Narrado por Jacob


Assinar aquele papel não foi difícil. Foi libertador.

O divórcio com Claire havia sido concluído naquele final de tarde. Eu encarei as últimas páginas, assinei meu nome com firmeza, e saí do escritório do advogado com um silêncio que rugia por dentro. Não sentia alívio. Não sentia vitória. Apenas… fim.

Ao retornar para casa, encontrei minha mãe sentada na poltrona da sala, um livro fechado sobre o colo e um olhar que dizia mais do que qualquer palavra.

— Mãe? — perguntei, tirando a jaqueta. — Cadê a Clara?

— Saiu com a Renesmee. Foram tomar um sorvete, acho. — respondeu ela, apoiando as mãos nos joelhos e se levantando. — Estavam animadas. Rindo juntas.

Assenti, soltando um leve suspiro. Clara estava bem… isso era o mais importante.

Mas Sarah Black não era do tipo que deixava assuntos pendentes no ar. Ela se aproximou, parou diante de mim e disse, com aquela serenidade afiada que só as mães sabem usar:

— Fiquei sabendo do divórcio. Já era hora.

— Não havia mais o que lutar, mãe. — respondi, sem encará-la diretamente. — Claire fez escolhas que eu nunca vou entender.

— Eu não estou falando da Claire, Jake. Estou falando da Renesmee.

Meu coração endureceu no mesmo instante. Fiz menção de virar as costas, mas ela segurou meu braço.

— Você ainda ama essa menina. Eu sei. Sempre soube.

— Ela ama outro. — disse num tom seco, como se engolir aquilo pudesse me convencer.

Minha mãe sorriu de canto, com pena… ou talvez com sabedoria.

— Ela também amou você. Talvez ainda ame. A diferença é que, dessa vez, você não pode correr. Não outra vez, Jacob. Há 13 anos você virou as costas. E isso custou a chance de criar sua filha com a mulher que você amava. — ela apertou meu braço. — Não erre duas vezes.

Fiquei em silêncio. Engoli em seco. O tempo às vezes é um carrasco silencioso.

— Você sabe onde encontrá-las, não sabe?

Assenti. Sabia exatamente.

Sorveteira da esquina. Clara adorava aquele lugar. E Nessie... ela sempre dizia que sorvete era o único doce que valia as calorias.

Peguei as chaves, deixei a jaqueta pendurada e saí sem olhar para trás.

A decisão estava feita.

Dessa vez, eu ia lutar por nós.


O sininho da porta tocou assim que entrei na sorveteria. O aroma de baunilha e chocolate era o mesmo de sempre, mas meus olhos só procuravam por uma coisa — ou melhor, duas.

Encontrei Renesmee sentada com Clara perto da vitrine de sorvetes. A menina ria, gesticulava enquanto falava, e Nessie a ouvia com atenção, um sorriso gentil nos lábios. Aquela cena me acertou em cheio. As duas. Juntas. Como deveriam ter sido desde o começo.

— Pai! — Clara me viu e acenou com entusiasmo. — Vem cá!

Me aproximei com um meio sorriso e puxei a cadeira entre as duas.

— Resolvi que hoje também mereço um sorvete. — disse, tentando parecer leve.

— Estamos provando todos os sabores da sorveteria — disse Clara animada. — E só paramos quando tiver certeza que o de morango é o melhor!

— Vai pegar o urso agora? — perguntei.


Assim que ela se afastou, o silêncio entre mim e Renesmee se instalou. Mas não era desconfortável. Era aquele tipo de silêncio cheio de história e sentimento.

Olhei para ela e vi um traço rosado de sorvete nos lábios. Sorri de lado.

— Você está toda suja. — disse, puxando um guardanapo da mesa.

Ela me olhou surpresa, e eu, sem pensar muito, me aproximei e toquei suavemente seu lábio inferior com o guardanapo. A pele dela estava fria do sorvete. A minha, quente de tanta memória.

Ela não recuou. Apenas me olhou.

Seus olhos prenderam os meus e o mundo parou por um instante.

Meus dedos demoraram um segundo a mais do que o necessário.

Meu coração deu um nó no peito.

Havia algo ali.

Mas antes que qualquer palavra fosse dita...

— Consegui! — Clara gritou, erguendo o ursinho no alto como um troféu.

Eu e Renesmee nos afastamos discretamente, ainda nos encarando por mais um segundo. Depois, sorri fraco.

