O Legado de Pontmerci
7 Olhos de Anne
Notas iniciais
Capítulo 7
O caso de Madam de Pontmerci não era um dos mais brilhantes se comparado a tantos outros que Watson registrara ao longo de sua carreira, mas envolvia várias personas que Holmes julgava serem interessantes e isso deveria soar como um motivo bom o suficiente para as mentes curiosas que acompanhavam seus progressos através das histórias publicadas por seu velho amigo. No entanto, o detetive jamais poderia admitir a sua esposa o motivo enrustido ali que o levara a aceitá-lo.
Talvez, não à primeira vista, mas depois de uma olhada mais profunda para os olhos da dama francesa, ele o viu: o mesmo brilho característico dos olhos das duas Bergeracs que já conhecera. Anne e Susanna. Todavia, se contasse a primeira que havia percebido a semelhança de família antes de sua descoberta, poderia se passar por um manipulador, quando, na verdade, só estivera tentando evitar que suas habilidades a prejudicasse ou que passasse por uma situação embaraçosa, e o mal entendido a que levaria sua suposição caso não estivesse certo certamente seria grande o suficiente para que ficassem sem se falar por semanas.
Depois de anos acreditando ter perdido tudo quando Stanpleton matou seus pais, uma família repentina não seria tão bem recebida. Ele conhecia o orgulho de sua Anne. Não era muito diferente do orgulho da família Holmes. O mesmo que agora corria pelas veias de seus filhos. Violet e John eram crianças que, como todas as outras, aprendiam muito através de observação; e vivendo rodeados por adultos demais, acabavam querendo crescer mais rápido do que a maioria para que pudessem exercer da mesma aparente liberdade que tais adultos pareciam ostentar.
A paternidade fizera bem ao pomposo detetive de Baker Street. Tanto a senhora Holmes quanto ele não se julgavam prontos para a tarefa, mas se provaram verdadeiros prodígios entre os pais de primeira viagem (e contavam com a ajuda da experiência que era a senhora Hudson). As crianças eram fantásticas e embora às vezes ele se sentisse saudoso quanto ao silêncio do passado, não abriria mão de escutar as vozes dos gêmeos discutindo escada acima.
E agora envolvido num caso, por um momento se esquecera de quem eram seus filhos. Ou melhor, como eles nunca ficam muito diferentes dos pais.
─ E, então, já temos a motivação de nossos personagens definida? – a voz de seu filho tirou-lhe de seus pensamentos, enquanto analisava a entrada dos empregados. Ao seu lado estava Violet, desconcertada, tentando não fitá-lo nos olhos.
Sherlock sabia que John fora colocado de castigo pelo que acontecera ao pequeno William, e sabia que sua esposa ficaria furiosa se não os mandasse de volta para casa naquele mesmo instante. Por outro lado, conhecia seu filho e ele ainda era tão obstinado quanto o incidente da bola confiscada que o forçou a andar confirmou que seria. Se o mandasse embora, ele voltaria. Os Holmes não aceitam “não” como resposta.
─ Então, seremos os três contra a sua mãe quando voltarmos? – indagou com as sobrancelhas arqueadas e o sotaque cockney.
Violet lançou olhares hesitantes tanto para o pai quanto para o irmão. Durante aquele curto período de vida de dez anos, John reunira um enorme número de facetas e peraltices, mas nunca se colocara em meio à autoridade de seus pais. De forma geral, eles sempre concordavam com as punições aplicadas e Violet sabia que esta era uma das razões para serem um casal harmonioso tendo filhos tão controversos. Naquele momento, porém, estavam entrando em território perigoso.
─ Eu assumo a responsabilidade perante a senhora Holmes. – disse John em tom solene.
─ Sem sarcasmo ao falar da sua mãe, rapaz. – retrucou o pai imediatamente, duro.
─ Esse sou eu sendo reverente. Se estivesse tentando caçoar da mamãe, teria dito dona Holmes em cockeney. – defendeu-se visivelmente irritado com o súbito sermão de seu pai, o que fez com que este ergue-se os lábios em um meio sorriso. – Violet? – disse se dirigindo a sua menina que até então não havia falado nada.
─ Eu poderia ir, mas, na verdade, não tenho nada melhor para fazer...
─ Ou não quer enfrentar a mamãe sozinha. – interpôs John recobrando o bom humor.
─ Isso também. – concordou dando de ombros, lançando um sorriso delicado a ambos. – Por outro lado, podemos chamar a atenção. Duas crianças e um... do que está vestido mesmo, papai? – perguntou finalmente tentando decifrar o personagem de Holmes.
─ Minha pequena abelhinha, não consegue chegar lá sozinha?! – exclamou ele, soando desafiador.
