O Lado Sombrio do Amor
51 Minha Sophie
Narrado por Renesmee
Deixamos o quarto em silêncio, Jacob e eu. Ainda podia sentir o calor dos dedos de Clara — Sophie — nos meus. Era como se parte de mim quisesse ficar ali, ao lado dela, para sempre. Mas eu precisava respirar. Precisava entender tudo que estava acontecendo ao meu redor.
Ao chegar à recepção, fui surpreendida pelos olhos aflitos de Bella e Alec.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, Alec me envolveu em um abraço apertado, protetor. Senti seu perfume, familiar e reconfortante, e me permiti descansar um instante ali, nos braços dele.
— Tudo vai ficar bem agora — ele murmurou, depositando um beijo demorado em minha testa. — Eu prometo, minha linda.
Assenti, respirando fundo.
Logo em seguida, ouvi vozes atrás de Jacob.
Rachel, Paul e Solomon se aproximaram com passos rápidos. Todos com expressões sérias.
— Como ela está? — Rachel perguntou, tentando manter a compostura.
— Vai ficar bem — Jacob respondeu com a voz embargada. — Fraturou a perna, teve escoriações... mas está viva. Graças a Deus.
Me virei para Solomon, que parecia conversar com dois policiais à porta de entrada do hospital. Franzi o cenho.
— Por que há policiais aqui? — perguntei, olhando em volta com desconfiança.
Solomon respondeu prontamente, seu tom firme:
— Fui eu quem solicitou proteção para Clara. Depois do que Claire fez... tentei impedir que algo pior acontecesse. E o juiz acatou meu pedido.
— Proteção judicial? — perguntei surpresa.
Ele assentiu.
— Clara está sob custódia legal. Claire está sendo monitorada. E, se tentar se aproximar da menina, será detida imediatamente.
Senti um alívio, ainda que pequeno. Claire estava acuada... pela primeira vez em anos.
Jacob então se voltou para mim e disse com calma:
— Eu já assinei a autorização para você permanecer com ela aqui no hospital. Diante da lei, ainda sou o único responsável legal pela Clara, mas... — ele fez uma pausa — não seria justo impedir você de estar com ela. Não depois de tudo.
Olhei para ele, tocada por suas palavras. Havia tanto arrependimento e dor em seu olhar... mas também havia sinceridade. Verdade.
— Obrigada — sussurrei.
Nos olhos dele, vi o homem que conheci anos atrás. O homem que Sophie merecia ter como pai.
E naquele instante, tudo o que importava era ela.
Minha filha. Nossa filha.
E eu ficaria ao lado dela. Custe o que custar.
Narrado por Renesmee
O hospital parecia menos sufocante quando Alec me puxou pelo braço e praticamente me obrigou a ir até a lanchonete no térreo. Ele disse que, se eu desmaiasse por não comer, Sophie acordaria e me daria uma bronca. A simples menção da minha filha falando comigo me fez ceder.
Agora estávamos sentados à mesa de canto, a bandeja à nossa frente com uma fatia de torta de maçã, um café para ele e um chá para mim. Meus dedos mexiam distraidamente no saquinho de açúcar enquanto meu coração ainda estava no quarto, junto de Clara.
Alec apoiou os cotovelos na mesa e me olhou com aquela intensidade gentil que sempre me desarmava.
— E então? — ele perguntou, num tom leve, mas direto. — O que você sentiu... estando tão próxima do Jacob depois de tudo?
Levantei os olhos, surpresa com a franqueza da pergunta. Ele não parecia zangado. Só queria saber. Respirando fundo, encarei-o com honestidade. Ele merecia isso.
— Eu... não vou mentir pra você, Alec. Sentir algo... eu senti, sim — confessei, minha voz baixa, mas firme. — Quando o vi ao lado de Sophie, quando me abraçou no corredor... foi como uma onda do passado me engolindo inteira.
Ele assentiu lentamente, como se já esperasse aquela resposta. Mas não desviou o olhar.
— Mas — continuei, apertando a mão dele sobre a mesa — eu amo você. É com você que construí minha vida. É você quem segurou minha mão quando ninguém mais estava ali. E... eu preciso que confie em mim. O Jacob é a ponte entre mim e a nossa filha. E só por isso, Alec... por isso eu preciso estar perto dele agora.
Alec sorriu. Um sorriso cheio de compreensão e ternura. Apertou minha mão de volta e se inclinou ligeiramente para a frente.
