Narrado por Renesmee


Meu quarto na república era pequeno, mas aconchegante. Um mural com fotos das competições de ginástica, livros de moda empilhados como fachada de uma estudante comum… e meu verdadeiro mundo escondido atrás da falsa normalidade.

A luz do celular piscou. Uma chamada de vídeo. Renée.

Respirei fundo antes de atender. Sorri com perfeição, como ela esperava que eu sorrisse.

— Oi, vó!

— Nessie! — a voz dela soou feliz, um pouco abafada pelo som do mar ao fundo. — Olha esse pôr do sol! Espera aí que vou virar a câmera… Phil, mostra ali!

Vi por alguns segundos o céu laranja e uma taça de vinho tremendo na mão dela. Em seguida, o rosto bronzeado de Renée voltou para a tela.

— E aí, meu amor, como estão as coisas por aí? A faculdade tá sendo tudo aquilo que você esperava?

Fingi um riso leve, me jogando de lado na cama.

— Tá sendo incrível, vó. As aulas são intensas, mas eu tô amando cada segundo.

— Ai, que bom! Sabia que esse curso era a sua cara. Moda! Sempre teve bom gosto, desde pequena. Lembra quando queria costurar vestido pra boneca com fita adesiva?

Sorri de verdade dessa vez. Não pela lembrança. Mas porque ela não fazia ideia de nada. Nem dos motivos. Nem do plano. Nem de quem eu realmente era.

— Lembro sim. Ainda tenho aquela boneca guardada.

— Awn, minha menina. Bom, a gente tá pegando o sinal meio fraco aqui no navio. Mas me liga quando der, tá? E qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, você me escreve.

— Pode deixar. Aproveitem o cruzeiro.

— Phil mandou beijo! Te amamos.

— Também amo vocês.

A chamada caiu logo depois. Por um instante, o silêncio do quarto me abraçou como um lembrete da solidão. Suspirei, ainda com o celular na mão.

Eles me amam.

Mas o amor deles não vai apagar o que aconteceu. Nem impedir o que eu vim fazer aqui.

TOC TOC.

Alguém bateu à porta.

Me levantei devagar e abri. Um dos funcionários da república estava com uma caixa marrom simples nas mãos.

— Entrega pra você.

— Obrigada.

Fechei a porta assim que ele saiu e caminhei até a escrivaninha. Rasguei a fita e abri a caixa com cuidado. No meio de papéis de proteção, encontrei a pequena câmera que comprei com um nome falso, entregue no endereço de uma colega ausente do andar de baixo.

Peguei o aparelho entre os dedos e observei meu reflexo na lente escura.

— Tá na hora de me mostrar seus segredos, Claire.

Sorri.

Afinal, toda princesa tem um castelo. E todo castelo… esconde alguma coisa.



O sol nem tinha subido direito quando bati à porta do apartamento de Claire. Meus dedos estavam gelados, mas não era por nervosismo. Era expectativa.

Ela atendeu de pijama, os olhos ainda meio fechados e o cabelo preso de qualquer jeito no alto da cabeça.

— Nessie? Que susto! Achei que fosse o entregador. — Ela deu um risinho e esfregou os olhos. — Achei que era às nove…

Fingi surpresa.

— Ai, Claire, me desculpa! Juro que achei que tínhamos combinado oito.

Ela bocejou e abriu a porta completamente.

— Relaxa, entra. Só me dá cinco minutinhos pra trocar de roupa. Vai entrando, fica à vontade… come alguma coisa se quiser, tá?

— Claro, sem pressa — sorri.

Ela desapareceu pelo corredor, e eu esperei alguns segundos antes de agir. A sala era clara, espaçosa, e... perfeita. Me movi com cuidado, silenciosa como sempre fui. A câmera menor já estava comigo, escondida no bolso interno do casaco. Pousei minha mochila no sofá, tirei a câmera e, em menos de trinta segundos, ela estava posicionada — discreta, camuflada entre os livros na estante.

Me afastei, observei de longe. Perfeita.

O som do chuveiro ligando ao fundo me avisou que era hora da próxima etapa.

Andei até o quarto com passos leves. A porta estava semiaberta. Entrei.

O cheiro de lavanda do quarto dela era suave e doce. O guarda-roupa estava escancarado, roupas espalhadas pela cama. Claire estava no banheiro, o som da água abafando qualquer ruído.

