Narrado por Jacob Black


A sala do escritório de Billy tinha aquele cheiro familiar de madeira antiga e couro envelhecido. A luz do sol atravessava as persianas, projetando listras douradas sobre a mesa robusta onde meu pai e Bonnie estavam sentados, me esperando.

Billy empurrou uma pasta preta na minha direção com a expressão mais grave que eu já vi em seu rosto.

— Está tudo aqui, Jake. — ele disse, enquanto eu puxava a pasta. — Você precisa saber com quem está lidando antes de dar o próximo passo.

Abri a pasta com cuidado, e o que encontrei me tirou o fôlego. Fotos, prints de e-mails, registros de IP, capturas da câmera instalada no apartamento... Tudo apontando para uma única responsável: Renesmee.

— Ela… — minha voz falhou. — Ela expôs Claire? Foi ela quem plantou a câmera…?

— Sim. — respondeu Bonnie, seco. — E não foi por ciúmes, não foi por briga de “melhores amigas”. Ela fez isso com um propósito. Essa garota está atrás da verdade.

Fechei a pasta devagar, o coração apertado. A imagem de Nessie sorrindo pra mim na noite anterior, aninhada nos meus braços no iate, parecia distante e contraditória com o que eu acabara de ver.

— Mas por quê? — murmurei. — Por que ela faria isso?

— Porque ela não é só a jovem bonita que se apaixonou por você. — disse Bonnie. — Ela é filha de Edward Cullen e neta de Renée Dwyer. A filha de Isabella Swan. E foi criada em uma mentira. Você acha mesmo que ela não iria tentar descobrir a verdade sobre o passado?

Billy pigarreou, seu olhar tenso mas compreensivo.

— Jake, ela cresceu acreditando que era filha de Mike e Isabella Newton. Quando a verdade começar a emergir... ela vai fazer o que for preciso pra juntar as peças. E ela já começou.

Respirei fundo, lutando com a mistura de decepção e… compreensão. Sim, ela me enganou. Sim, ela estava jogando um jogo muito maior. Mas não era sobre mim. Era sobre ela. Sobre o que tiraram dela.

— Então ela quer saber o que aconteceu com os pais de sangue. — afirmei, olhando para Bonnie. Ele assentiu.

— E, honestamente, ela tem esse direito. Só que... nós não podemos entregar isso a ela agora. Não do jeito como ela está lidando com tudo. A situação ainda é delicada.

Fechei a pasta e me levantei da cadeira.

— Ela vai saber a verdade. — disse, firme. — Mas depois do casamento.

Bonnie ergueu uma sobrancelha.

— Você ainda vai casar com ela, mesmo sabendo disso?

Olhei para eles com convicção.

— Sim. Porque eu não vou ser mais um a abandoná-la. Ela pode estar jogando o próprio jogo, mas eu também tenho o meu. E no final… — apertei os lábios — vamos estar do mesmo lado. Quer ela saiba disso ou não.

Billy trocou um olhar com Bonnie e, pela primeira vez em minutos, sorriu levemente.

— Parece que o garoto cresceu.

Mas por dentro… eu sabia. A guerra que Nessie travava com o passado só estava começando. E eu? Eu escolhi ficar no meio dela.


O sol começava a se por quando estacionei em frente ao prédio da Nessie. Toquei a buzina de leve, e segundos depois ela surgiu na porta do edifício, usando um vestido simples e cabelos presos em um coque frouxo. Estava linda, mesmo com aquele olhar cansado que carregava nas últimas semanas.

— Está linda — Sussurrei selando seus lábios quando ela entrou no carro.

— Você também — respondeu com um sorriso pequeno, mas genuíno.

Durante o trajeto, mantivemos uma conversa leve sobre a faculdade, a marca, o calor que fazia naquela semana… mas eu sentia que ainda havia um muro entre nós. Estacionei o carro em Sheepshead Bay, no Brooklyn. Reservei um restaurante discreto com vista para o mar, o Ocean Tide Bistro, um lugar charmoso, cercado por luzes amareladas e música ambiente. As mesas na varanda ofereciam uma visão privilegiada do pôr do sol refletido nas águas tranquilas.

