O Lado Sombrio do Amor
32 Hospital
Narrado por Renesmee
O cheiro forte de café e frituras pairava no ar da lanchonete da faculdade enquanto minhas amigas riam, cada uma reclamando da quantidade de trabalhos finais. Tentei acompanhar o ritmo, fingir que estava bem, mas uma tontura incômoda começou a tomar conta de mim. Um zunido leve nos ouvidos e um gosto metálico na boca me fizeram perceber que algo estava errado.
— Nessie? — Ayla me olhou preocupada. — Você tá pálida.
— Eu... acho que preciso de um pouco de ar — murmurei, me levantando com cuidado.
Caminhei pelo campus até o estacionamento, sentindo o corpo mais leve do que devia, como se o chão fosse uma coisa instável sob meus pés. Encostei no carro e, tremendo, destravei a porta. Foi quando o celular vibrou em minha bolsa.
Mensagem de Renée:
"Almoço confirmado. 13h, no bistrô de sempre. Quero conversar sem brigas."
Sorri levemente. Renée não desistiria facilmente. Mas antes que pudesse responder, um enjoo me fez recuar. A visão embaçou. Meu corpo cedeu.
A chave caiu da minha mão, e eu senti as pernas falharem. Tentei segurar no retrovisor, mas ele escorregou.
Tudo ficou turvo.
A última coisa que registrei antes da escuridão me engolir foi uma voz masculina — grave, suave, com um toque de desespero controlado:
— Renesmee?
Senti braços me envolvendo, firmes e quentes, e uma fragrância familiar — perfume amadeirado com algo quase cítrico.
— Calma, eu tô com você… Nessie… Ei, me ouve...
Mas já era tarde.
Tudo apagou.
A claridade do quarto me fez franzir os olhos ao despertar. O zumbido agudo que antes dominava meus ouvidos agora era substituído pelo som distante de passos e bipes regulares. Tentei me sentar, mas meu corpo ainda parecia fraco.
Uma enfermeira se aproximou, com um sorriso gentil.
— Senhorita Newton, que bom que acordou. Você desmaiou no estacionamento da faculdade. Foi trazida por um rapaz que a encontrou desacordada.
— Desmaiei? — murmurei, ainda tentando processar. — Quem me trouxe?
Antes que a resposta viesse, a porta do quarto se abriu suavemente, revelando um jovem alto, elegante, com olhos intensos e um sorriso que parecia quase ensaiado. Eu o conhecia. Já o vira em alguns eventos de gala, sempre discreto, à sombra da família. Eliot Cullen.
— Oi... — ele disse, entrando. — Eu atrapalho?
A enfermeira sorriu para ele, como se o reconhecesse, e assentiu antes de sair, deixando-nos a sós.
— Eliot Cullen — falei, ainda surpresa. — Você... estuda na minha faculdade?
Ele assentiu, dando de ombros.
— Sou novo por lá. Pedi transferência no início do semestre. Hoje foi um acaso feliz. Eu estava saindo da biblioteca quando te vi caindo.
— Então foi você quem me trouxe? — perguntei, sem conseguir esconder o constrangimento.
— Sim — respondeu com naturalidade. — Você não estava bem. O celular tocou no seu bolso, achei melhor atender. Era sua avó, Renée. Expliquei a situação. Ela está vindo para cá.
Eu fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. Claro que Renée estava vindo. E agora, com toda a preocupação do mundo, pronta para controlar tudo.
— Obrigada, Eliot — murmurei. — De verdade. Você me ajudou muito.
Ele sorriu, mas antes que pudesse dizer algo mais, a porta se abriu novamente.
— Senhorita Newton? — disse um homem de jaleco branco. — Sou o Dr. Hampton. Gostaria de conversar com você a sós, por favor.
Eliot olhou para mim, educado, e eu assenti. Ele se retirou com um gesto de cabeça, fechando a porta atrás de si.
— O que aconteceu, doutor? — perguntei, sentindo o coração acelerar.
— Nós fizemos alguns exames de rotina após sua internação — começou ele, com o tom calmo e profissional. — Seus sinais vitais estão estáveis, sem indícios de desidratação grave ou outros problemas. Mas há uma informação que talvez você desconheça... — Ele fez uma breve pausa. — Senhorita Newton, você está grávida. Cerca de sete semanas.
Meu mundo parou.
Grávida?
O quarto girou por um segundo. A respiração ficou curta. A voz do médico parecia vir de um lugar distante, abafada, como se eu estivesse debaixo d’água.
Sete semanas...
Meu coração disparou. Um milhão de pensamentos me invadiram. Meus planos. Jacob. A vingança. O segredo.
Nada fazia mais sentido.
Narrado por Renesmee
O silêncio depois que o médico saiu era ensurdecedor. Sentei-me na maca, as mãos no ventre ainda plano, como se meu corpo pudesse me dar alguma resposta que a mente se recusava a processar.
Grávida.
