O Lado Sombrio do Amor
17 Manso como um cordeiro
Narrado por Renesmee
O sol entrava preguiçoso pelas frestas da janela do quarto de hóspedes. Meus olhos se abriram devagar, e por alguns segundos apenas encarei o teto, absorvendo tudo que havia acontecido. Eu estava onde precisava estar.
Levantei devagar, sentando-me na borda da cama. O silêncio da mansão Black era quase reconfortante. Me aproximei da janela e abri lentamente as cortinas. O jardim da frente era impecável, com as flores bem cuidadas por Sarah. E lá estava ele.
O carro de Claire.
Arqueei uma sobrancelha. Tão previsível. Ela não descansaria até tentar consertar o que não tinha mais conserto.
Vesti o robe por cima da camisola preta que Sarah havia me emprestado na noite anterior e caminhei até a porta. Respirei fundo, compondo a expressão certa — um misto de surpresa e receio — e abri-a devagar. Os sons da discussão vieram imediatamente pelos corredores. A voz de Jacob, cortante. A de Claire, desesperada.
Me aproximei da escada com passos lentos e certeiros, até que minha presença fosse inevitável. Então desci, como se estivesse sendo empurrada apenas pela curiosidade e não pela intenção.
— Claire? — perguntei, fazendo minha voz soar genuinamente surpresa. — O que está fazendo aqui?
Ela se virou como um raio, os olhos em chamas.
— O que VOCÊ está fazendo aqui, Renesmee?
Fingi um leve constrangimento, abaixando os olhos como se não soubesse onde me enfiar.
— Eu ouvi vocês discutindo e… fiquei preocupada. Só isso.
— Você dormiu aqui? — ela disparou, afiada como uma faca.
Fiz questão de parecer assustada com a pergunta, e neguei com a cabeça.
— Não é nada do que você está pensando, Claire…
— E o que exatamente eu estou pensando, hein? — ela avançou um passo, agressiva.
Antes que eu pudesse responder, Jacob se colocou entre nós.
— Claire, chega! Não fala com ela desse jeito.
— Desde quando vocêa defende? — gritou, sem acreditar. —
Jacob cruzou os braços, firme.
— Renesmee não fez nada de errado. Quem me envergonhou foi você, não ela.
Abaixei a cabeça, encenando um desconforto tão convincente que quase acreditei.
— Talvez… talvez seja melhor eu trocar de roupa e ir embora. — sussurrei, dando meia-volta.
Claire não respondeu, talvez engasgada pelo orgulho ferido. Subi as escadas lentamente, sentindo o peso dos olhares nas minhas costas. Quando fechei a porta do quarto de hóspedes, encostei-me nela por alguns segundos.
Então sorri.
O tipo de sorriso que ninguém deve ver.
A primeira parte estava completa. Claire se destruiu. Jacob me protegeu. Sarah confiava em mim. Billy me admirava.
Agora… só faltava ele me amar.
Narrado por Jacob
Fiquei observando Renesmee subir as escadas. Seus passos eram lentos, quase hesitantes, mas carregavam um peso que eu não soube nomear. O robe preto balançava suavemente atrás dela, como uma despedida silenciosa. Algo nela me fazia querer protegê-la… mesmo quando minha cabeça dizia que eu devia manter distância.
— Claire — a voz firme de minha mãe cortou o ar. — Vá embora. Agora. Antes que eu me esqueça do laço familiar que ainda temos por causa da sua mãe.
Claire girou o rosto para Sarah com indignação, mas não respondeu. Ela sabia que não venceria minha mãe com argumentos, não naquela casa.
— Mãe, tio... deixem a gente a sós. — pedi, com um tom que não dava margem a réplica.
Sarah me olhou como quem queria dizer algo, mas apenas assentiu e saiu com Bonnie. O silêncio que restou entre mim e Claire parecia mais cortante que qualquer palavra.
Ela cruzou os braços, com os olhos marejados.
— Jake… por favor. Eu…
— Não. — interrompi, seco. — Não começa com esse “por favor”.
Ela se encolheu um pouco, mas continuou ali, parada, como se ainda houvesse algo a salvar.
— Você me traiu, Claire. Não só como homem, mas como parceiro, como alguém que te protegeu, que confiou. — continuei, sem levantar o tom, mas firme como pedra. — Você destruiu tudo o que a gente tinha. Tudo.
— Eu não queria que fosse assim…
— Então por que foi? — dei um passo à frente. — Você podia ter me dito que não me amava, que não era feliz… qualquer coisa! Mas não, você preferiu se esgueirar pros braços de outro homem como se isso fosse a solução.
Claire chorava agora. Silenciosa, como se cada lágrima queimasse sua pele.
— E sabe o que é pior? — continuei, encarando-a. — Você foi burra o bastante pra pensar que ninguém nunca descobriria. Você não pensou em mim, nem na minha família, nem no nosso futuro. Só pensou em si mesma.
— Eu me perdi… — ela tentou, a voz falhando.
— Não, Claire. Você se revelou. — disparei. — Agora some da minha casa. Some da minha vida.
Ela ficou mais alguns segundos parada, como se ainda esperasse que eu mudasse de ideia. Mas meus olhos não vacilaram. Então ela se virou, e saiu pela porta com o rosto banhado em lágrimas.
