O Lado Sombrio do Amor
26 Semente da dúvida
Narrado por Renesmee
As portas da sala de marketing se abriram e eu saí com o sorriso vitorioso de quem acabara de ouvir os melhores números dos últimos meses. Rachel me acompanhava, empolgada, segurando alguns gráficos nas mãos.
— Você virou um fenômeno, Nessie! — ela disse. — As vendas da nova linha explodiram. É oficial: você é o rosto da Black's Enterprises.
— Obrigada, Rachel — respondi com um sorriso que misturava gratidão e estratégia. — Mas isso é só o começo.
Nos despedimos no corredor e eu segui em direção ao elevador, pegando o celular para ver se havia alguma mensagem de Jacob. Ele havia prometido almoçarmos juntos, mas nenhuma surpresa quando o nome dele apareceu na tela.
Jacob: "Amor, não vou conseguir ir. A reunião com os investidores foi antecipada. Te ligo depois. Beijos."
Suspirei. Parte de mim já esperava. Mas a outra parte — a que estava começando a sentir algo real por ele — se entristeceu.
Saí do edifício com os óculos de sol no rosto e a bolsa no ombro, indo em direção ao meu carro no estacionamento. O clima de vitória ainda me cercava… até que ouvi uma voz rouca e carregada de rancor.
— Acha que venceu, né?
Parei. Virei devagar.
Quil.
Estava escorado no capô do meu carro, de braços cruzados, os olhos brilhando de raiva. Seu maxilar tenso denunciava que não era uma visita amigável.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, tentando manter o tom firme.
Ele deu um passo na minha direção.
— Vim te dar os parabéns… por destruir a vida da Claire. — Ele cuspiu as palavras com nojo. — E agora? Vai fazer o mesmo com o Jacob?
Engoli em seco, mantendo a postura. Estávamos em local público. Câmeras, segurança… eu não podia parecer abalada.
— Eu não destruí ninguém, Quil. Claire fez suas escolhas. Eu apenas segui com a minha vida.
Ele deu uma risada amarga.
— Você armou tudo. A câmera, o vídeo, a maldita exposição. Você manipulou a Claire, me envolveu nessa história… e agora tá aí, sorrindo pras câmeras como se fosse uma santa.
— Abaixe o tom — pedi, olhando discretamente ao redor.
— Não! — ele explodiu. — Você me usou. Usou a Claire. E está usando o Jacob. Mas isso vai acabar, Renesmee. Eu vou contar tudo. E quando ele souber quem você é de verdade… vai te odiar.
Fiquei em silêncio por um segundo, absorvendo a ameaça. Depois dei um passo à frente, com um sorriso calmo nos lábios.
— Faça isso, Quil. Conte tudo. Mas tenha certeza de que, quando fizer, vai cair junto. Porque diferente da Claire, você não tem ninguém pra limpar sua imagem.
Quil me encarou, o peito subindo e descendo com raiva.
— Você é pior do que eu imaginava.
— E você é mais previsível do que eu pensei.
Virei as costas e abri a porta do carro com elegância. Antes de entrar, olhei por cima do ombro.
— Um conselho, Quil: suma antes que seja você o próximo a aparecer no telão.
Entrei no carro, liguei o motor e respirei fundo. O coração acelerado denunciava o quanto aquela conversa havia me afetado. Mas por fora… eu era puro controle.
Ele sabia demais. E isso significava que meus próximos passos teriam que ser ainda mais calculados.
O jogo estava longe de acabar.
Meus dedos ainda tremiam no volante, mesmo minutos após Quil desaparecer no retrovisor. O que ele sabia? O que ele achava que sabia? E, principalmente... o quanto Claire também sabia?
Se ele desconfiava, Claire com certeza também estava começando a ligar os pontos.
Suspirei fundo dentro do carro, ainda parada na rua em frente ao meu prédio. Os vidros fechados abafavam o barulho de Manhattan, mas não silenciavam o redemoinho dentro da minha cabeça. Meu plano estava em jogo. E tudo dependia de eu seguir um passo à frente.
Desliguei o motor, peguei minha bolsa e saí do carro tentando recompor meu semblante. Mal havia fechado a porta quando escutei uma voz familiar, cortante como navalha:
— Que bom que chegou, Renesmee.
Meus olhos se arregalaram.
— Vó?
Ela estava ali. De braços cruzados, os olhos semicerrados de julgamento. Usava um blazer escuro, os cabelos presos em um coque elegante e batom vermelho — o tipo de roupa que só usava quando estava pronta para o ataque.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei, tentando soar surpresa, mas a inquietação já tomava meu estômago.
Ela ignorou minha pergunta.
— A pergunta, querida... é o que você está fazendo com um Black.
Engoli seco e ri, nervosa.
— Uau… você veio até aqui por causa de uma foto?
