Notas iniciais
Boa Leitura!

Capítulo 9

O sol se punha gloriosamente sobre as cabeças dos londrinos naquela noite. Os tons róseos que adquiria o céu eram suficientes para distrair Violet de seus pensamentos confusos acerca da atitude de seu pai para com a criada Agatha, para a beleza de alguns fenômenos simples da natureza. Sherlock era conhecido por sempre prestar a maior cortesia possível a seus clientes, independente do sexo. E costumava mentir gentilmente à alguma testemunha quando precisava lhe arrancar alguma informação que considerasse vital; disso a menina sabia. Contudo, aquele sorriso fê-la sentir uma ameaça...

John acompanhava seu pai lado a lado com a irmã e ignorava completamente o seu momento de dúvida. Só o que lhe passava pela cabeça eram as palavras de sua mãe assim que o visse. O combinado fora que ele deveria assumir toda a responsabilidade e não pretendia voltar atrás com sua palavra, mas, no fundo, esperava que Violet dissesse alguma coisa que aliviasse seu fardo. Sabia qual seria seu castigo, pois em tantos anos, sua mãe acabara se tornando previsível. Cortaria sua liberdade da pior maneira possível, sendo seus olhos dia e noite. Baker Street passaria a ser um tipo de prisão por pelo menos duas semanas... nas quais ele teria que deitar-se no sofá por tardes intermináveis enquanto sua mãe lia ou fazia contas. Afinal, esse era o pior que poderia acontecer a um Holmes: ficar estagnado.

Anne havia retornado fazia poucos minutos de sua visita ao Clube Diógenes e os aguardava sentada em sua poltrona perto da lareira. Refletia incessantemente sua conversa com Mycroft e seus próximos passos a partir dela. Se realmente desejasse saber a respeito de seus pais, precisaria ir contra sua palavra e se aproximar de Josephine de Pontmerci. Fazer uso de todas as conexões, por mais tênues que sejam, fora o conselho implícito de seu cunhado. O barulho dos passos de seus soldadinhos subindo as escadas a deixou em estado de alerta, ao que ela aprumou-se e ergueu seu rosto num gesto de poder e imponência. Uma rainha se preparando para receber seus súditos ou, nesse caso, seus prisioneiros de guerra.

Holmes abriu a porta e olhou imediatamente para sua esposa, que mantinha seus olhos vidrados à sua frente esperando que viessem até ela; tendo entendido suas intenções, lançou um olhar de encorajamento aos gêmeos, dando-lhes um empurrãozinho de incentivo. Porém, apenas John caminhou em direção a Anne, ajoelhando-se perante ela cabisbaixo. Violet fitou a cena sentindo-se um pouco mal por não conseguir pensar em nada para dizer ou fazer que melhorasse sua situação. Esta, que já vinha sendo agravada desde seu sumiço naquela manhã, quando já se encontrava de castigo pelo que acontecera a William Watson e que agora somava-se ao fato de ter escapulido uma segunda vez para ficar com seu pai durante uma investigação, o que a mãe não aprovava em absoluto.

─ John, olhe para mim. – disse ela solenemente, sendo obedecida de pronto. Ao fundo, Sherlock observava a cena parado de pé ao lado da porta agora fechada. – Eu espero que reconheça a razão da minha zanga. Ontem, chegou aos meus ouvidos que William deveria ficar de cama por uma febre consequente de um ato em prol de protegê-lo. Um garotinho de oito anos protegendo um rapazote de dez anos! – desdenhou ela. – Fui bem clara ao dizer que ficaria detido em casa por duas semanas, mas então, o que acontece? Bem debaixo do meu nariz desaparece... e a senhorita não muito melhor, ao invés de impedi-lo, se junta a ele. – continuou lançando a Violet um olhar cortante. Anne poderia não ser tão dura em seus castigos, mas seus olhares gelados já eram punição suficiente para seus filhos.

─ Eu a incitei, mãe. Não foi culpa dela. – disse John tentando defendê-la.

─ Violet Holmes passou os primeiros seis anos de sua vida tentando convencer a todos desta casa de que não era uma criatura influenciável. E agora vejam só: basta que seu irmão lhe pisque os olhos e já está desobedecendo minhas ordens. – zombou a senhora Holmes e seus olhos então se recaíram sobre seu marido. – E quando os avistou, não achou que deveria mandá-los de volta para casa? – indagou com escárnio.

