O Legado
6 Deixando a luz entrar.
Notas iniciais
Much Wenlock, Inglaterra, 1839.
Deitado na cama ele sentia alguém passar a mão por seus cabelos enquanto ele adormecia vagarosamente mesmo tendo decidido ficar acordado até mais tarde. Os pequenos olhos se fechavam e se abriam, e cada vez que se abriam pareciam mais pesados.
Ele sabia que tinha que ficar acordado para ver alguém, não conseguia lembrar quem...
O cômodo escuro em que se encontrava parecia diminuir aos poucos. Um cobertor velho que tinha um cheiro característico, que ele adorava, o cobria dos pés ao queixo causando uma deliciosa sensação de conforto e segurança.
À cabeceira da cama um terço pendurado balançava com o sopro suave do vento que conseguia penetrar no quarto pela janela, e que também fazia dançar a chama da vela na cômoda onde o homem com a coroa de espinhos repousava em sua cruz de braços abertos.
Vento, escuro, cera... escuro, vento... escuro, escuro... cera, vento, escuro...
Bruscas batidas na porta fizeram seu coração saltar e a mão da mulher parou de acariciar seus cabelos. Ele ergueu os olhos na direção de seu rosto, mas algo estava errado. Não conseguia ver seus traços com clareza. Talvez os olhos estivessem embaçados. Talvez estivesse com muito sono...
Conseguiu ao menos perceber que ela levava o dedo indicador à frente dos lábios lhe pedindo silêncio. Ela se levantou e foi até a cômoda apagando a vela e deixando o quarto ainda mais escuro.
— Sou eu! — uma voz grave, abafada pela grossa madeira da porta da casa se fez ouvir do lado de fora. — Abra a porta.
Ele ouviu os passos da mulher se distanciarem no mais completo breu. Ficou parado, quieto, imóvel atento aos sons que eram seus únicos informantes.
O ranger da porta, passos pesados adentrando a casa, o baque da porta se fechando e alguns murmúrios fora tudo o que conseguira ouvir depois.
Curioso ele se levantou da cama. Em um primeiro momento o frio que chegou ao seu corpo quando ele deixou as cobertas quentes o fez bater os dentes, mas aos poucos a sensação deixou de incomodá-lo tanto. Seguiu de mansinho até a cozinha onde se escondeu espreitando as duas figuras de pé próximas à lareira. A mulher estava abraçada a um homem coberto por uma capa preta com um símbolo estampado no lado esquerdo do peito.
— Acabou. — disse o homem robusto. — Está acabado.
A mulher levou a mão ao coração e suspirou longamente parecendo aliviada.
— Graças a Deus. — ela sussurrou.
O rapaz viu os olhos do homem se dirigirem a ele e gelou por um instante sabendo que seu esconderijo havia sido descoberto. O homem agachou-se e abriu os braços.
— Venha cá. — proferiu o homem robusto com a voz rouca.
O rapaz hesitou por um instante antes de sair de vez de seu esconderijo e depois olhou para a mulher que cruzou os braços na frente do corpo.
— Deveria estar na cama! — ela o repreendeu e isso foi o bastante para que o pequeno corresse até os braços do homem como que se este pudesse defendê-lo.
O homem abraçou a criança em seus braços e voltou a ficar de pé com o pequeno no colo. O menino segurou-se ao pescoço do homem e olhou para baixo notando, com um friozinho na barriga que estava a vários metros do chão, ou pelo menos era o que lhe parecia sendo tão pequeno em relação ao homem que o carregava nos braços.
— Dessa vez passa, mas só dessa vez! — o homem enfatizou o “só dessa vez”.
No colo daquele homem ele pôde ver melhor o símbolo estampado na capa preta que o deixava um pouco assustado. Era uma corrente que formava o símbolo do infinito e se quebrava nas duas extremidades, no meio da corrente um punhal cravado com gotas de sangue pingando de sua ponta.
O homem percebeu que o pequeno estava hipnotizado com o símbolo e retirou a capa jogando-a na lareira acesa e observando-a queimar em brasas. O fogo a consumir o tecido produziu altos estalos, mas o menino continuava a olhar para o símbolo da roupa, e continuou a olhar até que ele estivesse totalmente queimado.
***
Ele corria em desespero perdido no meio da confusão naquele lugar. A imagem do homem robusto se fora, assim como a mulher que antes o abraçava. Em sua cabeça voltava o homem com a coroa de espinhos sobre a cômoda e em seu coração ressoava uma oração de misericórdia.
Tudo ardia, era quente e para onde quer que olhasse havia alguém correndo ou chamas se espalhando. No meio da confusão gritos agudos cortavam o espaço de um lado para o outro, gritos de mulheres que perdiam seus filhos, seus maridos, suas vidas.
Sem entender nada ele continuou a correr, alguém segurava sua mão, mas ele se libertou daquele toque e continuou a correr.
O cavalo negro passou sobre ele com um homem risonho em seu dorso, um homem que gargalhava.
Por que ele ria?
Por que era o único que não estava correndo?
Ele estava se divertindo.
A alta gargalhada ressoou, o cavalo negro atravessou seu caminho e o homem de olhos ferozes tentou cortar sua carne com um punhal.
O punhal na capa, as gotas de sangue.
Por sorte uma pedra em seu caminho o fez tropeçar e se desviar da lamina sedenta do punhal.
O homem robusto.
O homem robusto estava a sua frente, gritava algo, gritava para que ele corresse.
O punhal ficou tingido de sangue.
O homem robusto caiu ao seu lado e a alta gargalhada ressoou. Ele correu e correu, quanto mais corria mais se afastava das chamas, mais se afastava do homem robusto e da gargalhada alta.
