O Lado Sombrio do Amor
56 Surpresa
Narrado por Renesmee
O apartamento de Jacob estava silencioso quando entrei. Clara estava sentada no sofá com uma manta sobre as pernas e um livro no colo. Jacob se levantou assim que me viu e sorriu com suavidade.
— Está pronta? — ele perguntou baixinho.
Assenti. Meu coração parecia bater alto demais para um momento tão delicado.
Sentamos ao lado da nossa filha. Jacob ao lado direito, eu à esquerda. Clara fechou o livro e nos olhou com curiosidade, como se soubesse que algo importante estava por vir.
— O que foi? Vocês estão com essa cara de suspense — disse ela, tentando quebrar o clima.
Jacob sorriu e segurou a mão dela.
— Princesa… o resultado do exame de DNA saiu hoje — disse com suavidade. — E confirmou o que a gente já imaginava.
Clara arregalou os olhos.
— Quer dizer que…?
Assenti, com os olhos marejados.
— Sim, meu amor. Eu sou sua mãe biológica.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Depois olhou para nós dois com o cenho franzido.
— E o que isso quer dizer agora?
Jacob trocou um olhar comigo e então respondeu:
— Quer dizer que você tem duas famílias. E vamos fazer isso com calma, do jeito que for melhor pra você.
— E eu agora me chamo Sophie? — perguntou ela, com os olhos atentos.
Sorri, me aproximando um pouco mais.
— Você pode se chamar como quiser. Quer continuar sendo Clara? Ou prefere Sophie?
Ela ficou pensativa por um instante, depois sorriu.
— Gosto de Clara. Mas também gostei de saber que era Sophie. Posso usar os dois? Tipo… Clara Sophie?
Jacob riu baixo e assentiu.
— Pode sim. Clara Sophie Black.
— Swan — corrigi baixinho com um sorriso brincalhão. — Ou quem sabe os dois.
Ela sorriu de volta. Depois seu semblante mudou um pouco, ficando mais sério.
— E… a minha outra mãe? A Claire?
Jacob respirou fundo e respondeu com delicadeza:
— No momento, o juiz decidiu que você precisa de tempo para conhecer melhor a Nessie. E por isso, a Claire… não poderá te visitar por enquanto.
Os olhos de Clara brilharam com algo que parecia confusão, mas também entendimento.
— Ela fez algo errado, não é?
Toquei a mão dela com carinho.
— Fez, meu amor. Mas isso não muda o que você sente. E está tudo bem se você ainda gostar dela.
— Eu gosto — sussurrou Clara. — Mas também estou feliz que você me achou.
Meus olhos encheram de lágrimas. Beijei a mãozinha dela e sorri entre a emoção.
— Eu esperei tanto por isso, Clara Sophie. E prometo que, daqui em diante, vamos escrever uma nova história… juntas.
Ela se inclinou, me abraçando com o cuidado de quem ainda se recupera.
E naquele abraço, eu soube: minha filha havia voltado para mim — no seu tempo, do seu jeito… havia voltado pra mim.
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Dois meses se passaram desde o dia em que o juiz disse em voz alta aquilo que o meu coração já sabia: Clara era Sophie. Minha filha.
As semanas seguintes foram um misto de intensidade e doçura. Sophie — ou melhor, Clara Sophie, como ela mesma escolheu se chamar — iniciou o acompanhamento fisioterapêutico para recuperar a força da perna fraturada. Estávamos juntas em todas as sessões. Às vezes ela reclamava, fazia careta nas primeiras atividades, mas aos poucos se esforçava mais, e no final de cada semana ganhava um elogio da fisioterapeuta e um chocolate meu.
Ela me deixava entrar devagar em sua rotina. Começamos com cafés da manhã ao lado de Jacob, depois pequenas caminhadas, depois lições de casa feitas na sala comigo sentada por perto. Havia dias em que ela me chamava só de Nessie. Outros, em que me abraçava e se deitava no meu colo sem dizer nada.
A adaptação dela à nova realidade era silenciosa, mas constante. Eu não exigia pressa. Eu só queria estar ali.