— Vamos ver o campeão da noite. — murmurei, me levantando.

Renesmee apenas assentiu, ainda com aquele olhar distante, como se lutasse para entender o que acabara de acontecer.

E eu também.

Porque naquele simples gesto, eu tive certeza de uma coisa:

Eu nunca deixei de amar Renesmee.

E talvez… ela também não tivesse me esquecido.



Narrado por Renesmee


O tempo parecia ter desacelerado dentro daquela pequena sorveteria no coração de Manhattan. Clara, com o sorriso mais iluminado do mundo, me puxava para perto de Jacob, insistindo em mais uma selfie, agora com o ursinho rosa que havia conquistado.

— Vai, junta mais! — ela disse rindo, levantando o celular. — Quero uma com a minha família!

O clique capturou o instante. A alegria genuína no rosto de Clara. O sorriso tímido no meu. A tranquilidade de Jacob, com a mão repousando atrás das nossas costas.

Família.

Clara se afastou um pouco e apontou animada para a máquina de bichinhos.

— Ok, agora vocês dois vão disputar quem pega mais ursinhos! — disse, com os olhos brilhando. — Vai, vai! Isso vai ser épico!

— Clara… — comecei a dizer, rindo — Eu nem sei usar essa máquina. Nunca consegui pegar nada nessas garras malucas.

— Relaxa, mãe, o papai te ensina! — disse ela, naturalmente, sem pensar. Apenas falou.

Mãe.

Sem apelido. Sem rodeios. Sem esforço.

A palavra se instalou no meu peito como uma explosão silenciosa de felicidade. Meus olhos se encheram, mas pisquei para conter.

— Vai, mãe — repetiu ela. — Vamos ver do que você é capaz!

Jacob deu um passo à frente, sorrindo. — Posso ajudar?

Assenti, meio sem voz. Fui até a máquina, me posicionando diante da alavanca. Jacob veio por trás de mim, tão perto que pude sentir o calor do corpo dele. A mão dele envolveu a minha com suavidade, guiando meus dedos na alavanca.

— Você tem que sentir o tempo da garra — ele sussurrou perto do meu ouvido. — Ela é traiçoeira, mas se você for paciente… dá certo.

O mundo pareceu ficar em silêncio. Eu podia ouvir apenas o coração acelerado dentro do meu peito e o som da respiração dele. Clara torcia e dava pulinhos atrás, ansiosa.

A garra desceu… e pegou.

Um ursinho lilás surgiu na garrinha e caiu na portinha com um ploc suave.

— Conseguiu! — Clara gritou correndo para pegar o prêmio. — Mamãe e papai arrasaram!

Jacob riu atrás de mim. Eu ainda estava com a mão na alavanca. Ele ainda estava perto demais.

Eu me virei um pouco. Nossos olhos se encontraram.

— Foi trabalho em equipe — ele disse com um sorriso baixo.

Eu apenas assenti. A felicidade de Clara, o toque dele, a palavra “mamãe” ecoando… Tudo parecia se encaixar. Tudo, por um instante, era como deveria ter sido.

Clara voltou e nos entregou o ursinho.

— Esse é o símbolo da paz — disse ela com um ar dramático. — O urso da reconciliação! A família Swan-Black.

Jacob riu, mas desviou o olhar. Eu também. Porque talvez, lá no fundo, aquilo não fosse apenas brincadeira.


Voltamos para o apartamento com o fim de tarde e o sol se pondo lentamente. Clara ia no banco de trás, com o ursinho lilás nos braços, falando sobre o próximo livro que queria ler. Jacob dirigia com uma serenidade que, aos poucos, estava se tornando familiar. Quase reconfortante.

Ao chegarmos, Sarah estava na sala, como havia prometido. Ela sorriu ao ver a neta e se levantou.

— Estava só esperando vocês — disse com doçura.

Clara foi até ela, ainda mancando um pouco, mas determinada.

— Vó, diz ao vovô Billy que mandei um beijo bem grandão, tá bom?

— Claro que digo, minha flor — respondeu Sarah, abraçando a menina com carinho. — Agora vai descansar, hein?

Clara assentiu e caminhou até o quarto, sem reclamar. Vi nela uma maturidade silenciosa que me emocionava. Aquela menina estava lidando com tantas mudanças e ainda conseguia sorrir.

