O Lado Sombrio do Amor
40 12 anos
Narrado por Jacob
A casa em Sutton Place era ampla, fria e sofisticada. Uma daquelas mansões envidraçadas com vista privilegiada para o East River — tudo impecável, tudo calculado. Nunca me senti à vontade ali. Talvez porque tudo ali me lembrasse que aquele lugar era o mundo de Claire, não o meu.
Assim que entrei, meus olhos encontraram o melhor pedaço daquela história confusa: Clara.
Ela correu até mim, com os cabelos presos em tranças e um vestido azul-claro rodado, sorrindo como se nada mais importasse.
— Pensei que não ia chegar a tempo, pai!
Me abaixei e a abracei forte, sentindo seu perfume de lavanda infantil. Meu coração apertou. Apesar de tudo, ela era minha filha. Ela era… meu elo com uma verdade que eu ainda não conhecia por completo.
— Eu nunca perderia o seu aniversário, garotinha. Nunca. — sorri, entregando o presente que escondia atrás das costas. — Aqui está. Espero que ainda seja o que você quer.
Ela rasgou o embrulho com pressa e, ao ver a caixa do celular, seus olhos brilharam.
— É o novo modelo! Ai, meu Deus, obrigada! — Ela pulou no meu pescoço. — Você é o melhor pai do mundo!
Me senti, por um momento, como se não tivesse falhado tanto. Como se eu realmente pudesse ser esse pai. Esse homem.
Mas como sempre… a paz durou pouco.
— Se tivesse chegado na hora, teria dado o presente antes de mim. — disse Claire, se aproximando com sua taça de espumante, o sorriso sarcástico de sempre.
Respirei fundo. Tentei manter a calma, mas Clara foi mais rápida.
— Mãe! Pai! Por favor, não briguem na minha festa de 12 anos. — Ela cruzou os braços, o olhar firme.
Nos olhamos. Claire desviou primeiro, rindo sem graça.
— Tudo bem, querida. Só estávamos conversando.
— Conversando do jeito de vocês. — murmurou Clara, pegando o celular e se afastando para mostrar às amigas.
Fiquei ali, parado. Observando minha filha se misturar entre os convidados, comendo brigadeiro, testando filtros no novo celular, feliz por um instante. Como qualquer menina de 12 anos deveria estar.
A música ambiente preenchia os espaços da casa enquanto garçons circulavam com bandejas de canapés. O salão principal estava decorado com tons pastéis e balões dourados — tudo cuidadosamente pensado por Claire para a festa de 12 anos de Clara.
Depois de ver minha filha feliz com o presente, me afastei um pouco, buscando algum ar. Foi então que avistei Bonnie, ao lado de sua esposa, Elaine, uma mulher elegante, de cabelos grisalhos presos em um coque impecável, e sorriso sempre amistoso.
— Jacob, precisamos conversar sobre a nova coleção da Black Motors. — disse Bonnie, com um sorriso contido.
— Já estou com os primeiros protótipos prontos. Design renovado, motor híbrido, e uma pegada mais esportiva. — respondi, tentando afastar o incômodo que ainda residia em meu peito.
— Meu irmão vai enlouquecer com isso. — disse Elaine, animada. — E o Logan? Vai manter a parceria?
— Não sei. Ainda estou avaliando. Tem coisas que não dependem só de tecnologia... — comentei, olhando de relance para Claire do outro lado do salão, rindo com algumas socialites.
Antes que Bonnie pudesse responder, uma jovem de vestido vermelho, belíssima e segura de si, aproximou-se sorrindo.
— Jacob, essa é a Maëlle, amiga da minha esposa. Está passando uns meses aqui em Nova York. — disse Bonnie, fazendo as apresentações com aquele brilho suspeito no olhar.
— É um prazer. Já ouvi muito sobre você. — disse Maëlle, estendendo a mão com firmeza e um sorriso confiante. Tinha um sotaque francês leve e olhos cor de âmbar.
— Espero que coisas boas. — brinquei, apertando sua mão. O olhar dela demorou um segundo além do normal. Eu retribui a intensidade dela.
— Mais do que boas. O CEO mais jovem e promissor da indústria automotiva, e ainda mais charmoso pessoalmente. — disse, sem o menor pudor.
Bonnie e Elaine riram. Bonnie me deu um leve tapinha no ombro.
— Acho que vocês têm muito a conversar. — disse ele, e os dois se afastaram, me deixando a sós com Maëlle.
Ela segurava uma taça de vinho branco e me olhava como se analisasse cada detalhe.
— Você parece exausto. A vida de CEO está cobrando o preço? — perguntou ela, se inclinando levemente na direção do meu ombro.
— A vida como um todo tem sido intensa ultimamente. — respondi, a encarando e tomando um gole do meu espumante.
— Talvez você precise de distrações. — ela sugeriu, sorrindo sugestivamente. — Eu sou boa nisso.
Antes que eu pudesse responder, Claire apareceu. Rápida. Precisa. Como sempre.
Ela deslizou entre nós, posicionando-se ao meu lado com um sorriso doce — mas os olhos afiados como lâminas.
— Ah, Maëlle. Vejo que já conheceu meu marido. — disse, pousando a mão sobre meu ombro, fazendo questão de enfatizar cada sílaba.
Maëlle deu um leve sorriso, mas seu olhar ficou mais reservado.
— Claro. Estávamos apenas falando sobre negócios. — respondeu.
