Narrada por Jacob


Parei o carro diante do prédio simples, mas limpo, num bairro de classe média. Ela sorriu ao olhar para cima, orgulhosa de si mesma, mesmo depois de uma noite como aquela. Havia algo naquela garota… uma mistura de força e ternura que me deixava em conflito.

— Obrigada por me trazer. — disse ela ao descer do carro. — E por tudo ontem à noite. Mesmo bêbado, você foi gentil.

— Eu quem agradeço, Nessie. Você me salvou.

Ela sorriu de lado, inclinou-se e me beijou no rosto. Senti o toque suave dos lábios dela como um calor que ficou ali tempo demais. Antes que eu pudesse reagir, ela já havia se virado e caminhado até a entrada.

Observei-a sumir no prédio e só então liguei o motor. Deixá-la ali, naquele apartamento pequeno, depois de vê-la no palco de uma das festas mais luxuosas da cidade, me provocava uma sensação estranha. Mas talvez aquele fosse o mundo real dela — longe das câmeras, longe de mim.

Ao chegar em casa, estacionei devagar e entrei no saguão. A porta da sala estava entreaberta, e logo ouvi as vozes das minhas irmãs.

— Ai, meu Deus! Passa de novo essa parte! — dizia Rachel, gargalhando.

— Ele ficou branco! Tipo... branco mesmo! — completava Rebecca, segurando uma almofada no colo.

Na televisão, um programa de celebridades reprisava a noite de ontem.

— E o prêmio de corno do ano vai para... — disse a apresentadora com um sorriso debochado. — Jacob Black! O bonitão traído em público com direito a telão, música e bolo! Claire Yong, você fez história, minha filha!

Rebecca deu risada de novo, mas a risada morreu quando minha mãe, parada atrás delas, cruzou os braços.

— Desliga. Agora. — ordenou Sarah.

Rachel resmungou, mas obedeceu.

— Vocês duas não têm respeito nenhum! — ela completou, voltando para a cozinha.

Fiquei parado por um instante, vendo a tela escura e o reflexo da minha própria cara ainda ardendo de vergonha. Depois olhei para minha mãe — Onde está Billy?

— Seu pai está no escritório— Respondeu minha mãe.


Fechei a porta do escritório e caminhei até a poltrona diante da escrivaninha onde meu pai já me esperava, apoiado em sua bengala, os olhos fundos fixos em mim.

— Você estava certo, pai. — comecei, olhando-o nos olhos. — Claire, Logan, tudo aquilo... foi uma jogada. Uma armadilha. Agora eu enxergo.

Billy ergueu o queixo levemente, mas ainda mantinha o silêncio. Eu continuei:

— Chega de drama, chega de paixões. A partir de agora, só os negócios importam.

Os olhos de Billy brilharam. Ele descruzou os braços, inclinado para frente com um leve interesse.

— Vai seguir meus conselhos, então? — perguntou, desconfiado.

— Sim. Pretendo me casar com Renesmee. — falei sem hesitar.

O sorriso que surgiu no rosto dele foi lento, satisfeito... quase vitorioso.

— Excelente. — ele disse. — Você não faz ideia do quanto isso muda o jogo, Jacob. A união de Black e Cullen… ninguém vai conseguir competir.

— É uma jogada inteligente. Ela é herdeira, tem a confiança da família, está dentro da empresa. E o principal: ela confia em mim.

Billy assentiu lentamente e completou com um tom quase paternal:

— E vamos falar a verdade, filho... não é nenhum sacrifício, não é? A jovem é linda. E pelo que vejo, demonstra um claro interesse por você.

Cruzei os braços e olhei para o chão, em silêncio por alguns segundos. A imagem de Renesmee sorrindo, fingindo timidez, sendo doce e misteriosa… tudo se embaralhava na minha cabeça.

— É... ela é. — murmurei. — Mas eu não vou me perder no jogo, pai. Isso é uma aliança, não uma história de amor.

Billy sorriu ainda mais.

— Então você está pronto. Agora é só preparar o terreno. E dar o bote no momento certo.

Fiquei em silêncio, absorvendo cada palavra. A decisão estava tomada. A guerra entre os impérios estava só começando — e eu acabara de escolher de que lado queria vencer.


Narrado por Renesmee


Tomei um banho demorado, deixando a água morna escorrer pelo meu corpo como se pudesse lavar o peso do que eu estava prestes a fazer — ou do que já havia feito.

