Eleanor trançou o cabelo e o prendeu com grampos no alto da cabeça formando um coque, deixou alguns cachos soltos e decorou o coque com um laço de fita azul celeste, depois colocou os brincos e o colar de pérolas e por último calçou as luvas de linho brancas.

Ouviu leves batidas na porta e girou sobre a cadeira ficando sentada de lado.

— Entre. — Proferiu com a voz afável de sempre.

A porta se abriu com um suave rangido e a figura marcante de Arthur aos poucos apareceu. O jovem mantinha uma expressão dócil e uma das mãos escondida nas costas. O cabelo ondulado do rapaz caia-lhe sobre o rosto pálido e contrastava com o casaco de lã verde escuro.

Eleanor abriu um largo sorriso ao ver a figura do filho e estendeu os braços em sua direção.

— Venha cá Arth, deixe-me ver você.

— Boa noite mamãe. — Disse o jovem enquanto caminhava na direção de Eleanor.

— Boa noite querido. — Respondeu a mulher.

— Não cumprimenta seu pai? — A voz de Albert fez-se firme pelo quarto e atraiu o olhar de Arthur que se virou para o pai e acenou com a cabeça.

— Boa noite meu pai. — Disse o jovem brevemente antes de voltar sua atenção para Eleanor. — Está tão bonita mamãe, aonde vais?

— Seu pai e eu iremos à ópera essa noite. — Respondeu Eleanor enquanto arrumava o casaco de Arthur que estava desabotoado. — Você gostaria de ir?

— Eu não sou um grande apreciador de ópera. — Disse o rapaz abaixando os olhos.

— Então se importa em vigiar seus irmãos para mim?

— De forma alguma mamãe.

— Obrigada Arth, você é um bom menino.

— O que traz escondido nas costas? — Perguntou Albert que terminava de vestir a sobrecasaca de lã preta e os sapatos.

Arthur trouxe para frente a mão que mantinha nas costas revelando um lírio branco recém colhido, ele esticou o braço na direção de Eleanor que por sua vez aspirou o aroma da flor e levou a mão aos cabelos retirando o laço de fita azul celeste e amarrando-o no lírio de forma não muito apertada, um gesto que encantou Arthur pela maneira como sugeria que a mãe gostara do presente, depois ela segurou a flor com cuidado e a colocou em um vaso de vidro sobre a penteadeira.

— É linda! — Exclamou a mulher inclinando o corpo para abraçar o filho. — Obrigada Arth.

— Não sabia o que lhe dar de presente de aniversário. — A voz de Arthur saiu baixa e tímida.

— Essa foi a melhor ideia que conseguiu ter? — Disse Albert com um tom de voz que sugeria deboche.

— Era isso ou um passeio à ópera. — Retrucou Arthur.

Percebendo a hostilidade que se formava entre pai e filho, Eleanor tentou atrair a atenção de Arthur mudando de assunto.

— Você sabe o que os lírios representam Arth? — Perguntou ela.

O rapaz agitou a cabeça para a esquerda e para a direita demonstrando não ter a resposta para aquela indagação.

— Representa a pureza, e o prazer de estar na companhia de outra pessoa. É como se você me dissesse que adora estar comigo. — Contou Eleanor enquanto passava a mão pelos cabelos do filho.

— Que tolice. — Resmungou Albert.

— Mamãe... — Arthur começou a falar, mas parou logo depois de lançar um olhar para o pai e ver que este estava atento a sua conversa com Eleanor.

— Albert, será que poderia me deixar a sós com Arthur por alguns minutos? — Disse Eleanor percebendo o desconforto do filho.

— Vou descer e esperar na carruagem. — Respondeu Albert. — Não demore.

E dizendo isso vestiu a cartola e saiu do quarto fechando a porta atrás de si.

— Pronto querido, o que queria me dizer? — Eleanor dirigiu-se a Arthur assim que teve a certeza de ouvir os passos de Albert distanciando-se pela escada.

— Semana que vem é o seu aniversário e eu gostaria de fazer algo especial por você. — Arthur fez uma pausa tentando decifrar a expressão no rosto da mãe, mas esta apenas o ouvia com atenção. — Porém todos estarão tentando fazer o mesmo, o que significa que todos disputarão a sua atenção. Eu fiquei pensando sobre isso, e decidi que gostaria de passar algum tempo só com a senhora.

— Como fazíamos antigamente?

— Exatamente! — O rapaz animou-se ao ver que a mãe compreendia perfeitamente o que ele tentava explicar. — Então eu tive uma ideia.

— E qual seria?

— Eu pensei em passarmos o fim de semana na casa do vovô Frederick, em Much Wenlock. Só nós dois. Eu até mesmo já enviei uma carta ao vovô falando sobre isso e ele me garantiu que ficaria muito feliz em receber-nos.

Eleanor ficou em silêncio por tanto tempo que Arthur julgou ter sido um erro fazer aquela proposta, finalmente os olhos azuis da mãe vieram de encontro aos dele e ela o puxou para si abraçando-o.

— Eu nem sei o que dizer Arth. — Eleanor apertava o filho nos braços. — Fico tão feliz com a ideia que teve, eu não consigo pensar em presente melhor.

Arthur respirou aliviado e envolveu os braços ao redor do pescoço da mãe retribuindo o carinhoso abraço que recebia.

— Então nós iremos? Só eu e você? — Perguntou o jovem ainda um pouco receoso.

— É claro querido! Será um fim de semana maravilhoso. Amanhã mesmo eu escreverei uma carta para seu avô confirmando nossa visita.

— Então deixarei minha mala arrumada.

— Faça isso, Arth! Eu farei o mesmo assim que voltar da ópera. — Eleanor soltou o filho e lhe deu um beijo na testa, depois pegou a bolsa do cabideiro e dirigiu-se para a porta. — Falaremos mais sobre isso amanhã, agora eu preciso ir que seu pai deve estar impaciente de tanto esperar.

— Divirta-se na ópera, mamãe. — Arthur abriu a porta do quarto e esperou a mãe sair primeiro, depois a seguiu e fechou a porta.

— Obrigada querido, e você comporte-se e tome conta de seus irmãos!

— Farei isso. — Garantiu-lhe o rapaz.

Arthur ficou parado ao pé da escada observando a mãe descer os degraus. Quando estava no meio da descida Eleanor parou e virou-se para o filho.

— Tenho muito orgulho de você Arth! — Ela continuou a lenta descida antes de conseguir ver o sorriso que se formou nos lábios de Arthur ao ouvir aquelas palavras.

Os olhos de Eleanor encheram-se de alegria ao avistar novamente, de dentro da carruagem, o mar de rosas que dava a bela residência dos Santtori o carinhoso apelido de Púrpura de Wenlock.

