O Legado de Pontmerci
10 Duas Almas à Caminho do Inferno
Notas iniciais
Capítulo 10
─ É isso o que você sempre foi, minha cara Madam de Pontmerci. Uma mentirosa orgulhosa!
Os gritos acusatórios de seu marido vinham atrapalhando seu sono desde seu falecimento, e dormir passara a ser um grande desafio. O sentimento de culpa a corroía por dentro e, diferente do que achara que iria acontecer, sua vinda para a Inglaterra a fim de resolver o empecilho causador daquilo tudo não diminuíra a sensação. De fato, o encontro com sua sobrinha e saber da morte de Susanna e Vladmir apenas aumentara aquela sensação de mal-estar e ansiedade.
─ É tudo culpa minha. – murmurou em meio a escuridão de seu quarto. Tornara-se habitual, desde aquela fatídica discussão, que andasse por seus aposentos durante a noite, por vezes até a madrugada, enquanto desfrutava de uma pequena quantidade de xerez.
Na rua, silêncio absoluto. E pouco do vento frio conseguia atravessar a janela selada para dentro do quarto. Abrindo-a e indo de encontro a sacada, inspirou profundamente, sem se deixar abalar pelo gelo que fazia.
Viera repetindo aquelas cenas em sua mente de novo e de novo. Se ao menos não tivesse entregado as cartas para Solignac... seu primeiro ato de boa fé e desprendido de suspeitas em muito tempo; e então, semanas depois, encontrara os resultados. A primeira carta de Milverton que a atormentara em meio a suas coisas esquecidas em sua mesa no escritório de Sebastian. Se ao menos tivesse queimado as primeiras tal qual fizera com aquela...
“Aguardarei o momento oportuno” ele dissera. Este fora quase dez anos depois. Certamente ele sabia o duplo estrago que estaria infligindo à sua família, mas ela jamais esperaria pela reação de seu marido depois de tanto tempo tendo passado. Meses antes de sua morte, ainda que parecesse tudo tão recente, Josephine recebera a primeira ameaça de Milverton. Achou ser melhor manter tudo oculto de todos e respondeu ao chantagista dizendo que daria um jeito... na época, a quantia pedida poderia ter sido mais facilmente arranjada. No entanto, o maldito achou por bem mandar uma cópia de suas exigências a Sebastian e toda a calma com a qual sua esposa pensara em conduzir aquela transação se esvaiu; o estrago fora tamanho que ela julgara que a notícia da morte de seu marido seriam recompensa suficiente aquele calhorda, mas errara.
─ Eu sinto muito, Sebastian. – Josephine estava sentada em uma das cadeiras do escritório do marido em sua casa, as mãos apoiadas entre os joelhos, como uma menininha impotente sendo veemente repreendida por seu pai. A descoberta fizera-o exigir toda a verdade, e uma vez revelada... ela nunca poderia esquecer como seus olhos a fitaram durante suas próximas palavras.
Houve um tempo em que o casamento dos dois havia sido quase feliz. Com o nascimento de Louis, também houve o nascimento de uma nova esperança; e o modo tortuoso como começaram aquela união fora deixado para trás e nunca mais trazido à tona. Com duas exceções. A segunda, foi naquela noite em que discutiram a carta de Charles Milverton.
─ “Sinto muito, Sebastian”. – repetiu ele duramente. – Essas palavras vindas de você, que nunca sentiu muito por nada, desde que me lembro, realmente significam muito. – os olhos dela permaneciam baixos e a voz dele permanecia baixa, mas o desdém por trás de cada sílaba pronunciada era tocável. – Bem, espero que a essa altura não esteja sendo tão infantil ao ponto de acreditar que um simples pedido de desculpas possa concertar as coisas.
─ Não há mais nada que eu possa fazer... além, é claro, de vender algumas joias para levantar o valor que ele está... – sua voz estava embargada pelas lágrimas que tentava reprimir e fizeram-na engasgar num gritinho agudo quando ouvi-o quebrar uma taça contra o carpete.
