O Ladrão de Almas

7 I'm not ready to Die


Notas iniciais
Me perdoem pela demora! Eu tive uns imprevistos, mas para recompensar eu estou com ideias ótimas! Eu tive até de fazer mágica pra terminar esse capitulo, já que, se fosse por mim, ele provavelmente teria umas seis mil palavras... Enfim, esse capitulo é extremamente importante, então prestem atenção! E Boa leitura!

Por mais que eu não queira acreditar, era verdade, toda a minha vida foi resumida em um pedaço do Paraíso e outro do Inferno. Eu estava confinada pelo resto da minha pós-vida a viver no escuro, com uma única salvação: a morte. Mas eu não tinha mais o direito e nem o luxo de morrer e, mesmo se tivesse, para onde eu iria? Nenhum dos lados era confiável, nenhum deles me trataria bem ou cuidaria de minha pobre alma. Minha sanidade estava se esvaecendo de minha mente a cada segundo que ficava naquele lugar, não restava muito tempo.

— Você está melhor? – A voz angelical de Francine tirou-me de meus devaneios e, mesmo sem levantar o olhar, eu sabia que ela tinha um sorriso aconchegante nos lábios, como uma melhor amiga, tentando inutilmente me consolar – Leandra, podemos conversar agora?

Eu não queria conversar, não queria mais saber o que ia acontecer comigo, o que já aconteceu com minha alma ou o que eles estavam planejando, mas mesmo assim assenti, talvez ainda houvesse alguma esperança de me ver livre, de escapar para o meu mundo.

Quem eu estava tentando enganar? Não havia esperança, não existia mais nenhum Deus para quem eu pudesse rezar, não havia paz, não havia amor. E eu estava no Inferno, morta, gelada, meu coração já não pulsava mais em meu peito. Como podia ainda pensar em sair daqui?

— Vai ficar tudo bem, Lea – A mulher sussurrou enquanto se sentava ao meu lado, sua voz demonstrava compaixão – Você vai ver, tudo isso vai acabar e você vai ter seu merecido descanso. Confie em mim.

— Não é isso Francine, eu não quero descanso! – Eu a olhei, pedindo socorro, minha voz embargada – Eu quero voltar, voltar para o meu mundo, para os meus amigos, para a minha família. Quero minha vida de volta! Eu não devia estar aqui – Algumas lágrimas escaparam de meus olhos e eu as limpei rapidamente com as costas da mão.

— Me desculpe por isso – Ela abaixou o olhar – Nós vamos conversar com Hyntf, isso que aconteceu com você não vai se repetir.

Ficamos em silencio, deixando o assunto morrer lentamente. Não queria conversar sobre Brian, aquele era o ultimo nome que eu gostaria de ouvir. Como eu fui tola, não estou em um livro de vampiros bonzinhos onde eu vou sair no final com um galã de novela. O que acabou se tornando a minha vida não é tão fácil quanto parece, é injusto, e agora minha alma tem um futuro incerto pela frente. Ela está suja com sangue e lágrimas, ela não tem mais nenhuma salvação.

O silêncio já estava começando a ficar constrangedor, mas eu não me importava, não tinha mais nenhuma força para falar, e também não queria. Voltei a olhar para minhas mãos, tentando não prestar atenção na conversa dos dois demônios que visivelmente se odiavam. Eu queria alguma explicação, mas não me atreveria a perguntar mais alguma coisa para nenhum dos três, como se já não bastasse a minha ultima pergunta e sua resposta dolorosa. Mas, no fundo, eu sabia que eu precisava saber pelo menos a metade da história, era um direito que eu tinha e, pelo menos para uma pessoa sensata, um dever.

Mas quem disse que eu ainda tinha o luxo de pensar coisas coerentes?

— Francine, você precisa me explicar algumas coisas... – Comecei, mas logo fui interrompida pelo rosnado do demônio mais novo.