Estar de volta à Much Wenlock lhe transmitia uma sensação de contentamento que ela poucas vezes havia sentido em sua vida e que se aprofundou mais quando, saindo da carruagem, ela deparou-se com o pai, o Duque de Wenlock, a lhe esperar na entrada da mansão.

— Bem-vinda de volta, Elle. — Disse o Duque.

— Papai... — Eleanor abraçou o pai com força. — Que saudade.

— E como vai você Arthur? — O duque dirigiu seu olhar para o pequeno de cabelos ruivos que vinha logo atrás da mãe.

— Estou bem vovô, obrigado.

— Venham, vamos entrar.

Os visitantes foram guiados para dentro da mansão até a sala de estar onde se acomodaram.

— Como estão as coisas em Leeds?

— Estão ótimas! Leeds é muito agradável e as crianças adoram. — Disse Eleanor.

— Você não pensa em voltar para cá, Elle?

— Sabe que eu adoraria papai, mas Albert não se separa daquela cidade por nada!

— Sim eu entendo. Bem, então devemos aproveitar o tempo que está aqui para que você possa rever sua cidade, os lugares que adorava ir e sua irmã Bridget e o marido.

— Tia Bridget já teve filhos? — Perguntou Arthur ao avô.

— Ainda não. — Respondeu o duque enquanto acendia seu charuto.

— Lembra-se de nossos passeios no fim da tarde, papai? — Eleanor fez uma breve pausa. — Caminhar pelas ruas, pelas lojas. Sentir o cheiro dos pães, dos bolos. Lembra-se? Eu sempre ficava com vontade de provar aqueles bolos.

— E como esquecer? Você era a filha que mais me dava trabalho Elle, sempre atraída pelo mundo dos humanos, por suas comidas, seus costumes, e o sol. Nunca entendi o que você vê de tão especial naquela bola de fogo.

— Eu não gosto do sol! — Manifestou-se Arthur.

— Você faz muito bem em não gostar do sol, pelo menos não puxou a desmiolada da sua mãe. — O tom do Duque mudara nessa ultima frase tornando-se mais descontraído.

Mais tarde, naquela noite, o Duque de Wenlock levou a filha e o neto para um passeio pela cidade. Eleanor adorou rever as pessoas e os lugares de que tanto sentia falta, porém a ultima atração da noite é que era a mais especial.

Visitar Bridget, sua irmã mais nova com quem sempre fora mais apegada, sem dúvida valeu sua viagem. As duas passaram horas passeando sozinhas pelo jardim e jogando conversa fora enquanto os homens conversavam na varanda observando a caminhada das duas damas. Quando faltavam poucas horas para o amanhecer Bridget convidou o pai e a irmã para voltarem na noite seguinte para uma reunião com alguns amigos.

— Oh eu não tenho certeza, prometi ao Arth que passaria o fim de semana com ele. — Disse Eleanor receosa.

— Mas são apenas algumas poucas horas. — Insistiu Bridget. — Eu diria para trazer Arthur, mas não será agradável para ele, não virá ninguém da idade dele.

— Não se preocupe mamãe, amanhã ainda é sábado, podemos passar o domingo juntos antes de retornarmos para Leeds. — Disse Arthur.

— Se você tem certeza disso Arth... — Eleanor olhou para o filho, Arthur forçou-se a sorrir e acenou positivamente com a cabeça. — Então eu aceito.

Ao voltarem para a Púrpura de Wenlock Arthur foi imediatamente para seu quarto, o rapaz não dissera uma única palavra desde que voltaram da casa de tia Bridget. Parecia pensativo... distante... seus movimentos eram limitados a rápidos gestos com a cabeça quando falavam com ele.

Faltava pouco mais de uma hora para o amanhecer. Arthur estava de pé, imóvel, na sacada olhando fixamente para o jardim da frente da casa quando sua mãe bateu na porta do quarto que estava apenas encostada. Aparentemente as batidas não foram o suficiente para trazer Arthur de volta de seus pensamentos, o jovem nem ao menos parecia tê-las escutado.

— Já vai amanhecer Arth. — Disse Eleanor ao aproximar-se do filho. — Você não vai dormir? Deve estar cansado da viajem.

— Eu já estou indo mamãe. — Respondeu o jovem sem desgrudar os olhos do horizonte.

— O que foi querido? Sinto-lhe tão triste. É porque aceitei o convite de sua tia para passar a noite com ela amanhã?

— De forma alguma. — Arthur piscou os olhos vagarosamente, como se tivesse acabado de despertar de um sono profundo, e buscou o rosto de Eleanor. — Eu só estava pensando... O que existe nos humanos que a deixa tão fascinada? Eu sempre pensei que o único propósito de sua existência era nos servir de alimento, mas a senhora não, a senhora parece respeita-los, parece nutrir algum carinho por eles. — Arthur fez uma pausa e olhou para Eleanor para certificar-se de que não a estava ofendendo, não queria de forma alguma magoar a mãe. — Eu nunca senti nada por eles, nem curiosidade. Seus sentimentos me confundem.

Eleanor ficou algum tempo calada refletindo sobre as palavras do filho, nunca imaginou ser questionada tão profundamente sobre aquele assunto ainda mais por seu filho que teoricamente era apenas uma criança. Agora eram os olhos dela que estavam perdidos pelo jardim, eles vigiavam os cantos como se buscassem uma resposta, mas a verdade é que ela não era capaz de explicar o sentimento que nutria.

Talvez apreciasse seus costumes por serem diferentes, talvez ela fosse apenas curiosa. Pela primeira vez ela se deu conta de que, por mais antigo que fosse seu fascínio pelos seres diferentes, ela nunca antes buscara justifica-lo.

— Eu acho que invejo suas possibilidades. — Ela ajeitou uma mexa de cabelo atrás da orelha. — Durante nossa existência só conhecemos o frio da noite e o sabor do sangue, eu fico me perguntando como deve ser passear durante o dia sem precisar se esconder debaixo das sombras ou do tecido de nossas roupas, imagino como deve ser um jantar em família ou uma noite de natal.

— De que adianta ter tantas possibilidades se servem de comida para outros? Permanecem como criaturas inferiores, seus lideres são tão facilmente manipuláveis que nos permitem tapar os olhos dos demais de sua raça... e ainda nos ajudam a faze-lo.

— Será mesmo que somos assim tão superiores Arth? Afinal somos nós que nos escondemos deles, não o contrário.

Arthur não soube o que pensar sobre esse argumento, as poucas palavras da mãe o fizeram se sentir envergonhado e ele apenas abaixou a cabeça. Vendo a reação do filho, Eleanor pousou a mão sobre o ombro do rapaz abraçando-o de lado.

