O Lado Sombrio do Amor
60 Vestido de noiva
Narrado por Alec
Um mês antes do pedido de casamento…
O bar em Paris era discreto, elegante, frequentado mais por profissionais do que por turistas. O tipo de lugar que eu buscava quando precisava... fugir de mim mesmo.
O gelo tilintava dentro do copo enquanto eu girava devagar o líquido âmbar. Scotch puro, meu favorito. E, aparentemente, o único companheiro confiável naquela noite. Peguei o celular pela terceira vez em dez minutos e conferi as mensagens.
Nada.
Renesmee não havia respondido.
Suspirei, sentindo a pontada habitual no peito. Talvez fosse o fuso, talvez estivesse ocupada com Sophie... ou talvez estivesse se afastando, aos poucos. Como uma maré que recua.
Dei mais um gole.
— Scotch puro. Também é meu favorito.
A voz feminina me tirou dos pensamentos. Olhei para o lado.
Ela era linda. Cabelos castanhos levemente ondulados que caíam com naturalidade sobre os ombros, os olhos verdes como o fim de uma tarde de verão. Elegante sem esforço, confiante sem arrogância.
Ela sorriu ao ver minha expressão surpresa.
— Desculpa, fui direta. Mas não resisti quando vi seu copo. — Ela se sentou no banco ao meu lado, cruzando as pernas. — Heidi.
— Alec — respondi, após um segundo.
— Nome forte. Alemão?
— Germano. Mas estou em casa aqui também.
Ela riu, levemente inclinada para mim.
— Médico, congressista ou apenas um homem bonito tentando esquecer alguma coisa?
Inclinei a cabeça, curioso.
— Intuição?
— Intuição de mulher. E... você tem aquele olhar. Meio perdido, meio entediado, sabe?
Ela acertou. Infelizmente.
— Talvez só esteja cansado.
— Ou talvez esperando uma resposta que não vem?
Puxei o ar. Ela tinha razão demais para ser apenas uma coincidência.
— Algo assim.
Ela girou o próprio copo e brindou.
— Então, à espera. E ao esquecimento.
Brindamos. Nossos copos se tocaram com um som seco, quase simbólico.
E eu cedi.
Sorri para Heidi. Ela não era Renesmee. Mas era bonita. Inteligente. E, naquela noite, eu só queria parar de sentir.
Ela flertava com os olhos, com a voz, com cada gesto. E eu, no limite entre o arrependimento e o orgulho ferido, aceitei o flerte.
— Quer sentar em uma mesa? — perguntei.
— Só se for ao seu lado — respondeu ela.
E foi assim que a noite começou... antes que eu soubesse o quanto ela ficaria marcada na minha memória — não por amor, mas por tudo que eu estava tentando esconder de mim mesmo naquela viagem.
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Atualmente...
Saí do banho deixando o vapor escorrer junto à minha culpa. Vesti o moletom cinza que sempre me acompanhava nas noites de dúvidas. O tecido quente contrastava com o frio que tomava meu peito.
Caminhei até a janela do quarto e olhei para a cidade de Nova Iorque. As luzes vibrantes pareciam ironizar o silêncio dentro de mim. Tudo parecia em movimento, menos o que eu sentia com relação a ela. Ou talvez estivesse em movimento... mas na direção contrária.
Suspirei, tentando encontrar em mim alguma certeza.
Foi então que ouvi vozes ao longe. Fracas, abafadas. Mas reconhecíveis. O som vinha da cozinha.
Peguei uma camiseta, passei rapidamente pela cabeça e caminhei, ainda descalço, até o corredor.
Parei ao lado da parede, como que instintivamente, quando ouvi a voz de Renesmee. A voz dela sempre teve o poder de me parar — e agora... me doía ouvir o que dizia sem ter sido convidado a escutar.
— ...ele não merece um amor pela metade. — era Bella quem falava. — Se você ainda ama o Jacob, Nessie, então seja honesta. Com ele. E com você.
Meu coração afundou.
— Eu não posso fazer isso com o Alec. — disse ela, e sua voz soava como a de alguém se quebrando aos poucos. — Ele me esperou por doze anos. Ele ficou. Foi ele quem segurou minha mão. Foi ele quem criou planos ao meu lado. E mesmo assim… eu não consigo deixar de pensar no Jacob. Isso está me destruindo.
Um silêncio pesado caiu. Eu fechei os olhos, sentindo meu mundo tremer devagar.
— Então não case — disse Bella, em voz firme. — Alec é um homem incrível. Mas ele merece ser amado por inteiro. E você… você precisa se amar o bastante pra não se esconder atrás da gratidão.
Ouvi Renesmee fungar.