Um passo em falso e ele rolou pela ribanceira, tentou se segurar em alguns chumaços de grama em seu caminho, tentou agarrar-se a terra que se agarrava a suas roupas, tentou segurar-se a uma pedra, mas continuou a rolar. Uma pedra pontiaguda parou sua queda, mas não o deixou ileso.
O punhal, o sangue, a alta gargalhada... tudo ficando escuro... escuro, vento... o homem robusto... escuro...
O coração de Will batia acelerado quando a governanta abriu as cortinas deixando o sol penetrar o quarto. Sua roupa e seu cabelo estavam molhados de suor.
— Parece-me que alguém teve um pesadelo. — disse a governanta.
— Sra. Thompson... — ele disse tentando organizar os pensamentos. — Que horas são?
— Passa da hora do almoço.
Will arregalou os olhos e saltou da cama deixando os lençóis espalhados pelo chão do quarto.
— Pedi que me acordasse antes das onze. — ele apressou-se em lavar o rosto na tina com água que ficava sobre a mesa atrás do biombo.
— Chegou tão tarde ontem. Não pode dormir apenas no período da manhã, menino!
Caroline Thompson era a governanta da Púrpura de Wenlock há mais de cinquenta anos, quando o Duque de Wenlock ainda morava lá. Ela cuidara da mansão depois que o Duque a abandonara e sumira sem dar notícias a ninguém. Alguns diziam que seu sumiço era a velha maldição Santtori se fazendo presente novamente, mas ninguém podia de fato provar que tal maldição fosse real. Fora apenas a forma que encontraram para justificar o sumiço de um membro da família principal a cada geração, sempre o membro que antes portava o legado.
A Sra. Thompson conhecia o lugar como poucos e se preocupava com a família Santtori, o único problema é que tal preocupação fazia com que ela se julgasse no direito de tomar certas decisões.
O fato é que, a senhora Thompson nunca fora uma mulher bonita, ou agradável. Seus gestos eram rudes e por vezes ela era inconveniente e não se preocupava em disfarçar sua antipatia por algumas pessoas, mas, apesar de tudo isso, a única coisa que realmente irritava Will era sua demasiada intromissão em alguns assuntos que na maioria das vezes nem deveriam ser de seu conhecimento.
— Eu agradeço pela preocupação... — ele usara um tom entre o sarcasmo e a sinceridade. — Mas posso cuidar de mim, e garanto que não preciso mais do que o período matutino para o meu repouso. — ele se movia rapidamente pelo quarto procurando pelas abotoaduras e fazendo com que os papéis rabiscados com esboços de desenhos se espalhassem pela cômoda, pelo criado mudo e pelo chão do quarto. —Pelos céus mulher! Cresci acostumado a essa rotina.
— Se fosse algo tão natural não precisaria de mim para lhe acordar.
Will não quis se alongar sobre aquele assunto, sabia que uma discussão com a senhora Thompson não o levaria a lugar algum e ele tinha muitos compromissos para perder tempo, ainda mais porque graças a ela já estava atrasado.
— Isso fora apenas um deslize... — justificou-se. — Preciso terminar de me vestir, se não se importa.
— Oh, tenha modos. — ela cobriu o rosto com as mãos tentando disfarçar o rubor das bochechas. — Vai almoçar?
— Não tenho mais tempo, mas venho para o chá da tarde com Elliot.
— É o seu primo vampiro não é? Mande-o se comportar em minha presença!
Will revirou os olhos nas órbitas e não respondeu. Ficou pensando o que Lilith acharia daquela mortal quando a visse.
— Ele passará a noite aqui? — perguntou a senhora Thompson quebrando o silêncio que se estabelecera entre eles durante alguns poucos segundos.
Will apertou a ponte do nariz ao notar que quase se esquecera de pedir à governanta que preparasse o quarto de hóspedes. Ficava aborrecido só de imaginar o que teria que ouvir de Elliot se houvesse esquecido.
— Obrigado por me lembrar, eu agradeceria se deixasse o quarto de hóspedes preparado.
— Com toda certeza. Vocês partem para Londres amanhã?
— Na verdade iremos para Coalbrookdale amanhã assim que anoitecer, de lá seguiremos para Londres.
— Por que a mudança de planos?
— Assuntos da Ordem. — respondeu Will parecendo um pouco distraído.
A senhora Thompson esperava que Will continuasse a falar, mas o rapaz permaneceu em silêncio dando a entender que não pretendia esclarecer do que se tratava. Assim que ficou convencida de que o assunto estava dado por encerrado a senhora Thompson, engolindo sua curiosidade, retirou-se do quarto deixando que Will continuasse a se arrumar o mais rápido que podia.
Quando estava quase pronto ele parou de frente ao espelho da penteadeira e ficou a fitar a própria imagem por alguns segundos. O rosto que um dia fora meigo agora era forte, com traços marcantes e belos. O corpo magricelo assumira as características de sua espécie tornando-o um rapaz de ombros largos, músculos definidos e quase dois metros de altura. O cabelo permanecia o mesmo, liso, preto, cumprido e desgrenhado como sempre fora. Seus olhos amendoados pareciam mais claros, quase dourados e moviam-se atentos com o olhar de quem conhece muitas coisas, naquele instante atentaram-se especialmente para a cicatriz que ficara para sempre estampada em seu rosto e isso o fez lembrar-se do sonho. Agitou a cabeça para os lados tentando desvencilhar-se desses pensamentos e vestiu a sobrecasaca guardando em seu bolso o pequeno laço de lã vermelha que recebera de presente naquele dia chuvoso de sua infâncoa.
Essa lembrança, diferente do sonho, o fez sorrir ao lembrar-se da época em que morava no casarão de Albert e Eleanor e que corria pela casa despreocupadamente com sua irmã e seu primo.
