Narrado por Renesmee


A mesa da sala estava coberta com documentos, pastas, xícaras de chá intocadas. O ar parecia pesado, carregado por ansiedade e expectativa. Eu estava sentada entre minha mãe, Bella, e Alec. Do outro lado, Phil apoiava o queixo sobre a mão, atento, e ao lado dele estava J. Jenks, meu advogado.

Renee vinha e voltava com xícaras e biscoitos, tentando manter alguma aparência de normalidade.

Jenks abriu a pasta de couro escura com calma, e pigarreou.

— A polícia de Annecy finalizou a análise dos documentos e já passou oficialmente todo o dossiê para a Polícia de Nova York. Isso inclui os registros da maternidade local, seu boletim de ocorrência original e o laudo francês que comprova o sequestro — disse ele, puxando os papéis. — A partir de agora, o caso passa a tramitar aqui, sob jurisdição americana.

— E quanto tempo até ela... — minha voz falhou — até Sophie poder vir pra casa?

Ele respirou fundo, profissional.

— Com o reconhecimento da maternidade e a alegação de sequestro, o processo de guarda definitiva já pode ser iniciado. Ainda assim, a justiça vai querer ouvir ambas as partes. Claire terá direito de defesa, e Jacob também será ouvido como guardião legal atual.

— Ele já sabe — murmurei, olhando para as mãos.

— Isso ajuda — disse Jenks, com um breve aceno. — E ele está do seu lado?

Suspirei.

— Eu não sei...Mas se ele não sabe que Claire sequestrou Sophie ele estará do meu lado.

— Então precisamos manter tudo sob o máximo de controle. Evitar escândalos — completou o advogado. — Pelo bem de Sophie.

Renee andava de um lado para o outro, visivelmente nervosa. De repente, parou diante da televisão e pegou o controle.

— Melhor saber se já caiu na imprensa... — ela disse, e ligou a TV.

Um som de vinheta soou e logo a imagem de uma jornalista apareceu na tela, séria, com a legenda em letras garrafais:

“BOMBA NO MUNDO DOS NEGÓCIOS: FILHA DE JACOB BLACK FOI SEQUESTRADA A 12 ANOS, DIZ POLÍCIA.”

— Temos atualizações sobre o caso que chocou a França e agora movimenta a elite empresarial de Nova York — disse a repórter. — A jovem Sophie Swan, sequestrada na cidade de Annecy há doze anos, é na verdade a adolescente Clara Black, filha do bilionário Jacob Black e de sua esposa Claire Yong.

A imagem mudou para uma montagem de fotos antigas minhas com uma criança no colo e, em seguida, fotos atuais de Clara.

— A mãe biológica, a modelo e empresária Renesmee Swan, prestou depoimento nesta semana. Segundo fontes próximas à investigação, o caso foi mantido em sigilo para preservar a identidade da menor. Agora, a polícia trabalha com a hipótese de que Claire Yong teria forjado a maternidade e usado a criança para se beneficiar financeiramente ao lado de Jacob Black

Alec estalou os dedos, inquieto. Bella me olhou com os olhos marejados.

Phil resmungou:

— A bomba explodiu.

Foi quando a campainha tocou.

Renee se levantou num pulo.

— Quem será agora?

Ela andou até a porta e, quando abriu, ouvi a voz familiar que fez meu estômago se revirar.

— Eu preciso falar com a Renesmee.

Jacob.

Levantei-me devagar, encarando a porta. Nosso olhar se encontrou e, por um instante, tudo pareceu parar.

A tempestade tinha começado de vez.


Narrado por Jacob


O vento de Manhattan soprava forte quando deixei a empresa de Claire, mas nada se comparava à tempestade que estava dentro de mim.

Rachel e Paul me convenceram a parar num café antes que eu fizesse alguma besteira. Sentamos em um canto discreto de um bistrô moderno, e eu mal toquei no café que o garçom colocou à minha frente. Meu corpo estava presente, mas minha mente ainda gritava entre raiva, incredulidade e dor.