— É sempre bom esclarecer. — Claire completou, mantendo o sorriso, mas com o tom cortante.
Fiquei em silêncio. Sentia a tensão crescer ao meu redor como cordas apertando o peito. Claire fazia questão de marcar território, mas o pior era saber que eu já não me sentia parte daquele território há muito tempo.
Maëlle se despediu com elegância e se afastou. Claire virou-se para mim e disse entre os dentes:
— Você poderia ao menos disfarçar. Estamos na festa da sua filha.
— Só fui cordial — rebati com um sorriso.
Caminhei atrás de Claire pelo corredor lateral da casa, onde ela parou subitamente, cruzando os braços.
— Claire, por favor. — falei baixo, tentando manter a calma. — Não comece. Estamos cercados de crianças.
Ela se virou devagar, com um olhar carregado de sarcasmo.
— Ah, desculpe, está certo. Eu deveria agradecer por você ter a decência de me trair fora da presença da nossa filha.
— Eu não te trai, Claire. — afirmei firme, tentando não me deixar levar pela raiva. — Mas você sempre foi ótima em criar histórias quando está com medo de perder o controle.
— Controle? — ela riu, um som frio. — A única coisa que perdi foi a paciência de fingir que você ainda estava aqui. Você vive com os olhos no passado, Jacob. E Clara vê isso.
Antes que eu pudesse responder, uma terceira voz se intrometeu.
— Chega, vocês dois. — era Rachel, minha irmã, que se aproximava com o semblante severo. — Se não querem resolver como adultos, ao menos tenham a decência de fingir na frente da Clara.
Claire bufou, mas Rachel continuou.
— E vocês acham que ela não percebe? A Clara é esperta. Ela pergunta. Ela nota quando você, Jacob, está ausente mesmo presente. E você, Claire, vive despejando indiretas na frente dela como se a menina fosse cega.
Eu fechei os olhos por um instante. Aquilo pesava mais do que eu queria admitir.
— Ela merece mais. — Rachel concluiu, mais branda agora. — Vocês podem não se amar mais. Podem não querer mais nada um com o outro. Mas, por tudo que essa menina é, tentem ao menos respeitá-la.
Claire cruzou os braços, desviando o olhar. Eu respirei fundo e assenti.
— Rachel tem razão. — disse, olhando para Claire. — Podemos ter errado em tudo, Claire… menos com a Clara. E é por ela que eu vou manter a compostura. Só peço que você faça o mesmo.
Ela não respondeu de imediato. Apenas acenou levemente com a cabeça e se afastou, voltando para o salão.
Rachel me olhou de lado.
— Você não ama Claire e mantém esse casamento pela Clara . Mas talvez esteja na hora de acabar com esse teatro.
Olhei para o salão, onde Clara sorria com as amigas.
— Essa menina é tudo pra mim.
Rachel assentiu, compreensiva.
— Então encontre uma forma de consertar isso. Porque o tempo… ele cobra caro.
Narrado por Renesmee
O som da chuva fina batendo contra a vidraça era quase hipnótico. No chão do quarto, uma mala semiaberta. Algumas roupas dobradas, o passaporte e papéis organizados por ordem de chegada. Do outro lado da cama, ele.
Sentei na beirada da cama com o coração apertado e os olhos fixos naquele minúsculo sapatinho rosa. Perto demais da mala para não doer. Longe demais da verdade para não machucar.
— Doze anos… — sussurrei, apertando o sapatinho entre os dedos. — E ainda sinto como se tivesse sido ontem.
Alec estava em pé perto da porta, observando em silêncio. Ele respeitava meus silêncios como ninguém. Sabia que, quando se tratava de Sophie, palavras eram pouco.
— Nova York… — ele quebrou o silêncio com a voz baixa. — Tem certeza que quer voltar agora?
Assenti sem hesitar.
— Minha mãe vai ser libertada. Eu prometi que estaria lá. Não podia faltar.
Ele caminhou até mim e se agachou à minha frente. Suas mãos tomaram as minhas com cuidado.
— Eu queria poder ir com você. Mas o hospital está sobrecarregado, e tenho cirurgias marcadas.
— Eu entendo. — forcei um sorriso. — Além do mais, não pretendo ficar por muito tempo. Só o suficiente pra trazer minha mãe de volta… e talvez passar pelos velhos fantasmas.
Alec assentiu, os olhos sempre atentos aos meus.
— Renesmee… você vai encontrar a Sophie. Nós vamos.
Fechei os olhos, deixando uma lágrima escorrer sem resistência.
— Acha mesmo?
Ele me puxou para um abraço apertado. Quente. Seguro.
— Eu acredito em você. E sei que ela sente isso, onde quer que esteja.
Abracei-o de volta com força. Alec não era o pai da minha filha. Mas nesses doze anos, foi ele quem segurou minha mão quando meu mundo ruía. E agora, quando tudo estava prestes a mudar de novo, era ele quem me lembrava que eu ainda podia lutar.
— Promete que cuida da floricultura enquanto eu estiver fora? — murmurei no ombro dele, tentando aliviar o peso do momento.
— Prometo que não vou deixar a Eloise gastar todo o estoque de lavandas tentando criar novos perfumes. — ele riu leve, e pela primeira vez naquela tarde, eu sorri de verdade.
Abracei o sapatinho de novo e, com um último olhar para o quarto onde vivi tantas saudades, fechei a mala.
Era hora de voltar.
De enfrentar o passado.
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