À noite, quando a casa de Jacob já estava silenciosa, meu telefone vibrava. Alec.
Trocávamos mensagens longas. Vozes em áudio quando a saudade apertava. Às vezes falávamos por vídeo, ele em Annecy, entre os corredores da estufa ou caminhando pela pracinha perto da floricultura. Ele sempre dizia que tudo estava bem, mas eu podia ver nos olhos dele que sentia minha ausência. Eu também sentia a dele. O amor que construímos nos últimos doze anos não sumiu só porque agora eu reencontrei minha filha. Mas ele compreendia que o que nos ligava agora era outro tipo de tempo. Um tempo de espera.
Ele me mandava flores. Rosas pequenas, violetas. Enviava cartas manuscritas. E eu respondia. Ainda o amava — mas estava tentando aprender a amar sem me dividir.
Enquanto isso, a justiça seguiu seu curso. Claire Black foi condenada a cinco anos de detenção por rapto de menor, falsificação de documentos e obstrução da verdade. O julgamento foi silencioso, sem grande cobertura midiática, por proteção a Clara. Eu não fui até o tribunal naquele dia. Jacob representou os dois.
Mesmo com tudo o que Claire fez, quando Clara soube da condenação… chorou. E eu a abracei. Porque amar alguém que erra é algo humano. Eu não podia apagar a ligação delas, mas podia garantir que, daqui pra frente, a minha filha saberia o que era viver em verdade.
E assim fomos vivendo.
A menina que nasceu como Sophie, foi criada como Clara, e agora era ambas… dormia sob o mesmo teto que eu. Comia as panquecas que eu fazia com leite demais e ria dos meus erros com a cafeteira.
Doze anos se perderam. Mas agora — agora eu tinha ela comigo.
E nunca mais me afastaria dela.
Narrado por Jacob
A sala estava em silêncio quando ela voltou do quarto. A luz suave do abajur fazia sombras dançarem nas paredes. Clara dormia. E eu... eu ainda estava tentando entender como tudo se transformou tão rápido.
Renesmee parou na porta da sala. Nossos olhos se encontraram, e ela caminhou até o sofá, sentando-se do outro lado, mantendo uma distância respeitosa. Mas a tensão era espessa como concreto entre nós.
— Ela dormiu — disse.
— Eu imaginei — murmurei. — Ela confia em você... mais do que em qualquer outra pessoa agora.
Renesmee não respondeu de imediato. Apenas abaixou os olhos, brincando com os dedos no colo.
Eu respirei fundo.
— Você está certa sobre uma coisa — falei, sem rodeios. — A gente se machucou, Nessie. Mas também se usou.
Ela ergueu os olhos devagar. Não houve surpresa no olhar dela, apenas uma dor contida.
— Eu me aproximei de você movida pelo interesse ela confessou. — Pela incerteza. Queria saber o que havia acontecido no passado e você era a ponte. Eu joguei sujo eu sei. Usei Claire.Eu não justifico os atos dela mas, eu errei com ela. Mas o que era para ser um plano bem elaborado se tornou algo maior. Eu me apaixonei por você.
— E eu — continuei — me aproximei porque... eu sabia que você ainda era uma chave poderosa. Acesso direto ao nome Cullen, à influência, uma forma de manter os Cullen sobre controle. E porque... — hesitei — parte de mim precisava preencher aquele buraco dentro de mim. Usar você foi mais fácil do que admitir que eu havia me apaixonado no primeiro momento em que te vi.
Ela assentiu, os olhos marejados.
— Então aqui estamos nós, Jacob. Dois idiotas orgulhosos. Que se amaram. Que se usaram. E que agora dividem o que há de mais puro no mundo: nossa filha.
— E mesmo assim — eu disse, me inclinando um pouco —, se eu pudesse voltar atrás, faria tudo diferente. Teria lutado por você. Não teria fugido. Teria te protegido. E você?
Ela suspirou, um nó na garganta.
— Eu teria dito a verdade antes. Não teria usado Claire como escada. Nem teria me deitado ao seu lado só para depois tirar da sua família a verdade. Eu também errei.
