Narrado por Renesmee


A pasta repousava sobre a mesa de centro, como uma sombra espessa entre o que eu achava saber e o que estava prestes a descobrir. Meus olhos ardiam, o coração batia acelerado no peito. Estaria ali... a resposta que eu tanto procurei?

Sentei no sofá, os joelhos frágeis, as mãos trêmulas. Respirei fundo e abri a pasta.

A primeira coisa que vi foram fotos. Fotos antigas, desgastadas, em preto e branco, como fragmentos de um tempo que não era meu, mas que me pertencia. Numa delas, um homem jovem, bonito, de olhos intensos. Edward Cullen. E ao seu lado, uma mulher.

Bonnie Black estava na imagem também. Os três juntos. Sorrindo. Pareciam íntimos, próximos.

Meus olhos buscaram a mulher de cabelos castanhos e sorriso tímido. Havia algo nos olhos dela… uma doçura, uma tristeza silenciosa. Ela era linda. Tão parecida comigo que por um segundo meu estômago revirou.

Abaixo da imagem, um nome rabiscado à caneta: Isabella Swan.

Meus lábios se entreabriram. Isabella Swan?

— Não… — murmurei para mim mesma.

Continuei vasculhando o conteúdo. Havia mais fotos. Uma delas mostrava Isabella Swan em um hospital, deitada em uma maca, os cabelos grudados na testa. Nos braços, um bebê. Uma bebê... com olhos que eu conhecia.

Eu.

Meus dedos tremeram e a foto escorregou de minhas mãos, caindo no chão. Levei as mãos à boca, tentando conter o nó que se formava na garganta.

— Não pode ser… — sussurrei, apavorada.

Peguei a próxima folha. Era uma reportagem impressa, recortada de um jornal: "Isabella Swan é condenada a 30 anos de prisão por assassinato de Irina Denali."

As palavras dançavam diante dos meus olhos. Meu corpo ficou frio. Um arrepio me percorreu inteira. Era como se a verdade me rasgasse por dentro, cruel e abrupta.

Havia mais. Um documento timbrado. Li o título lentamente: “Anulação de Adoção – Isabella Newton e Michael Newton.”

Não consegui conter as lágrimas.

— Então é isso… — minha voz saiu embargada. — A Isabella Newton… não era minha mãe. E Mike… Mike nunca foi meu pai…

Tudo desabava ao meu redor. Eu, que achava estar enganando a todos, fui enganada por todos.

Enganada a vida inteira.


Narrado por Jacob


A casa estava silenciosa quando entrei, mas a tensão no ar me atingiu como um soco no estômago. Assim que virei o corredor, dei de cara com Renee e Bonnie sentadas na sala de estar.

Meu corpo ficou tenso no mesmo instante.

— O que ela está fazendo aqui? — perguntei, seco, apontando para Renee.

Bonnie se levantou devagar, como quem mede cada palavra antes de falar.

— Jacob… antes de dizer qualquer coisa, por favor, nos escute.

— Eu não tenho mais nada pra ouvir — rebati, a voz dura, a ferida ainda aberta queimando dentro de mim.

— Está cego, Jacob — Bonnie disse firme. — Vai mesmo cometer o mesmo erro que Edward cometeu vinte anos atrás?

Meu peito se contraiu.

— Não compare meu caso com o dele.

— Eu comparo, sim — ele rebateu, com raiva nos olhos. — Porque sei exatamente como tudo aconteceu. E você não sabe por quê. Nunca te contei a verdade sobre o que houve entre Bella, Edward… e eu.

Fiquei em silêncio. Algo na expressão dela me fez recuar um passo. A mesma dor que eu sentia agora… ela parecia ter sentido há anos.

— Carlisle armou, Jacob — ele continuou. — Ele fez Edward acreditar que Bella havia dormido comigo. Que ela o traiu. Foi uma armadilha. Uma mentira. E Edward acreditou. Ele abandonou a Bella grávida e nunca mais olhou para trás. Tudo por causa de uma encenação bem montada.

Meu maxilar travou. A respiração começou a pesar.

Bonnie olhou para Renee, que se aproximou com um envelope nas mãos.

— Eu não vim aqui como sua sogra, nem como inimiga — Renée disse suavemente. — Vim como avó de Renesmee. E porque você precisa saber disso.

Estendi a mão com relutância e peguei o envelope.

— O que é isso? — perguntei, a voz mais baixa agora.

— O laudo médico da Renesmee — Renee respondeu, com os olhos marejados. — O exame toxicológico confirmou. Ela foi drogada. E os sinais clínicos… indicam que ela foi abusada. A polícia está atrás do tal Nahuel.

Senti um soco no estômago. O mundo pareceu girar por um segundo. As imagens daquela noite voltaram à minha mente: Renesmee confusa, desorientada, nua… e eu, acreditando em tudo errado.

— Não… — sussurrei, engolindo a culpa que me rasgava por dentro. — Eu... eu vi ela com ele.

— Você viu o que ele quis que visse — Bonnie completou com amargura. — Exatamente como Carlisle fez Edward ver o que queria.

Renee tocou meu braço com delicadeza.

— A decisão é sua, Jacob. Ninguém pode forçar você a nada. Mas só quero que entenda… — ela respirou fundo, a voz embargada — …a única vítima nisso tudo… é Renesmee.

Ela se virou para sair, e Bonnie a acompanhou. Mas antes de sair pela porta, Renee se voltou por um segundo.

— Não deixe que o orgulho te transforme no mesmo homem que destruiu a mãe dela.

