O Lado Sombrio do Amor
3 Vermelho é o poder
Narrado por Renesmee
O shopping de Manhattan estava especialmente movimentado naquela tarde de sexta-feira. As vitrines exibiam tendências recém-saídas das passarelas, e o cheiro de café e perfume caro pairava no ar. Claire caminhava animada entre as lojas, com um catálogo dobrado na mão e o celular cheio de referências para a decoração da sua festa.
— Ok, tema floral com toques dourados e rosé? Ou algo mais moderno, tipo anos 20 chique? — perguntou, parando de frente para uma vitrine cheia de cristais e louças delicadas.
— Eu voto nos anos 20 — disse Emily, sorrindo. — Dá pra brincar mais com luzes e vestidos.
— E ainda cabe perfeitamente aquele vestido que vimos na LeBlanc — comentei me apoiando no vidro da vitrine. — O champanhe com franjas douradas? Você vai parecer uma estrela de cinema.
Claire riu, tocando no meu braço.
— Vocês são minhas fadas madrinhas. Nunca imaginei organizar uma festa dessas.
Emily puxou Claire para dentro da loja, mas Fiquei um instante a mais, observando o reflexo delas na vitrine. Parecem tão confiantes, tão felizes, pensei. Será que sabem o quanto têm a perder?
Logo depois, saimos com algumas sacolas e continuamos a caminhando até que paramos diante de uma loja ampla e iluminada, com motos expostas como se fossem jóias sobre plataformas giratórias.
Black Enterprises — o nome brilhava em letras metálicas sobre a entrada.
— Olhem isso — disse Emily, parando em frente a uma moto vermelha fosca, recém-lançada. — É o modelo novo da linha Shadow R. Jacob me mostrou o protótipo meses atrás, mas agora vendo ao vivo… é surreal.
— Parece uma extensão da própria máquina de guerra de Marte — comentou Claire, impressionada. — Essa cor é quase… venenosa.
Me aproximei da vitrine, devagar. Meus dedos roçaram o vidro diante da moto vermelha. Era robusta, agressiva. O vermelho vibrante era mais que uma cor — era uma ameaça sedutora.
Sem dizer nada, contornei a vitrine e parei diante do veículo esportivo vermelho que dividia espaço com a moto. Um carro de design futurista, com o símbolo da Black Enterprises cravado no capô.
Não resisti e deslizei a mão sobre o vidro. Um leve arrepio subiu por minha espinha. Eles construíram um império em cima da dor dos outros, pensei. Mas talvez seja aqui que tudo comece a ruir.
Claire e Emily trocaram um olhar rápido.
— O que foi? — perguntei virando-me para elas com um leve sorriso.
Emily cruzou os braços e inclinou a cabeça.
— Talvez… só talvez… a gente esteja exatamente diante da modelo que a Black Enterprises está procurando.
Arqueeu uma sobrancelha.
— Modelo? Eu?
— Você é alta, tem presença, e olha só como você encostou na moto — disse Claire, rindo. — A Emily quase ficou com inveja.
— Ah, para — rebateu Emily, rindo também. — Mas falando sério, estão procurando alguém com esse tipo de impacto visual. E você tem aquele impacto, Nessie.
Fingi surpresa, mas por dentro, meu coração acelerou. Era cedo. Muito cedo.
Mas se aquilo colocava meu rosto dentro da Black Enterprises…
Sorri com doçura e dei um passo para trás, como se o comentário de Emily tivesse realmente me deixado envergonhada.
— Ah, não… meninas, por favor, esqueçam isso. Eu sou tímida demais pra esse tipo de coisa — disse com um sorriso tímido, abaixando o olhar. — Modelo? Vocês estão exagerando.
Claire franziu a testa, sem esconder a empolgação.
— Mas Nessie, você tem porte, charme e um olhar magnético. É sério! Eu e a Emily percebemos isso assim que você se aproximou da moto. Você não precisa fazer nada forçado, só ser você.
Emily assentiu, animada.
— E pensa só! Você, uma estudante bolsista de moda, estampando a nova campanha da Black Enterprises? Isso pode abrir portas incríveis.
Ri baixinho, como se estivesse lisonjeada, mas desconfortável.
— Eu agradeço… de verdade. Mas isso tudo parece muito grande pra mim. Acho que… não sou esse tipo de garota.
Ainda, pensei. Mas em breve, serei exatamente esse tipo de garota. A que derruba impérios com um sorriso.
Claire se aproximou e pegou nas minhas mãos.
— Só… pensa com carinho, tá? Prometo que não insistimos mais se você disser um “não” de verdade.
Soltei um suspiro, fingindo estar dividida.
— Ok… eu vou pensar.
Emily deu um gritinho animado e puxou as duas para um abraço rápido.
— Então vamos terminar essas compras antes que eu enlouqueça e compre outra luminária que não cabe nem no meu quarto.
Nós três caímos na gargalhada, e seguimos pelo corredor iluminado do shopping, falando sobre cores, flores e tipos de luz. Eu caminhava entre elas, sorrindo, rindo, participando.
Mas por dentro, cada passo era calculado.
Eu não precisava ser uma modelo de verdade.
Só precisava que alguém importante da Black Enterprises me notasse.
E isso… estava cada vez mais perto de acontecer.
Narrado por Jacob
O portão da mansão Black se abriu assim que meu carro foi identificado. Estacionei no mesmo lugar de sempre, e o segurança me cumprimentou com um aceno. Já era fim de tarde, o céu pintado em tons dourados e alaranjados, e um leve aroma de alecrim assado escapava da cozinha.
Claire já estava me esperando na entrada. Usava um vestido azul-claro e um sorriso que me fez esquecer o peso das últimas reuniões.