Sarah se despediu de Jacob com um beijo no rosto e um abraço apertado. Em seguida, virou-se para mim. Seus olhos tinham aquele brilho de quem sabe mais do que diz.

— Depois a gente conversa, querida. Cuide da minha neta — disse apenas, com um sorriso gentil.

— Sempre, Sarah — respondi com sinceridade.

Ela foi embora, e por alguns segundos o apartamento ficou mergulhado em silêncio.

Peguei o celular e abri a última conversa com Alec. Duas mensagens não lidas, ambas minhas. Nenhuma resposta.

Suspirei.

Jacob se aproximou, observando minha expressão.

— Está tudo bem? — perguntou com cautela.

Fechei o celular e dei um sorriso educado, tentando esconder a ponta de frustração que crescia.

— Tudo certo. Vou ajudar Sophie no banho, ela ainda está com dificuldades sozinha.

— Ok. — Ele passou a mão pelos cabelos, pensativo. — Pensei em pedir pizza pro jantar. Que acha?

— Acho ótimo. — Sorri de leve. — Sophie ama pizza. Vai ser um jeito bom de terminar o dia.

Assenti e caminhei até o quarto dela. Antes de abrir a porta, olhei por cima do ombro. Jacob estava na cozinha, mexendo no celular. Pela janela, as luzes de Manhattan começavam a se acender.

Havia um tipo diferente de aconchego ali. Um calor morno, silencioso. Familiar.

E, no fundo, talvez assustador.

Entrei no quarto e vi Clara sentada na cama, acariciando o ursinho lilás como se fosse um tesouro.

— Pronta para um banho de rainha, minha guerreira?

Ela sorriu e estendeu a mão pra mim.

— Pronta, mamãe.

Meu coração se apertou. E, por um instante, me perguntei como seria se Jacob , Sophie e eu fossemos uma família.


Narrado por Jacob


A pizza chegou com aquele cheiro irresistível que preencheu todo o apartamento. Eu, Nessie e Clara — ou melhor, nossa Sophie — estávamos na sala, sentados no tapete com as caixas abertas entre nós. Clara fazia questão de cortar os pedaços com uma espátula de brinquedo que veio com um dos kits de culinária que ela ganhou da Rebecca.

— Esse pedaço é seu, mamãe — disse ela, com um sorriso travesso, colocando o maior pedaço no prato de Nessie.

Nessie riu, balançando a cabeça.

— Obrigada, princesa.

Eu mordia meu pedaço, observando as duas. Havia algo mágico ali. Ver as duas juntas preenchia um vazio que eu nem sabia que ainda existia em mim.

— A gente devia se casar. — A voz de Clara cortou o ar de repente, como se estivesse dizendo algo absolutamente lógico.

Nessie se engasgou com o suco de laranja, tossindo enquanto eu tentava disfarçar a risada. Clara a olhava com os olhos arregalados, estendendo o guardanapo.

— Você tá bem? — perguntou ela.

— Tô… tô sim. — Nessie ainda limpava os cantos da boca, com as bochechas coradas. — Mas… o que você disse?

— Que vocês deviam se casar. Ia ser legal. Todo mundo junto. Uma casa só. Ia ser tipo um filme — disse ela com toda naturalidade, mastigando mais uma mordida de pizza.

— Sophie… — Nessie começou, tentando conter o sorriso. — Eu… eu vou me casar com o Alec.

— Ah, o Alec é legal — respondeu ela, dando de ombros. — Mas eu prefiro meu pai. Ele me dá chocolate escondido e sabe fazer mágica.

Eu tossi para disfarçar o riso. Nessie me lançou um olhar que dizia "isso é culpa sua", mas havia ternura nele também.

— Filha, eu e a Nessie somos grandes amigos — falei, olhando para ela com carinho. — E vamos estar sempre com você, ok? Não importa quem case com quem. O mais importante é que somos uma família.

Clara/Sophie olhou para nós dois, pensativa.

— Tá bom… mas se mudarem de ideia, posso ser dama de honra, né?

Nessie e eu nos entreolhamos e rimos ao mesmo tempo.

— Com certeza — dissemos em uníssono.

Ela sorriu satisfeita e voltou a comer, enquanto Nessie me lançou um olhar . Por um breve instante, o passado e o futuro pareciam caber ali, entre caixas de pizza e uma criança cheia de sonhos.

E eu não queria estar em nenhum outro lugar do mundo.