— Não, não devemos nenhuma explicação, sua mortal idiota! – Ele elevou um pouco o tom da voz, o que me fez quase imediatamente me encolher, com medo – Primeiramente, somos demônios, não vamos ter clemência se você só for mais alguma alma evoluída tentando tirar proveito da situação, sei lá como você conseguiu tal feito.

— Cale sua boca imunda, Yalie (lê-se “Iali”)! – Francine o repreendeu, usando um tom totalmente diferente do que quando falava comigo – Você não direito nenhum de falar com Leandra assim e, você sabe muito bem, que eu sou mil vezes mais forte que vocês dois juntos – Ela apontou para o demônio ao lado de Yalie – Então, meça palavras para falar comigo e com Lea, ou faço você implorar pra queimar no fogo do Inferno, lado-a-lado com os mortais! – Disse entre dentes, assuntando tanto a mim quanto aos dois demônios.

Francine olhou para mim, agora assumindo uma aparência calma, os olhos pedindo desculpas pelo demônio mais novo. Ah, meu Deus, aquela bipolaridade estava começando a me deixar louca!

— Você tem razão, Lea, devemos algumas explicações – Ela sorriu, ignorando minha cara assustada – Provavelmente Hyntf já lhe contou, mas sua alma é pura, uma das mais imaculadas que já vi! – Os olhos dela brilharam por um momento, mas logo assumiram uma posição dura – Porém aquele idiota cometeu o estúpido erro de tentar roubá-la, e conseguiu, tanto que você está aqui. Nós anjos valorizamos muito pessoas como você, então fui encarregada de tentar resgatá-la e, infelizmente, tive de me unir com alguns demônios para conseguir tal feito – Explicou, calmamente, para que eu pudesse entender.

— E depois? – A pergunta saiu de meus lábios por vontade própria – E depois que tudo isso terminar? O que vai acontecer comigo?

Silêncio, foi tudo que recebi em resposta, e foi mais que o suficiente. Brian estava certo, eles iam me matar, não avia nada depois do fim. Um monte de nada! Não avia paz eterna, só o sofrimento realmente era certo. Porque, então, Francine estava sendo tão... Amiga? Talvez ela soubesse desde o inicio, só estava tentando recompensar o meu triste destino com carinho, coisa que, obviamente, não tive com Brian.

E tudo isso foi por culpa desse demônio desgraçado! Que se divertiu com a minha dor, com o meu sangue! Um ódio inexplicável começou a possuir meu corpo, podia senti-lo em chamas enquanto me levantava para ficar de frente aos demônios que anteriormente estavam discutindo algo que não conseguia escutar. Eu estava com uma profunda raiva, apesar da tristeza e do pesar pelo meu destino incerto também estivesse no meio desse misto de sentimentos, o mal falava mais alto.

Comecei a não ter mais controle do que fazia quando senti o poder tomar posse de minha mente e do meu corpo mortal. Eu me sentia diferente, uma sensação semelhante ao que senti quando Brian me irritou naquela sala cheia de almas. Estava acontecendo de novo, mas não me esforçava para fazer o monstro dentro de mim parar. Eu gostava. Gostava do poder que estava sentindo, gostava de ver minha aura emanando lentamente um ódio nunca visto. Era bom.

Peguei o demônio mais novo, Yalie, pelo pescoço, jogando-o contra a parede de pedra e imediatamente fazendo uma chama começar a “lamber” seu corpo. Estranhamente estava-o machucando, coisa que não aconteceu com Hyntf quando fiz a mesma coisa. Estranho, mas não me importei na hora. Enquanto o outro se contorcia no chão, dei um chute na barriga do demônio que me acordou, o qual não sabia o nome. Fiz o mesmo ritual que executei com Yalie, o das chamas. Ele também começou a queimar, se machucando superficialmente.

Só faltava uma, o anjo que agora me olhava confuso. Francine. Por um momento a raiva começou a se esvaecer, mas logo voltou com mais força ainda quando a arcanja tentou me atacar, sem sucesso. Um pequeno receio começou a se formar em seus olhos, passando rapidamente para medo quando a joguei contra parede, sem tocá-la, apenas com uma explosão forte de fogo que se formou em sua frente. Um caminho de água começou a ser feito de sua cabeça até seu queixo, o que me lembrou de Hyntf, que “sangrava” lava. Então água deveria ser o sangue dos anjos, uma ferida indolor. Droga! Eu queria a dor!