Mais uma vez teve que se policiar e afastar da mente as lembranças para se concentrar em suas tarefas diárias.
Da janela da carruagem ele observava a cidade de Much Wenlock que crescera muito, principalmente nos últimos anos com o auge da chamada revolução industrial. Toda a Inglaterra crescia e prosperava aos cuidados da rainha Vitória coroada dois anos antes, em 1837.
Eram tempos de paz, ou pelo menos era o que os humanos pensavam, mas a verdade é que para a Ordem algo como tempos de paz não existia e Will agora era um dos responsáveis pela Ordem, assim como Elliot que assumira o cargo de seu pai, Alphonse, para que este pudesse se dedicar a outras tarefas. Lionard, o irmão mais velho de Elliot, também fazia parte da organização, embora fosse um componente pouco frequente dentro da mesma.
Apesar de atrasado Will pediu ao condutor que fizesse sua primeira parada na igreja. Ponto obrigatório para Will todos os dias.
Ele desceu do veículo e mirou a construção por um segundo antes de subir os degraus que levavam à entrada da igreja. Assim que seus pés cruzaram a porta de entrada ele ajoelhou-se sobre um joelho e abaixou a cabeça benzendo-se ao fazer o sinal da cruz.
Colocou-se de pé e ergueu o olhar de encontro a todos os outros olhares que o observavam de cima das peanhas presas às paredes. Com passos lentos ele deixou a entrada e seguiu pelo corredor que se formava entre os dois conjuntos de bancos de madeira que em dias de missa ficavam refertos de pessoas, mas que naquele dia estavam vazios até Will escolher um ao fundo e sentar-se fechando os olhos e segurando entre os dedos o crucifixo de madeira que ele mesmo talhara e que ainda mantinha preso ao barbante que Lilith colocara tantos anos antes, um barbante que agora estava remendado em vários pontos, mas que mesmo assim ele se recusava a trocar por um novo ou melhor, assim como se recusava a trocar o crucifixo por qualquer outro mesmo que a própria Lilith insistisse em lhe presentear com um novo. Aquele objeto era insubstituível para Will, pois era aquele crucifixo, e nenhum outro, que ele mesmo fizera na noite de desespero que teria sido igual a tantas outras noites desesperadoras se ele não houvesse finalmente percebido que não estava sozinho. E depois daquele dia nunca mais sentira-se sozinho. Ter seu crucifixo consigo era lembrar a todo momento de que não estava, de maneira nenhuma, sozinho.
Muito embora a fé de Will fortalecera-se com os anos, ele nunca adquirira costumes como frequentar missas ou respeitar a quaresma, o que de fato não o tornava um bom cristão aos olhos dos homens.
Os olhos estavam fechados, a cabeça abaixada e os lábios se moviam em uma prece silenciosa quando a calmaria que até então preenchia a igreja foi levemente violada pelo som de passos que se aproximavam do lugar onde Will estava. Pelo olfato ele soube que se tratava de um amigo, que se tratava de Frollo.
Louis Frollo era o padre responsável por aquela igreja, um sujeito careca de corpo alto e esguio com um nariz aquilino; olhos pequenos e meigos em tom azulado; as sobrancelhas e a barba rala de um loiro muito fraco; tez esbranquiçada e mãos macilentas. Era um pouco desajeitado, mas tinha um sorriso simpático e principalmente: conhecia a situação de Will e de toda a família Santtori e mesmo assim não ousava julgá-los. Logo se via que Frollo era jovem demais para um padre e compreensivo demais para um católico, e isso só fazia com que Will o considerasse um bom amigo e apreciasse sua companhia e seus conselhos sempre tão cuidadosos.
Quando Will abriu os olhos deparou-se com o olhar terno do padre que estava sentado ao seu lado, ou talvez fosse a figura de Frollo em si que sempre lhe parecesse terna dentro da batina puída e ainda assim impecavelmente limpa.
— Sua benção padre. — disse Will curvando levemente a cabeça para frente.
— Deus te abençoe, Will. — respondeu Frollo com a voz mansa e ponderada. — Eu o atrapalhei?
— De forma alguma.
— Você veio um pouco tarde hoje. — se Frollo tinha algum intuito acusativo com aquela frase seu tom de voz não o denunciou.
— Levantei um pouco mais tarde. Um descuido. — era sabido que Will tinha uma pontualidade britânica característica, algo de que se orgulhava. E que apenas atrasos alheios o deixavam mais irritado do que estar atrasado.
— Sua irmã já chegou?
— Ainda não. Ela chega hoje de noite.
— Eu gostaria de conhecê-la. Depois de ouvir tanto sobre ela.
— Posso trazê-la aqui quando voltarmos.
— Voltar? — Frollo franziu o cenho confuso por um segundo antes de uma expressão de esclarecimento tomar conta de seus traços sutis. — Oh sim. A viagem não é?! — disse com um sorriso de quem acabou de lembrar-se de algo. — Eu havia me esquecido de que seria essa semana.
— Eu mandarei avisá-lo assim que chegarmos. — Will se levantou, já havia deixado Elliot esperando por tempo o suficiente.
— Então que façam uma boa viagem. — disse Frollo ao se levantar também e contornar o banco seguindo para o altar da igreja. — Que o senhor os acompanhe Will! — disse ao virar-se exibindo um sorriso acalentador.
Will chegou à sede da Ordem localizada em um ponto estratégico da cidade onde sombras de árvores e construções se projetavam na maior parte do tempo facilitando o acesso dos Santtori.
O prédio era antigo e pouco movimentado, principalmente durante o dia. Era todo feito de tijolos e como todo prédio havia janelas em cada andar, entretanto elas permaneciam fechadas por motivos óbvios o que dava a construção um aspecto sombrio. Do lado de dentro, porém, a iluminação derivava inteiramente de velas, tanto candelabros presos às paredes quanto lustres em cada cômodo, tornando o espaço tão bem iluminado quanto poderia ser.
