O Lado Sombrio do Amor
5 Ensaio fotográfico
Narrado por Renesmee
A luz me cegava por instantes. Jared falava pouco, apenas gesticulava com a mão para eu virar o rosto, inclinar o queixo, cruzar os braços. Eu obedecia sem hesitar.
Estava no controle — mesmo sem parecer.
A câmera disparava cliques ritmados, como se tivesse pressa em me registrar. E Rachel, parada ao fundo da sala, me observava com olhos de águia. Silenciosa. Atenta. Avaliadora.
Até que, após mais alguns disparos, ela ergueu a mão e Jared parou.
— Claire tinha razão — disse Rachel finalmente, virando-se para mim com um leve sorriso no canto da boca. — Você é o rosto que a nova marca precisa.
O coração acelerou. Eu sorri — dessa vez, não foi atuação.
Claire aplaudiu levemente, animada.
— Eu falei! Olha esse olhar, essa presença. Nessie nasceu pra isso!
Fingi surpresa.
— Nossa… eu nem sei o que dizer…
— Diga sim — respondeu Rachel. — Você toparia ser a modelo exclusiva da Black Enterprises?
Fiz um teatro breve de hesitação, mas já sabia minha resposta desde que encostei naquela moto vermelha.
— Seria uma honra.
— Ótimo — disse Rachel. — Quil, providencie o contrato.
Quil, que até então parecia deslocado na cena, assentiu devagar.
— Pode deixar. Vou cuidar disso pessoalmente.
Claire se aproximou de mim e me abraçou pelos ombros com entusiasmo.
— Parabéns, Nessie! Isso é incrível!
— Obrigada, Claire. Por tudo mesmo.
Rachel deu mais algumas instruções ao fotógrafo e, antes de sair da sala, voltou-se para mim:
— Bem-vinda à família Black Enterprises.
Aquela frase ecoou por dentro.
Família Black.
Mal sabiam…
Quil se virou e saiu. Claire logo atrás.
— Só vou beber uma água e já volto — disse ela, sorrindo.
Observei os dois caminhando pelo corredor, o corpo dela levemente inclinado para o dele, como quem guarda segredos que não precisam ser ditos em voz alta.
Meus olhos estreitaram levemente.
Aquilo... era interessante.
Muito interessante.
Suspirei e encostei na parede. O jogo estava avançando. E agora, eu fazia parte oficial da empresa.
Exclusiva.
Perto o bastante para ver tudo. Ouvir tudo.
E quando menos esperassem… tocar no que mais lhes dói.
Fiquei mais alguns minutos observando o corredor vazio por onde Claire e Quil desapareceram. A linguagem corporal deles dizia mais do que qualquer conversa. Um nervosismo velado, como se estivessem lidando com algo proibido.
Anotei mentalmente.
Ajeitei a bolsa no ombro e puxei o celular para checar as câmeras recém-instaladas. Tudo funcionando perfeitamente. Um sorriso discreto escapou dos meus lábios.
— Agora, Claire… me mostre o que tem guardado nesse mundinho perfeito.
Rachel reapareceu à porta, já recolhendo algumas pastas.
— Preciso ir, o dever me chama — disse, seca, como sempre.
Assenti com uma reverência respeitosa.
— Mais uma vez, obrigada pela oportunidade.
Ela não respondeu, apenas saiu com o mesmo ar de quem comanda o mundo — ou pelo menos parte dele.
Aproveitei o momento de silêncio e comecei a caminhar sozinha pelos corredores da empresa. Os painéis digitais, as portas de vidro, o cheiro de café caro e de status. Meu salto ecoava leve, discreto, calculado. Eu fingia digitar algo no celular, mas estava apenas percorrendo o lugar com os olhos atentos.
Foi então que aconteceu.
Senti um ombro bater no meu e meu corpo se desequilibrou. O celular quase escapou da minha mão. Estava prestes a cair de lado quando um braço forte envolveu minha cintura e me segurou com firmeza.
O mundo parou por meio segundo.
Levantei o olhar.
E soube exatamente quem era — antes mesmo que dissesse uma única palavra.
Aquele rosto. Aquele maxilar marcado, os olhos intensos. Eu o conhecia das fotos emolduradas nos jornais, das capas da Forbes, das pesquisas que fiz tantas vezes a ponto de memorizar cada traço.
Jacob Black.
O homem que carregava o sobrenome que destruíra meus pais… ou, ao menos, carregava esse peso como herança.
— Você está bem? — ele perguntou, a voz grave e gentil, com um leve sotaque que não pude identificar de imediato.
Assenti, ainda sendo segurada pela cintura. Meu coração disparava — e, dessa vez, não era só atuação. Era adrenalina pura.