Aproximei-me de Francine lentamente, tendo alguns flashes de meu cabelo, que agora estava castanho-avermelhado, tampando meus olhos. Mesmo assim pude vê-la se encolher contra a parede quando cheguei perto o suficiente para ver que seus olhos eram meio verdes no centro. A distância era realmente curta, tanto que conseguia sentir sua respirar se mesclar com a minha. Ela me fitava, sem conseguir fazer nada.

Senti vontade incontrolável de tentar beijá-la (coisa que eu nunca pensei em fazer, em toda a minha vida), ela estava tão perto de mim, o rosto quase que colado ao meu. Era como se estivesse com Brian, naquele maldito pesadelo. Porém essa vontade foi substituída por um soco forte que destinei ao seu rosto, fazendo-a cair no chão. Não conseguia destingir se ela estava desacordada ou não, mas ao vê-la estirada no chão, que agora se encontrava totalmente em chamas, um sentimento realmente bom me atingiu. Aquela não era eu.

Senti um baque em minha cabeça, um baque forte, e automaticamente todo aquele poder que antes me pertencia sumiu. Eu era a ingênua e fraca Lea McKanzie de novo. O monstro partira. Caí no chão de pedra, agora sem fogo, e toda a consciência esvaeceu de minha mente, a escuridão era a única coisa que eu era capaz de destingir.

— O que será que pode ter acontecido? – Uma voz urgente que não soube destingir, a princípio, indagava – Aquela definitivamente não era ela! Se for mesmo ela, quero dizer.

— Mas é claro que é ela! Quem mais seria? Ela estava com Hyntf, não estava? Porque, em nome de Deus, Hyntf protegeria uma mortal em seu “covil-do-mal?” – Uma voz feminina ironizou, e deduzi ser Francine.

— Mas ela teve tendências bi! – Ouvi outra pessoa comentar e automaticamente estremeci, não queria me lembrar daquilo. A voz já me era mais familiar, lembrava Yalie – É típico dos nossos demônios femininos – Pude ouvir uma mudança radical em sua voz, um ponto de animação – Isso prova que você está errada! – Ele riu.

— Cale a boca, eu não estou errada! – Francine rosnou – Sabe, Yalie, eu estou me controlando tanto pra não avançar nesse seu pescoço com ossos à mostra e te enforcar, que poderia ganhar um prêmio por isso! Mas eu não garanto nada sobre os meus instintos assassinos.

Eu estava de olhos fechados, a lucidez começando a retornar para minha mente. Assim como o receio e o medo. Ah, meu Deus, eu fiz de novo! Igual ao que aconteceu na sala com as almas. Eu deixei o monstro escapar, eu não tentei impedi-lo. E, pior ainda, eu gostei da sensação de ver as pessoas sofrendo. Eu gostei da sensação de ver um anjo estirado no chão, se contorcendo de dor, quase desmaiando. Eu estava com um demônio preso dentro de mim e não fazia nada para fazê-lo parar de tentar possuir meu corpo. No que eu estava me tornando? Eu estava virando um deles, o Inferno me aguardava.

Pude sentir uma estrutura rochosa em minhas costas, o que quer dizer que ainda estava no chão. Os três agora conversavam coisas, acredito que sobre mim, que não conseguia ouvir. Eles sussurravam, como se tivessem receio de eu escutar algo. Aquilo me intrigava, profundamente, mas resolvi permanecer calada.

Claro que eu sou uma pessoa muito paciente quando estou curiosa, e isso não ia mudar mesmo estando no Inferno. Além do mais, eles pareciam saber muito mais do que eu sobre o meu monstro interior, e era algo que eu precisava ter total conhecimento, para controlá-lo.