─ Não é pelo dinheiro! – bradou ele pondo-se a andar em círculos. Permaneceu assim por milésimos de segundo e ela finalmente criou coragem para encará-lo nos olhos, endireitando a coluna. Sabia que seu marido detestava quando ela se obstinava diante de uma reprimenda como aquela... odiava vê-lo perder a compostura... – Eu sabia, dissera Sebastian frígido, sabia que um dia me arrependeria de ter me casado com você quando sabia de sua situação, das circunstâncias. Mas eu desejava tanto tê-la para mim... tão cego de amor... que não percebi com o que estava me amarrando: uma mentirosa. – sentenciou. — É isso o que você sempre foi, minha cara Madam de Pontmerci. Uma mentirosa orgulhosa!
Tão logo as palavras dele lhe escapuliram a boca, Josephine já se colocava de pé, o rosto ardendo em vários tons de vermelho.
─ Isso é uma grande injustiça! – retrucou ela mirando-o de cima a baixo.
─ Será? – desdenhou ele dando um passo na direção dela. – Perdoe-me, minha cara. Mas é capaz de me encarar e dizer que nunca teria mentido para mim ou a qualquer outra pessoa, desde que conseguisse manter a imagem que tem de si mesma para o mundo? – a pergunta saiu cuspida e por um longo minuto ela nada disse. Ao que ele assentiu com escárnio.
─ Não dirá nada ao Louis... – implorou Josephine, segurando-o pelo braço quando ele se virou para sair. – Sebastian?
─ Não serei eu a destruir o amor de um filho por sua mãe, por mais hipócrita que ela seja. Tenho certeza de que vai acabar conseguindo isso sozinha. – respondeu ele soltando-se da mão dela, batendo a porta ao sair.
Nos meses que se seguiram ele vinha reclamando da dor constante que sentia em seu peito e nunca mais lhe dirigiu qualquer palavra quando estavam sozinhos. Deixaram de dividir o leito matrimonial e em seus últimos momentos fizera Louis prometer que ele cuidaria de seu enterro. Seu precioso garoto acreditaria que seu pai estava apenas tentando poupá-la, mas sua mãe sabia mais... Sebastian, mesmo em morte, não queria tê-la envolvida em mais nada que lhe dissesse respeito. Na noite anterior a sua morte, Josephine tentara alcançar seu perdão e arriscara mencionar os tempos felizes de seu casamento...
─ Não foi de todo ruim. – sussurrou levando sua mão até a dele, sorrindo com doçura.
─ Eu a amei, Josephine... e ouso dizer que consegui fazê-la ao menos gostar um pouco de mim. Não. Não foi de todo ruim... porém, quando pensamos na verdade, ela faz com que todo o resto se torne uma grande farsa. – murmurou ele de volta, parecia estar em paz consigo mesmo. Indiferente a qualquer dor que suas palavras pudessem trazer a ela.
─ Então... não me perdoa? Nunca perdoou?
─ Você se perdoou? Você perdoaria? – rebateu ele com um sorrisinho amarelo que costumava irritá-la sempre...
“Você se perdoou? Você perdoaria?” Por todo o caminho que fizera desde o cemitério na França até aquele quarto de hotel no Savoy ela se fez aquela pergunta. Ela fora a responsável por todo o mal que trazia em seu passado... O que Susanna pensaria disso? Sua irmã mais nova costumava ser muito prática e compreensiva com os desejos da primogênita dos Bergerac, muito por buscar sua aprovação. Certa vez lhe confidenciara desejar ser igual a ela e agora era Josephine quem desejaria ter aprendido um pouco com a outra.
“Eu estava apenas seguindo as regras...” Sua sobrinha estava certa. Aquela fora a desculpa que usara durante todos aqueles anos e para mais de um de seus problemas. Só agora entendia o quanto era uma forma ridícula de se pensar. E Susanna falecera enquanto isso...