— Não faça essa carinha, você é só uma criança Arth, não deve se condenar por não entender essas coisas. Eu mesma nunca entendi. — Ela sorriu derretendo a expressão gelada que se formou no rosto de Arthur.

Mesmo sem compreender o fascínio de Eleanor pelos humanos seu carinho por ela não diminuíra.

—Venha querido, vamos entrar. — Disse Eleanor conduzindo o filho para dentro do quarto, trancando a porta da sacada e fechando as cortinas para manter Arthur seguro dos raios do sol. — Hoje foi um dia muito agradável Arth. Durma bem querido. — Ela lhe deu um beijo na testa e despediu-se do filho apagando as três velas acesas no candelabro e fechando a porta ao sair do quarto.

Arthur revirava-se inquieto sem sono em seu ataúde. Passava das dez da manhã e ele ainda não havia conseguido dormir quase nada. Pegara no sono apenas por poucas horas, mas fora um sono tão leve que ele logo acordou.

Sua conversa com Eleanor ficou atormentando seus pensamentos e impedindo que o jovem conseguisse descansar. Dentro de sua cabeça as palavras ditas por sua mãe se repetiam várias e várias vezes e quanto mais Arthur tentava entender o fascínio de Eleanor menos ele se julgava perto de tal resposta.

Impaciente, Arthur levantou-se. As cortinas de veludo protegiam o jovem dos raios do sol e deixavam o ambiente escurecido, então ele ascendeu às velas do candelabro e percorreu os corredores da mansão, esgueirando-se das luzes solares deixadas por pequenas frestas das cortinas, até chegar à biblioteca.

A biblioteca da Púrpura de Wenlock era, possivelmente, o cômodo mais majestoso da mansão. Sua estrutura consistia em dois andares, o primeiro era um enorme salão redondo com paredes forradas por janelas de vidro e algumas poucas estantes de livros, incluindo a coleção dos clássicos favoritos do Duque de Wenlock, que ficavam trancados em uma estante especial ao lado de sua escrivaninha onde sempre havia alguns papéis, pena e tinta, e por último a escada que levava ao andar de cima. O segundo andar da biblioteca era mais estreito do que o primeiro, o chão contornava o primeiro andar deixando um vácuo no meio e deveria ter espaço apenas para duas pessoas caminharem lado a lado (por isso havia uma grade protetora para evitar acidentes), as estantes de livros eram embutidas na parede e se erguiam do chão até pouco antes do teto contornando a sala por completo, uma escada móvel de madeira permitia que alcançassem livros em prateleiras mais altas e por último havia o belo teto abóbada.

Arthur entrou na biblioteca e foi direto ao andar de cima, não sabia exatamente pelo que estava procurando, apenas deslizava as pontas dos dedos pelas lombadas dos livros lendo rapidamente seus títulos. Juntou uma pequena pilha e desceu as escadas procurando um lugar confortável para iniciar sua leitura. Sentou-se primeiramente na escrivaninha do avô, mas como até mesmo a pouca claridade que conseguia penetrar na sala o incomodava ele logo buscou outro local para ler. Andou pelo cômodo até decidir que a área mais escura da sala era debaixo da escada que levava ao segundo andar. Deixou lá sua pilha de livros e seu candelabro, buscou um banquinho de madeira na sala e voltou para junto dos livros.

Ele sentou-se sobre o banquinho e deixou o candelabro ao seu lado, apoiou um dos livros no colo e iniciou sua leitura, logo perdeu o interesse por ele e pegou outro da pilha, depois outro e mais outro, continuou a descarta-los um após o outro até se convencer de que a resposta que procurava não estava em nenhum deles.

Desanimado ele permaneceu sentado e imóvel debaixo da escada, sua ansiedade começou a fazer com que batesse levemente a ponta do pé no chão causando um som irritante que ecoou pelo cômodo sem que ele se importasse, porém outro som se fez mais alto, um ruído repentino que fez o banquinho se desequilibrar provocando a queda do jovem.

Arthur colocou-se de pé e bateu o pó da roupa antes de olhar ao redor e perceber que estava de pé em uma sala que nunca havia visto. Uma sala em que ele caíra após rolar alguns degraus de pedra que também não se lembrava de ter visto antes. Ele subiu os degraus de pedra tentando entender o que havia acontecido.

Ao voltar para a biblioteca viu seu banquinho caído no topo da pequena escadaria. Ele ajoelhou-se no chão procurando por algo que explicasse o surgimento daquela passagem até que seus dedos tocaram o que parecia ser uma pequena fissura no chão, ele iluminou o local da fissura com as velas do candelabro e percebeu que havia um pequeno quadrado que se destacava do restante do chão no mesmo local onde a poucos minutos atrás ele batia impacientemente a ponta do pé.

Arthur apoiou a mão sobre o quadrado e este afundou provocando o ruído dos degraus de pedra se reagrupando, tapando a passagem e escondendo a saleta escura. Ele pressionou a mão sobre o quadrado novamente e o chão liso deslocou-se dando forma aos degraus debaixo da escada.

O jovem ficou olhando incrédulo toda aquela cena, seu assombro inicial logo foi substituído por uma mistura de ansiedade e satisfação. Ele lembrou-se de que, algumas vezes, ouvia seus tios comentarem que a Púrpura de Wenlock possuía mais salas do que um visitante poderia contar, porém nunca dera importância para esses comentários que sugeriam passagens e salas secretas, no entanto, agora ele mesmo estava diante de uma dessas salas que teria escapado aos olhos de qualquer outro visitante e por nada no mundo perderia a chance de explorar cada centímetro de sua descoberta.

Com o candelabro na mão direita ele desceu novamente os degraus, dessa vez com os pés, e iluminou a saleta examinando-a com mais cautela.

O chão de madeira velha rangia a cada passo seu, as paredes eram feitas de paralelepípedos e o teto era baixo e repleto de vigas soltas das quais ele precisava desviar-se todo o tempo. O cheiro que preenchia a saleta era uma mistura de mofo e papel queimado que Arthur atribuiu aos papeis em branco chamuscados espalhados pelo chão.

“Por que alguém tentaria queimar papéis em branco?”

O restante da sala estava vazio, exceto por um caixote de madeira esquecido nos fundos. Mesmo sendo algo sem importância, Arthur pensou que qualquer caixote que fosse guardado em uma sala cuja existência a maioria das pessoas desconhecia era merecedor de um pouco de sua atenção.

Ele abriu o caixote com facilidade, mas dentro dele só havia mais papéis em branco. Arthur deixou o candelabro ao lado do caixote e pegou alguns papéis para examina-los, todos eles estavam em branco, alguns estavam amassados, outros rasgados e outros ainda parcialmente queimados. Depois de tirar todos os papéis de dentro do caixote ele encontrou uma pedra, um paralelepípedo semelhante aos que cobriam as paredes.

