Notas iniciais
Boa Leitura!

Capítulo 15

Ao ver-se despido da fachada de Ralph Escott, Sherlock Holmes seria capaz de admitir como sentia pena do pobre homem. Desgostado por seus companheiros de trabalho e perseguido por uma criatura do sexo feminino que, na sua opinião, dificilmente tivera muitas chances de ser o centro das atenções em sua vida. Era, para o detetive, a única explicação para sua necessidade constante de atrair os olhos do encanador na sua direção. Tais cenas jamais chegariam aos ouvidos da senhora Holmes. Embora seu esposo estivesse totalmente convencido de que elas não repercutiriam o mesmo efeito que a presença de Irene Adler em suas vidas no passado.

Os primeiros anos de seu casamento foram extremamente conturbados e muito se devia àquela figura recorrente de seus primeiros casos. Hoje, o nome da antiga senhora Norton não era mais para sua família do que o de uma personagem qualquer de algum livro. Um livro há muito lido e esquecido em suas peculiaridades. E, devido aos acontecimentos daquele caso em particular, sua falsa entrega aos braços da morte, Anne perdera todo o fogo para discussões daquela alçada; e ele nunca deixaria de se sentir culpado por aquele ano de desaparecimento, tendo acompanhado de perto, através das informações de seu irmão, o quão destruída sua querida ficara.

A senhorita Bergerac parecia ter sucumbido completamente aos novos traços da senhora Holmes de Baker Street, mas com vários lampejos recorrentes de que ainda vivia em sua hospedeira, pois sua independência ainda era forte, mas a sua força em si, agora provinha muito dele. E a dele, dela. Ambos amadureceram juntos naquele arranjo matrimonial; e talvez seus filhos sequer chegariam a conhecer os verdadeiros Anne Bergerac e Sherlock Holmes de Baker Street, senão pelos relatos de seus padrinhos. Violet não conseguia imaginar sua mãe deliberadamente ferindo seu pai com um florete, como ouvira dizer que ocorrera um dia. E John não era capaz de imaginar seu pai sendo zombeteiro e frio com sua esposa por prazer, como também havia sido no passado, antes de se casarem.

Para os gêmeos, aqueles eram personagens criados pelos contos de Tio Watson, assim como Irene Adler, não mamãe e papai. Seus filhos conheciam o mundo em que viviam, mas, todo o mal que se alastrava por ele nunca tocaria as duas figuras sagradas que sempre estariam esperando por eles de braços abertos. A senhora Holmes lhe explicara isso certa vez, quando as crianças ainda estavam apenas trocando suas primeiras palavras, baseada em suas próprias vivências infantis e pré-adolescentes. Agora, eles possuiriam um dever para com aquelas duas vidas; o mal que havia no mundo, seus vícios e pecados, deveriam ser explicados aos dois por eles – os pilares – na condição de que permanecessem como pontos cegos na tempestade. Anne se recusava a permitir que suas inseguranças de infância passassem a seus filhos. As inseguranças que sentiria ao entreouvir discussões entre seus pais devido a disfarces durante o trabalho, por assim dizer.

Nem Vladmir, nem Susanna cometeram adultério em vida, mas viviam se beliscando sobre o assunto, quando sua filha não estava por perto. E ela ouvia e não compreendia, também não buscava informar-se, o que dava ensejo para sua mente divagar pelas possibilidades. Sherlock ouvira tudo atentamente, refletindo a respeito de sua própria infância. Fora feito o acordo. Portanto, era comum que seus pequenos soubessem detalhes a respeito de seus casos, mas nunca que se posicionassem na linha de frente como Anne e ele. No entanto, assim como Holmes em sua infância, Violet e John Nikolai não nasceram pré-dispostos a aceitar limites sem lutar. O pai se divertia com a perspectiva, sua esposa era assombrada por imagens do passado... um garotinho sendo morto diante de seus olhos sem que ela pudesse fazer qualquer coisa.

No que concernia o caso de Madam de Pontmerci, por outro lado, Sherlock Holmes encontrava-se no mesmo lado que sua senhora. Os olhos de sua abelhinha ao verem-no em ação a fim de atrair a criada Agatha para sua teia de informações ainda o perturbava e, portanto, o contato dos pequenos com aquela empreitada em especial deveria ser evitada. Nem gostaria de imaginar o que poderia acontecer se o maior desejo de sua esposa a respeito da criação de seus filhos fosse desrespeitado. Sendo assim, aquele pormenor deveria ser resolvido de uma vez e o pomposo detetive já sabia como.