Will dirigiu-se diretamente ao escritório principal no último dos três andares e ao abrir a porta encontrou Elliot sentado atrás da mesa do escritório com as pernas cruzadas sobre o tampo e recostado para trás em sua cadeira com um livro na mão, algo que ele provavelmente fingia ler para demonstrar o quanto a espera o deixara entediado.
— Você sabe qual é a definição de pontualidade? — perguntou o rapaz calmamente enquanto Will fechava a porta atrás de si e pendurava a sobrecasaca no cabideiro.
— A senhora Thompson achou melhor não me acordar.
Elliot retirou os pés de sobre a mesa e fechou o livro colocando-o a sua frente no lugar onde antes era ocupado por seus pés.
— Sempre tem um culpado. — ele passou a mão pelos cabelos dourados e bem cortados e se levantou indo até Will. — Sobre o que precisava conversar?
— Ficou aqui durante duas horas me esperando e não leu os relatórios que deixei? — as sobrancelhas de Will se elevaram com a incredulidade presente também em seu tom de voz.
— Na verdade eu acabei de chegar. — respondeu Elliot com um sorriso descarado.
Will lhe lançou um olhar cético, mas o loiro pareceu não se importar, estava se divertindo demais com aquela situação para fazer alguma questão de se importar. Will gesticulou para uma das poltronas que havia no centro da sala e ambos caminharam até elas sentando-se um de frente para o outro com uma pequena mesinha de centro entre eles.
— Faremos uma parada antes de Londres. — começou Will enquanto servia dois copos com o uísque que repousava sobre a mesa de centro.
— Uma pena, eu estava ansioso pelo meu encontro com as londrinas. — disse Elliot pegando um dos copos e bebendo um gole antes de olhar para o líquido dentro da pequena peça de vidro com descaso. — Não sei por que eu ainda insisto. Não importa quantas vezes se bebe, uísque é sempre horrível! — o jovem deixou o copo sobre a mesa e se levantou da poltrona onde estava. Seguindo até a estante de livros começou a mover os exemplares de um lado para o outro e checar as prateleiras a procura de algo. — É por isso que eu sempre guardo um pouco disso aqui... — ele sorriu triunfante ao achar a garrafa de rum que mantinha escondida na estante e exibi-la com orgulho para Will.
— Eu preciso lembra-lo do motivo pelo qual você tem que esconder o rum?
— Claro que não. — ele arrancou a rolha da garrafa enquanto voltava a se sentar na poltrona e enchia um novo copo com o líquido. — Eu o escondo porque vocês me proibiram de toma-lo. — levou o copo aos lábios e deixou que o rum escorresse para dentro de sua boca. — Aliás, obrigado por isso. — disse em tom sarcástico.
— Nesse caso — começou Will. — eu deveria lembrá-lo do motivo pelo qual o proibimos de beber. — ao terminar a frase lançou um olhar incisivo na direção de Elliot que, era de conhecimento geral, sempre ficava animado demais depois de alguns goles de rum.
— O que você estava dizendo sobre Londres? — Elliot apresou-se em mudar de assunto.
— Se vai mesmo beber seja razoável. — pediu Will dando-se por vencido.
Elliot ergueu o copo na direção de Will em um gesto que sugeria um brinde e entornou o copo solvendo o líquido em um só gole como uma provocação as repreensões do primo. Em seguida voltou a despejar mais um pouco do rum da garrafa dentro do recipiente.
Will não era famoso por ser paciente e não lidava muito bem com provocações, mas ao longo dos anos aprendera alguns truques para manter a calma diante de situações como aquela. Ele fechou os olhos e puxou o ar com força para dentro dos pulmões, quando soltou o ar abriu os olhos ao mesmo tempo e sentiu uma confortável calmaria inundá-lo.
— A proposta de John para mover a sede da Ordem para Londres foi aprovada. — disse Will.
— Sempre achei Londres mais divertida. — divagou Elliot.
— Ele me escreveu pedindo que fossemos até lá acompanhar o desenvolvimento do projeto e eu mandei uma carta a ele avisando que partiríamos essa semana. — continuou Will.
— O novo representante do governo não deveria chegar essa semana? — perguntou Elliot finalmente parecendo se interessar pelo assunto.
— Deveria, mas com a aprovação da proposta e a nossa necessidade de partir para Londres acabaríamos nos desencontrando, então ficou acertado que nós iríamos para Londres tanto para acompanhar o projeto quanto para conhecer o novo representante e ele viria conosco quando voltássemos a Much Wenlock.
— E eu ainda estou tentando achar uma utilidade para esta conversa. — disse Elliot em seu costumeiro tom despreocupado.
— Faremos uma parada em Coalbrookdale antes de seguir para Londres.
— Coalbrookdale? Por que Coalbrookdale? — o jovem parecia desgostoso com a notícia e até um pouco agitado.
— John me deu instruções para encontrar Thomas Darby. Ele ainda não sabe, mas será o responsável pelo projeto da nova sede.
— Coalbrookdale! — Elliot cuspiu a palavra com desdém enquanto jogava a cabeça para trás e levava o recipiente de vidro aos lábios sorvendo o último gole da bebida. — É claro que o responsável pelo projeto tinha que ser de Coalbrookdale! Aquele lugar é deprimente! — protestou o loiro depositando o copo sobre a mesa de centro.
— Vamos buscá-lo e partiremos com ele para Londres em seguida.
— Se realmente vamos passar por Coalbrookdale eu vou precisar de uma dose extra! — Elliot pegou a garrafa para encher o copo novamente, mas Will a interceptou e a retirou das mãos do loiro.