— Sim… eu... desculpe, eu não estava olhando.
Ele me soltou devagar, como se temesse me machucar.
— Foi culpa minha — disse, simpático. — Me distraí saindo da sala.
Não consegui evitar. Sorri levemente e balancei a cabeça.
— Estamos quites, então.
Ele me observou por um segundo a mais do que o necessário. Os olhos analisando, curiosos. Me senti nua sob aquele olhar.
— Você é nova por aqui?
Fingi timidez.
— Sou a nova modelo. Acabei de ser contratada.
— Ah… então é você — ele murmurou, como se alguma ficha tivesse acabado de cair.
Antes que dissesse qualquer coisa, uma voz surgiu ao fundo:
— Jake, estão te esperando na sala do conselho.
Ele olhou na direção do som, depois voltou para mim.
— Bem-vinda à empresa, senhorita…?
— Newton — respondi, mantendo o olhar firme. — Renesmee Newton.
Ele estendeu a mão. Eu segurei. E o aperto dele foi firme, quente.
— Jacob Black — disse, como se eu não soubesse.
Soltei sua mão devagar, sentindo ainda o peso do contato. Ele me lançou um último sorriso — gentil, quase encantador — e desapareceu pelos corredores com passos decididos.
Quando fiquei sozinha, meu coração ainda batia acelerado. Encostei na parede e fechei os olhos por um segundo.
Primeiro contato.
Agora sim… o jogo começou.
Narrado por Jacob
A luz do fim da manhã atravessava as janelas amplas da minha sala, refletindo nas placas de vidro e criando formas geométricas no chão de madeira polida. Eu terminava de revisar o relatório financeiro do último trimestre quando a porta se abriu — sem aviso.
Só uma pessoa ousava entrar assim.
— Mãe? — ergui os olhos, surpreso.
Sarah Black entrou com seu vestido azul-claro impecável, os cabelos presos num coque elegante e o mesmo olhar que me atravessava desde os meus dez anos, quando tentava mentir sobre ter quebrado um vaso. Ela fechou a porta com calma e se aproximou da minha mesa.
— Jacob Ephraim Black… — começou, usando meu nome completo como só ela fazia quando estava prestes a me dar um sermão.
— Isso não parece bom — murmurei, recostando na cadeira.
Ela apoiou ambas as mãos na mesa e me olhou como se estivesse prestes a diagnosticar uma doença.
— Você e Claire vão ou não marcar esse casamento?
Soltei o ar devagar e fechei o relatório, já prevendo o rumo da conversa.
— Mãe… nós estamos focados em tantas coisas agora. A campanha da nova marca, o aniversário dela, minha expansão para o ramo de energia…
— Você sempre terá mil compromissos. E sempre terá algo acontecendo. Mas quando se ama alguém de verdade, Jacob, a gente faz o tempo acontecer.
— Eu amo a Claire — disse, firme. — Mas casamento não é só amor. É momento. E talvez ainda não seja o ideal.
Sarah me analisou por um instante. Depois suspirou e se sentou diante de mim.
— Eu só quero que você seja feliz, meu filho. E que não empurre sentimentos importantes pra depois, como seu pai fez por anos.
Aquilo me atingiu como um soco silencioso. Assenti.
— Eu sei.
Ela se levantou e veio até mim, beijando meu rosto com carinho.
— Pense nisso. Ah, e escolha um dia pra jantar conosco essa semana. Sem desculpas.
— Combinado.
Sarah deixou a sala com a mesma elegância com que chegou. Suspirei, ajeitei o paletó e peguei meu tablet. Era hora da reunião com o conselho de marketing.
Saí da sala, entrei no elevador e observei os andares passando diante dos olhos.
Minha cabeça ainda estava cheia da conversa com minha mãe.
O elevador parou no térreo executivo. Assim que as portas se abriram, caminhei apressado, digitando algo no celular, quando…
Pum.
— Droga — murmurei, sentindo algo — ou alguém — esbarrar com força no meu peito.
Instintivamente, meu braço se moveu e envolvi a cintura da pessoa antes que ela caísse. O cheiro doce de algo cítrico e amadeirado subiu até mim. E quando olhei…
Por um segundo, o tempo desacelerou.
Era uma mulher — ruiva, pele clara como porcelana e olhos que pareciam conter pequenos relâmpagos castanhos. O rosto era perfeitamente simétrico, traços firmes, mas femininos. A boca levemente entreaberta, surpresa. Seu corpo se encaixava perfeitamente em meu braço, e por um momento, eu… esqueci de soltar.
— Você está bem? — perguntei, sem tirar os olhos dela.
Ela assentiu, mas não disse nada.
E ali, por um instante estranho, silencioso e intenso…
Algo mudou.
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