O Lado Sombrio do Amor
74 Pai
Narrado por Renesmee
Quatro meses se passaram desde aquela noite.Quatro meses desde que Logan Young tirou a máscara — e quase tudo de mim.
Mas também foram quatro meses de reconstrução.
Com a morte dele, vieram investigações, manchetes, interrogatórios... Mas no fim, sem provas concretas, Carlisle Cullen saiu ileso — como sempre.
Meu depoimento não foi suficiente. Faltavam documentos, faltavam testemunhas. Faltava coragem nas pessoas.
O que ele não esperava, no entanto, era perder algo mais poderoso que a liberdade: o respeito dos próprios filhos.
Edward se afastou dele. E não foi o único. Esme, Emmett, até Alice... cada um, à sua maneira, virou o rosto.
A família Cullen, tão sólida por fora, ruiu por dentro.
Bella, enfim livre do passado, abriu seu café em Manhattan — aconchegante, com cheiro de bolo quente e livros antigos.
Ela e Edward reataram.
Nada de rótulos ou promessas, apenas um reencontro maduro de duas almas cansadas de guerra.
E eu…
Deixei Annecy para trás.
Vendi minha parte da floricultura à Lina. Agora, ela e Eloise cuidam de tudo lá, como eu fazia um dia.
As flores continuam florescendo… mesmo sem mim.
Em Manhattan, abri meu próprio espaço.
Flores em vasos suspensos, janelas amplas, o sol atravessando vidros limpos.
Era mais do que um negócio.
Era minha cura.
Estava criando um buquê de lírios e peônias para um casamento quando ouvi a porta tocar o sino — aquele tilintar que eu adorava.
Não precisei virar para reconhecer a voz.
— A loja é linda, Renesmee.
Meus dedos congelaram por um segundo sobre as pétalas.
Virei devagar, e lá estava ele.
Alec.
— Oi… — murmurei, um pouco surpresa. — Achei que você estivesse em Boston.
— Estava. Mas… eu devia essa visita.
Olhei para as funcionárias, que disfarçaram com profissionalismo. Eu assenti para que saíssem por alguns minutos.
Ele caminhou até mim, o mesmo ar calmo, mas os olhos com algo diferente. Paz, talvez?
— Vim te agradecer. — Ele sorriu com doçura. — Por tudo. Pelo que vivemos. Pelo que superamos.
— Alec…
— Não vim pedir mais nada — ele me interrompeu com gentileza. — Só queria apagar qualquer mágoa que ainda existisse.
— Eu… também quero isso. — Senti o nó na garganta se desfazer. — Não carrego rancor. De verdade.
Ele respirou fundo.
— Então talvez a gente possa… ser amigos?
Sorri.
— Amigos. Gosto disso.
Ele estendeu a mão, e eu a apertei.
— Você está linda, Nessie. — Alec disse, com um sorriso gentil nos lábios. — A maternidade... te deixa com um brilho diferente.
Sorri, tocando instintivamente a curva arredondada da minha barriga.
— Obrigada… Estou tentando aproveitar cada segundo dessa fase.
Ele hesitou, o olhar suavemente curioso.
— E... já sabe o sexo?
Assenti, sem conter o sorriso bobo que brotava só de pensar nisso.
— Uma menina. Vai se chamar Julie.
— Julie... — ele repetiu com cuidado, como se experimentasse o nome pela primeira vez na boca. — É lindo. Combina com você. Com a história de vocês.
O silêncio entre nós ficou mais denso por um momento. Eu sabia o que viria antes mesmo dele perguntar.
— Existe... alguma chance? — ele perguntou, sem agressividade, apenas com aquela franqueza que sempre admirei. — De Julie ser minha filha?
Balancei a cabeça suavemente.
— Não, Alec. Julie é filha do Jacob.
Ele abaixou o olhar, assentindo com serenidade.
— Eu precisava perguntar. Por respeito... não por esperança.
— Eu entendo. — Toquei levemente o braço dele. — E aprecio a forma como você lidou com tudo isso.
Antes que ele pudesse responder, o sino da porta tocou novamente.
— Mamãe! — a voz doce e animada de Sophie preencheu a loja como música. Ela correu em minha direção, me abraçando com força.
Jacob veio logo atrás, com um buquê nas mãos e aquele sorriso torto que sempre me desmontava.
Alec deu um passo para o lado, mantendo a elegância de sempre. Jacob o encarou por um segundo e assentiu cordialmente.
— Alec.
— Jacob. — Alec respondeu com a mesma cortesia. Ambos sabiam que não seriam amigos, mas se respeitavam. E naquele instante, isso era tudo o que importava.