— Seja razoável Elliot! — disse em tom autoritário fechando a garrafa. — Razoável!
***
A noite caíra sobre Much Wenlock como um véu enquanto Will e Elliot aguardavam a chegada de Lilith sentados em um banco na praça principal da Cidade. A carruagem de aluguel a deixaria naquele ponto de encontro aproximadamente a meia noite.
— Ansioso? — perguntou Elliot parecendo entediado.
— Um pouco.
— Não a vê há um mês e só está um pouco ansioso?
Will lançou um olhar de reprovação ao primo e Elliot deu de ombros voltando a olhar ao redor entediado.
— Eu só pensei que gostasse mais dela. — insistiu o loiro tentando usar um ar de completo desinteresse.
— Não gosto do que está insinuando. — disse Will voltando seu olhar na direção de Elliot.
— Não estou insinuando. — respondeu Elliot encarando-o de volta e usando o mesmo tom firme.
A discussão provavelmente teria se alongado se ambos não houvessem escutado o relinchar dos cavalos denunciando sua aproximação antes mesmo do barulho dos cascos se chocando contra os paralelepípedos da rua.
Os dois cavalheiros se levantaram e olharam na direção do sonido. Segundos depois a diligência em tons de marrom escuro e claro com acabamento em verniz dobrou a esquina e seguiu até a praça principal.
O condutor abriu a porta da carruagem e estendeu a mão que Lilith usou como apoio para descer do veículo. Ao pisar na rua da praça seus olhos percorreram aquele ponto da cidade de forma minuciosamente observadora constatando que Much Wenlock ainda nutria seu charme, apesar de parecer mais desenvolvida e talvez até mesmo maior do que a jovem costumava se lembrar.
Enquanto Lilith observava a cidade distraidamente, Will e Elliot observavam a figura da jovem. Will procurava certificar-se de que a moça estava bem, apesar de parecer um pouco abatida por conta da viagem. Já Elliot, que há muito não via a prima, fazia uma breve constatação própria do efeito dos anos sobre a aparência da moça.
Lilith tinha parte do cabelo preso para trás e a outra parte caía-lhe em abundância encaracolado pelas costas. A saia volumosa do vestido, todo em tom esverdeado, inculpava uma crinolina coberta de várias anáguas por baixo do tecido assim como a cintura acentuada inculpava um espartilho que deveria ser de grande incômodo. Os ombros estavam amostra devido ao decote do vestido em formato côncavo e decorado com rendas pretas. Luvas de linho preto erguiam-se até a metade dos braços e do pescoço um colar de camafeu pendia até a altura do busto.
Os olhos verdes da jovem pararam primeiro em Elliot fazendo uma breve análise da figura do primo e depois se dirigiram a Will demorando-se um pouco mais. Os lábios polposos abriram-se em um sorriso enquanto ela se aproximava a passos comportados dos dois cavalheiros.
Elliot foi o primeiro a retribuir-lhe o sorriso. O loiro curvou o corpo em uma mesura exagerada remetendo-os aos tempos de criança com aquela laracha compartilhada apenas entre os três.
— Bem-vinda de volta a Much Wenlock. — disse Elliot depositando um leve beijo nas costas da mão de Lilith.
— Obrigada, Lio. — respondeu a jovem em tom educado.
— Como foi a viagem? — perguntou Will.
— Longa. — respondeu Lilith sucintamente, parecendo um pouco esmorecida.
Will assentiu com a cabeça e assim que o cocheiro descarregou as malas com os pertences de Lilith e partiu, os três se dirigiram para uma segunda carruagem do outro lado da praça que carregava o símbolo dos Santtori nas portas.
Quando a carruagem cruzou os portões da mansão Lilith já parecia um pouco mais animada do que aparentava estar quando chegara. Ela passara o caminho todo, da praça até a mansão, fazendo comentários sobre os últimos dias que passara em Leeds.
— Vai sentir saudades? — perguntou Elliot especulativo.
— Não pretendo.
Passava um pouco da uma da manhã quando a jovem colocou os pés no hall da Púrpura de Wenlock retirando as luvas de linho e deixando mais uma vez que o olhar curioso examinasse o lugar em busca de diferenças notáveis na decoração ou na organização dos móveis e percebendo, com certo alívio que ela não soubera explicar, que tudo estava exatamente do modo como ela se lembrava. E que provavelmente era também o modo como sempre estivera.
— Faz quanto tempo? —perguntou Will notando os olhares irrequietos de Lilith para o ambiente.
— Não sei ao certo. Estimo que quase oitenta anos. — respondeu a jovem soltando também os cabelos e deixando que os cachos caíssem por seus ombros e emoldurassem seu rosto jovial. Vista daquela forma não parecia ter mais do que vinte anos.
— Acha que mudou muito?
— Acho que não mudou nada. — abriu um sorriso fraco quando seus olhos encontraram os de Will.
Os três deixaram o hall se dirigindo até a sala de estar da mansão sendo surpreendidos no meio do caminho por uma voz meio fina e meio nasal. Um som irritante ao qual Will já começava a se acostumar, mas que pegou Lilith e Elliot desprevenidos.
— Finalmente chegaram! — a senhora Thompson surgiu eufórica pelo corredor e caminhou a passos curtos e apressados até os três jovens.
— Quem é ela? — perguntou Lilith em um sussurro para Will.
— Caroline Thompson, a governanta. — Will sussurrou de volta. — Não se assuste.
— Deixei os quartos preparados como me pediu. — disse a senhora Thompson parecendo se orgulhar do próprio trabalho.
— Perfeito, a senhora pode ir dormir se quiser. — respondeu Will.
— Para você preparei o antigo quarto de sua mãe! — Caroline dirigiu-se a Lilith ignorando o que Will acabara de dizer.