Seus olhos cravavam-se naquela sala envolvida pelas sombras de milhares de folhas. Ainda instigava Holmes; a razão para um homem como Charles Augustus Milverton possuir um solar nas extremidades de sua propriedade e preenchê-lo com plantas. Passava a maior parte de seu dia ali, com o seu fiel cão de guarda sempre a arrumar as cortinas a fim de afastar os olhos curiosos. Sherlock estava certo de que seus documentos mais valiosos deveriam ser mantidos por trás daquelas mesmas cortinas. O empecilho seria descobrir o momento certo para consegui-las, pois esse fora o único meio que pensara para resolver o problema da tia de sua esposa, tornando-se ele mesmo, por uma noite, um criminoso.

De súbito, e mais uma vez, seus olhos foram interrompidos pela criada. Agatha irrompera por sobre as árvores, levando-o ao chão com um único movimento. Uma criança brincalhona, que para o pomposo detetive teria se revelado irritante, para Ralph Escott era um bem vindo divertimento. Ficava cada dia mais visível para ele o interesse dela, pois sempre que iria lhe pedir uma informação sobre a casa, colocava como condição um pedido de casamento.

─ A que horas costumam se recolher por aqui, Aggie? – perguntou de forma branda, com ela deitada sobre seu peito.

─ Por que quer saber? – indagou ela de volta, risonha, mas desconfiada.

─ Assim saberei quando é seguro visitá-la. – respondeu de pronto, sabendo que era aquilo que ela gostaria de ouvir.

─ Bem, nesse caso, você poderia pular o muro e jogar pedrinhas na minha janela. – ponderou Agatha.

─ E qual é a sua janela? – insistiu Escott.

─ Eu só digo... se se casar comigo, Ralph. – murmurou com doçura, afastando o cabelo de seu rosto, permitindo que ele a visse com clareza. A criada de Milverton era dotada de uma beleza simplória pouco atraente e demasiado inferior se comparada com a esposa de Sherlock Holmes, com seus olhos escuros brilhantes.

─ Aggie... – lamentou ele desviando seu olhar do dela novamente.

─ São as minhas condições... – riu-se ela, tentando alcança-lo com os olhos mais uma vez.

─ Você tem um jeito especial com as palavras. – gracejou Holmes.

─ Está bem. – anuiu ela, por fim, captando toda a atenção de seu ouvinte. – O meu quarto é no último andar, a última janela. E o quarto do mestre é no andar de baixo, em frente ao jardim. – informou ela, reforçando o que ele já suspeitara. – E o do senhor Hensworth fica no térreo, em frente ao escritório. – concluiu. – Ele adora sua boa noite de sono, ninguém consegue acordá-lo. É motivo de piada entre os empregados.

─ Por que não dormir no andar de cima, como todos? – inquiriu Holmes, arqueando as sobrancelhas.

─ O patrão gosta que ele fique de guarda. Ele é um colecionador de arte, o patrão... e as peças valiosas ficam no escritório; e ele tem medo de ladrões... – explicou acariciando o rosto dele. – Você é um ladrão? – perguntou na tentativa de ser engraçada, mas por um segundo colocando-o em guarda. Não poderia deixar que suas suspeitas acabassem com seu disfarce, afinal, ele era um empregado temporário, não deveria fazer tantas perguntas.

─ Oh, Aggie... – disse em tom choroso, acariciando o rosto dela. – Você toca meu coração...

─ Eu poderia oferecer-lhe o meu. – disse convicta. Aproximando-se para beijá-lo.

O sangue de Holmes gelou. Seus instintos gritavam para que a afastasse e saísse dali, no entanto, naquele instante, não era Sherlock Holmes. Era Ralph Escott e se não quisesse deixá-la suspeita, deveria retribuí-lo. Agatha interpretou seu nervosismo com base na informação que conseguira dias antes; ele tremia porque nunca beijara antes e temia não saber como. Encantada, se precipitou por fazê-lo, ao que seu companheiro cedeu com certa cautela, se soltando pouco depois, outra reação que ela interpretou como sinal de sua inexperiência, fato que a divertia. Contudo, era embaraço e nojo o que Sherlock Holmes sentia. Uma imensa vontade de atirá-la para longe de si e correr para casa.