Renée saiu me deixando com o envelope nas mãos… e o coração em pedaços.


Eu encarava o papel como se ele fosse capaz de me dar as respostas que eu tanto buscava. O exame estava ali, frio e implacável: Renesmee foi drogada. A ocorrência policial descrevia o resto — detalhes que me faziam apertar os punhos com força até os nós dos dedos estalarem.

— Quem faria isso com ela? — murmurei para mim mesmo, a voz rouca de exaustão.

Por que? Qual o maldito motivo? Que tipo de monstro planeja algo assim? Meu coração ainda doía mais pelo olhar dela… perdida, ferida… e eu, cego pelo que achei que era traição, deixei que a dor falasse mais alto.

A porta se abriu devagar. Rebecca entrou, descalça, com o cabelo preso de qualquer jeito e uma expressão de quem não dormia bem há dias. Ela veio até a beira da cama e se sentou ao meu lado sem dizer nada. Apenas me olhou.

— Você vai atrás dela? — perguntou, com calma.

— Eu preciso. — minha voz saiu mais firme do que eu me sentia por dentro. — Ela precisa de mim, Becca. Está magoada, ferida, sozinha...

— E você acha que chegando com esse laudo nas mãos vai consertar tudo? — ela pegou o papel da minha mão. — Jacob, olha pra você. Você também está machucado. Não é assim que se resolve.

Suspirei fundo, fechando os olhos.

— Eu… eu só queria ter feito diferente.

Rebecca pousou a mão no meu ombro.

— Então faz diferente agora. Não tenta corrigir com pressa. Vocês dois precisam de tempo. Se você for atrás dela agora, ela pode se fechar ainda mais. Vai parecer pressão, e não cuidado.

Fiquei em silêncio. O quarto estava escuro, só a luz do abajur iluminava nossos rostos. O mundo lá fora já devia estar explodindo com a notícia do casamento adiado. Os tabloides não iriam poupar palavras.

— Vai para seu Iate — Rebecca sugeriu. — Some por uns dias. Deixa o barulho abaixar. Quando ela estiver pronta, vai te procurar. E se não procurar… você volta com calma. Mas se ama mesmo essa mulher, precisa respeitar a dor dela.

Levei as mãos ao rosto e suspirei. Talvez minha irmã estivesse certa. Talvez esse não fosse o momento de consertar… e sim de esperar.

Assenti, baixinho.

— Acho que preciso de ajuda com as malas.

Ela sorriu, com carinho.

— Estou a disposição.



Narrado por Renesmee


Eu estava sentada no chão da sala, cercada por recortes de jornais amarelados, documentos, fotos. As imagens dançavam diante dos meus olhos como fantasmas do passado. A foto de Isabella Swan com uma bebê no colo queimava meus dedos. Era eu. Aquela mulher… era minha mãe. E eu não sabia.

A chave girou na fechadura e a porta se abriu devagar. Renée entrou, fechando a porta atrás de si, e parou ao me ver ali, imóvel, com os olhos inchados e os papéis espalhados pelo chão.

— Renesmee… — ela murmurou, largando a bolsa sobre o sofá.

— Há quanto tempo você sabia? — perguntei, sem levantar o olhar. Minha voz estava fria. Quase irreconhecível até pra mim.

Renée se ajoelhou ao meu lado, seus olhos marejados.

— Nessie…

— Há quanto tempo você sabia que minha mãe está presa? — insisti, agora olhando diretamente pra ela. — Que meu nome não é Newton. Que meus pais não são meus pais. Que tudo… foi uma mentira?

Ela engoliu em seco e baixou o olhar.

— Desde o começo.

O silêncio se instalou como um soco. Eu sabia. No fundo, eu já sabia. Mas ouvir era diferente. Doía de um jeito novo.

— Foi um pedido dela, Nessie — Renée continuou, com a voz embargada. — Bella... Bella me implorou. Ela achava que o melhor era você crescer longe de tudo isso. Ela só queria te proteger.

— Me proteger? — deixei uma risada amarga escapar. — De quem? Do meu pai? De você mesma?

— Ela também pediu que eu não deixasse Edward se aproximar — confessou, e seus olhos se encheram d’água. — Ela achava que ele poderia colocá-la em risco… ou que você acabaria no meio de tudo. A prisão… os Cullen… Carlisle...

— Carlisle? — franzi o cenho, apertando os papéis nas mãos.

Renée assentiu, baixando a voz como se tivesse medo de ser ouvida.

— Bella nunca acreditou na história oficial. Ela dizia que alguém armou pra ela… e suspeitava que Carlisle estivesse por trás disso. Ou ao menos, acobertando alguém. Irina sabia de algo. E agora... está morta.

O chão parecia sumir sob meus pés. Eu respirei fundo, tentando manter o controle.

— Então foi por isso que ela não se defendeu? Por isso aceitou a pena? Pra me proteger?

Renée assentiu com os olhos marejados.

— Ela dizia que você jamais poderia crescer com o peso do sobrenome Cullen… que você merecia uma vida nova, longe do sangue e das brigas de poder daquela família.

Meus olhos ardiam.

— Amanhã… — sussurrei, me levantando devagar. — Amanhã eu vou ver minha mãe. Eu quero… eu preciso olhar nos olhos dela. Saber quem ela é. Saber… quem eu sou.

Renée tentou me abraçar, mas eu dei um passo para trás. Eu não estava pronta para perdões. Não ainda.

Olhei para a pasta sobre a mesa. As verdades finalmente estavam vindo à tona. E talvez, amanhã, pela primeira vez… eu tivesse respostas.