Depois de me trocar, sentei em frente ao notebook. A tela se acendeu, e lá estava ela. Claire.

A câmera do apartamento mostrava minha querida amiga… destruída.

Ela chorava, sentada no sofá, abraçada às próprias pernas. O rosto pálido, os olhos inchados. Parecia a imagem viva da ruína. Poucos minutos depois, Quil entrou. Assim que a viu, correu até ela. Eles se abraçaram com força, como se o mundo ao redor deles tivesse desabado — e só o que restasse fosse o calor um do outro.

Suspirei.

Eu não era uma vilã. Sabia disso. Mas, às vezes, o caminho para vencer exigia escolhas... difíceis.

— Não é o que eu gostaria de fazer, Claire — sussurrei, ainda olhando para a imagem congelada deles se abraçando. — Mas é o que eu preciso fazer.

Fechei o notebook lentamente.

Claire amava Quil. Disso, eu nunca tive dúvidas. E Jacob… Jacob não a amava como ela merecia. Ele já estava preso demais no próprio império. Talvez, no fim, eu estivesse apenas reorganizando as peças de um tabuleiro onde ninguém queria jogar limpo.

Me olhei no espelho do corredor, ajeitei a blusa e os cabelos. O reflexo me devolveu um olhar firme, decidido.

Sorri.

— Hora de ser a melhor amiga compreensiva, Claire… — murmurei.

Peguei minha bolsa e saí, fechando a porta atrás de mim. O plano ainda estava em andamento. Mas agora, o que eu precisava era muito simples: Continuar sendo a boa amiga. Não era o momento de perder a confiança de Claire.


Toquei a campainha do apartamento de Claire com um leve sorriso no rosto e uma expressão preocupada cuidadosamente construída. Quil foi quem abriu a porta. Seus olhos estavam vermelhos, e ele parecia exausto.

— Nessie… — ele murmurou, surpreso.

— Posso entrar?

Ele deu espaço, e assim que pisei no apartamento, vi Claire. Ela estava de pé, de braços cruzados, com o rosto marcado pelo choro… e raiva.

— Você dormiu na casa do Jacob — disparou, como se não aguentasse mais guardar aquilo.

Suspirei e caminhei em direção a ela com calma.

— Claire, eu… não foi o que você está pensando. — Minha voz soou baixa, ferida, como uma amiga decepcionada por estar sendo julgada.

— Então me explica — ela exigiu, os olhos cravados nos meus.

— Jacob estava um trapo, Claire. Bebendo, arrasado com tudo que aconteceu. Ele nem conseguia andar. Se eu o deixasse sozinho, seria irresponsável… Você sabe disso. — Pausa dramática. — Eu dormi num quarto de hóspedes. A Sarah e o Billy estavam lá o tempo todo. Eu só fiz o que qualquer amiga faria. Mas se isso é imperdoável pra você… então talvez eu não seja a amiga que você achava que eu era.

Claire me olhou em silêncio por alguns segundos, as defesas caindo pouco a pouco. Quil deu um passo atrás, desconfortável.

— Eu vou deixar vocês conversarem… — disse ele, já se virando para sair.

— Não. — Segurei levemente o braço dele. — Claire precisa de você agora, Quil. Mais do que nunca.

Ela fungou e se sentou no sofá. Eu me abaixei e segurei suas mãos.

— Você precisa respirar, clarear a mente… sair por um tempo. Todos estão te apontando o dedo. Não é justo, mas é real. A mídia não vai esquecer isso tão cedo… — disse em tom gentil, como quem oferece o melhor dos conselhos.

— E o que eu deveria fazer? Me esconder? — ela perguntou com voz fraca.

— Não se esconder. Se preservar. Viajar. Se afastar dos holofotes. Voltar mais forte. Mais segura. A Claire que eu conheço não se entrega fácil.

Quil assentiu.

— A Nessie tem razão. A gente precisa sair daqui por um tempo. Londres seria uma boa.

Claire olhou de um para o outro. Eu mantive meu olhar firme, solidário… e sutilmente vitorioso por dentro.

— Londres? — ela repetiu, surpresa.

— Só nós dois. Até as coisas se acalmarem — Quil disse, sincero.

— E eu cuido de tudo por aqui, Claire — acrescentei. — Você pode confiar em mim.

Ela respirou fundo e assentiu devagar, mais tranquila. Meu plano seguia como esperado.

— Tudo vai ficar bem — sussurrei, abraçando-a. — Eu prometo.