— Eu entendo, Nessie — disse com suavidade. — Eu sabia no que estava me metendo quando me apaixonei por você. Só quero que saiba... estou com você. Até o fim. Não importa o que venha pela frente.
Senti meus olhos arderem. Meu coração estava em pedaços e, ao mesmo tempo, aquecido por aquele gesto de confiança. Inclinei-me para beijar sua mão.
— Obrigada por não me soltar — sussurrei.
Ele riu.
— Nem se quisesse.
Ficamos ali por alguns minutos em silêncio, cada um preso em seus próprios pensamentos. Eu sabia que ainda havia muito a enfrentar. Mas com Alec ao meu lado e Sophie a poucos andares dali, havia uma nova força crescendo dentro de mim.
E eu a usaria para reconstruir o que o destino havia me arrancado.
Narrado por Jacob
Quando abri a porta do apartamento, encontrei minha família me esperando. O cansaço grudava nos meus ombros, mas o olhar aflito de todos ali me manteve de pé.
Minha mãe foi a primeira a se levantar. Sarah caminhou até mim com lágrimas nos olhos e me abraçou apertado, como se quisesse apagar com aquele gesto todas as dores do dia.
— Meu menino… — ela murmurou, com a voz embargada. — O que fizeram com você… com a nossa menina…
Apenas fechei os olhos, sentindo o calor daquele abraço. Por um momento, deixei que ela me segurasse como fazia quando eu era só um garoto perdido em meio aos próprios erros.
Rebecca se aproximou logo depois, com os olhos preocupados.
— Como ela tá, Jake? Como tá a Clara?
— Fora de perigo — respondi, tentando manter a voz firme. — Fratura na perna, alguns hematomas… Mas… ela vai ficar bem.
Bonnie cruzou os braços e disse com a irritação típica dela:
— Eu sempre disse que essa história da gravidez da Claire era mal contada. Ninguém viu aquela mulher grávida! Sumiu e depois reapareceu com uma criança no colo como se tivesse saído de uma novela mexicana.
Solomon, que até então estava quieto num canto da sala, atendeu o celular. Sua expressão mudou imediatamente. Ele se virou para mim com um olhar sério e se aproximou.
— Jacob… — disse com um peso na voz — Logan foi à delegacia.
— Logan? — franzi a testa, confuso.
— Ele confessou. Disse que foi o único responsável pelo sequestro da bebê em Annecy. Que agiu sozinho, sem o conhecimento da Claire. Assumiu toda a culpa.
Um silêncio cortante caiu sobre a sala.
— O quê? — perguntei, quase sem ar. — Ele está tentando livrar a pele dela. É isso. Um acordo. Ou é mentira.
Solomon balançou a cabeça.
— Os advogados já estão se mexendo. Mas o juiz vai solicitar a análise de provas antigas, movimentações financeiras, registros médicos… Vai ser tudo revirado. Agora é com a Justiça.
Me afastei, passando a mão pelos cabelos, a cabeça girando com a quantidade de informações.
Logan assumindo? Claire tentando fugir. Renesmee me olhando com aqueles olhos desesperados no hospital. E no meio disso tudo… Clara. Minha menina.
Minha filha.
— Eu preciso ficar forte por ela — sussurrei, mais para mim do que para os outros.
Minha mãe colocou a mão em meu ombro.
— E você vai, Jacob. Porque agora ela tem você. De verdade.
Assenti em silêncio, sentindo o peso da responsabilidade e a urgência de proteger o que mais importava.
Sophie me tinha.
E eu jamais a deixaria de novo.
Já era noite quando saí do banho. A água quente havia aliviado o peso nos meus ombros, mas não o tumulto dentro da minha cabeça. Vesti uma camisa preta simples e uma calça jeans. Queria parecer tranquilo, mas não havia paz em mim.
Desci até o escritório. Solomon, Paul e Bonnie estavam me esperando. Rebecca estava lá também, organizando as coisas de Clara com sua eficiência maternal.
— Alguma novidade? — perguntei, puxando uma cadeira ao lado de Solomon.
Ele respirou fundo antes de responder:
— Sim. Apesar da confissão de Logan Young, o juiz autorizou o mandado de busca e apreensão na mansão dos Young. A polícia já está se movimentando.
— Mas se o Logan assumiu a culpa… por que o mandado? — questionei, franzindo a testa.
Solomon passou a mão no queixo, pensativo.