Arthur verificou minuciosamente cada centímetro de cada parede de paralelepípedo, mas em nenhuma delas sobrava um espaço que poderia ser preenchido por aquele do caixote. Desanimado por não ter encontrado nada interessante ele se sentou no chão e ficou em silêncio, chegou até a fechar um pouco os olhos e foi então que ouviu um barulho de água corrente que antes deveria ter-lhe escapado por conta de sua empolgação com o restante da sala. Ele se concentrou no som, ajoelhou-se e começou a tatear as tábuas de madeira escurecida afastando os papéis que se espalhavam por toda parte até encontrar a entrada de um alçapão. Ele puxou para cima a aldraba presa á porta do alçapão e esta se ergueu revelando, para a surpresa de Arthur, mais paralelepípedos que pareciam ter sido colocados ali para tampar a passagem, entretanto, ao analisar mais cuidadosamente o bloqueio formado pelas pedras, o rapaz notou que havia um espaço onde faltava uma peça.

Arthur correu até o caixote e pegou o paralelepípedo dentro dele, voltou para a entrada do alçapão e encaixou a peça no vácuo que jazia entre os demais paralelepípedos do conjunto. Ao fazer isso a parede atrás do caixote começou a se mover abrindo espaço para outra passagem. O rapaz levantou-se e pegou o candelabro, a passagem aberta levava até um corredor estreito iluminado por uma estranha chama azul que brotava de archotes. O jovem seguiu o barulho da água pelo corredor e chegou a uma plataforma não muito alta onde viu a água corrente que produzia o barulho que ele pudera ouvir de dentro da saleta.

Ele jogou uma pedra de tamanho médio dentro da água e descobriu que a pequena corrente era rasa, colocou o candelabro na ponta da plataforma e sentou-se com os pés para fora dela, impulsionou o corpo para fora da plataforma fazendo algumas gotas de água espirrar quando seus pés bateram na água após um pequeno salto. Pegou novamente o candelabro e continuou seguindo o caminho pela passagem com a água batendo em seu calcanhar.

O curso da água terminava no alto de uma escada formando uma queda d’água de pelo menos sessenta metros de altura que desabava em um rio, ou lago cujo tamanho Arthur não conseguia medir por causa do breu e da névoa que o envolviam.

Os degraus de pedra da escada ficavam fora do curso da água presos à lateral do paredão rochoso de onde surgia a entrada pela qual Arthur chegara até aquele lugar.

No pé da escadaria havia uma barca que não aparentava estar presa por qualquer tipo de corda ou coisa que o valha. Arthur desceu a longa escadaria até a barca, entrou nela e deixou de lado o candelabro para pegar o remo.

Ao primeiro impulso a barca passou a mover-se sozinha guiando o jovem pelo lago sem que ele pudesse escolher sua direção. Conforme a barca avançava o caminho ficava iluminado por lampiões que surgiam de dentro da água com o mesmo brilho azulado que brotava das tochas no corredor por onde Arthur passara anteriormente. A barca ancorou em um caís, o jovem deixou o remo e pegou o candelabro antes de sair da barca e seguir caminho pelo caís também iluminado por aqueles estranhos lampiões.

Tudo naquele lugar parecia não ter fim e não levar a lugar nenhuma, a única coisa que motivou Arthur a continuar foi a certeza de que estava, pela primeira vez em sua vida, diante de verdadeira bruxaria. Algo que ele cansara de ouvir histórias e que sabia que poderia lhe permitir fazer coisas que suas habilidades naturais, ou até mesmo seu legado, jamais permitiriam.

O caís levou Arthur a outro paredão de rochas, tão gigantesco e ameaçador quanto o último. Nele havia uma fenda estreita e horizontal formada naturalmente pelas rochas.

“Se tivéssemos um porão como esse em casa Will nunca mais poderia reclamar de ficar preso.“

Arthur examinou cuidadosamente a fenda e constatou que conseguiria passar por ela com um pouco de esforço. Ele agachou-se até ficar praticamente deitado dentro da fenda e usou os cotovelos e as pontas dos pés para mover o corpo arrastando-o com dificuldade.

A essa altura sua maior preocupação era se saberia traçar o caminho de volta para dentro da mansão.

A fenda levava até uma nova câmara rochosa, que lembrava o interior de uma caverna, porém bem mais arejada. Era também menor do que a outra pela qual passara.

No centro dessa nova câmara havia um pedestal que parecia brotar do próprio chão rochoso e tomar forma.

Arthur aproximou-se do pedestal e encontrou, sobre sua base plana, um enorme livro aberto ao meio e um cálice de prata, que de tão cheio transbordava fazendo as gotas caírem se chocando contra o chão de pedra e produzindo um som que aos poucos foi irritando o jovem.

Ele deixou o candelabro sobre a base plana do pedestal e começou a folhear o livro que para a sua surpresa também estava em branco, tal qual as páginas chamuscadas espalhadas pelo chão da primeira câmara e pelo caixote. Inconformado ele continuou a passar as páginas observando cada uma atentamente até que se deu por vencido e largou o livro do jeito que encontrara.

Irritado pelo barulho do gotejar do cálice o rapaz levou a peça de prata até os lábios e sorveu em um só gole todo o líquido de dentro dela.

Frustrado com a jornada inútil que traçara até ali ele deixou seu corpo cair ao chão e ficou sentado apoiado ao pedestal de pedras, fechou os olhos e jogou a cabeça para trás tentando relaxar e reorganizar os pensamentos.

O gotejar irritante recomeçou...

Arthur franziu o cenho e abriu os olhos confuso, ele se levantou e olhou para o cálice que estava inteiramente preenchido novamente.

O rapaz então sentiu um mal estar repentino. Sua vista ficou turva, ele olhou para as próprias mãos e viu um líquido escuro escorrer de seus cotovelos até a ponta de seus dedos, um líquido espesso que lembrava tinta preta.

Assustado o rapaz apoiou as mãos sobre as páginas em branco do livro e para a sua surpresa o livro absorveu a tinta escura que corria por suas mãos usando-a para formar palavras.

O que era uma tentativa de se recompor tornou-se uma nova descoberta, porém os obstáculos não cessavam, o livro agora estava repleto de palavras que Arthur não conseguia ler, palavras escritas em uma língua tão antiga que provavelmente estaria morta se não fosse também a língua que aparentemente regia aquela arte proibida que ainda vivia para os poucos que ousavam estuda-la e pratica-la.

Em meio a aquele amontoado de letras havia apenas uma palavra que Arthur era capaz de decifrar, ela parecia intitular um dos feitiços guardados naquele livro.

“Revele-se.”