Levantei-me lentamente, tentando não chamar a atenção deles, sem nenhum sucesso. O primeiro a me ver foi aquele que ainda não sabia o nome, logo depois Yalie e, por ultimo, Francine. Eles me olhavam assustados, como se tentassem ler meu olhar confuso. Passei a mão pelo meu cabelo castanho claro e pude sentir que ele estava curto, bem curto, comparado com o antigo comprimento, um corte irregular na altura do queixo. Olhei ao meu redor e vi minha roupa encharcada de sangue e meu cabelo espalhados em minha volta.

— Como vai o meu demoniozinho favorito? – Yalie ironizou – Acho que descobrimos quem você realmente é, mas prometemos que vamos guardar segredo, certo? – Ele começou a gargalhar, com um humor negro visível, porém nem Francine e nem o demônio que não sabia o nome riram, eles estavam sérios, me fitando.

— Não é hora para brincadeiras, Yalie – O demônio mais velho o repreendeu, sem tirar os olhos de mim – Leandra, você sabe o que aconteceu agora pouco? Sabe o que você fez?

Balancei a cabeça negativamente, por mais que eu esteja mentindo, queria ver se eles esconderiam de mim o ocorrido ou explicariam o que aconteceu e tentariam concertar a situação, afinal, minha alma não deveria ser mais tão pura assim, já que tinha um demônio convivendo junto comigo, bebendo de meu sangue, sugando minhas energias.

— Você foi possuída – Francine se pronunciou, fria, um tom que nunca usara comigo desde que cheguei – Mas isso é impossível, uma vez que você já morreu, então só podemos chegar a uma conclusão: você se tornou metade demônio quando voltou a “vida”. Isso é um problema, não podemos levá-la para o céu, já que metade de sua alma é pertencente ao Inferno e, por direito, eles podem pegá-la de volta. – Ela suspirou, irritada – Não podemos causar uma grande luta, estamos em uma espécie de trégua e não posso quebrá-la. Marcus pode lhe explicar melhor – Ela apontou com a cabeça para o homem ao seu lado, o demônio que eu anteriormente não sabia o nome.

— Seu demônio é libertado a partir da raiva, quando o ódio se torna puro em seu corpo – Ele começou, olhando-me de forma tão profunda que se não tivesse com tanto medo, podia me apaixonar – Você provavelmente sentiu um sentimento relativamente bom em me ver sofrendo, uma satisfação ao ver Yalie se contorcer de dor e uma atração inexplicável por Francine, mas, ao mesmo tempo, um ódio ainda maior, exatamente por ela ser um anjo – Ele deu um sorriso amarelo ao me ver arregalar os olhos. Ele estava certo! – Tenho que avisar: leio pensamentos – Piscou, rindo fraco.

— Deixe a sedução para mais tarde, Marcus! – Francine disse entre dentes, irritada – Vocês demônios são todos iguais, não me admira o Inferno ser tão repugnante: vocês são desprezíveis.

— São os males do ofício, sedução é uma marca registrada da minha espécie – Ele riu ao ver o anjo revirar os olhos – E irritar sua classe de falsos puritanos também – Gargalhou – Mas voltando ao que eu estava falando: a partir do momento em que você se deixa levar pelo demônio interior, não tem mais controle de si mesma, por mais que ache que está livre para tomar suas decisões, não está, isso é uma ilusão que o poder lhe concede – Explicou, agora sério – Não sabemos o quanto essa coisa se desenvolveu, mas se ela estiver em um estágio mais avançado, será problema tanto para o Céu quanto para o Inferno: não podemos ter uma alma tão imaculada conosco, no Inferno, assim com o Céu também não pode ter um demônio com eles.

— Não podemos despachá-la para o mundo dos mortais, você viu coisas demais, não podemos arriscar que os outros saibam. E, para melhorar ainda mais a situação: também não podemos matá-la, não é ótimo isso? – Yalie se pronunciou pela primeira vez em alguns minutos, a ironia presente em quase toda sua frase.

— E o que vai acontecer? – Perguntei diretamente a Marcus, tentando ignorar ao máximo o demônio mais novo.