Não lhe passara antes pela cabeça, como um beijo poderia ser diferente do outro. Se passaram quatorze anos, e ter Anne nos braços ainda preenchia-lhe com uma alegria inexplicável. Segundo seu irmão e finado arqui-inimigo, ela fizera dele mais humano e era justamente ali que mais se sentia assim. Com ela sem se preocupar em ser perspicaz ou esperta demais, apenas sua Anne; e ele sem se preocupar em ser O grande Sherlock Holmes, mas apenas o seu Sherlock. De fato, era só no que conseguia pensar quando Agatha o libertou para ir atrás de Maximillian, o cão de Milverton. Seu sorriso pela ideia e lembrança de Anne eram irreprimíveis, e Aggie o interpretaria como um elogio a ela, mas quem primeiro o avistou, foi Violet. E a expressão em seu rosto fez com que o detetive desejasse estar morto.

Aquele seria um vislumbre inesquecível. Sua abelhinha o fitava num misto de horror e repulsa; seu corpo inteiro tremia e ela tentava dizer alguma coisa, mas não conseguia. Então, correu para longe dali. Para longe dele. Holmes fez menção para gritar por seu nome, mas sabia ser inútil. Acontecera...

Não poderemos evitar que eles conheçam as doenças do mundo. – dissera Anne. – Afinal, eles são nossos filhos. Assim que aprenderem a formar palavras nos livros, estarão vasculhando todos os contos de John para entender a razão de todos na rua erguerem seus chapéus para você. – brincara, mirando Violet e Nikolai dormindo. – Mas nós não poderemos ser parte dela, Sherlock... eles conhecerão a traição, mas nunca poderemos sermos nós os traidores.”

─ Minha abelhinha... – murmurou afundando seu rosto contra o chão, envergonhado, de alguma forma quase choroso. Seu estomago se revirava e uma crescente vontade de vomitar se apoderava dele, algo que logo em seguida interpretou como raiva. Sua filha o odiava ou pelo menos jamais olharia para ele com a confiança e calor de outrora; e a culpa era sua. De seu método. O famoso método sherlockiano, como Anne e Watson chamavam, que lhe rendera tanto sucesso e prazer no passado, agora, destruíra um de seus tesouros mais caros.

Então, uma mão o puxou pelo pescoço e o grito agudo de Agatha irrompeu. Era Robert, o lacaio de Milverton em um ataque de ciúme, é claro. E escolhera um momento especialmente ruim para isso, pois já haviam lhe tomado o amor de sua abelhinha, não se importaria em realmente machucar um marmanjo. Sua “noiva”, por certo, veio em seu auxílio, pulando sobre os ombros do lacaio para tentar contê-lo, ao passo que Holmes evitava seus golpes com breves arquear de corpo. Não poderia acertá-lo enquanto Agatha estivesse entre eles, mas assim que seu oponente se livrou dela, nada o impediu de simplesmente jogá-lo contra um par de velhas janelas envidraçadas.

O rebuliço fora ouvido, mas quando Hensworth chegara para cobrar-lhe uma satisfação, o detetive não mais se encontrava ali.

†††

Seus pés a levaram até o lado de fora dos muros que delimitavam a propriedade de Appledore Towers e jamais voltaria a correr com tanto ardor. Vendo-se sozinha, finalmente ela deixou um soluço rouco escapar, bem como as lágrimas que ardiam em sua garganta desde que vira aquela cena hedionda. Baixinho, chamou por sua mãe. Clamava desesperadamente pelos braços dela. De fato, o que ela diria quando soubesse? E John e Artie... qual seria a reação de John ao descobrir que estava errado? Pela primeira vez, Violet Holmes chorou por estar certa...

Holmes a encontrou naquele estado. Encolhida contra os muros, abraçada aos próprios joelhos. Ao vê-lo, recomeçou a correr...

─ Violet. – chamou Sherlock, indo atrás dela. Ela não parou. “Eu não quero ouvir... eu não quero falar com você...” pensava, tentando apertar o passo de suas pernas já exaustas. Só conseguia pensar em sua mãe. Em como ela reagiria.

Violet já havia visto sua mãe zangada com seu pai antes. Os braços cruzados e os olhos impassíveis, a mesma tática que usava para lidar com John. Às vezes, era explosiva. Em outras, fria até o último momento. “Mas ela nunca corre dos problemas, como estou fazendo agora.” Refletiu a pequena senhorita Holmes, desacelerando. Anne Holmes nunca se escondia frente a uma provação. A chegada de Madam de Pontmerci era prova suficiente de que sua mãe possuía garra para enfrentar os problemas de frente. “E eu sou filha dela. Devo ser corajosa. Corajosa como a mamãe.” Decidiu-se, finalmente parando com os dois pés firmes no chão.