─ Bem, certamente o senhor está a caminho de se infiltrar na casa do senhor Milverton para tentar descobrir uma maneira de conseguir as cartas... – a pequena começou a deduzir.
─ E, levando em conta que estamos no lado nobre de Hampstead, diria que é uma casa bem, bem velha. – continuou John.
─ E estamos nos aproximando do inverno...
─ E nada é mais preocupante numa casa velha no inverno do que o sistema de encanamento.
─ Foi o que ouvi tio Watson dizendo uma vez a tia Mary. – concordou Violet e então ergueu seus olhos para encarar seu pai e franziu o nariz em desaprovação ao reparar melhor no cavanhaque que não lhe caía bem. – Encanador. – disse em uniosso com John, ambos recebendo um aberto sorriso de aprovação.
─ E como sabe que eles estão precisando de um...? Ah, claro, os anúncios no jornal. – disse John batendo na testa ao responder sua própria pergunta.
─ Exatamente. Agora, os dois. Meu nome é Escott e sou dono da minha própria e próspera firma. – explicou calmamente olhando de um para o outro. – Obviamente, são os meus filhos, mas diremos que a mamãe faleceu...
─ Se não entreouvíssemos vocês dois conversando às vezes, eu poderia dizer que esse tal de Escott é uma espécie de alter ego. – comentou John arrancando uma risada de sua irmã.
─ John... – advertiu-o, mais uma vez com o tom de voz duro. – O mais importante é que enquanto eu estiver dentro da casa, quero que vocês dois permaneçam do lado de fora e tentem encontrar alguma janela, alguma entrada ou se conseguem ver Milverton em alguma sala. – concluiu Sherlock.
─ Reconhecimento do perímetro. Excelente. – murmurou o pequeno Holmes, esfregando as mãos sujas.
Minutos depois, estavam caminhando juntos até a entrada dos empregados. Holmes carregando uma pequena sacola com ferramentas que havia passado desapercebida pelos gêmeos ou teriam deduzido muito mais rápido as intenções de seu pai. Violet ia na frente, seguida por John que, voluntariosamente, deu-se o privilégio de bater à porta. Fora a criada de Milverton quem atendera. Uma criatura miúda, de olhos fundos e com voz de tal timbre que fez a pequena mrs. Holmes conter uma torcida de nariz em desaprovação.
─ Boa tarde, senhorita. – cumprimentou Sherlock.
─ Não me lembro de termos chamado o serviço de encanador. – comentou ela subitamente, sem se preocupar em cumprimentá-lo.
─ Summers, senhorita. Foi ele quem chamou. – continuou o pomposo detetive calmamente.
─ Ah sim, entre. – disse abrindo o caminho. Chamara apenas Holmes, mas as crianças o seguiram sem esperar por um segundo convite. John sempre com seu olhar despojado, imitando os meninos das docas e Violet se passando pela irmãzinha mais nova, agarrando-se a ele como uma sombra.
Não passara despercebido a ela, no entanto, que a criada havia lançando um olhar furtivo às costas de seu pai. Não era capaz de definir bem o porquê, mas, não gostara disso. Continuaram a segui-lo até uma salinha onde Holmes se colocou a trabalhar. Ainda era surpreendente para seus filhos como ele adquirira todas aquelas habilidades para se tornar convincente sob qualquer disfarce. Porém, mal se colocara a mexer na pia da cozinha, quando o mordomo de Milverton entrou.
John encarara-o longamente. O traço mais peculiar era seu rosto duro e a cicatriz debaixo de seu olho esquerdo. Ele gostava de cicatrizes, pois geralmente remetiam a um passado, a uma história. E uma cicatriz no rosto de um empregado do mais alto escalão, como um mordomo deveria ser, combinado ao fato de quem era seu empregador, o maior chantagista de Londres, encheu a cabecinha do pequeno Holmes de possibilidades. A mais provável, segundo sua imaginação ditava, seria que aquele tal senhor Hemsworth houvesse sido um “fora da lei” que fizera algum grande favor a Milverton no passado e, por isso, conseguira o emprego através da confiança conquistada após o suposto incidente.
Violet, por outro lado, mantinha seus olhos negros vidrados na criada, Agatha, que remexia os pezinhos sem parar enquanto tentava explicar ao mordomo a razão para seu pai estar debaixo daquela pia sem ninguém ter-lhe avisado antes. Encontrava-se prestes a expulsar Holmes dali, não fosse a interferência dela contando-lhe que no outro dia ouvira o senhor Milverton se queixar do que quer que fosse a respeito da neve; Violet não prestara atenção, apenas seguia o movimento dos pés da jovem e concentrava-se em como aquilo a estava incomodando.