Sophie soltou meu pescoço e virou-se, abrindo um sorriso alegre.
— Tio Alec! — Ela o abraçou com carinho. — Que bom te ver!
Ele se agachou para ficar na altura dela.
— Você está crescendo rápido, mocinha.
—Estou mesmo! Vai ter uma irmã agora, sabia?
— Eu soube — Alec sorriu. — E ela terá sorte por ter você como irmã.
Ele se levantou, encarou Jacob uma última vez e depois me olhou com os olhos calmos, cheios de um afeto leve, que já não doía.
— Cuide dela. Das duas. — disse a Jacob.
— Com certeza — Jacob respondeu.
Alec me deu um leve beijo na bochecha e olhou Sophie com ternura.
— Até breve, pequena.
E então saiu.
Sem drama. Sem palavras pendentes.
Apenas encerrando um ciclo.
Jacob se aproximou, passou o braço pela minha cintura e encostou os lábios na minha têmpora.
— Tudo bem?
— Tudo em paz. — respondi, olhando para a porta por onde Alec acabara de sair. — De verdade.
Sophie pegou uma rosa do balcão, colocou no cabelo e disse:
— Acho que a loja ganhou mais cor hoje.
E eu não podia discordar.
Ganhamos mais do que cor.
Ganhamos leveza.
◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇◇
O espelho refletia a imagem de uma noiva com o ventre arredondado e os olhos brilhando. Minhas mãos tremiam levemente ao ajustar o véu, mas o coração... ah, o coração estava sereno. Depois de tudo, finalmente eu estava ali — pronta para dizer sim ao homem que amo.
A floricultura cuidou de cada detalhe do altar, mas era impossível competir com a beleza natural do jardim da mansão Black. As tulipas estavam em plena floração. Era como se até as flores tivessem esperado por esse dia.
Sophie entrou correndo no quarto com seu vestidinho branco rodado e uma coroa de flores na cabeça. Ela parou diante de mim, e por um instante, me olhou como se eu fosse uma princesa de conto de fadas.
— Mamãe... — sussurrou — você tá a noiva mais linda do mundo.
Ajoelhei-me com dificuldade por causa da barriga e segurei seu rostinho entre minhas mãos.
— Você é minha maior alegria, sabia?
Ela assentiu, os olhinhos brilhando, e me abraçou com força. Beijei sua testa com carinho, sentindo o coração apertado de tanto amor.
— Vamos arrasar lá fora, dama de honra? — perguntei.
— Dama de honra e irmã mais velha — ela completou com orgulho.
Quando Sophie saiu para se juntar a Luna, alguém bateu levemente na porta. Virei-me, e lá estava ele: Edward.
Ele sorriu, hesitante. Vestia um terno elegante, mas o olhar era o de um pai emocionado.
— Eu...a Bella pediu que eu viesse.
Assenti devagar. Por um segundo, me dei conta de que não havia mais mágoa. As feridas tinham cicatrizado com o tempo, com os gestos, com as verdades reveladas. E com os recomeços.
—Oi. Pai... — murmurei.
Edward congelou por um segundo. Aquela palavra, tão simples, pareceu derrubar todos os muros entre nós.
— Posso chamá-lo assim hoje?
Ele se aproximou, os olhos marejados.
— Pode me chamar assim todos os dias da sua vida.
Segurei o braço dele com firmeza, e ele me guiou para fora.
O sol estava se pondo devagar, tingindo o céu de dourado. O altar estava montado sob uma pérgola decorada com rosas brancas e tulipas. Jacob nos esperava lá, parado, de terno cinza escuro e um sorriso que parecia conter uma vida inteira.
Sophie e Luna espalhavam pétalas pelo caminho. A música suave preenchia o ar. Eu sentia meu coração dançar em compasso com o bebê que crescia em mim.
Quando cheguei ao altar e Edward colocou minha mão na de Jacob, ele sussurrou:
— Cuide dela. A proteja.
Jacob olhou nos olhos dele e respondeu com firmeza:
— Com minha vida.
E então... o mundo parou.
Era como se só existíssemos nós três ali: eu, ele, e a vida que crescia dentro de mim.
O destino havia esperado, testado, nos separado... e mesmo assim, o amor venceu.
Naquele jardim, cercados por família, flores e promessas, eu disse sim.
Sim à vida, à nova chance, ao amor maduro, e à felicidade merecida.
E o olhar de Jacob, quando coloquei a aliança em seu dedo, me dizia que ele faria daquele "sim" a eternidade.
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