O Lado Sombrio do Amor
39 Sophie
Narrado por Renesmee
O céu de Annecy estava mais azul naquele dia, como se o universo celebrasse o nosso retorno.
Segurei Sophie com todo o cuidado nos braços, seu rostinho sereno repousando sobre meu peito. Cada passo dentro de casa parecia mais leve, mais cheio de significado. Alec vinha ao meu lado, sua mão ocupada com a bolsa da maternidade e um olhar protetor que eu já reconhecia como lar.
Assim que cruzei a porta, uma explosão suave de vozes e sorrisos me envolveu.
— Surpresa! — disse Renee, abrindo os braços com os olhos marejados.
Phil estava ao lado dela, sorrindo como um avô orgulhoso. Eloise e Lina estavam encostadas perto da estante, segurando flores e uma cesta de frutas. A casa cheirava a lavanda e bolo recém-assado.
— Não. Acredito ... — murmurei, sorrindo com os olhos marejados. — Eu nem sei o que dizer.
— Diga que posso segurá-la, pelo amor de Deus! — disse Renee, caminhando em minha direção com os braços já estendidos.
Eu ri e assenti, com todo o cuidado entregando minha filha à bisavó. Renee a recebeu como se segurasse um pedaço do céu, seus olhos se encheram de lágrimas assim que olhou para Sophie.
— Ela é a sua cara, Nessie... quando bebê. Igualzinha. — murmurou, embalada pela emoção. — Mas o tom do cabelo... — ela deslizou os dedos pelas finas mechas castanhas-avermelhadas — ...puxou ao pai, definitivamente.
Senti um leve nó se formar em minha garganta. Por um instante, Alec olhou para mim e, em silêncio, passou um braço pela minha cintura, me puxando gentilmente contra ele. Respirei fundo. Aquela era minha nova vida — e ele fazia parte dela.
Percebi que Renee me observava discretamente, como se buscasse respostas que eu ainda não podia dar.
Phil se aproximou de Alec, percebendo o clima tenso no ar, e mudou de assunto como só ele sabia fazer:
— Então, doutor Alec, ouvi dizer que você foi promovido no hospital. Vai abandonar minha neta agora que é um homem importante? — brincou, arrancando risos de Eloise e Lina.
— Abandonar? — Alec sorriu, ainda com o braço firme em volta de mim. — Pelo contrário. Agora vou ter ainda mais flexibilidade para ajudar Nessie com a floricultura... e com Sophie, claro.
— Assim espero. — respondeu Phil, piscando para mim de maneira cúmplice.
Olhei para minha filha nos braços de Renee, rodeada de carinho. Por um instante, esqueci das sombras do passado. Por um instante... eu me permiti sentir paz.
A noite havia caído sobre Annecy com uma brisa suave entrando pelas janelas abertas da sala. O cheiro de camomila vinha da cozinha, onde Eloise deixara uma xícara pronta para mim antes de ir embora com Lina . Renéee Phil haviam ido para o hotel pois queriam me deixar a vontade. A casa estava em silêncio… exceto por um som insistente que apertava meu peito: o choro de Sophie.
— Já tentei amamentar, já troquei a fralda, cantei três músicas diferentes… — eu disse, quase pedindo socorro.
Alec apareceu na porta do quarto com os cabelos bagunçados e uma expressão serena. Estava vestindo uma camiseta cinza e carregava no rosto aquele olhar que sempre me acalmava, mesmo nos momentos mais caóticos.
— Posso tentar? — perguntou suavemente.
Assenti, quase implorando.
Ele pegou Sophie com delicadeza, como se ela fosse de cristal. Com movimentos calmos, apoiou-a de bruços no braço e começou a massagear suavemente suas costas com os dedos.
— Bebês recém-nascidos costumam ter gases. A digestão ainda é imatura, por isso esse desconforto. Nada de errado, Ness. Ela só precisa de um pouco de ajuda... e carinho.
— Você fala como se tivesse feito isso mil vezes. — sorri, sentando-me na beirada da cama e observando-o.
— Residência em neonatologia. Não substitui ser pai, mas ajuda. — ele sorriu de volta.
