O Legado de Pontmerci
6 Código de conduta Holmes - Parte 1
Notas iniciais
Capítulo 6
O som da porta que dividia a sala de estar do quarto de seus pais batendo fez com que Violet soltasse um breve suspiro de preocupação e se colocasse no caminho de seu próprio quarto, onde seus pais acreditavam que ela estivera aquele tempo todo com seu irmão. A filha do maior detetive de Londres, apesar de não possuir o mesmo amor que seu gêmeo pelas andanças através dos bairros da cidade, com certeza não se opunha em manter-se a par daquelas que aconteciam debaixo de seu nariz. Agindo, desta forma, como a pequena informante de John.
─ Com que então meus olhos e ouvidos retorna para um relatório bastante verossímil acerca dos andamentos do novo caso de papai. – disse ele da cadeira em frente ao pequeno espelho de sua irmã, enquanto abria seu pequeno estojo de maquiagem – conseguido de forma particularmente suspeita.
─ John, falar como um personagem de algum romance de Oscar Wilde só parece divertido na sua cabeça. Para nós, ouvintes, é bem irritante. – rebateu a irmã jogando-se contra os travesseiros de sua cama. – Era o filho dela e não disse nada que eu já não tenha lhe contado no caminho de volta para casa. Quer dizer, ele mencionou um prazo. – disse virando-se de lado e apoiando a cabeça com uma das mãos.
─ Prazo?! – exasperou-se John, seus olhos finalmente indo de encontro aos dela.
─ Prazo. – respondeu Violet simplesmente, mas seu tom queria dizer algo como “posso procurar o significado dessa palavra no dicionário se você o tiver esquecido”.
─ Nunca tivemos um prazo antes... não um que fosse verbalmente estipulado por algum cliente. – observou o garoto tornando a mirar-se no espelho. A menina baixou o olhar para o estojo de maquiagem e reprimiu um risinho.
─ Melhor se apressar se quiser seguir papai até seu destino. Saí depois que o ouvi mencionar trabalho de campo para a mamãe. Assunto sério para sair de uma vez sem ao menos contar os detalhes a ela.
─ Só precisaria seguir papai se não tivesse ideia de para onde ele vai, maninha. – ponderou John.
─ E como provavelmente eu já devo ter lido o arquivo de Charles Milverton umas três vezes até hoje, você está contando com a minha habilidade de reter informação útil aos seus interesses egoístas. – desdenhou a menina, sentando-se de pernas cruzadas sobre a cama, sua voz carregada de superioridade.
─ Grandes mentes pensam igual. – falou o menino com um enorme sorrisinho amarelo em seu rosto, ao que sua irmã bufou de exasperação.
─ Você está de castigo. Detido. Impedido de sair dessa casa até que a senhora nossa mãe decida o contrário. – lembrou-lhe ela. John já tinha metade do rosto transformada de um perfeito garotinho da city para um dos meninos das docas. De fato, estivera com aquela aparência a manhã inteira, naquele momento, no entanto, para ganhar tempo e montar sua estratégia de fuga fazia o que ouvira as meninas do coro do teatro chamar de “retocar a maquiagem”.
─ Tecnicamente, sim, eu estou de castigo. Porém, como um cavalheiro inglês, acredito ter o direito a um habeas corpus. – brincou.
─ Olha seu tamanho. – rebateu Violet, mas, sem conter uma risada. – Enfim, sei o que está prestes a sugerir, – interpôs ela antes que ele tornasse a abrir a boca – que eu fique e lhe dê cobertura. Não deixe mamãe ou a senhora Hudson entrarem no quarto, o pacote de sempre. Mas, John, dessa vez papai não vai passar apenas algumas horas fora... ele chegou a dizer “voltar para jantar sempre que possível”. – advertiu.
Quando os gêmeos fizeram cinco anos de idade, a velha governanta contara ao senhor e a senhora Holmes a respeito de uma antiga lenda escocesa a respeito de irmãos frutos do mesmo parto. Segundo a superstição, gêmeos costumavam desenvolver uma habilidade sobrenatural de se comunicarem através de uma reles troca de olhares. Leitura de mentes, foi o que ela dissera. À época, Anne e Sherlock riram, ao passo que seus filhos também consideraram a ideia impossível. No entanto, à medida que envelheciam, ficava cada vez mais claro para Violet e John que existia um quê de verdade naquilo tudo, pois bastou que o último tornasse a se voltar para a primeira com um sorriso esperto arregalado para que esta percebesse sobre o que realmente se tratava seu esquema.