— Porque a confissão dele pode ser uma estratégia para livrar a Claire. O juiz quer garantir que provas não desapareçam. Qualquer registro, foto, diário, objetos da infância da Clara... tudo isso pode comprovar a origem dela. A promotoria está sendo cuidadosa.
— Eles sabem que ela é minha filha — murmurei, quase pra mim mesmo.
Naquele instante, Rebecca entrou no escritório com uma mochila azul nas mãos.
— Aqui estão as roupas da Clara, material de higiene, algumas coisinhas que ela gosta… — disse com um sorriso triste.
Levantei e peguei a mochila.
— Obrigado, Becca. De verdade.
Ela assentiu e apertou meu braço com carinho.
Solomon se levantou e se aproximou de mim.
— Eu vou te manter informado sobre as investigações, Jake. Se Claire tentar alguma outra jogada, vamos saber.
Assenti.
— Obrigado, irmão. Eu não sei o que faria sem vocês.
Ele sorriu de leve.
— Você faria o que sempre faz. Luta.
Antes que ele saísse da sala, ele se virou mais uma vez:
— Ah, e só pra lembrar: seu depoimento está marcado para amanhã às oito. A policia quer ouvir você, oficialmente. Sobre Claire, sobre Clara, sobre tudo.
— Eu estarei lá. — Respondi firme.
Paul bateu no meu ombro e Bonnie apenas cruzou os braços com um olhar protetor.
Eu sabia que os próximos dias seriam intensos. Mas não importava. O importante agora era Clara.Sophie. Minha filha.
E eu estava pronto pra enfrentar o mundo por ela.
Narrado por Renesmee
O quarto estava silencioso, exceto pelo leve som dos monitores. Eu estava sentada na poltrona ao lado da cama, observando cada movimento de Clara. Mesmo com a perna imobilizada e os curativos visíveis, ela ainda parecia… perfeita.
Ela mexeu a cabeça devagar, os olhos abrindo-se em meio ao torpor da medicação. Sorriu quando me viu.
— Tô com sede — murmurou, a voz baixa e arranhada.
Imediatamente me levantei e peguei o copo com canudo que a enfermeira havia deixado.
— Aqui, devagar, tá bom? — aproximei o canudo de seus lábios e segurei o copo com uma das mãos, enquanto com a outra apoiava levemente sua nuca.
Ela bebeu um pouco e suspirou, aliviada.
— Obrigada — disse, e depois olhou ao redor, confusa. — O que… o que aconteceu com a minha mãe?
Senti meu peito apertar.
A menina ainda não sabia da verdade. Ainda era cedo, ainda era delicado demais.
Engoli em seco.
— A Claire… ela não está muito bem emocionalmente, Clara. Precisa de um tempo… pra se cuidar — falei o mais suavemente possível.
Clara assentiu lentamente, seus olhos marejados.
— Eu meio que senti isso… faz um tempo. Tá tudo bem, acho.
Minha vontade era abraçá-la e dizer que tudo ia ficar bem. Que ela não precisava mais temer ou se sentir sozinha. Mas tudo ao seu tempo.
— Agora você tem muita gente pra cuidar de você, e eu sou uma delas — disse, tentando manter a voz firme.
Ela sorriu, aquele sorrisinho que eu conhecia melhor do que ninguém.
— E o meu pai?
— Ele ligou há pouco — respondi, passando os dedos pelos fios do cabelo dela —. Disse que está vindo.
Os olhos dela brilharam.
— Que bom… — murmurou, depois fez uma pausa e olhou pra mim com uma carinha de travessa — Você acha que eu posso comer chocolate?
Soltei uma risada leve.
— Olha, depois do susto que você deu em todo mundo, acho que pode comer o que quiser.
Ela riu, e foi música pros meus ouvidos. Então, segurou minha mão com a sua, quentinha e pequena, e me olhou com doçura.
— Você é muito legal. Bem que o meu pai podia namorar você, já que ele tá se divorciando da minha mãe…
Fiquei sem reação por alguns segundos, meu coração acelerando.
— Ei… — disse com um sorriso tímido, tentando disfarçar a emoção — acho que seu pai tem outras prioridades agora. Tipo cuidar de uma menina incrível com a perna engessada.
— Tá… mas mesmo assim, vocês combinam — disse ela, virando o rosto pro outro lado, um sorriso sonolento nos lábios.
Beijei a testa dela, sentindo as lágrimas se acumularem nos olhos. Era como se, mesmo sem saber, ela me aceitasse. Ela me sentisse.
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