Essa era a única palavra que fazia algum sentido entre tantas, então Arthur leu em voz alta o que estava escrito, mesmo sem entender o que significava.

“Revelare ad me te ocid em muroe aterces oculis et ex omina.”

Ao terminar de pronunciar tais palavras outras no livro começaram a fazer algum sentido para ele, elas eram apenas títulos de outros feitiços, mas era um bom começo. O rapaz sentiu-se atraído por um título em especial: “Segredos desvendados.”.

Ele leu o feitiço que vinha logo abaixo.

“Cenego me douc sandnos baerednetso me aterces tiviun dotsucin hoc muroen.”.

Conforme pronunciava as palavras o jovem sentiu um leve tremor na gruta, quando terminou de declama-las gotas de água começaram a escorrer pelas paredes rochosas e mais água invadiu o espaço entrando furiosamente pela fenda.

Mesmo desesperado Arthur manteve-se firme com o livro em mãos, o jovem notou que a água que entrava se agrupava em pequenas poças e se erguia do chão tomando a forma sólida de estantes de livros.

A gruta transformou-se em uma maravilhosa biblioteca cujo tema central em todos os livros era a arte secreta da bruxaria. Aquilo foi um deleite para os olhos de Arthur, o rapaz não perdeu tempo em começar a folhear os livros daquelas estantes negras de ferro retorcido.

Alguns dos livros contavam a história daquela arte antiga, pelo menos parte dela; outros continham feitiços dos mais variados; outros ensinavam mais sobre a língua que poderia reger todos aqueles feitiços e possibilitar a criação de novos.

O rapaz lia um livro após o outro incansavelmente, logo percebeu que algumas das bruxarias poderiam ser benéficas e belas e outras apenas traziam dor e sofrimento para suas vitimas, mas todas elas tinham seu preço, ele poderia oferecer apenas sua própria força e executar feitiços pequenos ou ele poderia prender-se eternamente a aquela arte por meio de um juramento de fidelidade e sangue. Essa descoberta fez com que o rapaz reconsiderasse seu desejo em aprender mais sobre tudo o que achara, mas aquela era uma decisão a tomar em outra ocasião, por hora ele apenas queria entender tudo aquilo que o cercava e executar pequenas demonstrações de poder.

E foi estudando essa arte que Arthur encontrou a forma ideal de presentear sua querida mãe Eleanor, contudo o jovem ficara tão entretido que perdera a noção do tempo.

“Já deve estar anoitecendo. Eu devo voltar antes que sintam minha falta. Ninguém pode saber que descobri esse lugar.”.

O rapaz usou o primeiro livro que descobrira para desfazer o feitiço que usou para revelar os segredos da gruta, uma das coisas que Arthur descobriu foi que todo feitiço que não cobrava o alto preço do juramento poderia ser desfeito.

Ao retornar para a biblioteca ele notou que ainda era dia e não perdeu tempo em correr para seu ataúde, mas mais uma vez ele não conseguiu dormir nem por um segundo, apenas pensava em sua incrível descoberta e na vontade de voltar a ver aquele misterioso lugar que o instigara.

Quando o sol se pôs naquele sábado Eleanor foi aos aposentos do filho para despedir-se dele e desejar que ficasse bem durante as horas que ela passaria na casa de tia Bridget.

Assim que a mãe e o avô saíram de casa, Arthur retornou para a gruta e prosseguiu com seus estudos. Começou a arriscar feitiços pequenos e não teve problemas na maioria deles, apenas um leve cansaço físico o atormentava algumas vezes obrigando-o a parar e descansar durante alguns minutos antes de recomeçar suas lições.

***

Eleanor e o Duque retornaram pouco antes do amanhecer e foram recepcionados pelo jovem Arthur.

—Divertiu-se na casa de tia Bridget mamãe?

— Como nunca Arth! — Eleanor realmente parecia feliz como nunca e ver a mãe daquele modo fez um bem a Arthur que ele não soube explicar.

Eleanor dançara e conversara com seus velhos amigos quase a noite inteira e parecia cansada.

— O que fez enquanto estivemos fora querido?

— Eu fui à biblioteca folhear alguns livros.

— Encontrou algo interessante?

— Nem tanto.

Os dois conversavam enquanto subiam as escadas e quando Arthur percebeu estavam dentro dos aposentos da mãe.

O jovem sentou-se sobre a cama enquanto Eleanor trocava, atrás do biombo, o vestido elegante e os sapatos de salto por seus trajes de dormir e sapato algum.

Já trocada e pronta para dormir, a mulher fechou as grossas cortinas e deitou-se na cama, decidiu que passaria essa noite na cama, afinal com as cortinas fechadas a claridade quase não entrava.

Arthur deitou-se ao lado da mãe que puxou as cobertas para mantê-los aquecidos, em seguida envolveu o filho nos braços e passou a acariciar seus cachos macios.

O jovem fechou os olhos e sentiu o perfume natural, e inebriante, que exalava da pele pálida de Eleanor. Ouviu seu cantarolar baixinho e sua voz amena cerca-lo, deixou que o corpo relaxasse por completo nos braços dela e que sua mente começasse a viajar para longe.

Ele lutava por não ser levado a adormecer pelo cansaço, mas era inacreditável a calmaria que aquela doce criatura lhe passava e que o tomava pelos cinco sentidos. Sentiu seus pensamentos deixarem aos poucos o cômodo e, quando se deu conta disso, puxou-os de volta para o aconchego dos braços de Eleanor lutando contra o sono para que pudesse continuar a desfrutar daquele momento.

Não era sua intenção dormir no quarto de Eleanor, queria apenas passar algum tempo com ela antes de retirar-se, porém quando se deu conta estava envolvido pelo mais profundo sono e tudo ficara escuro e calmo.

Quando anoiteceu no domingo Eleanor despertou de seu profundo sono, completamente revigorada. Ela sentou-se na cama ainda com a vista um pouco embaçada e deu por falta do filho.

“Estranho Arth acordar tão cedo.”

Eleanor arrumou-se e saiu pela mansão a procura do jovem, percorreu os corredores, checou os quartos, o escritório, a sala de estar, os jardins e por último a biblioteca onde se encontrou com o pai.

— Boa noite Elle. — o Duque estava distraído com alguns papéis, mas notou quando a filha entrou na biblioteca.

— Boa noite meu pai, eu não queria incomoda-lo.

—Não se preocupe, eu já estava terminando. — o Duque voltou sua atenção para a fila deixando de lado os papéis. — Você acordou tarde hoje.

A noite anterior realmente deixara Eleanor cansada, mesmo assim ela pensou que Arthur havia acordado cedo demais, não o contrário.

— Devo ter perdido a hora. — Ela fez uma pausa. —Papai o senhor viu o Arthur? Eu não o encontro em lugar nenhum.