†††
─ Explique-me de novo como foi que eu concordei com isso. – disse Violet do banco de trás de uma carroça. – Porque eu ainda não consigo acreditar que deixei mamãe para trás num momento desses por um argumento seu!
John Holmes mantinha seus olhos na estrada com um sorrisinho bobo.
─ De nada. – foi a resposta dele com um aceno galanteador de seu boné. – E como assim, deixar mamãe para trás num momento desses? Alguma coisa que a senhorita tenha entreouvido e não me contou?! Eu não consigo acreditar, Violet Holmes! É isso que recebo em troca de te trazer comigo? Segredos? Pensei que a base da nossa relação fosse a confiança...
─ Quer calar a boca! Se souberem quem somos...
─ Por St. George e ainda tenho que ouvi-la insultar a minha inteligência. – interpôs seu gêmeo levando a mão aos olhos. – Acha que eu pediria carona até Appledore Towers com um estranho?! Acha que eu não aprendi a regra número 1 da vida? – a insistência de seu irmão em fazer daquilo tudo uma grande piada forçada começava a irritar a senhorita Holmes.
─ Perdão. – pediu sarcasticamente. – Então, quem é ele?
─ Winston. Ele é o responsável por abastecer as principais casas de campo da região com o melhor da horticultura. – explicou John, cheio de si.
─ E você o conheceu durante uma de suas andanças? – indagou Violet.
─ Evidente. – assentiu o pequeno Holmes. – Agora, sobre mamãe...
─ Me surpreende você não ter percebido, John. – cedeu a menina depois de um minuto sem saber ao certo se contava o que descobrira ou não. – Ela está estranha desde que a viu... a distinta Madam de Pontmerci. – comentou dizendo o nome da mulher lentamente e em sotaque francês. – O que achou dela? Vocês estavam conversando antes de mamãe e eu interrompermos...
─ Estranhamente familiar. – respondeu seu irmão retirando o boné, torcendo-o com as mãos e a irmã percebeu no pequeno gesto uma pitada de nervosismo. – Ela é rápida. Como tio Mycroft. Eu gostei dela. – concluiu recolocando o boné no topo da cabeça.
─ Mamãe a odiou...
─ E você? Não precisa acatar com as opiniões de mamãe o tempo todo...
─ Suspeita. Algo nela... as pessoas costumam ser lidas facilmente por nossos pais, mas, ela não. Isso me preocupa, não só porque mamãe ficou abalada com a presença dela em casa e depois no parque, mas também porque... – a voz de Violet travou. Era mais fácil contar os segredos que os outros traziam a seus pais para John do que um a respeito de sua própria família.
─ Porque... – incentivou o gêmeo, brandamente.
─ Eu não sei se deveria contar. – disse puxando um cacho de dentro do coque que seu irmão fizera em seu cabelo.
─ Carregar segredos é um fardo muito grande... veja o que aconteceu com Dorian Gray. – comentou John solenemente.
─ Realmente, John, qual é o seu problema com Oscar Wilde? – retrucou Violet tentando fazer aquilo soar repreensivo, mas na verdade a fizera rir. – Enfim, ouvi mamãe contar ao papai que Madam de Pontmerci é irmã de nossa avó...
─ Nós temos uma tia avó...
─ Não segundo a mamãe. Ela não quer ter nada com isso, pelo que entendi... mas, não sei... Lembra-se de quando você ficou com uma pulga atrás da orelha sobre um segredo que mamãe e papai pudessem ter com a gente e acabou que era um aniversário surpresa? – perguntou, recebendo um aceno positivo de cabeça do irmão. – Estou sentindo a mesma coisa sobre isso...
─ Não, Violet. – cortou ele.
─ Não o quê?
─ Não vai amolar ninguém com perguntas indiscretas. Existe um limite para o que crianças de dez anos devem fazer. – ponderou com um falso ar de sabedoria. – Sair sem permissão do castigo é uma coisa, mas remexer no passado da família é outra. Se mamãe não quer falar nisso... deixe estar.
Em silêncio, Violet assentiu para o irmão. Deixe estar.
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