Ela tirou o celular da bolsa e virou a tela para mim. Lá estava: a imagem de Jacob e eu nos beijando na porta do prédio, estampada em um site de fofoca.
Tentei parecer despreocupada.
— Achei que gostaria de saber que estou me saindo bem. Estou com o nome da empresa em alta, destaque na imprensa… e estou com alguém que me trata bem. O que há de tão errado nisso?
Renée demorou alguns segundos demais para responder. Seus lábios se contraíram num esforço para manter o controle.
— É… só que... os Black têm uma reputação. São ambiciosos, calculistas. Você é jovem demais para se envolver com esse tipo de gente.
Inclinei a cabeça, observando seu desconforto.
— Engraçado… parece que tem algo mais por trás dessa sua preocupação. Está me escondendo alguma coisa, vó?
— Claro que não! — respondeu rápido demais. — Só não quero te ver magoada. Jacob é… bonito, bem-sucedido, mas ele tem um passado. Homens como ele não são fáceis de entender.
Fiquei em silêncio. Se eu não soubesse o que sei, talvez acreditasse. Mas aquele desespero nos olhos dela não era sobre meu coração partido.
Era medo.
— Não se preocupe — . com doçura. — Eu sei o que estou fazendo.
Ela assentiu, tensa. Seus olhos correram pelo saguão como se fugissem dos meus.
— Sei que estou sendo evasiva, mas você é minha neta a continuação da minha filha e me preocupo.
— Não é invasiva. É sempre bom te ver.
Ela forçou um sorriso e, após um abraço rápido, se despediu.
Assim que a porta do elevador se fechou atrás dela, minha expressão mudou. A máscara caiu.
Ela sabia. Ou ao menos, suspeitava.
Mas agora eu também sabia uma coisa: Jacob Black incomodava Renée mais do que deveria.
E isso era mais uma pista valiosa para mim.
Fechei a porta do apartamento com mais força do que gostaria. Encostei as costas nela e fechei os olhos por um instante.
A conversa com Quil ainda ecoava como um alerta, um aviso de que meu jogo estava ficando perigoso demais para continuar andando no limite. E a presença inesperada de Renée... aquilo, sim, me perturbava.
Ela tentou esconder, mas estava claro que o nome Black mexia com ela mais do que qualquer outro. Seu nervosismo, as palavras atravessadas, a preocupação disfarçada... havia medo. Medo de que eu descobrisse algo. E se ela tinha medo, eu estava no caminho certo.
Respirei fundo. Precisava me concentrar. A dúvida de Quil, a reação de Renée… não podiam me distrair.
Caminhei até a gaveta escondida atrás dos livros da estante. Era discreta, embutida no móvel como uma caixa secreta. Girei a trava e a abri.
Ali estavam os pequenos instrumentos que me mantinham no controle: um pendrive criptografado, uma caneta espiã, e a mais nova aquisição — uma escuta altamente sensível, conectada diretamente ao meu notebook por um aplicativo anônimo.
Peguei a escuta delicadamente e a observei contra a luz. Um sorriso surgiu em meus lábios.
— Hora de fazer uma visita ao meu namorado — sussurrei.
Porque se eu queria chegar à verdade, precisava começar com aquele que andava mais calado desde que voltei a Nova York: Bonnie Black.
Ele havia desaparecido por quase vinte anos e agora, como um fantasma, retornava cheio de verdades pela metade e memórias mal contadas. Por que sumiu? O que esconde? E por que apareceu justamente quando o nome Cullen voltou à superfície?
Guardei a escuta no bolso do casaco e prendi os cabelos. Me olhei no espelho. Nada como a namorada perfeita: doce, prestativa… e discretamente investigativa.
Peguei a bolsa, respirei fundo e deixei o apartamento.
Se Bonnie Black sabia de algo sobre a morte dos meus pais… ele ia me contar.
Mesmo que não soubesse disso ainda.
Narrado por Jacob
A reunião terminou mais tarde do que eu esperava. Meu corpo pedia descanso, mas minha mente já corria para a próxima pauta. A exposição havia sido um sucesso, os números estavam em ascensão, e mesmo com a imprensa ainda sedenta por escândalos, tudo parecia estar se estabilizando.
Caminhei pelo corredor da sede da Black’s Enterprises, ajustando a manga da camisa. Ao me aproximar da minha sala, a voz da secretária me interceptou com a delicadeza de quem sabe que aquilo não me agradaria:
— Senhor Black... a senhorita Yong está à sua espera.
Fechei os olhos por um segundo, soltando um suspiro baixo.
Claro. Claire.
— Pode deixá-la entrar — respondi, com a voz firme, apesar do incômodo crescendo dentro de mim.
Entrei na sala e lá estava ela. Elegante, como sempre soube ser, mas com aquele brilho nos olhos que misturava orgulho ferido com raiva mal contida.
— A gente precisa conversar — ela disse, sem rodeios.