Rachel atendeu o celular que vibrou sobre a mesa. Vi sua expressão mudar enquanto ela ouvia.

— Sim, Rebecca... é verdade. Ele tá aqui comigo e com o Paul — disse, lançando um olhar rápido na minha direção.

Fiquei em silêncio, encarando a fumaça que subia da xícara. O mundo parecia girar rápido demais.

— Por favor, escuta... vai até a escola da Clara, agora. Leva ela pra sua casa e não deixa ela ver nada nas redes sociais. Nem TV. Explica depois, com calma... Sim, eu aviso ele. Obrigada, Rebeca — e desligou.

— A imprensa já tá divulgando tudo — ela disse, encarando-me com seriedade. — O nome da Renesmee, da Clara, seu nome... tudo. Está em todos os portais de notícia.

Fechei os olhos por um instante. A voz da Rachel parecia ecoar distante. Meus punhos se fecharam com força sobre a mesa.

— A Rebecca vai buscar a Clara na escola — ela continuou. — Vai levá-la direto pra casa dela, mantê-la longe disso até que a gente decida o que fazer.

Assenti, finalmente levando a xícara aos lábios. O café estava amargo, mas o calor ajudou a aquecer o que restava de mim por dentro. Soltei um suspiro pesado.

— Eu preciso ir até a casa da Renesmee — disse, baixando a xícara com firmeza.

Paul ergueu uma sobrancelha.

— Você sabe onde ela tá?

Assenti devagar.

— Na casa da Renee.

Rachel me olhou com cautela.

— Jake... tem certeza que tá pronto pra esse reencontro? Agora que tudo explodiu?

Olhei para fora, para o movimento da cidade que nunca parava. Eu não tinha escolha. Eu precisava vê-la. Precisava olhar nos olhos da mulher que um dia eu amei... e da mãe da minha filha.

— Não é uma questão de estar pronto. É uma questão de... dever.

Levantei-me da mesa. Paul e Rachel me seguiram com o olhar.

— Jake — Rachel disse, me chamando de volta — não deixa a raiva te guiar. A Clara precisa de você calmo. Forte.

Assenti de novo. Mas meu coração ainda era uma avalanche.

E a próxima parada... era a casa de Renee Swan.


Narrado por Renesmee

O som da porta se fechando atrás de J. Jenks ecoou como um fim de ciclo. Respirei fundo. Agradeci ao advogado, e ele respondeu com um aceno cortês antes de sair, com sua maleta sob o braço.

Bella, Phil e minha avó Renee se entreolharam em silêncio. Não precisávamos de palavras. Eles sabiam que precisávamos conversar a sós. Subiram as escadas devagar, cada um respeitando o peso que preenchia a sala.

Alec se aproximou de mim, pousou uma das mãos no meu ombro, e em seguida selou meus lábios com um beijo firme e sereno.

— Estarei na cozinha se precisar de mim — disse ele, com um olhar que misturava apoio e preocupação.

Assenti em silêncio. Meus olhos se voltaram para Jacob. Ele estava parado no meio da sala, ainda um pouco ofegante como se tivesse corrido até ali. A barba por fazer, o olhar em brasa — tão familiar e tão estranho.

Nos encaramos por segundos longos demais.

— Podemos conversar? — ele perguntou, por fim.

— Claro — respondi, quase num sussurro.

Me sentei no sofá e ele se acomodou na poltrona à minha frente. Por um instante, senti falta de Sophie entre nós, como ponte, como elo perdido.

— Eu... não sabia — Jacob começou, com a voz embargada. — Não sabia sobre a Sophie. Renesmee, se eu soubesse…

— Jacob... — tentei interromper, mas ele ergueu a mão, pedindo para continuar.

— Meses depois que saí com o barco, depois de... de tudo, eu voltei. Em segredo. Ninguém sabia. Eu precisava ver você uma última vez. E quando fui até Annecy... eu te vi.

Franzi a testa.

— Você me viu?