— Deve estar preparando algo para o seu aniversário, o que a propósito... — Ele aproximou-se da filha com um pequeno embrulho pardo em suas mãos. — Eu também estava. — Frederick entregou o pequeno embrulho nas mãos de Eleanor. — Feliz aniversário Elle.

Eleanor desembrulhou cuidadosamente seu presente e encontrou uma caixinha de veludo preto com um par de brincos de rubi dentro dela.

— Achei que combinariam com o colar. — Disse o Senhor Santtori que notou a mão da filha pousar sobre o colar quase instintivamente, como se quisesse confirmar que ainda o estava usando.

— São lindos. — Ela sorriu levando seus olhos de encontro aos do pai.

— Coloque-os, deixe-me ver como ficam em você.

Eleanor assentiu com a cabeça e vestiu os brincos de rubis que, como Frederick suspeitara, ficaram perfeitamente harmoniosos com o colar. Um sorriso orgulhoso formou-se nos lábios de Frederick.

— Bem quando eu achei que não poderia ficar mais bonita. — Disse o duque de forma jocosa provocando um sorriso que iluminou o rosto da filha. — Fico feliz que tenha gostado.

— Muito! Mas agora acho que deveria voltar a procurar por Arthur, não é de seu costume sumir desse jeito.

— Você está certa, vá procura-lo, se precisar de mim estarei por aqui.

Eleanor saiu da biblioteca e continuou a caminhar pela mansão.

— Aonde ele pode estar? — Deixou que a pergunta retórica escapasse de seus pensamentos direto até seus lábios.

— Procurando por mim? — a resposta do jovem veio do alto da escada.

— Arth! Até que enfim. — ela segurou a barra do vestido e começou a subir a escada indo de encontro ao filho. — Onde esteve? Eu o procurei por toda a mansão.

— Tenho algo para lhe mostrar.

— O que é isso em seu rosto? — ela fez uma pausa procurando identificar por si mesma. — É tinta?

— A senhora já vai entender.

O jovem guiou Eleanor até o atelier, antigamente usado por Bridget. O cômodo estava um tanto quanto abandonado, porém Arthur achou lá tudo o que precisaria. Telas, tintas, pincéis, tudo muito velho e bagunçado, mas em condições de uso.

— O que andou aprontando? — O tom de voz de Eleanor sugeria desconfiança, entretanto Arthur não o levou em conta.

O jovem apontou para o final da sala, onde uma tela parecia escondida entre as demais e, apenas se destacava, por estar absolutamente tomada pelas mais variadas e abundantes cores, que juntas, formavam uma pintura encantadoramente bucólica, como constatou Eleanor ao se aproximar da peça.

— É para mim? — Ela havia chegado próxima ao quadro, próxima o suficiente para distinguir seu desenho que, ao longe, pareciam apenas cores se chocando contra cores, e seria igualmente bonito se assim fosse.

— Eu terminei ainda há pouco. — Respondeu o jovem, com um sorriso tímido nos lábios, afinal, Arthur nunca fora o tipo de rapaz que fazia desenhos, de qualquer tipo, e corria mostrar aos pais. Lilith poderia até fazê-los, mas Arthur priorizava seus estudos e sua dedicação em especial era quase toda a si próprio. — Olhe de perto, vai gostar.

Eleanor lançou ao filho um olhar hesitante antes de pregar novamente os olhos na obra a sua frente. Era um retrato belo por sua simplicidade, um descampado de grama muito verde e baixa seguia até a linha do horizonte onde dividia a tela com um primoroso céu azul límpido e profundo sem uma única nuvem sequer para mancha-lo. Do lado esquerdo do quadro uma grande árvore, de copa majestosa se erguia projetando sua sombra pela grama, sombra essa que ficava falhada por culpa de alguns raios de sol que escapavam ao impedimento das folhas e seguiam seu caminho até iluminar o chão. Do lado direito, um estreito riacho de água corrente seguia seu rumo até o limite da tela, sua água era cristalina e era possível ver, através dela, alguns cascalhos e até mesmo pedras maiores, que de vez em quando atrapalhavam o curso do riacho fazendo com que este fosse obrigado a se dividir e a se juntar novamente após passar pelo obstáculo, e outras vezes apenas o forçava a se elevar um pouco para que passasse por cima.

— Eu não sabia que pintava tão bem Arth. — um sorriso bobo se prendeu aos lábios de Eleanor.

— Olhe com atenção...

Eleanor aproximou-se ainda mais da bela tela e pôde jurar que viu as folhas da árvore balançarem ao serem tocadas pela brisa. Brisa? Sim. Uma leve brisa parecia ser visível dentro da tela, ou até mesmo, ouso dizer, palpável. Ela se aproximou ainda mais e ouviu a água do riacho correr movendo alguns cascalhos.

Quando se deu conta, estava de pé sobre a relva no campo aberto, a sua direita o riacho e a sua esquerda se agitava a estonteante copa da árvore. Ainda sem entender muito bem o que acontecia ela retirou o pé direito de dentro do sapato e ergueu a barra do vestido, deitou o pé pálido sobre a terra levemente úmida, sentiu quando o tapete de ervas, aquecidas pelo sol, que cobriam o campo roçaram em seus dedos delicados e frios deixando-os aquecidos e provocando um arrepio por todo seu corpo. Os raios da imensa bola de fogo, como seu pai costumava chamar, não a machucaram, por mais que ela se aventurasse na luz não era ferida.

O gramado pinicava sua pele e ela podia sentir pequenas pedrinhas pontiagudas que se misturavam com a terra debaixo de seu pé, causar-lhe certo incomodo, mesmo assim não conseguiria dizer que algo naquele lugar era menos do que esplêndido. Não demorou em retirar o outro sapato e sentir o calor gostoso do gramado apossar-se também de seu pé esquerdo.

Apreciou aquela sensação provocada pelo sol em cada parte desnuda de seu corpo como o rosto, o pescoço e as mãos. Lamentou apenas não estar usando um de seus vestidos de primavera para que os raios quentes banhassem também seus braços longos e gélidos.

Até mesmo a brisa suave que fazia dançar as copas das árvores trazia consigo um calor reconfortante. Ela puxou o ar com entusiasmo e deixou que o aroma cítrico inundasse seus pulmões fazendo-a lembrar do cheiro quase doce da grama recém-aparada do jardim.

— O que achou? — a voz mansa de Arthur trouxe Eleanor de volta para a realidade, e só então ela se deu conta de quão bizarra era aquela situação na qual se encontrava.

— Mas o que é isso Arth? — sua voz soou com preocupação.

— Seu presente de aniversário. — Arthur respondeu da forma mais inocente que pôde, queria evitar as perguntas de sua mãe, apesar de estar preparado para cada uma delas.

