O Lado Sombrio do Amor
50 Acidente
Narrado por Claire
As mãos tremiam no volante. Cada semáforo fechado parecia uma armadilha, cada carro da polícia que cruzava meu campo de visão parecia um prenúncio. Eu dirigia pelas ruas movimentadas de Nova York como se pudesse fugir do passado, da verdade — e agora, da justiça.
Clara estava no banco de trás, de fones nos ouvidos, abraçada à mochila. Ainda assim, a voz dela me alcançou, baixa, mas firme:
— Mãe... pra onde a gente tá indo?
Revirei os olhos, tentando não deixar o nervosismo escapar pela garganta.
— Só vamos passar uns dias fora da cidade, Clara. Respirar um pouco. A cidade tá insuportável.
— Mas minhas provas começam semana que vem... meu pai não vai gostar disso...
— Seu pai não decide nada! — rebati com mais força do que devia. — Ele nunca decidiu nada!
Silêncio. Ela voltou o rosto para a janela. E naquele instante, algo dentro de mim se contorceu. Culpa, talvez. Medo. Ou pura loucura.
Virei bruscamente à direita ao ver uma viatura dobrando a esquina. O coração ameaçou sair pela boca. Eles estavam atrás de mim. Eu sabia. Ela devia ter ido à polícia. Claro que foi. Renesmee nunca soube perder.
Entrei no estacionamento de um posto de gasolina tentando despistá-los. Parei o carro próximo à loja de conveniência e desliguei o motor. Precisava ganhar tempo.
— Fica no carro — ordenei a Clara. — Já volto.
Ela não respondeu. Bati a porta com força, tentando conter o pânico, e caminhei até a máquina de bebidas ao lado da loja. A luz da máquina piscava. Meus dedos mal conseguiam digitar o número certo.
Foi então que senti.
Um vazio.
Um silêncio repentino.
Virei o rosto e... ela não estava mais no carro.
— Clara?! — gritei, girando nos calcanhares. — CLARA!
Vi a mochila caída no chão, e a silhueta da minha filha correndo em direção à avenida. Como se fugisse de mim. Como se quisesse escapar.
— CLARA, NÃO! — gritei com todo o ar que tinha.
O tempo parou.
O som de pneus gritando no asfalto. Um carro em alta velocidade vindo de lado. Os olhos da menina arregalados. E então... o impacto.
O corpo dela foi lançado a alguns metros.
Meu grito foi rasgado, desumano.
— NÃO! MEU DEUS, NÃO! — corri como se minha vida dependesse disso, e de fato, dependia.
Clara estava caída no chão, imóvel, sangue escorria pelo rosto. Caí de joelhos ao lado dela, tremendo.
— Alguém chama uma ambulância! POR FAVOR! — gritei para os curiosos que começavam a se aglomerar.
Toquei o rosto dela, completamente em choque.
— Vai ficar tudo bem, meu amor. Vai ficar tudo bem... — sussurrei entre soluços, mesmo sabendo que talvez eu estivesse mentindo.
Narrado por Jacob
O carro rasgava as ruas de Manhattan como um animal ferido. Eu ignorava os sinais vermelhos, os olhares indignados, os pedestres atravessando apressados. Tudo parecia distante. Tudo, menos a angústia crescendo dentro do meu peito.
Meu celular vibrou no painel. O nome dela acendeu como uma maldição.
Claire.
Atendi no viva-voz, sem tirar os olhos da pista.
— Onde você está com a minha filha?! — rosnei, já esperando o pior.
Do outro lado da linha, só havia choro.
— Jake... foi um acidente... foi tudo muito rápido... eu... eu não consegui...
— O que aconteceu com a minha filha, Claire?! Fala agora! — gritei, sentindo minha garganta fechar.
Renesmee, ao meu lado, me lançou um olhar tenso, aflito, com as mãos pressionadas sobre os joelhos.
— Ela... ela saiu do carro... eu gritei... mas... um carro... ela foi atropelada, Jake... — Claire soluçava. — Estão levando ela pro Mount Sinai Hospital, disseram que é o mais próximo... eu tô indo pra lá agora... por favor...
Meu punho fechou no volante. O mundo girava, mas eu me obriguei a manter o controle.
— Se algo acontecer com minha filha, Claire... eu juro por tudo que existe, você vai pagar por cada segundo!
Encerrei a ligação antes que ela pudesse responder. Minhas mãos tremiam.
— Jacob... — a voz de Renesmee saiu quase num sussurro. — O que aconteceu com Sophie?
Travei o maxilar e respirei fundo.
— Ela sofreu um acidente. Está sendo levada para o Mount Sinai Hospital. — minha voz era firme, mas dentro de mim, tudo desmoronava.
Renesmee levou a mão à boca e fechou os olhos por um instante.
Eu acelerei ainda mais, costurando entre os carros, e tudo o que eu conseguia pensar era:
A minha filha está ferida. E eu não estive lá pra protegê-la.
E agora... talvez fosse tarde demais.
Narrado por Renesmee
O hospital parecia ainda mais frio do que eu lembrava. As luzes fortes, o cheiro de desinfetante e aquele vazio nos corredores me apertavam o peito. Caminhei ao lado de Jacob em silêncio, engolindo a angústia. Sophie... Clara... nossa filha... estava ali, em algum lugar entre a dor e a recuperação. Eu só queria vê-la. Sentir sua respiração. Tocar sua pele.
