O Legado Escarlate
1 Prólogo ☼ "Herança vermelha"
Notas iniciais

"A Vingança nunca é uma linha reta. É uma floresta, e na floresta é fácil perder o caminho, se perder... Esquecer de como você entrou."
(Hattori Hanzo)
Prólogo ☼ "Herança vermelha"
As tímidas estrelas despediam-se com o pincelar de tons mais suaves. O manto negro tornava-se azul-claro à medida em que o despertar do sol aquecia o horizonte. Nuances douradas misturavam-se à afável manhã e coloriam o nascer de um novo dia.
A harmonia da natureza era sublime quando apreciada com os olhos de um poeta. Mas aqueles olhos já não eram capazes de reconhecer beleza alguma.
O mar estava calmo, permitindo que o Flor do Oriente deslizasse seu casco sem maiores transtornos naquela ventura da Ásia para a América do Norte. As águas azuis tinham fixas o olhar repleto de sentimentos ruins e pesados. A pedra verde do pingente da mãe dançava entre os dedos longos enquanto a katana descansava contra o peito.
Ele estava sentado na amurada e recostado nos cordames, taciturno como de costume. Os tripulantes do navio já tinham até mesmo desistido de alertar sobre o perigo de adormecer e ser devorado por alguma criatura marinha. Eram muitas as lendas, mas ele era um incrédulo teimoso, silencioso e pouco paciente.
Os pensamentos não estavam à deriva como sua expressão sugeria, a meditação o levava de volta à terra natal.
Novamente, podia ouvir as palavras ditas na voz moribunda do homem que lhe deu a vida, elas ainda o tiravam o sono. Aquela voz frágil e quebradiça o assombrava sempre que se deitava para dormir. As palavras que foram pronunciadas num fio de voz, determinando sua sina e marcando em escarlate o seu destino.
Tudo havia acontecido tão rápido...
Quando fechava os olhos, conseguia visualizar como se estivesse revivendo os acontecimentos daquele tempestuoso dia.
O cheiro de cerejas que vinha da árvore plantada no jardim de casa era doce e o início de noite trazia nuvens carregadas de uma chuva que logo cairia. Era apenas mais um dia comum, ele voltava do primeiro duelo como samurai, confiante de que seria recebido com honrarias pela vitória.
Entretanto, nada de bom o aguardava.
Quando entrou em casa, encontrou o pai em pé, espada de madeira em mãos e o inimigo caído no tatame. Os olhos alternando entre um e outro, aflitos. E então, veio o incontestável som do fim; o silêncio se preencheu com o estampido de um tiro, o cheiro ocre da pólvora e os tons de vermelho que sujaram o kimono de seu Otousan [1], seguiram-se do grito encolerizado de sua mãe e do choro convulso das irmãs mais novas.
A trapaça estampada no sorriso cheio de deboche do perdedor.
Tudo por conta do bom coração de um homem que não aceitava matar aqueles que derrotava. Morto por mostrar piedade.
Sentia vontade de correr novamente em desespero, buscando estancar a ferida mortal no peito do pai enquanto o cheiro de sangue trazia lágrimas aos seus olhos e o resto da família era levado à força pelo covarde que lançou um último sorriso jocoso antes de partir. Deveria tê-lo matado naquela noite, mas seu coração aflito de filho veio para nublar o julgamento.
O fogo que ardia e engolia a casa era nada comparado ao desespero que sentia por ter o corpo abandonando a vida aos poucos em seus braços. E quando o último suspiro se deu, uma parte sua também se foi com ele.
Seu lar agora estava reduzido às cinzas, seu coração se fazia duro como uma pedra de jade e a determinação corria feito veneno em suas veias, motivada pelas últimas palavras do pai. Estas, permaneciam mais vivas que nunca, viajando com o vento junto a ele.
— Jure que se vingará! Jure que as trará de volta!
As últimas falas surgindo com o sangue que deixava a boca que falava com muito esforço.
Ele não precisava tê-lo feito jurar, jamais deixaria a mãe e as irmãs abandonadas à própria sorte. Mas a vingança... Essa se entrelaçava em sua sina desde aquele momento.
Os olhos negros fitaram o horizonte e os dedos apertaram o cabo da espada a tiracolo quando ouviu o capitão gritar.
O dia do acerto de contas estava tão próximo quanto a embarcação estava da terra.
— Eu juro.
E logo, sua espada faria jus à herança vermelha gravada em sua alma.
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