— Obrigada. — foi o melhor que Lilith soube responder naquele momento.
— E para o rapaz o quarto de hóspedes. — continuou a governanta dessa vez voltada para Elliot.
— É o que eu sempre quis! — disse Elliot em falso tom animado contendo o riso diante daquela figura exageradamente afobada.
— Não é ótimo?! — a senhora Thompson não percebeu o sarcasmo implícito no tom do jovem e acabou por ficar ainda mais animada.
— Obrigado, senhora Thompson, já pode se retirar! — disse Will com mais firmeza dessa vez. — Vá dormir Caroline. — continuou em tom mais ameno.
— Ora William, não se preocupe comigo! — insistiu Caroline. — Eu não estou com o menor sono!
— Nesse caso pode por favor preparar um banho para Lilith? — pediu Will com delicadeza. — Ela está exausta.
— Com toda certeza! — a senhora Thompson fez uma leve mesura e se retirou pelo corredor com os mesmos passos apressados e curtos que davam a ela um modo engraçado de andar.
— Parece que eu não sou o único a ficar agitado com rum. — comentou Elliot em tom de troça quando a mulher já não podia mais ouvi-los.
— Que maldade, Lio! — o repreendeu Lilith segurando-se internamente para não rir do comentário que basicamente descrevia seus pensamentos.
— Com o tempo vocês se acostumam. — disse Will.
— Ou assinamos a carta de demissão. — sugeriu Elliot.
— Ela trabalha aqui há muito tempo? — Lilith olhou para Will.
— Ela foi contratada pelo seu avô, antes que ele desaparecesse.
— Ela pode saber algo sobre isso.
— Já conversei com ela. Não disse nada que nós já não soubéssemos.
Lilith suspirou profundamente, pelo visto o desaparecimento de Frederick permaneceria um mistério. Ela apenas torcia para que nada de mal houvesse acontecido ao avô.
— Estou cansada. — declarou tentando mudar de assunto para que ela mesma parasse de pensar sobre aquilo. Sabia que se deixasse sua linha de pensamento se estender ela passaria o dia seguinte acordada por causa disso, e estava cansada demais para desperdiçar um dia inteiro de sono. — Vou me lavar e depois acho que já vou me deitar.
— Está certo. Então nos vemos amanhã. — disse Will.
A jovem assentiu com a cabeça e após despedir-se de Will e Elliot seguiu para o quarto que pertencera a Eleanor como indicado pela senhora Thompson.
Lilith empurrou a pesada porta e entrou no quarto. O cômodo era amplo e não parecia muito diferente de seu antigo quarto no casarão em Leeds, exceto pelo fato de que tudo parecia ter o cheiro de Eleanor.
Sentir aquele cheiro era como mergulhar no passado, como estar no colo de sua mãe enrolando seu cabelo loiro na ponta do indicador. Ela não podia dizer que não sentia falta daquilo, que não sentiu por muito tempo até se acostumar e que agora, ali naquele quarto, não voltara a sentir.
Abriu o armário esperando encontra-lo repleto de mais lembranças, mas estava vazio. Completamente vazio. Ela imaginou que a governanta se encarregara de retirar os vestidos que sobraram de Eleanor para abrir espaço para seus próprios vestidos.
Estariam, provavelmente, trancafiados em um baú no sótão e talvez fosse melhor que lá ficassem.
Continuou a percorrer o quarto tocando nos móveis e nas paredes como se para se certificar de que eram sólidos, de que não eram apenas lembranças.
— Ai está a senhorita! — a senhora Thompson saiu de trás do biombo com as mangas do vestido dobradas até o cotovelo. — Seu banho está pronto. Venha cá eu a ajudo.
Lilith abriu um sorriso fraco e caminhou na direção da mulher que apesar de agitada era gentil sob muitos aspectos.
A senhora Thompson desabotoou o vestido da jovem ajudando-a a se livrar do espartilho apertado, das anáguas e da crinolina. Em seguida agrupou os cachos da jovem na mão e os prendeu em coque no topo da cabeça.
Lilith entrou na tina de banho sentindo seus músculos sucumbirem a deliciosa água quente e perfumada. Ela jogou a cabeça para trás e fechou os olhos não fazendo nada além de relaxar por longos minutos enquanto Caroline lavava seus braços e pernas.
— Senhora Thompson. — chamou Lilith ainda de olhos fechados.
— Pode me chamar de Caroline, criança. — respondeu a governanta em tom afável concentrada em seu trabalho.
— O que está fazendo... — começou Lilith abrindo os olhos e erguendo a cabeça. — não é trabalho das criadas?
Um sorriso doce tomou forma no rosto envelhecido de Caroline.
— Eu gosto do que faço, senhorita. — a governanta tirou os olhos do trabalho por um instante e voltou-os para Lilith através dos óculos arredondados. — Eu não tenho filhos, sabe? Nunca tive e a essa altura da minha vida... — a voz da mulher cessou e ela desviou o olhar voltando-o para o trabalho. — Eu gosto de cuidar das pessoas.
Mesmo que a senhora Thompson não tivesse visto havia um sorriso nos lábios de Lilith que ficou olhando para aquela mulher e tentando compreender um pouco mais sobre ela.
— Agora vire-se, deixe-me lavar suas costas. — ordenou Caroline não deixando que aquele momento brando se estendesse por mais tempo.
A senhora Thompson ajudou Lilith a se vestir depois do banho e ainda lhe fez companhia por alguns minutos antes de ser dispensada para o próprio descanso deixando a jovem de volta a mercê de sua nostalgia enfadonha.