─ Embora a ideia tenha me passado pela cabeça, minha querida, de que adiantaria? Conhece seu filho. “Se não hoje, por que não amanhã?” – explicou-se Sherlock e por mais que ainda usasse as roupas de um simples mecânico, ostentava a imponência de sua versão com seu melhor terno.

A senhora Holmes assentiu e tornou a fitar seus filhos com aspereza.

─ Bem, eu espero que o dia de hoje tenha valido muito a pena, pois estou aumentando sua pena para três semanas, John Nikolaevich Holmes e, como tornaram-se tão unidos depois de seis anos discutindo todas as manhãs, nada mais natural que unam-se ainda mais em suas semanas de confinamento juntos. Violet Nikolaevna Holmes, também está de castigo. Sem condição de diminuição de pena por bom comportamento. – concluiu solenemente, tornando a mirar seu marido que resumiu-se a assentir com ela.

Em seguida, a senhora Hudson entrou, em seu timing perfeito, para perguntar se deveria servir o jantar. Anne deu uma boa avaliada no estado de seus filhos e também de seu marido, todos marcados em seus disfarces e suspirou profundamente. Holmes entendeu o motivo de sua frustração, sem reprimir uma risadinha de desdém e avisou a senhoria que primeiramente um banho fazia-se necessário a pequena tropa. Resignados, os gêmeos subiram as escadas em direção ao quarto, observados pela mãe que ainda não perdera o fel.

††

Após cuidar do banho de Violet, Anne tornou a descer as escadas para os aposentos de seu marido. Holmes ainda meditava dentro da banheira, por vezes cantarolando alguma área de Wagner, suas canções de batalha. Nesses momentos, sua esposa permanecia silenciosa atrás da porta, ouvindo-o. Pensava em como acabara se parecendo muito com sua mãe ao ralhar com seus filhos. Durante a gravidez, costumava jurar que jamais faria a eles o mesmo que Susanna fizera a ela, suas infinitas injustiças ao tentar separá-la do mundo que tanto amava...

─ Sherlock... – chamou batendo na porta, murmurando. Ele lhe respondeu com um sonoro muxoxo, devido a interrupção, ao que ela riu. – Eu não deveria ter sido tão fria com as crianças... – comentou tornando a ficar séria.

─ Novamente o medo de estar se tornando uma versão mais lacônica da sua mãe? – rebateu ele risonho, levando-a a outro sorriso.

─ Sherlock! – ralhou mas sem conseguir conter o riso. – Estou falando sério... e se chegar o momento em que eu faça com eles me odeiem...

─ O momento não é agora. Só quando Violet se apaixonar pela primeira vez e John resolver que quer entrar para a Scotland Yard; E ainda assim, nestes casos você não tem que se preocupar, porque serei eu a fazer com que eles me odeiem. – constatou Holmes mais uma vez fazendo troça, mas sendo sincero.

─ Você não se importa realmente se John quiser seguir carreira na polícia. – disse ela colocando o rosto na fresta da porta.

─ Não se puder convencê-lo de que nada é mais desafiador do que a Química. – retrucou ele virando-se para encará-la na porta, convidando-a a entrar com um aceno displicente de cabeça. Corando, ela negou, mirando-o significativamente. Holmes gargalhou perante o sutil recato de sua esposa, que acabou cedendo.

─ Você e seu irmão não param de me impressionar. – comentou Anne sentando-se num banquinho ao lado da banheira.

─ Eu espero que por razões diversas. – gracejou Sherlock com um sorriso malicioso. Corando outra vez, Anne mergulhou a mão na água e jogou um punhado contra o rosto dele. – Devo dizer, minha querida, molhar um homem já molhado não foi a sua melhor ideia de punição... De qualquer forma, o que disse meu doce irmão para deixa-la tão encantada? – perguntou interessado.

─ Saia desta banheira e coloque suas roupas, Sherlock Holmes e eu lhe contarei. – disse ela levantando-se para pegar sua toalha e atira-la nele.

Minutos depois ela entrou no quarto. Ele terminava de fechar seu roupão e alinhava os cabelos molhados com um pente.

─ Agora estou decente o suficiente para minha esposa? – indagou abrindo os braços para que ela o avaliasse.

─ Depende. – foi a resposta dela dando uma pequena volta ao redor dele. – Está usando alguma coisa embaixo desse roupão? – brincou, fazendo com que ele reprimisse o que deveria ser uma grande gargalhada, repousando o dedo indicador sobre seus lábios. – Como eu dizia antes, fiquei impressionada com minha conversa com Mycroft. Acho que ele tem uma quedinha por Madam de Pontmerci...