Tirei a segunda câmera da bolsa — ainda menor que a outra. Em silêncio, me aproximei da estante de perfumes, abaixei o corpo e a encaixei entre duas caixas organizadoras no canto do móvel. Direcionada para o espelho, com ângulo suficiente pra pegar boa parte do quarto.

Pronto.

Me levantei devagar, com o coração batendo firme, porém calmo. Estava cada vez mais dentro.

Saí do quarto no mesmo silêncio que entrei, sentei no sofá e cruzei as pernas. Peguei meu celular e fingi estar olhando redes sociais. A casa estava tranquila. Eu, ainda mais.

Aos poucos, o castelo estava se tornando meu.

E a princesa... nem sonhava com a serpente que convidou pra entrar.

A fachada de vidro da Black Enterprises refletia o céu de Manhattan como se fosse um monumento moderno. Claire estava radiante ao meu lado, tagarelando sobre o novo comercial e como a empresa vinha revolucionando o mercado de mobilidade. Mas tudo o que eu ouvia era o eco da batida do meu coração.

Dessa vez... o nervosismo era real.

Eu não era mais uma aluna estrategicamente plantada no caminho de uma herdeira. Eu estava prestes a cruzar a porta principal do império Black. Meu plano começava agora — de verdade.

— Pronta? — Claire perguntou com um sorriso, segurando minha mão como se fossemos irmãs.

Engoli em seco. Sorri de volta.

— Mais do que nunca.

Entramos.

O saguão era elegante, dominado por mármore branco e obras de arte minimalistas. Funcionários bem vestidos passavam apressados de um lado para o outro. Claire me guiou com segurança até os elevadores.

— Você vai amar a Rachel. Ela pode parecer meio dura, mas é uma das pessoas mais criativas que conheço. E exigente também... então, só seja você mesma.

Péssimo conselho, pensei.

As portas do elevador se abriram no 19º andar e Claire me levou até uma sala onde uma mulher loira, com postura de general e olhar de sniper, esperava de braços cruzados.

— Rachel — disse Claire com animação — essa é minha amiga que comentei. Renesmee Newton.

Rachel Black me analisou da cabeça aos pés como se pudesse ver através da minha alma.

— Hm. Me siga — foi tudo o que disse.

Obedeci, sentindo o ar se tornar mais denso.

Andamos pelos corredores silenciosos, com paredes de vidro e painéis digitais piscando com gráficos e imagens de campanhas passadas. Finalmente, ela parou diante de uma porta e a abriu.

— Jared, preciso de uma opinião profissional — disse com firmeza.

O fotógrafo, um homem despojado com barba bem feita e olhar técnico, ergueu os olhos da tela e me encarou.

— Essa é Renesmee. O que você acha?

Ele sorriu de leve e se levantou, vindo até mim com a câmera pendurada no pescoço.

— Não importa o que eu ache. A minha lente é que vai dizer.

Rachel cruzou os braços, observando em silêncio enquanto Jared me posicionava perto de uma parede branca com marcas de fita para orientação.

— Fique ali. Olhe pra mim. Não sorria — ele disse, ajustando a lente.

Fiz o que ele pediu. O clique foi rápido, profissional. Ele estudou a imagem no visor, depois olhou para Rachel.

— A câmera gostou dela.

Rachel assentiu lentamente, como se ainda não estivesse convencida.

Antes que qualquer comentário fosse feito, a porta se abriu. Um homem entrou — alto, de cabelos castanho-escuros e expressão tensa. Ele parou ao me ver, mas foi Rachel quem falou primeiro.

— Quil Alteara, essa é a Renesmee. A garota que Claire sugeriu.

Quil. Alteara.

Meu cérebro anotou aquilo com precisão. Claire falou o nome dele algumas vezes, mas só agora eu via o rosto. E, por alguma razão, ao fitá-lo... percebi um detalhe que não esperava: ele sorriu ao me ver. Mas mais do que isso, algo nele o conectava diretamente a Claire.

Virei levemente o rosto e vi Claire parada à porta, os olhos fixos em Quil.

E Quil... evitou o olhar dela.

O clima mudou. Rachel percebeu também, mas não comentou. Claire pigarreou.

— Vim só acompanhar a Nessie. Ela estava um pouco nervosa.

— Nervosa? — Quil repetiu, como se testasse meu nome na boca. — Não parece. Mas... bem-vinda.

Respondi com um aceno leve. Estava tudo se encaixando. E havia mais histórias ali do que eu imaginava.

A porta estava aberta. Agora era hora de entrar.