Eleanor aproximou-se do filho com uma expressão seriamente preocupada que Arthur não esperava encontrar.

— Por que tipo de tola me tomas?

O rapaz não soube esboçar reação, sentiu o corpo enrijecer perante as palavras de Eleanor.

— Sei muito bem que tudo ao meu redor foi criado a partir de bruxaria, Arth. — continuou a mulher. — Eu só estou tentando entender como você a descobriu.

Arthur soltou um longo suspiro.

— Isso realmente é importante?

— Não exatamente, tenho minhas próprias suspeitas. — Eleanor ainda demonstrava aborrecimento.

— De qualquer forma, eu não consegui que ficasse estável por muito tempo, temos no máximo até o entardecer de dentro do quadro. — o jovem a fitava com um olhar firme. — Pode passar esse tempo tentando descobrir como eu pude proporcionar-lhe tudo isso, ou... — ele fez uma pequena pausa. — Pode deixar esses aborrecimentos para um lugar mais adequado a eles e apenas desfrutar.

Pela expressão que passou pelo rosto de Eleanor no momento seguinte Arthur teve certeza de que ela escolhera a segunda opção.

— Não pense que se livrará de me dar explicações!

— De forma alguma. — mas era exatamente o que ele pensava.

Depois desse momento Eleanor voltou a relaxar observando a bela paisagem ao seu redor, ainda incrédula com tudo que a cercava. Apesar de preocupada e levemente zangada pelo envolvimento do filho com a bruxaria ela se sentiu grata a ambos por lhe proporcionarem tanto aquele lugar incrível quanto a sensação de ser tocada pela luz solar sem que essa a queimasse.

—O que mais há por aqui? — ela sorriu animada para Arthur que lhe sorriu de volta e segurou em sua mão puxando-a pela paisagem.

Eleanor segurou a barra do vestido enquanto se deixava ser puxada pelo filho, juntos eles atravessaram o riacho raso e seguiram por mais alguns metros até que ela pôde vislumbrar ao longe o que parecia ser um campo coberto por flores diversas e, em um espaço especial dentro do campo, uma toalha xadrez estava estendida sobre a grama.

Arthur parou de correr deixando que Eleanor contemplasse mais essa parte da paisagem e admirasse o belo piquenique que ele lhe havia preparado.

— Você não existe... — ela falou enquanto olhava bobamente para a toalha coberta por comidas, aparentemente deliciosas.

Arthur sentou-se em um canto da toalha e convidou a mãe a fazer o mesmo. Eleanor sentou-se sobre suas pernas de uma forma que Arthur nunca havia visto antes.

Normalmente ela era uma figura elegante, mas naquele momento parecia tão criança quanto ele, ou possivelmente mais.

O rapaz não conseguiu deixar de notar os cabelos louros de Eleanor soltos dançando a favor do vento, se deu conta de repente que pouquíssimas vezes vira sua mãe com o cabelo solto como estava naquele momento.

Eleanor percebeu o olhar do filho e sorriu para ele.

— No que está pensando?

Arthur agitou a cabeça levemente como um despertar.

— Que fica mais bonita com o cabelo solto. — respondeu ele timidamente provocando um largo sorriso em Eleanor.

— Posso lhe pedir um favor?

— Claro!

— Não conte nada disso a ninguém. – o pedido da mãe causou certa estranheza no jovem. — É que seu pai, ou o meu, não entenderiam nada disso. — ela tentou justificar-se. — Pra ser sincera Arth... — Eleanor suspirou e sentou-se mais próxima ao filho brincando com os cachinhos dele. — Toda a minha vida fui repreendida por meus gostos estranhos, eu não estou me queixando, também nunca achei certo ser desse modo, porém é algo que não consigo evitar. Você foi o único que, mesmo sem entender, tentou aceitar isso, querido... — o rosto de Eleanor era coberto de serenidade e isso quase comoveu Arthur. — Obrigada.

— Não se preocupe isso fica entre nós. — ele disse tentando tranquiliza-la. — Agora é melhor começar a comer antes que a magia se vá.

Eleanor examinou novamente as comidas sobre a toalha, ela parecia em dúvida a primeiro momento, mas no momento seguinte dirigiu sua atenção para um pedaço de bolo.

— Aceita? — ela perguntou ao filho que respondeu com uma careta provocando seu riso delicado. — Como pode fazer essa carinha se nem ao menos experimentou? — ela deu uma mordida no pedaço de bolo e fechou os olhos apreciando seu sabor.

Durante muitos anos de sua vida Eleanor passeara com o pai pela cidade sentindo o cheiro dos bolos e dos doces, algumas vezes eram convidados para festas onde essas comidas também marcavam presença, porém sempre era obrigada a resistir a tentação de uma mordida.

— São como veneno para nós Elle, não caia em tentação. — dizia seu pai sempre que notava seus olhares sedentos.

Algumas vezes, quando entravam na padaria, o Duque levava um bolo apenas por ser algo natural entre os humanos, levava porque era de seu costume tentar agir normalmente sem levantar suspeitas ou murmúrios acerca de sua família, mas em todas as vezes ele descartava o bolo, ou qualquer outra coisa que comprasse, antes de chegarem em casa tirando de Eleanor a oportunidade de provar.

Com o passar do tempo ela se conformou em conhecer apenas o sabor férrico do sangue.

E hoje, em seu aniversário, pela primeira, e provavelmente última, ela provara o gosto doce tão diferente do qual ela estava acostumada. O bolo fora apenas o começo, ela provou as frutas e as bebidas com igual entusiasmo.

— Tem certeza de que não quer?

— Estou bem, obrigado. — disse Arthur recusando mais uma vez e se perguntando como a mãe conseguia comer aquelas comidas quando o mero cheiro delas lhe causava náuseas que ele estava se esforçando para conter.

Eleanor fez uma pausa depois de beber um gole de suco e deitou-se preguiçosamente sobre a toalha.

— Já terminou? — perguntou Arthur.

— Acho que é mais do que eu consigo comer.

— Então nós podemos ir para outro lugar? Esse cheiro me causa enjoo.

Eleanor se levantou e estendeu as mãos para o filho que as segurou e se levantou com a ajuda dela. Puseram-se a caminhar pelo campo de flores afastando-se da toalha de piquenique.

À medida que se distanciavam Arthur se sentia melhor, embora o cheiro das flores também lhe incomodasse, mas não por muito tempo, logo ele acostumou-se ao aroma adocicado da mescla de pétalas coloridas.

Mãe e filho passaram uma tarde agradável dentro daquele universo novo criado pelo pequeno Arthur para presentear sua querida mãe.