Virar-se para encarar seu pai, que a alcançara, não fora tão fácil, contudo. Ela viu remorso e dor nos olhos do grande detetive de Londres e aquilo fê-la fraquejar. “Eu só tenho dez anos... não sou a mamãe...”

─ Ela confia em você! – exclamou, chorando copiosamente. – E eu também quis confiar, mas... mas não consegui... John disse que eu estava sendo boba e mamãe diz que você é sempre honrado... então, por que estava beijando aquela outra? Eu sabia que algo estava errado quando viemos aqui naquele dia! Eu não queria estar certa! – disse, aumentando o tom de voz e fechando os punhos ao final.

Holmes deixou-a dizer o que quisesse, uma vez que não havia nada que pudesse dizer a seu favor; limitando-se a ajoelhar-se para ficar na mesma altura que ela, que não perdia seus olhos em nenhum momento. Queria abraçá-la, mas pressentia que se tentasse isso, ela iria correr de novo e não poderia arriscar perdê-la em Hampstead.

─ Você e a mamãe... – ela gaguejava e seus olhos buscavam auxílio em algum ponto invisível na estrada; não mais capazes de encará-lo. O pomposo detetive engoliu em seco. Violet tentava criar coragem para fazer a pergunta que sua mãe nunca conseguira fazer a seus pais quando tinham a mesma idade. – Você e a mamãe vão se separar? – perguntou baixinho, com uma determinação que durou o suficiente para fazê-lo mirando-o nos olhos, mas que novamente fraquejou, levando-a a baixá-los na direção de seus pés.

Cautelosamente, Sherlock segurou-a pelas mãos, apertando-as num gesto carinhoso entre as suas.

─ Enquanto eu for Sherlock Holmes e sua mãe for Anne Bergerac, juro por tudo que me é mais sagrado, minha querida, eu jamais viveria sem ela. – disse seriamente, fazendo com que Violet olhasse para ele. – Já faz algum tempo que eu só sou Sherlock Holmes, porque ela é a sua mãe. Afinal, eu prometi a ela quando nos casamos: sempre haveria um caso em nossas vidas. – acrescentou com um meio sorriso, arriscando secar as lágrimas dela com as pontas dos dedos.

─ Então por quê...?

─ Venho usando meu velho método há tantos anos que... nunca parei para pensar nas consequências que ele traria a você ou seu irmão...

─ E a mamãe? – interpôs Violet, insatisfeita.

─ Sua mãe... – suspirou ele, puxando a boina da cabeça, em um gesto cansado. – Uma vez, eu parti o coração da sua mãe por ele e isso levou-a a um estado de aceitação exacerbado. Ela confia em mim, é verdade, abelhinha, mas essa confiança está intrinsicamente ligada ao medo de cometer o mesmo erro duas vezes. – ponderou diante do rosto impassível de sua filha. – Me perdoe, abelhinha... por favor, Violet... independentemente do que viu hoje, e mesmo que nunca mais venha a confiar em mim, espero que saiba: eu amo sua mãe e vocês são as melhores experiências que minha carreira me trouxe...

─ Papai só... eu quero ir para casa. – interpôs imperiosamente, visivelmente ansiosa.

Holmes assentiu. Nada mais foi dito. Em uma questão de poucos instantes seu trabalho lhe custara mais do que seria capaz de suportar. Ela não o perdoaria. E nem ele se perdoaria. No entanto, à medida que se encaminhavam para casa em sepulcral silêncio, algo ainda mais claro perpassou pela mente do pomposo detetive...

Nenhum deles jamais esqueceria.

Notas finais
Olá, meus amores!! Então, como prometido, aqui está o primeiro tiro da série: TIRO, PORRADA E BOMBA EM BAKER STREET!! Confesso que esse capítulo foi um dos mais difíceis de escrever até hoje e o passei para alguns amigos antes de entregá-lo a vocês. Meu maior medo nesta fanfic é não fazer das crianças Holmes, crianças compráveis, no sentido de críveis, mesmo que estejam mais velhinhas, com dez anos. Então, perguntei sobre a reação da Violet para vários companheiros e eles me passaram algumas dicas valiosas; algumas serão aproveitadas no próximo, NO SPOILERS! Mas, sim, foi um momento realmente "tenso". Uma encruzilhada na relação até então harmoniosa de pai e filha; a profissão escolhida por Holmes finalmente dando sinais de que seria um empecilho na vida de seus entes queridos (uma ênfase, porque ele sempre soube). Enfim, espero que gostem! Reviews são sempre bem vindas! Um Beijo e até a próxima!