O Lançar Da Moeda

2 À Sombra da Morte


Terça-feira, manhã, alguns minutos antes do meio dia. O mundo prossegue em ritmo acelerado, embalsamado pelo denso nevoeiro de responsabilidades e horários inevitáveis. O som dos motores atravessa as paredes das casas mais tranquilas, alertando a população do dever para com a sociedade, o dever de sempre estar com pressa.

Apenas uma casa seguia sua rotina indiferente aos acontecimentos externos. Uma casa localizada no centro da cidade, onde o movimento é constante mesmo nas horas mais calmas do dia. Nesta casa, moram duas pessoas. Uma delas é um homem de 51 anos chamado Joseph, um militar reformado que sempre valorizou a diciplina e a boa conduta. Os cabelos grisalhos misto ao seus 1, 91 metros o tornam quase que uma figura de jogos de luta. A outra pessoa na casa chama-se Kline, filho de Joseph, 23 anos e praticamente igual a ele não fossem os olhos e a altura, a qual não passava de 1,75 metros. Seus olhos eram completamente negros, assim como os de sua mãe.

Kline havia recentemente iniciado os estudos na faculdade, sendo este o seu sétimo dia de aula. Passar em um dos vestibulares mais concorridos da região é sempre motivo de alegria, entretanto tal fato não havia sido comemorado pois, na data de divulgação dos resultados, a mãe de Kline, Nora, foi vítima de uma assalto que terminou em uma troca de tiros com a polícia. Nora foi gravemente ferida com uma bala no pulmão e morreu no hospital.

O filho realiza um último movimento com o garfo, dando fim ao almoço. O tic tac do relógio revela que, considerando o caminho a percorrer, mais uma vez:

– Parece que vou me atrasar de novo — Disse ele ao pai.

– É tudo uma questão de organização. Já disse para se organizar melhor quanto ao tempo — Respondeu Joseph, sem desviar o olhar da televisão.

– De qualquer forma, acho que será melhor me atrasar um pouco. Estive pensando em visitar a mamãe recentemente e acho que vou aproveitar esse meu atraso para fazê-lo.

Um silêncio toma conta do ambiente. Joseph continua a olhar para a televisão, com um olhar perdido. Desprovido de qualquer emoção, ele se levanta, agora olhando para baixo e se aproxima do filho, pousando a mão em seu ombro.

– Ela estaria orgulhosa de você. Do homem que você se tornou e aonde chegou. Queria que ela estivesse aqui e falasse isso diretamente a você. — Joseph diz em tom sério. Não há sinal de lágrimas ou tristeza, apenas um olhar completamente fixo, frio, digno de um militar. Kline levanta-se entristecido, ergue a mão em direção a sua mochila e, com lágrimas correndo seu rosto, abraça seu pai.

Não são necessárias palavras nesse momento. Nada que precise ser dito para ser compreendido. O abraço é pesado, uma tristeza partilhada os mantém unidos e se apresenta como um simples abraço.

– Eu sei...

O rapaz joga a mochila por cima do ombro e esfrega a mão pelo rosto, buscando esconder as lágrimas. O homem não se move, apenas resiste a mostrar suas emoções, como fez ao longo de toda sua vida. Com um movimentos rápido e breve, a maçaneta da porta da frente gira e se abre, enquanto o jovem se vira e olha para seu pai para dizer mais uma vez:

– Te amo, pai.

Um baque surdo toma conta do ambiente. Um silêncio terrível se apodera da situação. Joseph, pela primeira vez, se vê com uma expressão de puro terror, os olhos mal enchergando a visão que se revela bem a sua frente como um livro aberto. Todo o seu mundo deixou de existir, desaparecendo ao fundo da visão de uma sala banhada com o sangue de seu filho.