─ Muito bem, então. – disse por fim o senhor Hemsworth, parando mais uma vez para analisar as crianças. – E quanto a esses dois? – indagou na direção do encanador e da criada.
─ São meus, senhor Hemsworth. Infelizmente, a menina que deveria tomar conta deles para mim adoeceu e me vi obrigado a trazê-los comigo no último segundo. – explicou-se Holmes e John reprimiu um sorriso diante de seu sotaque cockney.
─ Não vamos atrapalhar, senhor. – disse o garoto, passando a mão pelo ombro da irmã. Dito isso, o mordomo os deixou e o detetive continuou com a pia, soltando um monte de água contra seu rosto, o que fez a criada rir. De novo, Violet sentiu-se desconfortável...
─ Quero ir brincar lá fora. – disse puxando a manga de seu irmão. – Papai...
─ Jo, seja boazinha...
─ Não, está tudo bem. Podem ir lá fora crianças... – interpôs a criada e sem esperar Violet e John saíram em disparada.
─ Jo? – indagou o irmão a irmã em um sussurro quando estavam suficientemente afastados da porta.
─ De mulherzinhas da Louise May Alcott, não lembra? Mamãe me deu no natal passado e papai leu alguns capítulos para mim durante aquela semana que fiquei de cama com gripe...
─ Ah sim, o seu nariz ficou mais vermelho do que o da rena do conto de natal. Agora, vamos ao trabalho. – brincou, desviando-se do tapa de sua irmã.
Pelo resto da tarde, andaram ao redor da propriedade de Charles Milverton, correndo como se estivessem brincando de pega-pega, mas tomando cuidado para não serem ouvidos ou vistos pelo mordomo mal encarado. Contaram todas as janelas do térreo por onde seu pai poderia entrar e ao fundo da casa, repararam no que parecia ser uma grande estufa, pois a sala parecia estar cheia de plantas e abria-se para uma varanda através de uma porta de vidro coberta com cortinas.
Fosse outra residência, teriam interpretado aquela como a sala típica de uma grande senhora do campo. Contudo, Violet lera o arquivo de Charles vezes suficientes para saber que ele não era casado, logo, ambas as crianças demonstraram visível interesse no porquê um homem solteiro manteria uma excentricidade daquelas dentro de casa, se não tinha uma senhora. Caminharam até a janela próxima dali e escutaram a voz de um velho. John gravara o timbre de Hemsworth e não era ele... deveria ser Milverton. Aflitos, saíram em disparada até a porta dos criados novamente.
Seu pai estava acertando alguma coisa com o criado Summers, o lacaio. Provavelmente combinando em quanto tempo seu serviço ficaria pronto. Por fim, despediram-se e Violet observou a criada retornando para dentro bem a tempo de receber um sorriso galanteador de Holmes. Aquilo fez o sangue da pequena senhorita gelar. Nunca vira seu pai flertar com outras mulheres e aquele decididamente era um sorriso de flerte, afinal, quantas vezes ele sorrira daquela forma para sua mãe? Inúmeras, quando achava que ninguém estava olhando.
─ Vamos voltar para casa? – quis saber John, confuso. Lembrava-se de sua irmã lhe dizendo que Holmes mencionara a sua mãe que ficaria muito tempo afastado.
─ Sim senhor, e voltaremos amanhã, mas os dois ficarão em casa dessa vez. – advertiu Sherlock. – Agora, alguma coisa interessante sobre a casa que tenham notado? – perguntou.
─ O que foi aquilo? – interpôs Violet, contendo sua irritação.
─ Aquilo o quê, abelhinha? – inquiriu Holmes quando ela não especificou.
─ O sorriso para a criada de Milverton. – disse ela crispando os lábios. John lançou a irmã um olhar que beirava entre o divertido e o confuso. Seu pai, por outro lado, parecia constrangido.
─ Apenas uma gentileza gratuita, caso venha a precisar de informação interna no futuro. É sempre bom ter a criadagem mais antiga do nosso lado... – comentou analisando os olhos da filha que, mais do que nunca, possuíam o brilho dos de sua mãe. – Violet, está tudo...?
─ É claro que sim. – disse ansiosa, interrompendo-o, as mãos entre os joelhos. E não disse mais nada durante todo o percurso de volta para casa. No entanto, Sherlock não pôde deixar de notar o tom de sua voz ao interrogá-lo. Anne usara-o anos atrás quando via-se falando sobre Irene Adler e, por mais que ver aquele mesmo tom sendo usado por sua abelhinha o tenha consternado muito, insistiu no silêncio até que chegassem em casa.
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