Suspirei pesadamente e passei as mãos no rosto. Uma parte de mim doía, claro. Ninguém termina um noivado sem carregar algumas feridas. Mas não havia espaço pra lamentações agora.
Eu subi as escadas em silêncio, sem fazer barulho. Minhas pernas pareciam pesar mais que o normal, mas cada degrau me levava de volta à imagem dela — Renesmee, em sua serenidade disfarçada. Aquela mulher não era só beleza… era força, inteligência, presença.
E agora, sozinha naquele quarto.
Bati de leve na porta.
— Nessie… podemos conversar?
Narrado por Renesmee
Do corredor, as vozes de Jacob e Claire ecoavam como se estivessem dentro do meu peito. Cada palavra, cada acusação, era uma confirmação de que o castelo que ela construiu desmoronava diante dos próprios olhos. E eu… apenas observava em silêncio, de portas entreabertas e ouvidos atentos.
Logo o silêncio caiu. Um silêncio carregado, como o intervalo entre o trovão e a tempestade.
Voltei para o quarto de hóspedes com passos lentos, tirando o robe e largando-o sobre a poltrona. Deslizei a camisola pelos ombros e peguei o vestido da noite anterior pendurado no encosto da cadeira. Suspirei diante do espelho — estava tudo acontecendo rápido demais, mas exatamente como eu precisava.
Ouvi os passos. Leves, cautelosos… E então a voz:
— Nessie… podemos conversar?
Fingi um susto e me virei parcialmente, ainda de costas para a porta. A entrada se abriu um pouco mais, revelando Jacob parado ali — e eu, apenas de calcinha.
— Jacob! — exclamei, cobrindo os seios com o vestido nas mãos. — Meu Deus, você nunca ouviu falar em bater na porta?
Os olhos dele se arregalaram e ele virou de costas no mesmo segundo.
— Desculpa! Eu… a porta estava encostada, achei que…
— Pois deveria ter certeza. — resmunguei, tentando soar mais indignada do que realmente estava, mesmo com um pequeno sorriso se formando nos meus lábios.
Rapidamente, vesti o vestido e ajeitei os cabelos. Olhei para ele, ainda de costas, com as mãos nos bolsos, desconcertado.
— Já pode olhar — falei, controlando o tom da voz, fingindo um leve constrangimento.
Ele se virou devagar, os olhos ainda um pouco tensos, como se não soubesse exatamente o que fazer com as mãos ou com a própria presença.
— Eu queria agradecer — ele disse, finalmente. — Por ontem. Por ter me ajudado. E... por não ter me deixado sozinho.
Assenti, me aproximando com passos leves.
— Eu faria de novo, se precisasse. — respondi, encarando-o nos olhos. — Amigos fazem isso, não é?
Ele hesitou. Por um segundo, juro que vi algo nos olhos dele — um brilho contido, um desejo não dito. Mas, como sempre, ele disfarçou.
— Claire foi embora? — perguntei, como quem toca numa ferida com a ponta dos dedos.
— Foi. — ele respondeu com amargura. — E devia ter ido antes.
A atmosfera entre nós pesou por um instante. Mas não era um peso ruim. Era denso… íntimo.
Jacob permaneceu ali, em pé diante de mim, o olhar mais sóbrio do que o corpo provavelmente permitia. Talvez não fosse o álcool que o deixava vulnerável... mas a queda.
— Você e Claire... — comecei, mantendo a voz suave. — São meus amigos. Eu só consigo imaginar o quanto tudo isso está sendo duro para vocês dois.
Ele franziu o cenho, como se minhas palavras fossem mais difíceis de engolir do que o uísque da noite passada.
— Você ainda defende ela... depois de tudo o que fez? — sua voz saiu baixa, um misto de mágoa e incredulidade.
Suspirei, tentando manter a compostura.
— Não estou defendendo, Jake. Só… não sou ninguém para julgar. Claire errou feio, e como amiga, pode ter certeza que vou puxar a orelha dela. — olhei para ele com sinceridade. — Mas isso não apaga tudo o que ela foi até aqui.
Ele me encarou como se estivesse me vendo pela primeira vez. E então disse, com aquela voz grave que sempre fazia meu estômago revirar:
— Você é incrível, Nessie.
Meu coração tropeçou, mas sorri, controlando a reação, como se não tivesse escutado o que tanto desejei ouvir.
— Acho melhor eu ir. Já me estendi demais por aqui. — murmurei, me levantando com calma.
Jacob deu um passo à frente.
— Eu te levo.
Fingi surpresa.
— Você tem certeza? Está bem pra dirigir?
— Agora estou. — respondeu, com um leve sorriso nos lábios. — E... eu quero te levar.
— Tudo bem, então. — respondi, caminhando até a porta com ele. — Mas só se prometer que não vai dar em cima da sua carona.
Ele riu baixo, abrindo a porta para mim.
— Só se ela não der em cima de mim primeiro.
Me virei para ele, arqueando a sobrancelha.
— Não se ache tanto, Jacob Black.
Mas por dentro… eu sabia exatamente o que estava fazendo. E ele também.
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