Ao contrário do que pensava, Lilith não caiu no sono de imediato como era de se supor que faria. Na verdade sentiu-se subitamente bem disposta e decidiu caminhar um pouco pelos corredores da mansão, queria descobrir se ainda era capaz de se perder entre eles como acontecia muitas vezes quando era pequena.
Saiu do quarto deixando a porta aberta e avançou pelo corredor em passos leves. Ao passar pela biblioteca ouviu murmúrios e imaginou que fossem Will e Elliot conversando. Estava quase prosseguindo em seu caminho quando ouviu a voz de Elliot atravessar a porta fechada.
— Ela nunca mais foi a mesma... — disse Elliot.
Ela prendeu uma mecha de cabelo atrás da orelha e concentrou-se para ampliar a própria audição. Conseguia ouvir a cabeça de Will movendo-se positivamente em um gesto de confirmação e quase podia adivinhar que a boca do jovem era uma linha tensionada.
— É. Nunca mais. — respondeu Will com a voz falhada. Ele limpou a garganta e Lilith teve a impressão de que iria continuar, mas a próxima voz que ouviu foi novamente a de Elliot.
— Acha que voltar para a Púrpura foi a coisa certa?
— Eu espero que sim. O casarão tornou-se insuportável depois de algum tempo. — disse Will, a voz agora mais firme. — As lembranças eram insuportáveis.
— Faz quanto tempo? — perguntou Elliot e Lilith podia sentir o pesar carregado na voz do primo.
— Cento e dezesseis anos! — fora a resposta dada por Will.
— Inferno, Will! — o jovem exclamou inconformado. — Isso é tempo demais pra continuar com raiva!
— Não pra ela. — foram as últimas palavras que Lilith se dispôs a ouvir.
A jovem voltou para o quarto e fechou a porta atrás de si. Ela segurou a ponta do cobertor e a jogou para o lado enquanto recolhia os pés do chão e os esticava sobre a cama. Pegou novamente a ponta da coberta e a puxou para si deitando-se e apagando a vela no criado-mudo em seguida.
Lilith fechou os olhos pensando sobre o que ouvira na biblioteca. Apesar de não admitir nem para si mesma as palavras de Will causaram-lhe certo aperto no peito. Não gostava de agir daquela forma, sabia que isso preocupava tanto Will quanto Elliot, mas não conseguia assumir outra postura.
Lembrou-se das últimas palavras que ouvira antes de voltar para o quarto.
“Não pra ela”
Conseguia imaginar o rosto de Will ao dizer aquilo. Conseguia visualizar o olhar distante, o cabelo desgrenhado e como sempre rebelde fazendo sombras no rosto moreno. Conseguia vê-lo encostado em uma das estantes de livros com o cotovelo apoiado na quina do móvel e a mão escondendo a boca. Era como ele costumava ficar enquanto pensava.
“Não pra ela”
A frase continuou a ecoar em sua cabeça até que a jovem foi finalmente vencida pela exaustão provocada pelas longas horas de viagem e adormeceu tranquilamente.
***
Lilith abriu os olhos no quarto fracamente iluminado pela pouca claridade que conseguia atravessar o veludo das cortinas. Calculou que começara a amanhecer e sentou-se na cama com a impressão de que havia dormido apenas alguns minutos. Um sono leve e inconstante. Apoiou a cabeça nas mãos e respirou profundamente sentindo o corpo ainda pesando de cansaço.
Ouviu o som de passos no corredor e ergueu a cabeça com curiosidade notando uma sombra projetar-se pela fresta debaixo da porta.
— Will? — ela chamou com curiosidade, mas não houve resposta. — Will é você? — ela insistiu ainda meio sonolenta.
Mais uma vez não houve resposta e a sombra debaixo da porta começou a se afastar. Lilith jogou as cobertas para o lado e levantou-se da cama vestindo um roupão e saindo do quarto a tempo de ver um vulto desaparecer ao dobrar o corredor.
Ela fechou a porta atrás de si e olhou novamente para a direção em que o vulto seguira.
— Will? — chamou mais alto sem obter resposta novamente.
Uma leve corrente de ar gelado, típico da manhãzinha, soprou sobre seu corpo fazendo-a apertar o roupão em torno de si. A claridade ainda era muito fraca, mas por não saber que horas eram a jovem temia estar fora do quarto.
— Talvez já tenham aberto as cortinas. — deixou o pensamento escapar em voz alta.
Ela arriscou avançar um pouco pelo corredor e ao encontrar a primeira janela notou que ainda estava coberta pela grossa cortina que impedia que os raios do sol a machucassem. Mais confiante ela continuou avançando pelo corredor seguindo na direção do vulto que vira.
Seus passos ficavam mais firmes e rápidos conforme a sonolência do despertar se dissipava. Sempre que dobrava um corredor via a sombra se afastando por outro e se apressava em acompanha-la.
Não demorou muito para que Lilith ficasse desconfiada de que não era nem Will, nem Elliot e nem mesmo a senhora Thompson que estava andando pelos corredores àquela hora. Havia alguém na mansão e quem quer que fosse cometera um erro ao entrar ali.
Os olhos de Lilith ficaram escuros quando seus instintos despertaram, as presas despontaram prontas para atacar e a tez tornou-se translúcida permitindo a visualização de veias azuis, verdes e roxas sob a pele, círculos de olheiras escuras surgiram ao redor dos olhos predatórios. A perseguição tornou-se mais acirrada. Ela corria atrás de algo que corria dela até que dobrou um dos corredores e se viu cercada pelo mais vasto e profundo breu. Não havia sinal algum do vulto e mesmo a pouca claridade matinal que penetrava a mansão parecia não tocar aquele área.
Ela ficou atenta aos sons dos passos, mas eles também pareceram cessar de repente. Foi quando o barulho de metal chocando-se contra o chão a fez voltar a se mover. Ela chegou à escada principal e diminuiu o passo enquanto descia cautelosamente degrau a degrau tentando sentir a presença do que quer que fosse que a estivesse espreitando todo esse tempo.