Sophie começou a acalmar. Os olhinhos, ainda lacrimejados, foram se fechando pouco a pouco.
Observei Alec a embalá-la com tanto cuidado. O modo como ele inclinava o rosto para sussurrar palavras em francês que eu mal compreendia, o jeito protetor com que a mantinha junto ao peito, como se dissesse ao mundo: "ninguém toca nela."
Foi um momento bonito.
Mas ali, naquela mesma cena que aquecia meu coração… algo se fez claro para mim.
Eu não o amava.
Alec era segurança, era apoio, era afeto genuíno. Mas meu coração… meu coração ainda guardava Jacob em alguma parte. Não como antes. Não com dor. Mas com leveza. Como quem guarda uma música antiga que ainda faz sorrir quando toca no rádio.
— Obrigada, Alec. De verdade. — falei baixinho, me aproximando.
Ele olhou para mim e assentiu, encostando o queixo na cabecinha de Sophie já adormecida.
— Você é forte, Nessie. E vai ser uma mãe maravilhosa. — ele disse, sincero.
Sorri. Não precisava de grandes juras nem promessas. Só de momentos como aquele — verdadeiros, tranquilos e cheios de amor, mesmo que não fosse o amor romântico.
Olhei para minha filha.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, senti que estávamos prontas.
Para começar.
Alec ainda estava sentado comigo no sofá quando o celular dele tocou. A expressão dele se transformou no mesmo instante. Era o hospital.
— É minha paciente. — disse ele, se levantando. — Ela entrou em trabalho de parto prematuro, não posso ignorar.
Assenti, embora meu coração tenha apertado. Sophie tinha finalmente dormido. Eu tinha alguém ao meu lado. E, mesmo assim, uma pontinha de vazio se instalava sempre que ele precisava ir.
— Vai, Alec. Não se preocupe comigo. Estaremos bem.
Ele caminhou até mim e me deu um beijo carinhoso na testa. Longo, caloroso, protetor.
— Te mando mensagem assim que tudo se estabilizar. Prometo.
Assenti com um sorriso cansado. O observei atravessar a porta, pegar o carro e partir. O som dos pneus sumindo pela rua estreita era sempre mais alto nas noites silenciosas de Annecy.
Caminhei pela casa em silêncio. Tudo estava calmo demais. Cheguei até o quarto de Sophie e fiquei observando minha filha dormir. Ela era perfeita. Respirava com leveza, os punhos fechadinhos próximos ao rosto. Suspirei. Fechei as janelas e deixei a porta entreaberta, só o suficiente para ouvir se ela acordasse.
Fui para meu quarto, me joguei sobre a cama e fechei os olhos. A maternidade estava sendo solitária… mas ela era minha.
Adormeci sem perceber. Talvez por minutos. Talvez uma hora.
Mas então…
Um barulho. Seco. Um estalo metálico. Aquele som que seu instinto reconhece como errado antes mesmo da razão.
Logo depois, o choro da Sophie.
Levantei como um raio, os pés ainda trêmulos no chão frio. Corri pelo corredor e empurrei a porta do quarto. O berço estava vazio.
Minha filha não estava lá.
— Sophie?! — gritei, os olhos arregalados, o coração socando meu peito.
Revirei o quarto, como se ela pudesse ter rolado para algum canto. Como se isso fosse sequer possível.
— SOPHIE!
Corri para a sala. O frio da noite entrou pelas janelas que eu tinha certeza de ter fechado.
Foi quando ouvi: o som de pneus derrapando na rua.
Corri até a porta, descalça, e desci os degraus sem pensar. Meu olhar encontrou o carro sumindo no fim da estrada.
— DEVOLVE MINHA FILHA!!! — gritei, com tudo que havia em mim.
A resposta foi o silêncio.
Aquele tipo de silêncio que grita mais alto que qualquer sirene. Que rasga. Que deixa o coração em frangalhos.
Caí de joelhos na grama. A noite me envolveu com seu manto gélido e cruel.
Minha filha tinha sido levada.
E eu não fazia ideia…
de por quem.
Nem por quê.
Mas uma coisa era certa:
Eu ia encontrá-la.
Nem que isso me custasse tudo.
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