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Recolhi as caixas vazias da pizza e os guardanapos amassados, tentando pôr um pouco de ordem no caos gostoso que a noite tinha sido. O silêncio da sala contrastava com o riso de minutos atrás. Clara estava dormindo. O relógio marcava quase dez e, mesmo assim, eu não queria que aquela noite acabasse.

Ouvi passos atrás de mim.

— Precisa de ajuda? — a voz suave da Nessie soou perto.

Virei-me e a vi parada na entrada da cozinha, com os cabelos soltos caindo sobre os ombros e um olhar que misturava cansaço com algo mais... indecifrável.

— Tudo sob controle por aqui — respondi, tentando soar leve, mas meu coração acelerava. — Pode deixar que eu termino.

Ela assentiu, mas permaneceu ali. Seus olhos procuraram os meus.

— Sophie dormiu — disse em voz baixa. — Eu… acho que já vou.

Foi como se algo dentro de mim se negasse a deixar aquele momento acabar assim. Soltei a caixa de pizza vazia sobre o balcão e me aproximei.

— Nessie…

Ela me olhou.

— Você tem certeza que quer se casar com o Alec?

Por um segundo, ela ficou imóvel. O ar entre nós pareceu suspenso. Os olhos dela buscaram os meus, como se lutassem com algo dentro dela mesma.

— Jake… — murmurou.

— Eu não estou perguntando por orgulho ou por ego — falei, mais baixo, mais perto. — Eu só preciso saber se… se esse é mesmo o caminho que seu coração quer seguir. Porque o meu… bom, o meu coração parou lá atrás, quando você foi embora. E agora que você voltou, cada dia tem sido um teste de resistência pra não te tocar, não te dizer tudo o que ainda sinto.

Ela fechou os olhos por um momento, como se aquelas palavras fossem demais. Quando abriu, havia uma lágrima presa nas pestanas.

— por favor, Jake — sussurrou. — Eu… disse sim porque achei que era o certo. Alec me esperou por doze anos, me apoiou quando ninguém mais estava lá. Eu o amo. Mas você…

Ela não terminou.

Eu também não forcei. Porque, às vezes, o silêncio diz tudo o que a boca ainda não sabe como falar.

Dei um passo atrás, respirando fundo.

— Então vá. Vai com calma. Pensa. Eu não quero confundir sua cabeça, Nessie. Mas precisava ser honesto.

Ela assentiu devagar. Depois caminhou até a porta, sem dizer mais nada. E eu fiquei ali, com o gosto do quase na garganta... e a esperança acesa no peito.



Narrado por Renesmee


Cheguei em casa com a mente a mil, tentando colocar ordem no caos do que senti naquela despedida silenciosa com Jacob. Mas antes que pudesse respirar fundo, encontrei Alec sentado no sofá da sala, ainda vestido com a mesma camisa de mais cedo, olhando fixamente para a tela desligada da televisão.

— Alec? — chamei suavemente. — Por que não respondeu minhas mensagens? E nem foi à sorveteria...

Ele ergueu os olhos e suspirou.

— Eu fui. Mas você já tinha saído com a Sophie.

Mordi o lábio. Ele esteve lá... e eu nem percebi.

Aproximei-me e, num gesto que antes seria automático, encostei os lábios nos dele em um beijo rápido.

— Que pena — murmurei.

Ele franziu os lábios, como se estudasse meu rosto. Depois, sem avisar, sorriu.

— Estive pensando… o que acha de marcarmos o casamento para daqui a um mês?

— Um… mês? — repeti, sentindo o coração dar um tropeço no peito.

Ele assentiu, animado.

— Já esperamos tempo demais, não acha? Quero começar nossa vida juntos de verdade, Nessie. Você, eu… e agora a Sophie.

Tentei sorrir. Quis sorrir. Quis corresponder ao brilho nos olhos dele. Mas um nó se formou na minha garganta, um aperto no peito que me impediu de dizer qualquer coisa por alguns segundos.

— Sim… claro. Um mês.

Ele se levantou e me envolveu num abraço apertado, daqueles que deviam aquecer o coração, mas em mim só causaram mais confusão. Minhas mãos descansaram nas costas dele, mas meu olhar estava perdido, fixo na parede.

A pergunta ecoava dentro de mim: Estou mesmo pronta para isso?

E, pela primeira vez, temi a resposta.