— Nós não sabemos – Foi Francine quem respondeu, agora um pouco mais calma, doce, a compaixão digna de um anjo sendo exposta pelo olhar – Escute, Lea, nossa grande sorte foi por Yalie saber algumas técnicas de exorcismo e de Marcus ter uma força incontestável – Ela sorriu, o olhar um pouco longe, mas logo voltou a olhar para mim – E esse ritual lhe custou algumas coisas...

— Aliás, você tem um belo corpo! – Yalie gritou, gargalhando enquanto eu arregalava os olhos e me dava conta que só estava com a roupa de baixo – Pena ser uma mortal, mas já que é metade demônio, acho que não tem problema, não é? – Ele sorriu maliciosamente.

Vesti rapidamente o que sobrou de minha calça, mas nem me importei em vestir à blusa, já que agora só restara um pedaço de pano que não se ajustaria ao meu corpo. O demônio mais novo só ria fraco e lambia os lábios, não fazendo a questão de esconder as segundas intenções. Quer dizer que minha vida se resumiria a isso?

— Trate de se acostumar – Marcus sussurrou – Desculpe, querida, mas você está no Inferno agora, é assim que agimos. Instinto – Ele deu um sorriso amarelo e se aproximou de mim, sua respiração roçando em minha pele desprotegida – Yalie está certo em uma parte, você não é mais uma mortal, então não tem problema se eu...

Ele se aproximou ainda mais, olhando em meus olhos castanhos claro, lendo-os. Nossos lábios estavam a centímetros de distancia e eu não tinha para onde correr, ele tinha me encurralado e, mesmo se não tivesse, não tinha como me afastar dele agora. Tão perto... Tão...

— VOCÊS TÊM ALGUM TIPO DE PROBLEMA? – Francine gritou, tirando-me da hipnose e dando um tapa na cabeça do demônio mais velho, fazendo-o quase que imediatamente se afastar de mim. Não sei se gostei disso – Querem deixar a garota em paz?

Marcus não fez outra coisa além de rir debochado, jogando o que sobrara da minha camisa para mim. Estremeci.

— Acho melhor você improvisar e cobrir isso ai, só por precaução – Ele avisou, enquanto Francine revirava os olhos, irritada.

— Desculpe-me por eles – Ela pediu, carinhosa – É o instinto, foram criados com esses desejos impuros insaciáveis, tecnicamente a culpa não é totalmente deles. Prometo que não vai mais acontecer – Sorriu – Quer mais alguma explicação, Lea? Mais alguma coisa que queira saber?

— Tem como fazer isso parar? Algum exorcismo bom o bastante para aniquilar essa coisa? – Sussurrei, ainda tentando me recompor.

— Provavelmente sim, mas isso é com os dois demônios aqui – Ela revirou os olhos – Por isso me juntei a eles, eles sabem muitas coisas sobre o que está acontecendo com você, então podem ajudar.

Suspirei, assustada com a informação que acabara de receber.

— E agora? O que vamos fazer? – Indaguei, confusa.

— Tentar achar o demônio que lhe deu essa condição de vida – Marcus explicou, paciente – Só ele pode tirar esse mal de sua alma e, provavelmente, não foi Hyntf que fez isso, não é a especialidade dele, aquele inútil é só um ladrão de almas.

— Não fale assim dele! – Respondi automaticamente, quase gritando, e, claro, me arrependo logo depois. Mordi meu lábio inferior e continuei – Ele é bem melhor que vocês dois juntos! Limpe a boca antes de falar de alguém tão poderoso quanto Hyntf.

— Droga! – Francine exclamou, me olhando com um profundo temor – Isso é um problema, Leandra, isso é um grande problema. Você está apaixonada por um demônio, não podemos interferir, é arriscado demais. Sua alma está em jogo, sua sanidade também. – Ela começou a atropelar as palavras, com um desespero visível.

— Não estou apaixonada – A interrompi, fria – Mas ele foi o único que me acolheu aqui, talvez por causa de minha alma, mas, mesmo assim, eu poderia estar sofrendo lá fora se não fosse por ele. Eu sou grata a aquele demônio, apesar de ser por causa dele que eu esteja aqui, ele também me protegeu, se preocupou comigo.