— Achei que ainda estaria ocupada com os preparativos da festa — comentei, me aproximando.
— Eu terminei tudo mais cedo. Queria te ver — ela disse, tocando meu rosto com carinho antes de me beijar. — Além disso, não poderia perder o jantar com a família Black, não é?
— Minha mãe vai te amar ainda mais por isso.
Entramos de mãos dadas. Minha mãe, Sarah, já nos esperava na sala, ao lado de Rachel e Billy.
— Claire, minha querida! — disse minha mãe, com um sorriso largo. — É tão bom ver minha futura nora animada assim.
Claire corou e respondeu com um agradecimento gentil.
Billy, sentado em sua poltrona favorita com um copo de chá na mão, virou-se para mim.
— E a empresa, filho? Como andam as coisas?
— Muito bem. Fechamos contrato com uma distribuidora internacional hoje. Quil apresentou os novos esboços da campanha. Estão fortes — respondi, tirando o paletó e afrouxando a gravata.
Rachel, que até então estava calada, levantou os olhos do celular.
— Amanhã eu entrevisto as últimas candidatas pro comercial da nova moto. Sinceramente, estou começando a perder a paciência. Nenhuma delas tem o impacto visual que precisamos. Quero algo novo, algo que faça o público parar.
Claire pigarreou educadamente e se levantou um pouco, chamando atenção.
— Com licença, posso fazer uma sugestão?
Todos voltaram seus olhares para ela. Claire sorriu, confiante.
— Eu conheci uma garota incrível na faculdade. Ela se chama Renesmee . É linda, tem uma presença marcante e… quando a vi perto de uma das motos, foi como se ela já fosse parte da marca.
Rachel arqueou uma sobrancelha com ceticismo.
— Claire, não estamos fazendo um álbum de formatura. Precisamos de profissionais, alguém com experiência de câmera. Essa garota, essa… Renesmee, tem currículo? Book? Agência?
Claire hesitou um segundo.
— Não, ela é uma aluna bolsista de moda… mas tem um charme natural. Vocês precisam vê-la ao vivo.
Rachel cruzou os braços.
— Eu não quero amadoras tropeçando no estúdio. Essa campanha precisa ser impecável.
— Só peço que a veja. Se não gostar, nunca mais toco no assunto — Claire respondeu, com firmeza.
Rachel a analisou por um momento, então suspirou.
— Ok. Traga ela amanhã. Mas não garanto nada.
Claire sorriu, satisfeita, e se recostou ao meu lado.
Enquanto a conversa mudava para a escolha do bolo da festa, eu só pensava em um nome: Renesmee .
A tal amiga que Claire tanto falava.
A mesma que Sam descreveu com tanto entusiasmo.
A garota que eu, por algum motivo, estava curioso para conhecer.
E agora... eu teria minha chance.
O jantar foi servido pouco depois da conversa sobre a campanha. Minha mãe caprichou — como sempre. Frango assado com ervas, purê de batatas, legumes na manteiga e o famoso arroz com amêndoas que só ela sabia fazer daquele jeito. Todos se acomodaram à mesa, e entre goles de vinho e risadas ocasionais, o nome de Claire voltou à pauta.
— Então, Claire — disse Billy, limpando os cantos da boca com o guardanapo —, repete o nome da sua amiga que quer indicar pra campanha?
— Renesmee — respondeu ela com leveza, servindo-se de mais purê.
Billy franziu a testa, encarando um ponto fixo da toalha de mesa como se estivesse tentando puxar algo da memória.
— Renesmee… esse nome não me soa estranho. Qual é o sobrenome dela?
Claire pensou por um segundo.
— Newton. Renesmee Newton.
Billy afundou ainda mais a testa enrugada.
— Newton… — repetiu. — Hm. Não conheço nenhum Newton. Mas o nome Renesmee… tem algo nele. Já ouvi antes.
Claire deu de ombros.
— Talvez seja só coincidência, ou alguém de um artigo ou desfile. Ela estuda moda, sabe?
— É… pode ser — murmurou Billy, ainda pensativo.
Rachel lançou um olhar rápido para ele, e eu senti o ambiente ficar ligeiramente mais silencioso por um instante. Minha mãe notou também e, como boa diplomata da paz, mudou de assunto com a delicadeza de sempre.
— Falando em moda, festas e tudo mais… — Sarah disse, sorrindo. — Não está na hora de marcarmos a data do casamento?
Claire engasgou levemente com o vinho e riu, um pouco envergonhada. Eu sorri, massageando a nuca.
— Mãe, a gente ainda está decidindo tudo com calma.
— Calma demais, se querem saber — disse Rachel, com um sorriso de canto. — Se continuar assim, vou ser tia-avó antes de cunhada.
Claire riu.
— Não se preocupem. Assim que passar meu aniversário, vamos nos concentrar nisso. Prometo.
Sarah assentiu, satisfeita.
— Já falei com uma cerimonialista maravilhosa. Posso passar o contato, se quiserem.
— Vamos precisar — respondi. — Mas primeiro… vem a tal festa dos vinte e três, né?
— Exatamente — disse Claire. — E vocês vão adorar minha amiga. A Renesmee é doce, gentil e tem um olhar...
— Um olhar? — provocou Rachel, rindo.
Claire riu também.
— Um olhar diferente. Intenso. Vocês vão ver.
Billy apenas murmurou algo inaudível e se serviu de mais vinho, ainda parecendo preso naquele nome.
Renesmee Newton.
Algo no jeito do meu pai não me escapou. E, por mais que ele tentasse disfarçar, eu o conhecia bem demais para não perceber quando algo o incomodava.
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