Essa palavra se repetia dentro de mim como um eco distante, misturado ao som abafado do monitor cardíaco ao meu lado. Grávida. Sete semanas. Eu tentei fazer as contas, e tudo apontava para Jacob. Como se houvesse dúvida.
Mas isso não estava nos meus planos. Nada disso fazia parte do que eu havia arquitetado. Eu queria respostas. Queria justiça. Queria... vingança.
E agora… isso?
Ouvi a maçaneta girando e, antes mesmo de ver, já sabia quem era.
— Renesmee Carlie Newton, o que aconteceu?! — a voz de Renée cortou o ambiente como uma rajada de vento. Ela entrou na enfermaria como se fosse a dona do hospital. — Meu Deus, você me deixou louca! Por que ninguém me ligou antes? E essa história de desmaio?
Respirei fundo e forcei um pequeno sorriso. Ainda não era hora. Renée não podia saber.
— Calma, vó — falei com a voz suave, me recostando no travesseiro como se estivesse apenas exausta. — Eu estou bem, foi só... a nova dieta. Acho que exagerei. Cortei o açúcar, a cafeína, comecei a correr... Foi um erro.
Ela se aproximou e me puxou para um abraço apertado, maternal. Tive que fechar os olhos. O cheiro dela, o calor do abraço, quase me desmontaram.
— Você não pode se cuidar desse jeito, Nessie — ela sussurrou. — Você já trabalha demais, estuda demais... E agora com esse noivado repentino, eu sabia que alguma coisa estava errada.
Me afastei lentamente, ainda com aquele sorriso leve.
— Eu juro que está tudo bem agora. O médico disse que posso ir pra casa, só pediu um pouco de repouso e... nada de emoções fortes.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Isso ele falou com razão. E não me venha esconder nada. Você sabe que me conhece.
— Eu sei — respondi, mentindo com doçura.
Meus dedos acariciaram de leve o lençol. O peso da verdade que eu escondia parecia cada vez maior. Mas eu não podia permitir que nada — nem essa gravidez, nem Renée — tirasse de mim o foco. A verdade estava mais perto do que nunca. E agora, ainda mais do que antes, eu tinha um motivo real para descobrir a verdade.
Eu ia ser mãe.
E meu filho merecia nascer livre da mentira.
Mesmo que, para isso, eu tivesse que continuar fingindo.
Narrado por Jacob
O volante quase escapava das minhas mãos. A cidade passava borrada pela janela do carro enquanto eu acelerava por entre as avenidas, sem pensar em sinal vermelho, sem me importar com as buzinas impacientes. Tudo o que ecoava na minha cabeça era a mensagem de Rebecca:
“Ela desmaiou na faculdade. Está no hospital, mas já teve alta. Está em casa.”
Meu coração socava meu peito com violência.
Renesmee.
Eu não sabia o que tinha acontecido exatamente, mas só a ideia de algo ruim com ela me deixava desnorteado. Era ridículo o quanto ela mexia comigo. Tudo começou como uma estratégia… um movimento calculado, uma aproximação necessária. Mas agora… agora era muito mais.
Estacionei bruscamente em frente ao prédio dela e saí do carro quase tropeçando nos próprios passos. Toquei o interfone, e quando ouvi sua voz suave do outro lado, meu corpo relaxou. Só um pouco.
Ela abriu a porta com um sorriso terno, mesmo com os olhos levemente cansados. Estava pálida, visivelmente abatida, mas ainda linda. Ainda ela.
— Jake… — sussurrou, me puxando para dentro do apartamento. — Que susto. Você dirigiu feito um louco, não foi?
— Claro que sim — minha voz saiu baixa, mas carregada de urgência. — Você desmaiou, Nessie! Isso não é normal. Você está pálida, abatida. O que está acontecendo?
Ela desviou o olhar por um segundo, o suficiente para despertar minha preocupação ainda mais. Mas logo sorriu, aquele sorriso meigo que ela usava para me acalmar, e disse:
— Foi só uma queda de pressão. Dieta maluca e noites sem dormir. Eu tô bem, de verdade.
— Você não parece bem — murmurei, e sem pensar, a abracei.
A sensação do corpo dela contra o meu me acalmava mais do que qualquer explicação médica. Encaixava tão bem. Como se ela sempre tivesse sido feita pra estar ali, nos meus braços.
— Não faz isso comigo de novo — falei, a voz quase falhando. — Eu não sei o que faria se algo sério acontecesse com você.
Ela pareceu surpresa, mas não falou nada. Só retribuiu o abraço, o rosto contra meu peito.
Naquele instante, percebi o quanto tinha cruzado uma linha invisível. Eu tinha planos, sim. Estrategicamente traçados com Billy, com Bonnie. O casamento, a fusão das famílias, o nome Black ainda mais poderoso... Mas tudo isso parecia distante agora.
Porque, mesmo sabendo que não deveria, eu me envolvi demais.
Mesmo sabendo que tinha um objetivo, eu havia me perdido nela.
E agora era tarde.
Eu amava Renesmee.
Mais do que estratégia.
Mais do que ambição.
Mais do que qualquer plano.
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