No final da escada encontrou um candeeiro caído e ainda quente, como se tivesse sido largado ali às presas. Recolheu o objeto e o levou consigo até a sala de estar, onde apenas brasas queimavam na lareira.
A jovem deixou o candeeiro sobre a lareira e buscou por um pequeno recipiente de vidro que continha óleo de pinheiro. Lilith derramou algumas gostas sobre as brasas para reavivar o fogo e em poucos segundos algumas chamas mais fortes crepitavam iluminando levemente o ambiente.
O canto de seus olhos captaram um movimento fazendo a adrenalina voltar a pulsar forte por seu corpo. Ela virou-se sobressaltada na direção do vulto que vira e deixou cair o recipiente de vidro que segurava provocando um tilintar estrondoso quando o vidro chocou-se contra o chão espalhando óleo e cacos ao redor da jovem que ao mesmo tempo esforçava-se para suprimir um grito em sua garganta.
O garoto de cabelos avermelhados a encarava com olhos sérios exatamente como ela se lembrava. A pele era pálida e as ondas formadas pelo cabelo projetavam sombras fantasmagóricas no rosto. Ele não havia mudado. Não havia se passado um único dia para ele. Era exatamente do modo como ela se lembrava.
Não houve tempo nem para um piscar de olhos, a figura do rapaz desapareceu diante de si tão rápida e inexplicavelmente quanto havia surgido.
Lilith levou alguns segundos para acalmar a respiração antes de notar a própria incredulidade diante da ideia de que ele simplesmente evaporara. Inconformada, ela apressou-se em ascender o candeeiro e percorreu o cômodo com a luz na mão ignorando os cortes causados pelos cacos de vidro nos pés descalços.
Ela apontava a luz do candeeiro para todas as direções repetidas vezes. Ele não estava em lugar nenhum. Havia sumido. Não estava mais lá.
Não. Não. Não. Aquilo não podia ter acontecido. Ele tinha que estar lá.
Em um ímpeto ela deixou o candeeiro sobre a lareira e correu até a janela onde ele estava há poucos segundos atrás. As longas cortinas escuras cobriam o vidro do teto ao chão.
Sem se dar conta do que fazia, Lilith segurou dos dois lados da cortina e os afastou esquecendo-se naquele momento que a manhã já havia despontado no céu.
No mesmo instante ela sentiu o corpo queimar. Não havia ninguém lá. Não havia nada lá além da claridade insuportável da luz do sol que abraçou seu corpo por completo a fazendo gritar de dor. Sentiu o corpo todo arder e fechou os olhos com força. Jogou os braços na frente do rosto tentando inutilmente se proteger da intensidade dos raios.
— O que você está fazendo? — a voz de Will ecoou alta e furiosa pelo cômodo.
Ela ouviu os passos apressados do jovem se aproximando e sentiu grande alívio quando ele fechou novamente as cortinas tornando o ambiente escuro e acolhedor, protegendo-a da exposição ao sol.
O corpo começou a esfriar e a sensação de fogo sobre a pele começava a desaparecer, mas ela ainda mantinha os olhos fechados e gemia pela dor causada com a rápida regeneração das feridas em carne viva.
Will tirou-a do chão e a levou até o sofá onde se sentou com Lilith encolhida em seu colo como se fosse uma criança.
Quando ela abriu os olhos o rosto de Will lhe fitava com aflição. Ofegante ela correu os olhos pelo cômodo para ter certeza de que estava segura. A cortina havia sido parcialmente fechada, mas uma pequena fresta deixava a luz do sol entrar. Felizmente ela estava longe dessa fresta. Estava nas sombras, segura no colo de Will.
— O que houve? — ele perguntou sem compreender a cena que acabara de presenciar. — O que deu em você para abrir a cortina em plena luz do dia? — seu tom de voz oscilava entre a irritação e a angustia. — No que você estava pensando? — perguntou ele aflito apertando-a cada vez mais contra seu peito.
Lilith jogou os braços ao redor do pescoço de Will e encaixou a cabeça na curva de seu pescoço sentindo a respiração se acalmar. Estava a salvo. Segura. Não havia vulto, não havia perseguição, não havia candeeiro sob a lareira. Mas ela sabia o que vira. Sabia por que havia aberto a cortina e se queimado com a luz do sol. Ela sabia.
— Eu o vi. — sua voz saiu fraca e embargada. — Eu o vi, Will! — repetiu erguendo o rosto para olhar para o jovem, muito embora parecesse olhar através dele. — Ele estava olhando pra mim. Estava de frente para a janela.
— Do que está falando Lilith? Quem você viu? — perguntou sentindo-se apenas mais confuso.
Lilith desviou o olhar parecendo hesitante como se estivesse reconsiderando para si mesma o que vira.
Não.
Ela sabia o que vira!
— Arthur... — disse ela finalmente. — Ainda era uma criança. Exatamente como me lembro dele.
— Foi só um pesadelo. — disse em tom acalentador compreendendo finalmente que a irmã apenas tivera uma manhã difícil, exatamente como ele na manhã anterior.
— Não foi um pesadelo! Ele estava aqui! Eu o vi! — insistiu Lilith em tom histérico.
Will a encarou com seriedade e respirou fundo enquanto pensava em uma maneira de prosseguir com aquela conversa. Sua expressão aflita desmanchou-se em serenidade e ele prendeu uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. Segurou seu rosto delicadamente com uma das mãos e prendeu seu olhar ameno ao dela.
— Lilith — sua tentativa de usar uma voz afável falhou miseravelmente e seu tom era carregado de tensão. — Arthur está morto.
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