Você se perdoou? Você perdoaria?
─ Não.
††
Eram quase onze e meia. Sem qualquer alarde a Louis, ela apanhara uma carruagem e oferecera uma grande quantidade de notas para que fosse levada até Appledore Towers. Seus pensamentos encontravam-se demasiado perturbados por seu julgamento acerca dos últimos anos de sua vida para decidir se aquela era uma decisão sensata.
Por fora, a casa parecia silenciosa, mas ela foi tão insistente ao bater na porta que após alguns minutos um dos criados respondeu. Sem esperar por um convite, Josephine atravessou o corredor, exigindo falar com Charles Milverton, seu tom era de urgência. À contragosto, seu valete lhe guiou até a sala próxima da estufa, onde pediu que ela permanecesse, até que seu patrão pudesse descer. Sentia-se inquieta e desconfortável por estar ali, mas... e se Mycroft estivesse errado e seu irmão não fosse capaz de ajudá-la?
─ Boa noite. – cumprimentou a voz de um senhor atrás dela. Num pulo, sua convidada inesperada já encontrava-se de pé, mas sem dizer uma palavra. – Diga-me, minha cara, quem acha que é para invadir a casa alheia desta forma? – indagou lentamente se aproximando dela.
─ Está prestes a destruir minha vida, senhor. Suponho que isto me conceda alguns privilégios. – respondeu a matrona voltando a si, meneando a cabeça com certo desdém.
─ Já... como coloca? “Destruí muitas vidas”, minha cara senhora. Terá que ser mais específica ou... – ele pareceu observá-la pela primeira vez desde que entrara na sala e seu sorriso fixo, por um instante, pareceu se abrir um pouco mais. – Ah sim. Madam de Pontmerci. É uma honra. Devo dizer que fiquei bastante desapontado quando recebi apenas a visita de seu filho, mas vejo que veio desfazer sua desfeita anterior, quanta gentileza. No entanto, não poderia ter escolhido horário mais apropriado?
A calma com a qual enunciava cada palavra, sabendo que sua companhia estava longe de sentir-se da mesma forma e por sua própria culpa, aumentava o asco de Josephine por aquele inseto. Seria capaz de perdoar vários defeitos em um homem, exceto a apatia.
─ De fato, eu poderia. – assentiu com um sorriso afetado, dando voltas até se sentar numa das cadeiras dispostas na sala. – Mas não quis. Se tivesse, provavelmente teria que dividir meus planos com meu filho. O senhor me pareceu ser um cavalheiro muito discreto em suas cartas, senhor Milverton; mais do que ninguém deve entender meus motivos.
Ele parecia estar se divertindo com ela. E por mais que seus olhos brilhassem de um modo assassino, Josephine não parecia se abalar por eles, retribuindo seu sorriso afetado com o mesmo entusiasmo. Seguindo a deixa dela, também se sentou, reajustando seus óculos em seu nariz com uma delicadeza quase incômoda.
─ É claro. – concordou recostando-se em sua cadeira. – E espero que não me faça perder meu tempo, logo, irei informá-la de que seu filho já tentou interceder em seu favor me pedindo para diminuir o preço pelas cartas e eu neguei.
─ Bem, não podemos dizer que Louis esteja a par de toda a situação, não é? Ninguém está, além de mim e do senhor. – falou Josephine como quem explicava a diferença entre o certo e o errado a uma criança. – Acredito que o motivo de ter aumentado o valor foi a minha, vamos dizer, protelação em atender ao seu primeiro ultimato. Ambos sabemos que, no que concerne ao tratado com a Rússia, o que está feito está feito e haverá aqueles que assumirão responsabilidade, agora que Sebastian está morto. – ponderou dando de ombros, mirando-o significativamente.
─ Então, a senhora acredita que só o que tive a ganhar foi acelerar a morte de seu marido ao lhe mandar uma cópia de meu, como disse, ultimato. E que, portanto, deveria voltar ao valor inicial porque não obterei nada de melhor nisso tudo. Ao menos é o que a senhora acredita.— seu tom era calmo e beirava ao riso, o que ela decidiu convenientemente ignorar.