Francine suspirou, olhando para Marcus, procurando apoio.

— Sabemos o que aconteceu quando ele roubou sua alma – O demônio mais velho falou, lentamente, me fazendo arrepiar – E sabemos o poder que isso tem para um mortal. Consegue entender o risco? Você pode estar, hipoteticamente falando, hipnotizada. Como acha que você não me deu um chute na cara quando eu quase te beijei? Nós demônios soltamos um tipo de feitiço para atrair mortais, porque, é claro, precisamos nos divertir – Ele sorriu maroto, mas logo voltou para expressão séria – Leandra, se isso realmente aconteceu, é um grande problema: não podemos fazer absolutamente nada enquanto Hyntf não quebrar o encanto, o grande problema é que não sabemos como isso acontece, uma vez que só nos aproveitamos dos mortais e depois os matando, sem se preocupar com as conseqüências. Com a morte mortal, automaticamente o feitiço se desfaz – Explicou.

— E vocês vão me matar? – Perguntei com naturalidade, como se isso fizesse parte do meu dia-a-dia. E talvez realmente fizesse.

— Você é retardada? – Yalie perguntou, irônico – Qual parte do “Não podemos te matar” você não entendeu?

Dane-se a compostura, dane-se o Inferno, mas esse demônio estava me irritando profundamente! Dane-se as conseqüências, não podia mais agüentar calada. Eu ia matá-lo, não agora, mas quando eu tivesse uma chance. Por enquanto me contento só em gritar com ele.

— Olha aqui, seu filho da puta, você não tem direito nenhum de falar comigo assim! – Comecei a levantar o tom de voz, me aproximando dele lentamente, com um ódio profundo em meus olhos – Você viu o que eu fiz com Francine, que, pelo que me parece, é bem mais forte que você e Marcus juntos. Então faça o favor de calar essa sua boquinha, ou eu a arranco, está me ouvindo? Você já provou um pouco do meu veneno, uma pequena dose mal depositada em seu sangue imundo, agora, se você me irritar mais uma vez, eu prometo que o veneno vai ser muito maior do que eu e você possamos imaginar.

Ele se encolheu, com medo, enquanto Marcus gargalhava e Francine tentava controlar a risada. Eu também queria rir, mas estava muito nervosa para isso. Voltei ao meu lugar, ao lado do demônio mais velho, e olhei para os dois, fazendo eles automaticamente recuperarem a expressão séria, sem nenhum sucesso. Nenhum de nós agüentou e começamos a rir da cara do demônio mais novo, que estava encolhido de pavor, olhando para mim como se eu fosse um alienígena.

— Quem diria, Yalie, uma mortal conseguiu te botar medo! – Marcus brincou, enquanto Francine se recuperava lentamente.

— Chega! Vamos voltar a falar sobre o que importa. Para onde vamos ir agora? Tem alguém mais poderoso que possa nos ajudar? – Perguntei, novamente séria, sem nenhum vestígio de alegria.

— Eu conheço alguém – O demônio mais novo murmurou – Vai ser absurdamente difícil chegar até ele, mas podemos tentar. Ninguém sabe seu nome, mas posso garantir que é muito poderoso, sua força pode ser comparada a força de Lúcifer sem nenhum problema. Dizem que é o filho de um demônio poderosíssimo e de uma arcanja tão poderosa quando Francine e mais uns 20 anjos – Ele sorriu vitorioso quando conseguiu nossa atenção – Eu posso levá-los até ele, mas com uma pequena condição... Isso não seria um problema, seria?

— Fale logo, Yalie – Pedi, um pouco irritada.

— O que eu quero para poder levá-los até lá é você – Ele riu.

Notas finais
Comentem? Eu sei que o final não ficou tão bom assim, mas eu tentei explicar muitas coisas importantes que vocês precisam saber para a história fluir bem. Ideias são mais que bem vindas, assim como dicas.See you later!