— Que lugar lindo, Jake — ela comentou enquanto o garçom nos conduzia até a mesa.

— Achei que precisávamos de um momento só nosso. Você anda distante… — comentei enquanto segurava a mão dela sobre a toalha branca.

Nessie suspirou.

— É só… muita coisa, sabe? A faculdade está puxada, as provas, trabalhos… e também toda essa confusão com Claire. Parece que estou sempre pisando em cacos de vidro.

Assenti em silêncio. Nessie estava vivendo uma tormenta por dentro, mesmo quando sorria para o mundo.

— Eu entendo — falei, traçando círculos com o polegar na palma da mão dela. — Mas quero que saiba que estou aqui. Por inteiro.

Ela sorriu de leve, mas desviou os olhos. Havia algo ali que ela não estava dizendo. Mas não era o momento para forçar.

Durante o jantar, rimos, falamos da infância, dos sonhos e até de viagens que queríamos fazer um dia. Quando a sobremesa chegou, uma taça de tiramisù e um espresso dividido, eu não quis mais esperar.

— Nessie… — comecei, chamando sua atenção. — Por que não marcamos a data?

Ela piscou, confusa.

— Que data?

— A do nosso casamento.

Ela travou por um segundo, o garfo parado no ar.

— Você quer marcar agora? Tipo… para quando?

— Algumas semanas. Pensei em algo discreto, íntimo, à beira-mar. Talvez Montauk. Só nós, nossas famílias e o mar como testemunha.

Ela me olhou surpresa, claramente pega desprevenida.

— Jacob… eu…

A resposta não veio de imediato. E no fundo, talvez eu soubesse que não viria com facilidade. Mas ali, entre a brisa salgada e o som das ondas quebrando ao fundo, eu precisava que ela soubesse: eu estava pronto para tudo. Mesmo que ela ainda não estivesse.


Narrado por Renesmee


A brisa vinda do mar acariciava meu rosto com suavidade, enquanto eu olhava para Jacob do outro lado da mesa. As luzes tênues do restaurante refletiam nos olhos dele, tornando-os ainda mais intensos. O som das ondas ao fundo parecia uma trilha feita sob medida para aquele momento.

E, no entanto, mesmo com tudo tão perfeito, meu peito apertava.

Ali estava ele, o homem que me fazia sorrir sem esforço, que me abraçava como se pudesse curar todas as minhas rachaduras. Mas dentro de mim havia outra chama — uma que queimava com sede de respostas. A verdade sobre meu passado, sobre quem realmente sou… sobre meus pais. E cada passo que eu dava em direção ao coração de Jacob, me levava também para mais perto de um segredo enterrado entre os Black e os Cullen.

Mesmo assim, naquele instante, eu sabia que não podia recuar.

— Tá bom… — sussurrei, sorrindo pequeno. — Vamos marcar a data. Algumas semanas.

Jacob pareceu prender a respiração por um segundo, antes de sorrir daquele jeito que derretia qualquer resistência que eu ainda fingisse ter. Ele segurou minha mão com firmeza, depois se levantou e veio até mim. Não se importou com quem olhava. Se inclinou e me beijou — e foi um beijo calmo, profundo, cheio de promessas silenciosas.

— Obrigado — ele murmurou contra meus lábios. — Por confiar em mim.

— Eu confio… — respondi baixinho, mesmo com meu coração batendo em ritmos diferentes.

Ele se sentou ao meu lado e passou o braço pelos meus ombros, puxando-me para mais perto.

— Por hoje, vamos esquecer o mundo lá fora — ele disse. — Esquecer os escândalos, os nomes, as brigas, os erros. Esquece tudo. Só existe eu e você aqui, Nessie.

Fechei os olhos, respirando fundo. Eu queria tanto poder viver aquilo por inteiro. Só que, mesmo naquele abraço quente e naquela paz inventada por ele… o passado ainda sussurrava nos cantos da minha mente.

Mas, por aquela noite, deixei os sussurros de lado.

Deixei Jacob me envolver.

Deixei o coração me enganar.

E beijei-o novamente, como se aquilo fosse amor…

Ou ao menos, o começo de um.