Cruzei os braços e encostei-me à lateral da mesa. Ela se aproximou, olhos fixos nos meus, como se procurasse por alguma brecha.
— Jacob... a Renesmee armou pra mim.
Dei uma risada curta, sem humor.
— Claire, não começa.
— Eu tô falando sério! Foi ela! Ela instalou aquelas câmeras, ela preparou tudo! — insistiu.
— E mesmo se ela tivesse feito isso... — interrompi, minha voz ganhando peso —, ela não apontou uma arma na sua cabeça e te obrigou a dormir com Quil Alteara, Claire.
Ela empalideceu, mas não recuou.
— Eu estava fragilizada. Confusa. Achava que você estava se afastando... e o Quil... ele sempre esteve ali...
— Isso não é justificativa. Você me traiu. E não foi uma vez só. Foram semanas, talvez meses. E agora quer culpar a Renesmee?
— Ela é sua amiga, Jacob! Amiga da noiva. Quem mais teria acesso àquele tipo de coisa? — Claire disparou, com os olhos marejados. — Eu vou provar! Eu vou provar que foi ela!
Ficamos nos encarando por um tempo. Eu queria dizer que não acreditava nela. Queria dizer que não havia chance de Renesmee ser tão calculista. Mas parte de mim... parte de mim já começava a se perguntar.
Claire virou as costas, com os olhos vermelhos, e saiu da sala batendo a porta com força.
Fiquei sozinho, o silêncio me envolvendo.
Encostei as mãos na mesa, firme.
Não... Renesmee não seria capaz daquilo. Seria?
Mas se Claire estava certa... o que mais Renesmee teria escondido de mim?
Fechei os olhos por um instante. Eu odiava dúvidas.
E pior ainda era duvidar... de alguém que eu começava a amar.
A porta da frente se abriu com um clique suave, e o calor do fim da tarde me envolveu ao entrar. Não esperava ninguém além de Billy... mas o som de risadas baixas me pegou desprevenido.
— Jake! — a voz de Renesmee ecoou pela sala antes que eu pudesse sequer fechar a porta.
Ela estava sentada no sofá, rindo de algo que Billy acabara de dizer. Levantou-se com leveza e caminhou até mim, me abraçando e encostando os lábios nos meus. O beijo dela sempre parecia trazer um mundo novo. Mas naquele instante, minha mente estava ocupada demais para me perder nele.
— Estávamos falando de você, filho — Billy disse com um sorriso satisfeito. — Essa garota é especial. Me lembra a sua mãe, quando quer conquistar alguma coisa.
Renesmee sorriu com gentileza, mas seus olhos procuraram os meus. Ela percebeu. Eu estava diferente. Seco. Tenso.
— Está tudo bem? — ela perguntou, ainda com um sorriso no rosto, mas a ponta de preocupação visível.
— A gente precisa conversar. — Minha voz saiu firme, mas sem agressividade.
Segurei sua mão e a conduzi até meu quarto, sentindo seu corpo hesitar brevemente antes de acompanhar. Fechei a porta atrás de nós e respirei fundo.
— Jake...? — ela disse baixinho, agora séria.
Virei-me para encará-la, sem rodeios.
— O que você tem a ver com o vídeo do aniversário da Claire?
O silêncio caiu como um balde de água fria.
Os olhos dela se arregalaram. Era um olhar ferido, confuso, como se minhas palavras tivessem sido um tapa no rosto.
— Como assim? — ela murmurou. — Você acha que... que eu fiz aquilo?
— Claire esteve hoje no meu escritório. Disse que foi você quem armou tudo. Disse que só você teria acesso àquelas imagens.
Ela desviou o olhar por um segundo, como se tentasse processar tudo. Depois, respirou fundo e ergueu os olhos marejados até os meus.
— Jacob... você realmente acredita que eu seria capaz disso?
A tristeza na voz dela me atingiu. Aquela vulnerabilidade... era real?
— Eu... — comecei, mas minha voz falhou.
— Claire era minha amiga. Eu... — ela passou a mão nos cabelos, nervosa. — Você tem ideia de como me senti quando vi aquele vídeo? Eu tentei ajudar, tentei confortá-la. E agora... agora ela quer me culpar?
Ela se aproximou de mim, a voz embargada.
— Eu nunca faria algo assim com ninguém. Muito menos com você.
A dúvida se apertou no meu peito. Tudo nela parecia verdadeiro. Mas... e se não fosse?
Fiquei em silêncio, encarando aquela mulher que mexia tanto comigo. Que despertava tudo em mim — desejo, ternura, raiva, dúvida.
— Se você quiser que eu vá... — ela disse baixinho, com a voz trêmula — eu vou.
Minha mão instintivamente segurou a dela.
— Não... — sussurrei.
E naquele momento, percebi que mesmo com todas as suspeitas, eu não queria que ela fosse. Eu precisava da verdade. Mas também... dela.
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