— Então — murmurei —, me perdoa?
Ela sorriu, pequeno e triste.
— Se você me perdoar também.
— Está perdoada — falei.
— Você também — ela disse.
Ficamos em silêncio por um instante. Um silêncio leve, diferente. Pela primeira vez em anos, sem raiva, sem máscaras, sem defesas. Só dois corações feridos tentando cicatrizar pelas mãos da única pessoa que também causou a dor.
Ela se levantou, pegou a bolsa.
— Eu preciso ir — disse.
— Claro.
Acompanhei ela até a porta. Quando abriu, ela olhou para mim uma última vez.
— Cuide dela por mim essa noite.
— Sempre — respondi.
A porta se fechou com um clique suave.
E ali, sozinho outra vez, senti que algo entre nós finalmente havia sido resolvido.
Não era um recomeço.
Mas era um alívio.
E talvez fosse o suficiente.
Narrado por Renesmee
As luzes da cidade refletiam nos vidros do carro enquanto eu dirigia pelas ruas de Nova York. O rádio sussurrava uma melodia qualquer, mas tudo o que ecoava na minha mente era a conversa com Jacob.
As palavras dele. As minhas. A verdade nua, doída e tardia.
Senti o peito apertado, como se algo em mim estivesse dividido.
Parte de mim queria dar meia-volta, correr até ele, abraçá-lo e dizer que ainda o amava.
Porque eu ainda o amava.
Não de um jeito simples. Nunca foi simples com Jacob.
Ele era uma tempestade. Imprevisível. Intenso. Capaz de destruir e salvar numa única rajada.
Mas havia Alec.
Alec, com seus olhos tranquilos, sua paciência inabalável, seu amor silencioso e constante.
Alec que segurou minha mão quando tudo ruiu.
Alec que esperou por mim durante doze longos anos.
Jacob era fogo.
Alec, brisa suave.
Estacionei o carro e respirei fundo antes de subir.
Não esperava nada além de silêncio no apartamento da minha mãe.
Mas assim que abri a porta…
— Oh, meu Deus…
O ar se encheu de perfume. Rosas. Muitas. Em tons de branco, rosa-claro e lilás.
Espalhadas pela sala, sobre a mesa, sobre o sofá, em vasos e até no chão, formando um pequeno caminho até o centro da sala.
No tapete claro, pétalas desenhavam uma única frase:
"Casa comigo, Renesmee Swan?"
Meus olhos marejaram no mesmo instante.
Alec surgiu da cozinha com um sorriso nervoso, vestido em seu habitual suéter escuro, as mãos entrelaçadas à frente. Os olhos dele, sempre tão seguros, agora tremiam de expectativa.
— Eu não consegui esperar. Achei que talvez... depois de tudo... você quisesse uma resposta diferente — disse ele.
Fiquei ali, parada, olhando para ele, para o cenário surreal ao nosso redor, e para dentro de mim mesma.
Eu hesitei.
Não por dúvida no amor que Alec sentia por mim.
Mas pela bagunça do meu coração.
E então pensei nos 12 anos.
Nas noites em claro, nos beijos doces, nos olhos dele cheios de esperança enquanto cuidava de mim quando eu mal conseguia cuidar de mim mesma.
Ele me amou até quando eu estava despedaçada.
Talvez eu não o amasse com a mesma fúria que amava Jacob.
Mas o amor não precisa ser um furacão.
Às vezes, ele é abrigo.
Dei um passo à frente. Outro. E mais um, até estar diante dele.
— Sim — murmurei.
Os olhos dele se arregalaram.
— Você… disse sim?
Assenti, sorrindo entre lágrimas.
— Eu disse sim, Alec. Eu aceito.
Ele me envolveu nos braços e girou no ar como se o chão tivesse sumido.
Eu ri, chorando.
E por um instante, senti paz.
Mesmo que parte de mim ainda ardesse por Jacob, naquele momento, eu escolhia Alec.
Escolhia a promessa que ele representava.
Escolhia a calmaria.
E torcia, com todo o coração, para não me arrepender.
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