O Lançar Da Moeda

3 A Negociação


Estava frio. Kline acordou no que parecia ser o vácuo, a inexistência. Ao seu redor, a escuridão reinava. Era impossível identificar qualquer outro objeto que não fosse seu próprio corpo, como se este emanasse luz própria. Logo que acordou, percebeu que não estava mais em um lugar qualquer. Vestia uma terno preto levemente listrado com algumas faixas cinzas. Sapatos totalmente negros e impecáveis, engraxados com maestria. Em seu bolso, havia um relógio antigo. Os ponteiros estavam parados, apontando em união para o número 12. Por fim, um som estranhamente familiar cortou o silêncio. O som de uma agulha de gramofone arranhando um disco de vinil.

Um jazz agradável começo a invadir o ambiente. Um ritmo não muito rápido nem muito lento. Um ritmo perfeito para uma madrugada gélida com alguma bebida alcoólica para acompanhar. Em meio às trevas, Kline começou a ver o surgir de uma luz. Esta se originava de cima e desceu delicadamente até o solo, onde revelou a existência de uma mesa de mogno, muitíssimo bem trabalhada em cada detalhe. Não era muito grande, na verdade era muito parecida com uma mesa antiga de escritório. Ajustando o gramofone, se situava outro homem com um terno idêntico ao do rapaz, porém usando um chapéu negro o qual impedia a visualização de seu rosto. Ao terminar de ajustar o gramofone, virou-se e encarou o recém chegado.

– Boa tarde senhor. Por favor, queira sentar-se...

Com um gesto manual, ofereceu uma cadeira incrivelmente trabalhada assim como a mesa. O som de seus sapatos cruzava a escuridão de forma imponênte, tal qual o som de um executivo chefe tratando dos negócios da empresa com um investidor. Kline resolveu aceitar o convite do estranho, em parte por curiosidade e em parte por falta de opção. Sentou-se à mesa e verificou dois copos de vidro cilíndricos e uma garrafa do que parecia ser Uísque de ótima qualidade. Realmente estava em algum tipo de escritório antigo. Seu anfitrião sentou-se na extremidade oposta da mesa, abriu uma gaveta, revirou alguns documentos e voltou sua atenção ao convidado:

– Pois bem, senhor Kline, creio que esteja um tanto perdido quanto ao tempo e espaço ao qual está submetido. Entretanto posso assegurar que as respostas surgirão no momento apropriado. — Sua fala era cortêz e agradável, aparentemente um homem de negócios nato — Entretanto é inviável negar a gravidade da situação. — O anfitrião estendeu a mão à garrafa de Uísque e encheu um dos copos — Sirva-se, por favor.

Tamanha foi a classe com a qual o homem realizou o pedido que Kline não teve outra opção senão aceitar mais uma vez. Estendeu a mão, encheu o copo na medida que lhe agrada e ingeriu a bebida. Um calor gentil desceu por sua garganta enquanto o seu anfitrião retomava o discursso:

– Pois bem, vamos aos negócios. Deste momento em diante, ofereço-lhe duas soluções: Envoltos nas trevas, residem criaturas as quais a identidade é desconhecida. Suas intenções podem ser muito boas ou extremamente ruins. Se desejar, pode ficar aqui sentado em minha companhia até que uma dessas criaturas consiga escapar da escuridão e, por fim, alcançá-lo. Porém, caso não queria aguardar pelo seu destino, pode ir atrás dele. — O homem ergueu a mão esquerda e revelou o objeto guardado na gaveta, uma moeda antiga em perfeito estado de conservação. — Ao seu lado encontra-se uma pequena estação de metrô. O custo da passagem é apenas uma moeda, a qual agora encontra-se em meu poder. Caso tome este caminho, as criaturas envoltas nas trevas o seguirão. Você será testado em diversos pontos específicos de sua natureza e personalidade.

Kline levou mais uma vez o copo a boca, desta vez quase o esvaziando. Não haviam palavras a serem ditas naquele momento tão estranho e aparentemente decisivo. O homem pousou com calma a moeda sobre a mesa trabalhada e, por fim, indagou em tom de desafio:

– Pois bem, é pegar ou largar.

O copo de Kline se esvaziou. O jazz invadia as mentes dos ouvintes como a lua cheia refletida no mar. O frio tornava-se menos evidente com o consumir da bebida. O vinil dançava despreocupadamente em seu ciclo infinito. Por fim, o rapaz estendeu a mão, agarrou a moeda, girou-a em seus dedos e disse:

– Só espero que o metrô não esteja muito cheio hoje.

O anfitrião sorriu, ou ao menos pareceu sorrir. Levantou-se e estendeu a mão em sinal de comprimento:

– Então vamos fechar negócio?

Os homens apertaram as mãos. Realmente aquilo era uma negociação a moda antiga. Kline levantou-se, agradeceu a bebida e a hospitalidade e aventurou-se por entre as trevas.