele caso em especial. E, embora nunca tivesse admitido em voz alta, acima de qualquer ímpeto egoísta que pudesse sentir em relação a ela, John amava sua irmã. E ninguém poderia colocá-la numa posição desconfortável, além dele.
Para sua sorte, sua mãe não havia regressado quando chegaram até o 221B. A senhora Hudson recebeu o casal Watson da mesma maneira que receberia amigos há muito perdidos. O que não passava de um traço comum da personalidade da senhoria, o exagero, afinal, a família do Doutor fazia visitas constantes aos Holmes. Nikolai observou atentamente enquanto os adultos trocavam apertos de mãos e começavam suas reminiscências, a oportunidade perfeita para fazer um sinal descontraído e convidar seus companheiros de armas a subirem em direção aos seus aposentos.
─ Eles ainda precisarão de muito mais para deter Nikolai Holmes. – murmurou fechando a porta do quarto, virando-se dramaticamente para encarar os outros dois que o fitavam estupefatos. – Violet, você quer mesmo ir? – perguntou John, sério pela primeira vez naquele dia.
Sua irmã empertigou-se e olhou na direção de William, acenando definitivamente com a cabeça.
─ Muito bem. – disse ele batendo palmas. – Procure um dos irregulares para passagem, você sabe o que fazer. Use roupas esportivas. E, Artie, eu e você, vamos para a sala; agir naturalmente, eles certamente repararam que Vi está abatida, então diremos que ela se deitou um pouco. – explicou Nikolai sem tirar os olhos da irmã.
─ E quando a tia Anne souber? – inquiriu o primo, hesitante.
─ Então a sua promessa de que passaríamos o castigo eterno juntos terá que ser cobrada, companheiro. – brincou Nikolai risonho.
─ Eu vou assumir a responsabilidade dessa vez. – interpôs Violet, prendendo os cabelos, parando de repente para analisar melhor o irmão. Ele estava nervoso, quase um tímido. Sem pensar, ela o abraçou. – Obrigada, John.
─ Certo, certo, só não diga que eu nunca fiz nada por você. – falou na defensiva, desvencilhando-se do abraço depois de um tempo. – E agradeça ao Artie também. Provavelmente, nenhum de nós dois terá permissão de sair de casa pelos próximos quarenta anos e caberá a você trazer honra ao nome das famílias Holmes e Watson. – acrescentou apontando o indicador na direção dela acusatoriamente.
─ Isso não mudaria muito mesmo que vocês não ficassem de castigo. – zombou Violet, mas seu sorriso denunciava seus verdadeiros pensamentos.
Rindo, Artie deu um toque em Nick para que descessem antes que os adultos desconfiassem. Deixaram a senhorita Holmes sozinha para ajeitar suas roupas e o cabelo; em seguida, seria necessário checar o melhor momento para sair pela porta dos fundos. Quando regressou, dizendo iria ver se ela precisava de alguma coisa, encontrou apenas um bilhete em seu travesseiro. “Eu também te amo, irmãozinho”.
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