— Eu estou perdida, mãe. Não posso voltar atrás... não agora.
As cadeiras rangeram. Ouvi passos. Resolvi dar dois passos para trás, retornando para o corredor antes que alguém me visse. Voltei devagar para o quarto.
Me sentei na cama, o coração acelerado, a respiração curta.
Agora eu sabia.
Ela me amava... mas era Jacob quem vivia dentro dela.
E o pior de tudo?
Eu já sabia disso antes mesmo de ouvir.
Narrado por Renesmee
Acordei com a luz suave da manhã atravessando as cortinas, mas a cama estava vazia. O lado onde Alec costumava dormir ainda estava morno, o que significava que ele não tinha saído há tanto tempo assim… Mas ainda assim, foi estranho.
Me espreguicei lentamente, sentindo o peso nos ombros. Um peso que não vinha só da manhã.
Levantei e fui até a cozinha. Bella já estava lá, sentada com uma xícara de chá e o jornal nas mãos.
— Bom dia, — murmurei, prendendo os cabelos em um coque bagunçado.
Ela ergueu os olhos e sorriu.
— Bom dia, filha. Alec saiu cedo.
Franzi o cenho.
— Que estranho. Ele nao disse para onde ia?
— Não disse. Só falou que tinha algumas coisas pra resolver.
Peguei meu celular no balcão e enviei uma mensagem rápida para ele:
“Aconteceu alguma coisa? Você saiu tão cedo…”
Deixei o aparelho sobre a bancada e suspirei. Bella me observava com aquele olhar que atravessa tudo.
— Lembra que hoje é o dia da prova do vestido de noiva, não é?
Arregalei os olhos.
— Hoje?
Ela assentiu com um leve sorriso.
— Em vinte minutos?
— Em vinte minutos — confirmei, já saindo da cozinha. — Prometo que estarei pronta.
Entrei no quarto e comecei a procurar algo para vestir quando o celular vibrou em cima da cômoda. Peguei apressada, mas não era Alec. Era minha filha.
— Sophie?
— Mãe, hoje vanks almoçar juntas?
Sorri, o coração aquecendo ao ouvir a voz dela. Mesmo depois de dois meses, ainda parecia um sonho chamá-la assim: minha filha.
— O que você acha de vir comigo experimentar o vestido de noiva?
Do outro lado da linha, ouvi um gritinho animado.
— Sério? Eu sou ótima em dar opiniões, você não faz ideia!
Ri, colocando o celular no viva-voz enquanto procurava uma calça jeans.
— Então arrume-se vou te buscar em vinte minutos.
— Estarei prontíssima. Ah, posso dar pitaco até no sapato?
— Pode tudo, minha crítica de moda preferida.
— Fechado! Beijo, mãe.
Desliguei com um sorriso nos lábios. A ansiedade com Alec ainda pulsava em algum lugar dentro de mim, mas saber que Sophie estaria comigo hoje… tornava tudo mais leve.
Agora só faltava o noivo dar sinal de vida.
O sol ainda estava suave quando estacionei em frente à mansão de Sarah. O portão de ferro estava entreaberto, como se já me esperassem. Sophie havia dormido lá depois da festa e, ainda pela manhã, trocamos mensagens. Ela estava animada com a ideia de me acompanhar na prova do vestido de noiva.
Toquei a campainha e logo Sarah abriu a porta com seu sorriso acolhedor.
— Bom dia, querida. Sophie está descendo — disse, dando passagem para que eu entrasse.
— Obrigada. Ela está empolgada com o ateliê — comentei, entrando.
— E eu também fiquei quando escolhi meu vestido de noiva— ela brincou, e eu sorri de leve.
Olhei discretamente em volta, procurando por Jacob. Não era exatamente intencional, mas algo em mim esperava vê-lo, talvez com aquela xícara de café na mão e a expressão de quem dormiu pouco. Mas não havia sinal dele.
Antes que o silêncio se alongasse, Sophie surgiu no topo da escada, radiante em um vestido leve e os cabelos presos num rabo de cavalo solto.
— Tô pronta! — anunciou ela, descendo apressada e com o celular na mão.
— Está linda — elogiei, estendendo a mão para ela.
Ela me deu um beijo rápido no rosto e acenou para a avó.
— Até mais, vovó Sarah!
— Divirtam-se — disse Sarah com ternura.
Saímos juntas, de mãos dadas, e enquanto caminhávamos até o carro, Sophie me olhou animada.
— Vai ser hoje que a gente escolhe o vestido perfeito.
— Com certeza. E você vai ter a palavra final — respondi, sorrindo para ela.
— Então vai ser o mais bonito de todos — disse, confiante.