Mas ao dobrarmos o corredor da recepção, eu a vi.
Claire.
O sangue ferveu nas minhas veias.
— Sua desgraçada! — gritei, sem pensar, avançando como uma força que não me pertencia.
A palma da minha mão acertou o rosto dela com força, fazendo seu corpo recuar com o impacto. Os seguranças surgiram num segundo, me segurando pelos braços, mas eu já não precisava de mais nada. A dor que carreguei por doze anos precisava daquela explosão.
Jacob veio até mim, me puxando com firmeza, me envolvendo em seus braços.
— Calma, Nessie... por favor... a nossa filha precisa de você agora. Não dela. — sua voz era baixa, mas carregada de dor. E isso me fez ceder.
Eu desabei no peito dele. As lágrimas escorriam enquanto o cheiro dele, o calor do abraço, me lembravam que aquilo era real. Sophie era real. E estava viva.
Claire tentava se recompor, o rosto marcado e os olhos arregalados.
— Fora daqui, Claire. — Jacob rosnou, com uma firmeza que eu jamais havia escutado. — Você não tem mais lugar na vida da minha filha. Nem no hospital. Sai agora.
Ela hesitou, mas diante da postura dele e da presença dos seguranças, deu meia-volta e desapareceu no corredor.
Um silêncio pesado ficou no ar por alguns segundos até um médico alto, de jaleco branco e expressão cansada, se aproximar.
— Boa tarde. Quem são os responsáveis por Clara Black?
Jacob e eu nos olhamos, e, como se estivéssemos ligados por algo maior, dissemos juntos:
— Somos nós.
O médico assentiu com gentileza.
— A menina sofreu uma fratura na perna esquerda, teve algumas escoriações pelo corpo, mas felizmente está fora de perigo. Está consciente e estável. Vai precisar de repouso e acompanhamento ortopédico, mas ela vai ficar bem.
Meu corpo cedeu num alívio silencioso. Eu levei a mão à boca, fechando os olhos. Jacob apertou minha cintura com firmeza, me sustentando.
— Posso vê-la? — perguntei, com a voz embargada.
O médico assentiu.
— Sim. Vou pedir para que a enfermeira leve vocês até o quarto.
Jacob entrelaçou os dedos nos meus. E ali, no meio daquele hospital gelado, entre mágoas e feridas, nós estávamos prestes a ver nossa filha.
Nossa Sophie.
Nosso milagre.
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O corredor até o quarto dela parecia interminável.
Meu coração batia tão forte que eu podia ouvir a pulsação nos meus ouvidos. As paredes pareciam estreitar ao nosso redor, e minhas mãos tremiam dentro das mangas do casaco. Jacob caminhava ao meu lado, em silêncio, mas seu maxilar estava tenso. Ele sentia o mesmo que eu — medo, dor, amor, esperança.
A enfermeira parou diante da porta e nos olhou com gentileza:
— Ela está sonolenta, por conta da medicação, mas consciente. Pode parecer um pouco grogue, mas é normal. Fiquem à vontade.
Assenti com a cabeça, engolindo em seco. Jacob apertou minha mão uma última vez antes de girar a maçaneta.
O quarto era simples, limpo, iluminado por uma luz suave. O bip dos monitores preenchia o silêncio.
E ali, deitada na cama, com a perna esquerda imobilizada e o braço arranhado, estava ela.
Clara.
Minha filha.
Sophie.
Seu rosto estava pálido, mas seus traços eram os meus. O cabelo levemente bagunçado sobre o travesseiro, os lábios entreabertos... e aqueles olhos, mesmo semicerrados pela sonolência, pareciam procurar por algo — por alguém.
— Papai... — ela sussurrou, com a voz fraca, e meu coração se despedaçou e se refez ao mesmo tempo.
Jacob se aproximou imediatamente, sentando-se ao lado dela e acariciando seus cabelos.
— Ei, minha menina... estamos aqui. A Nessie e eu ficamos muito preocupados com você.
Clara tentou sorrir. E naquele instante, mesmo machucada, mesmo dopada pela medicação, ela sorriu para mim.
Um sorriso doce. Inocente. Familiar.
Eu não aguentei. Me aproximei com cuidado, sentando na beirada da cama, e estendi a mão até a dela.
E então, eu toquei.
Os dedos dela estavam quentes, vivos. Os dedinhos que, por anos, imaginei segurando os meus. Aquele toque, por mais simples que fosse, foi como atravessar um véu, um tempo perdido.
Senti meu peito se abrir. Um furacão de sentimentos me invadiu — amor, dor, saudade, esperança, gratidão. Era como se meu coração dissesse:
"Você está aqui. Eu achei você."
Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu as deixei cair. Não escondi nada. Era o toque da minha filha depois de doze anos de vazio.
— Oi, Clara... — minha voz falhou, mas continuei. — Você foi muito corajosa, sabia?
Ela piscou devagar, apertando levemente minha mão. Aquele pequeno gesto era tudo para mim. Era o reencontro de uma vida interrompida. Era minha alma voltando ao lugar de onde nunca deveria ter saído.
Jacob me olhou. Seus olhos também estavam marejados. E por um instante, sem precisar de palavras, compartilhamos a mesma verdade:
Nossa filha estava ali. E ela era real. Viva. Linda.
E era só o começo.
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