— Vi. De longe. Você estava grávida. E com um homem... o mesmo que está aqui..

Meu coração deu um salto.

— Você achou que eu...?

— Eu achei que você tinha refeito a vida — ele disse, com os olhos marejados. — E não achei justo destruir aquilo. Eu tava quebrado, mas... achei que você estava bem. Que tinha me esquecido.

Fiquei em silêncio por um momento, digerindo tudo.

— Jacob, eu ia te contar. Eu juro que ia — minhas mãos se fecharam sobre o joelho. — Naquela manhã, no hotel... eu ia dizer.

Ele me olhou, confuso.

— Tentou me dizer?

Assenti, e minha voz vacilou.

— Mas você me disse que Claire estava grávida. E por um momento eu pensei que não era o momento...e depois...tudo aconteceu.

Jacob passou as mãos pelo rosto, engolindo a culpa em silêncio.

— Claire... — ele sussurrou — usou tudo isso. Manipulou cada passo meu. Usou minha ausência, uma criança... minha dor.

Me aproximei devagar.

— Mas agora sabemos a verdade.

Ele levantou os olhos para mim.

— Eu pretendo ajudar em tudo que for necessário para reparar isso.

Suspirei. Lágrimas ardiam em meus olhos, mas ainda não tinham permissão para cair.

— Jacob, eu só quero minha filha de volta.

Ele assentiu, devagar.

— E eu... quero fazer o certo.

O silêncio caiu sobre nós. Um silêncio cheio de lembranças, perdas, e da esperança tênue de que talvez, só talvez, ainda fosse possível recomeçar. Pelo bem dela.

Da nossa filha.

Da Sophie.


Narrado por Jacob


— Eu vou conversar com Clara. Ela precisa ouvir isso da minha boca — disse a Renesmee, tentando manter a calma enquanto meu coração batia em disparada no peito.

Mas mal terminei de falar, meu celular vibrou em cima da mesa. O nome da minha irmã piscava na tela: Rebecca.

Atendi de imediato.

— Rebecca?

A voz dela veio aflita, quase ofegante:

— Jake, eu fui buscar a Clara na escola, como combinamos... mas Claire já tinha passado lá. A diretora disse que ela apareceu com um documento e alegou que Clara estava passando mal. Ela assinou uma autorização e levou a menina mais cedo.

Senti o sangue sumir do rosto.

— O quê?

— Ela se antecipou, Jake. A diretora só permitiu porque Claire tem a guarda. — A voz de Rebecca tremia. — Você acha que ela...

— Vai tentar sair do país. — Eu completei, levantando de um salto. — Rebecca, avisa o Paul. Diz pra ele ir direto pro aeroporto. Eu vou acionar a polícia agora.

— Tá bom! Eu vou manter o celular ligado. Qualquer coisa, me liga!

Desliguei e olhei para Renesmee. O rosto dela já estava pálido, os olhos arregalados em desespero.

— Jacob... o que aconteceu com Clara?

— Claire está com ela. Ela a tirou da escola antes da hora e provavelmente está tentando fugir do país.

Renesmee levou as mãos à boca, engolindo um grito. Eu podia ver o terror nos olhos dela — o mesmo que eu estava sentindo.

— A gente precisa ir agora! — ela disse, já correndo para pegar a bolsa.

Alec entrou na sala naquele momento. Seu olhar alternava entre nós dois, atento ao caos no ar.

— O que houve?

— Claire pegou a Clara e está tentando fugir. Eu vou para o aeroporto. — Minha voz saiu mais ríspida do que eu queria, mas eu estava explodindo por dentro.

— Eu vou com você! — Renesmee disse firme, já ao meu lado.

— Eu vou no carro da Renee. Nos encontramos lá — disse Alec, pegando o celular. — Vou avisar à polícia também. Não podemos perder tempo.

Assenti e corri para a porta com Renesmee logo atrás. Cada segundo agora valia a vida da nossa filha.

Sophie.

Clara.

Ela precisava de nós — e nós não íamos falhar com ela novamente.