Holmes arqueou uma das sobrancelhas, enquanto a guiava até a sala.

─ Veja só sua evolução, um dia tão avessa ao casamento e agora falando como uma verdadeira casamenteira. – zombou cruzando as pernas ao sentar-se ao lado dela no longo sofá. Anne as empurrou em rebate a implicância.

─ Não insinuei nenhum envolvimento romântico, mas que ele fala sobre ela com grande reverência, isso sim! – disse de forma eloquente. – E ele até mencionou um jogo de xadrez. – continuou, agora na intenção de implicar.

─ Céus! Pergunto-me como conseguiu adiar um pedido de casamento até agora. – desdenhou Sherlock sorrindo. Anne o fitou sem conseguir evitar a malícia em seu próprio sorriso. – Embora eu lhe diga o contrário, foram estes olhos, tais como estão agora, e não sua habilidade no xadrez que me levaram a propor casamento, querida. E, além disso, pensou no que vai fazer sobre...?

─ Apesar do fulgor de seu depoimento a respeito de Madam de Pontmerci, Mycroft ainda conseguiu ser preciso ao me fazer perceber que preciso falar com ela. – assentiu Anne brandamente. – Claro, não vejo razão para chamá-la de tia Josephine... mas, ao mesmo tempo, tenho que fazer uso dessa conexão para entender melhor o passado de meus pais... por mais tênue que seja.

─ Talvez eu esteja sendo rude, mas, por quê? Por que é tão importante? – quis saber Holmes e seu tom era terno.

─ Não é. – revelou ela com um suspiro cansado. – Tenho certeza de que no final não vai mudar e nem acrescentar nada ao presente; mas é uma peça... e eu quero encaixá-la... Quero dizer, houve um momento no discurso de Mycroft no qual ela acabou se tornando um enigma; você me conhece. – disse alcançando a mão dele.

─ Posso perguntar precisamente o quê? – indagou apertando carinhosamente sua mão contra a dele.

─ Havia algo quebrado e remendado a seu respeito. – recitou Anne calmamente.

─ Agora vejo o que quis dizer. – ponderou Holmes. – Se eu estivesse lá para ouvi-lo, certamente pontuaria sua escolha de palavras; ou seu súbito favorecimento a um discurso mais poético. – unindo as pontas dos dedos e levando-as ao queixo.

─ Bem sei o quanto tive de me segurar para não fazê-lo eu mesma. – concordou a senhora Holmes.

─ Quem sabe? Uma leve inclinação... Não seria a primeira vez que uma mulher da sua família sobe à cabeça de um homem da família Holmes. – brincou Sherlock, deixando de fitar o chão para mirá-la de soslaio.

─ E que interessante seria. Como se nossas vidas já não fossem bagunçadas o suficiente... Não consigo imaginar. Chamar o meu querido irmãozinho Mycroft de tio Myckie. – observou ela seguindo o olhar dele.

O pensamento seguiu-se de uma gargalhada audível por todos os andares da casa, o que impulsionou a decida prematura das crianças. Chegaram a tempo de assistirem escondidos seus pais rindo um do outro, com as mãos novamente entrelaçadas. Poderiam estar um pouco zangados pelo castigo infligido, porém, na opinião dos gêmeos, valia a pena acatar com ordens, se isso promove-se ainda mais a união do casal de Baker Street.

Notas finais
Boa Tarde, queridos leitores! Se este capítulo tiver chegado até vocês na Sexta-feira dia 04 de Março, quer dizer que a minha programação de postagem deu certo. Porque eu vou fazer uma viagem para São Paulo no dia de postagem e, como não levarei o computador, ficaria incapacitada de postar no prazo que combinei com vocês... não fosse o sistema de programação do Nyah que nunca usei. Até agora. Então, se deu certo, que bom! Se não, no Sábado à tarde - quando eu chegar - o capítulo estará aqui (ignore esta parte da mensagem se a postagem der certo) Bem, proclames feitos, vamos passar para os comentários da autora. Este capítulo é o mais leve da fanfic, justamente porque, a partir de agora, todo mundo vai levar tiro! Se brincar, alguém morre de bala perdida... Logo, para prepará-los para muitas emoções, achei de bom tom criar um ambiente aparentemente harmonioso - ou nem tanto... Anne mamãe punho de ferro - para que vocês desfrutem. Detalhe: próximo capítulo, segundo favorito desta autora. Só para deixá-los com vontade mesmo. É. Sou má. Aprendi com o George Martin. É isso! Bom fim de semana! Até maiiis!