Correram pelos campos, brincaram com a água do riacho, subiram em árvores e Arthur viu, pela única vez em sua vida, um lado de sua mãe que desconhecia, um lado de criança, menina, arteira e livre, um lado que o encantou ainda mais.

Viu sua mãe sorrir com liberdade, diferente da forma como precisava agir na presença de todos ou dentro das paredes cinzas do casarão, diferente da postura séria que assumia diante de Albert ou da mulher imperturbável que cuidava dos filhos em casa e tentava controlar os impulsos irracionais de Lilith e suas birras, que tentava confortar Will e lhe substituir a mãe para que o jovem se sentisse parte da família, que tentava ser uma boa anfitriã para Elliot e que em meio a tudo isso não tinha muito tempo para dispensar a Arthur.

— Você é um bom menino Arth, sabe cuidar de si mesmo, me orgulho de você. — ela sempre dizia.

Não que essas palavras suprissem a falta que fazia para Arthur ter a atenção de sua mãe, mas ele gostava de ouvi-las, gostava de pensar que era o único com quem Eleanor podia contar. O único que a entendia e que podia ajuda-la, o único...

Aquele foi o único momento em toda a sua vida que duvidou de sua natureza, que duvidou que a mãe não fosse humana, foi quiçá o momento mais confuso e ao mesmo tempo belo que teve o prazer de guardar em suas lembranças.

Sentiu-se satisfeito em pensar que apenas ele veria aquela Eleanor, apenas ele a conheceria em sua totalidade e que era dele o segredo de que a mãe tinha muito mais de humana do que de vampira. Apenas ele teria aquelas lembranças ao lado dela, apenas ele guardaria seus segredos, apenas ele... apenas ele...

Ele sorriu internamente ao pensar que era e seria para sempre o único em que ela confiaria, o único que a entendia ou pelo menos tentava entender. A palavra ressoava em sua cabeça, “único”.

Anos mais tarde aqueles pensamentos voltariam com mais força, aquelas lembranças viriam consolá-lo em momentos de nostalgia, ele deixaria que viessem por breves segundos para lhe trazer de volta uma paz há muito tempo perdida.

Uma paz que agora, ele aproveita sentado sobre a pedra debaixo da árvore na colina ao lado de sua querida Eleanor. E que assim continue enquanto pode, trançando a bela coroa de flores que ele colocará sobre a cabeça de sua mãe logo que termina-la.

Uma coroa de pequeninas flores rosadas que ele mesmo se surpreendeu ao fazer, mas que Eleanor adorou e não tirou o restante do dia ficando com uma aparência ainda mais infantil e frágil. Frágil como um lírio branco.

A tarde já ia alta e ao longe o sol começava a ficar avermelhado e cada vez mais escondido no horizonte, era questão de tempo até que a magia se fosse e que ambos estivessem de volta ao atelier com nada mais do que suas lembranças para provar a existência daquela experiência. Lembranças que com o passar dos anos tornar-se-iam débeis e cada vez mais desacreditadas, até que não lhes restasse certeza alguma de que o descampado existiu, de que a colina existiu, de que a coroa de flores rosadas existiu; até que não lhes restasse lembrança alguma. Mas naquele momento eles não pensavam sobre isso porque para eles não era apenas uma lembrança, era real, palpável.

Arthur conseguia ver o céu tingido de arrebol se estender por quilômetros e quilômetros além do que poderia imaginar, além do que poderia alcançar. Ele conseguia ver o sorriso livre que tomava forma nos lábios de Eleanor.

— Sabe Arth... — a voz de Eleanor saiu fraca e ela limpou a garganta antes de continuar. — Ao contrário do que vocês pensam o sol não me encanta, não me fascina. — ela fez uma pausa sem desgrudar os olhos do horizonte, estava apoiada na pedra em que o rapaz estava sentado e os dois contemplavam o pôr do sol. — O que me encanta é a liberdade que ele tem, o que me fascina é o poder que ele tem de percorrer os céus todos os dias, de conhecer todos os lugares, todas as pessoas. Lá de cima nada é impossível, Arth. Dizem que as pessoas costumam temer o que não conhecem, pois para o sol nada é temível, nada é desconhecido, nada é intocável.

Ela pousou a cabeça no colo do filho e suspirou pesadamente. O dia fora maravilhoso, porém exaustivo e ela se sentia ainda mais cansada em pensar que quando voltassem para a realidade de onde vieram ainda seria noite, ainda seria seu aniversário e ela mal tirara a camisola.

— São as possibilidades não é? — disse ele voltando à conversa que tiveram no dia anterior e provocando um riso em sua mãe.

— São as possibilidades... — repetiu ela sentindo a mão de Arthur lhe afagar os cabelos. — O mundo roda, roda e ninguém sabe onde vai parar, são as possibilidades.

Ele não entendeu a última frase da mãe, pensou que talvez ela estivesse ficando com sono e falando coisas sem muito sentido, mas mais tarde ele entenderia, mais tarde ele usaria as mesmas palavras, mas com outro propósito.

A coroa de flores se desmanchou na cabeça de Eleanor e as pequeninas flores rosadas se misturaram ao seu cabelo fazendo com que Arthur dedicasse algum tempo a separá-las dos fios, tomando cuidado para não puxá-los de forma muito bruta, mais tarde quando ele e a mãe fossem dormir ele voltaria a sentir o cheiro das pequenas flores impregnado nos cabelos de Eleanor. Cabelos tão macios, tão cheios de brilho e cor que não mereciam passar tanto tempo presos e escondidos do mundo. Mas por um lado era melhor assim, era melhor que ficassem presos, era melhor que apenas ele os visse dançar com o vento, era melhor que apenas ele conhecesse seu aroma floral e sua textura macia.

O sentimento que Arthur nutria pela mãe era de certa forma possessivo, talvez por isso odiasse Albert e todos aqueles que disputavam a atenção de Eleanor de alguma forma, mas ele não gostava de pensar dessa forma, não gostava de pensar que era um sentimento possessivo.

“É inocente.”

Repetia para si mesmo diversas vezes.

“Um sentimento inocente.”

E ainda mais inocente era o fato de que o pequeno Arthur realmente acreditava nisso...

Enquanto Arthur e a mãe apreciavam o espetáculo do pôr do sol ela voltou a falar de seu fascínio e das possibilidades mais algumas vezes. Por mais que falasse Arthur não era capaz de entender o que havia de impressionante na massa avermelhada que se deslocava pelo céu. Exceto algumas mudanças de cor e posição não havia nada de muito especial naquilo, mas já não era mais preciso que ele entendesse o fascínio da mãe pelo sol, pois ele tinha seu próprio sol, e estava deitado em seu colo, com os cabelos soltos, os belos cabelos soltos e as flores rosadas entrelaçadas aos fios.

E era apenas dele... o único.