─ Estando no meio há mais tempo, acho que posso me dar ao luxo de acreditar em várias coisas. – disse ela abrindo um pouco mais seu sorriso. – Estou disposta a entregar—lhe minhas joias mais antigas, as sedas e peles mais caras de meu armário, o que cobriria o antigo valor. E, se fizer com que se sinta melhor, assino um acordo formalizando tudo.
Milverton, então, não conseguiu mais se controlar. Ria abertamente dela ao ponto de seus olhos se encherem de lágrimas. A reação estava longe de ser a esperada, mas ao invés de explodir impetuosamente, a matrona se refreou respirando pesadamente. Sobre o apoio de prata da bengala, suas mãos tremiam um pouco, denunciando seu nervosismo, contudo, sua expressão permanecia inescrutável. Ele quase a admirara por isso, não fosse o fato de saber que ela cairia... e seria a queda mais deliciosa que já presenciara em todos os seus anos.
─ Eu a julguei uma mulher de bom senso, mas vejo que me enganei. – disse após uma breve pausa. – Sua visão parece ter uma visão tão infantil quanto a de seu filho. Um traço de família, devo supor? Em todo caso, a questão aqui é o mesmo sentimento que a senhora tenta me passar nesse instante: o orgulho. E, na presente situação, estamos falando do orgulho de duas nações e, se duas pessoas já conseguem se destruir tão facilmente por conta dele – como acredito ter sido o caso com o seu marido, Deus o tenha – imagine só! França e Rússia tentando descobrir quem tem o maior ego. Tudo graças a um erro de movimento seu... e, embora esteja certa e o autor não possa responder pelo crime, ainda há quem possa pagar em seu lugar. Seu filho... a senhora...?
─ Não estaria realmente considerando dar razão a uma disputa entre a França e a Rússia! Mon Dieu, isso traria consequências ao seu precioso país! Em uma guerra sempre temos que escolher um lado... – constatou Madam de Pontmerci sutilmente aumentando o tom de voz.
─ Não creio que chegaria a tanto... se conseguissem eliminar aqueles responsáveis por levantar o rumor. – observou Milverton, maliciosamente. Josephine engoliu em seco. – Como eu disse ao jovem senhor de Pontmerci, o preço que coloco é sobre suas cabeças...
─ Imagino que deva ser demasiado satisfatório brincar de Deus. – desdenhou ela, o sorriso afetado abandonando aos poucos suas feições. – Não bastou matar meu marido...
─ Que a senhora nunca amou. – completou o chantagista. Sem conseguir mais se conter, Josephine ergueu-se, sua mão direita junto com ela, preparando-se para desferir um tapa. Contudo, ao perceber a inutilidade do gesto, abaixou o braço, seu maxilar tremia. – O que mais o levaria a falecer logo depois de descobrir sua traição? Imagino que isso a impediu de falar com seu filho.
─ Senhor Milverton, eu lhe imploro... não. – disse pausadamente, seus olhos ardendo pelas lágrimas que tentava retrair. – A dor que me causou... se me tirar meu filho...
─ A culpa será só sua, porque se recusou a abrir mão de sua vida pela dele. Imagino que suas “joias antigas” sejam mais importantes... Não, minha cara. O espólio de Sebastian, o legado de Pontmerci, se preferir, é o meu preço. Nada menos. – concluiu. Josephine abriu e fechou a boca duas vezes, fechando as mãos sobre o console da bengala. – Algo mais a dizer, minha cara?
─ Nada que importasse ao senhor. Todavia, há uma beleza nisso tudo... se fui um ser humano ruim, o senhor provou-se pior e fico feliz em saber que o inferno não é desigual naqueles que acolhe. – também concluiu ela se dirigindo a saída, tomando a carruagem de volta para o hotel.
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