E por um instante, com aquela menina ao meu lado, percebi que mesmo que tudo ao redor parecesse confuso... com ela, tudo fazia sentido.
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Saímos do carro diante da fachada elegante da Kleinfeld Bridal, uma das mais renomadas lojas de noivas de Nova Iorque. Sophie grudou o rosto no vidro, os olhos arregalados como se estivéssemos diante de um castelo encantado.
— É aqui? — ela perguntou, boquiaberta.
— Sim meu amor— confirmei, sorrindo.
Ao entrarmos, o perfume delicado do ambiente, misturado ao som suave de piano de fundo, nos envolveu como um abraço calmo. Bella já estava nos esperando, sentada em uma poltrona próxima aos provadores, com um café nas mãos. Ela se levantou assim que nos viu.
— Que bom que chegaram — disse com entusiasmo.
Sophie correu até ela e recebeu um beijo carinhoso no topo da cabeça.
— Mamãe disse que precisava de uma opinião segura sobre o vestido — Sophie falou empolgada.
— Não tenho dúvidas do seu talento para dar palpites sinceros — respondeu Bella, piscando para ela.
— Eu sou ótima nisso — Sophie disse, toda convencida, arrancando uma risada minha e de Bella.
Logo fui levada por uma consultora para experimentar o primeiro vestido. Eu não fazia ideia de como deveria ser. Só queria que, ao me olhar no espelho, me reconhecesse.
Depois de alguns minutos no provador, abri a cortina devagar e pisei na passarela iluminada.
O vestido era feito de tule off-white, com uma saia fluida que parecia flutuar a cada passo. A parte de cima era ajustada ao corpo, com bordados delicados em forma de folhas e flores, que subiam pelos ombros em alças finas de renda. As costas abertas em formato de gota davam um ar clássico, mas sensual. Simples, romântico, etéreo.
O salão ficou em silêncio por um segundo.
— Nossa mamãe — sussurrou Sophie, com os olhos arregalados.
— Você acha que é bonito? — perguntei, um nó se formando na garganta.
Sophie se aproximou, os olhos marejando e o sorriso pequeno, sincero.
— Você está… tão linda… parece uma princesa...
Eu me abaixei e abracei minha filha.
— Obrigada, meu amor. Sua opinião é a mais importante pra mim.
— É o vestido — Disse minha mãe segurando minha mão. — Mas se não for o momento certo, não tem vestido que salve.
Antes que eu pudesse responder à provocação cuidadosa de Bella, a porta da sala se abriu com um leve estalo.
— Renesmee. — A voz familiar me fez congelar.
Alec.
Ele estava ali, parado na entrada do provador como se o tempo tivesse parado junto com meu coração. Seus olhos estavam fixos nos meus, mas havia algo diferente neles. Uma tensão que não combinava com a ocasião.
Bella levantou-se num pulo, seus olhos se estreitando.
— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou, ríspida.
Alec manteve a calma, mas seu tom era urgente.
— Eu preciso conversar com a Nessie. Agora. A sós.
— Alec… — comecei, surpresa e desconfortável, ainda usando o vestido de noiva.
— Não pode esperar nem cinco minutos? — Bella rebateu. — Ela está provando o vestido do casamento de vocês. O noivo não deve ver a noiva com o vestido antes do casamento.
— Eu sei. Mas não posso esperar. — Ele me encarou. — Por favor, Renesmee.
O coração batia acelerado no meu peito. Eu não sabia o que estava prestes a ouvir, mas a expressão dele me dizia que era importante.
— Tudo bem. — sussurrei, olhando para Bella.
Ela me encarou por um momento, visivelmente contrariada, mas então se voltou para Sophie.
— Querida o que acha de irmos tomar um chocolate quente ali na lanchonete da frente. Você pode me ajuda a escolher um docinho?
— Claro vovó — Sophie sussurrou desconfiada e olhou para Alec e para mim.
— Então vamos meu amor — Bella respondeu, lançando um último olhar de advertência a Alec antes de sair com Sophie pela porta.
Assim que a porta se fechou, a sala pareceu mais silenciosa do que nunca.
Meus dedos se entrelaçaram ansiosamente enquanto eu me virava para ele.
— O que está acontecendo, Alec? Você está me assustando.
Ele deu um passo na minha direção, mas manteve distância. Seus olhos estavam intensos, e por um segundo, eu vi vulnerabilidade neles.
— Eu precisava fazer isso— começou, a voz tensa. — Antes que a gente cometa um erro que não dá pra desfazer.
— Que erro? — perguntei, sentindo a pele arrepiar sob o tule do vestido.
Ele respirou fundo.
— O nosso casamento.
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