Narrado por Renesmee


A dor de cabeça era latejante, como se martelos ecoassem dentro do meu crânio. Pisquei algumas vezes, tentando entender onde estava. O teto do meu quarto. Luz fraca. Uma presença sentada ao meu lado.

— Renée? — murmurei, minha voz falhando.

— Você acordou… graças a Deus. — A voz dela era baixa, mas carregada de tensão. Seus olhos estavam vermelhos.

— O… o que aconteceu? — tentei me sentar, mas o mundo girou novamente e precisei me apoiar.

Renée segurou meu braço com delicadeza.

— Você me ligou ontem à noite… chorando, quase sem conseguir falar. Vim correndo. Os vizinhos disseram que ouviram gritaria. Os seguranças do prédio intervieram. Tiraram o Jacob e aquele rapaz do seu apartamento. — Ela fez uma pausa, tentando medir as palavras. — Você não lembra de nada?

Fechei os olhos com força, tentando puxar qualquer lembrança do buraco nebuloso que minha memória havia se tornado. Vozes… passos apressados… Jacob gritando… minha cabeça girando…

— Eu… só lembro da campainha. Eu achei que era o Jacob. Tinha ido pegar um pouco de sal com meu vizinho… depois disso… tudo ficou turvo.

Renée segurou minha mão com firmeza.

— Você precisa ir ao hospital, Nessie. Isso não é normal. Está claro que foi drogada.

Meu estômago se revirou. Uma onda de medo subiu pelo meu peito e se instalou no fundo da garganta. Meus olhos se arregalaram ao lembrar do olhar de Jacob.

Ele me viu… naquela situação.

— Jacob… ele me viu com o Nahuel. — sussurrei, sentindo um nó de desespero se formar.

— Ele parecia transtornado. Disseram que os dois quase se mataram aqui dentro. — Renée suspirou. — Ainda bem que os seguranças chegaram rápido.

Balancei a cabeça, tentando afastar as lágrimas.

— Eu preciso falar com o Nahuel. — Me levantei, ignorando a tontura, e saí do quarto, indo até a porta do apartamento à frente. Toquei a campainha.

Nada.

Toquei de novo. Silêncio.

Um segurança que passava no corredor se aproximou.

— A senhorita procura o morador do 1403?

Assenti.

— Ele saiu bem cedo. Duas malas, parecia com pressa. Pediu um táxi. Não deixou recado.

Voltei a encarar a porta fechada.

— Ele fugiu… — sussurrei, sentindo um frio subir pela espinha. — Ele sabia exatamente o que estava fazendo.

Voltei ao meu apartamento com o coração disparado. Jacob… meu bebê…

Levei a mão à barriga, instintivamente.

Renée me observava do sofá, preocupada.

— Eu preciso te contar uma coisa… — falei, respirando fundo.

Ela se aproximou.

— Estou grávida, Renée. Grávida do Jacob.

Os olhos dela se arregalaram. Ela levou a mão à boca, surpresa.

— Oh, Renesmee…

— Eu ainda nem contei a ele… e agora… depois disso tudo… — Meus olhos encheram d’água.

Renée me puxou para um abraço apertado.

— Vamos resolver isso. Mas agora, precisamos cuidar de você… e do bebê. Vamos ao hospital. Já.

Assenti, sabendo que essa era apenas a primeira onda de uma tempestade que estava prestes a explodir.


O ambiente branco do hospital me causava um misto de incômodo e alívio. As luzes fluorescentes piscavam em silêncio, enquanto eu observava as gotas de soro caindo ritmadamente pelo tubo transparente ao meu lado. O médico entrou com uma prancheta nas mãos, e seu semblante era calmo, mas firme.

— Senhorita Newton… — ele começou, parando ao lado da cama — Fizemos todos os exames necessários. Você e o bebê estão bem. O susto foi grande, mas, felizmente, não houve nenhum comprometimento.

Soltei um suspiro que nem sabia que estava prendendo. Renée, sentada na poltrona ao lado, também se endireitou, visivelmente mais tranquila.

— No entanto — o médico prosseguiu, ajustando os óculos no rosto — identificamos uma substância em seu sangue. É um alucinógeno chamado Zoltrivan. Pouco conhecido, mas extremamente potente em doses baixas. Costuma causar desorientação, perda parcial de memória e em alguns casos, confusão e sonolência severa.

Engoli em seco, sentindo meu estômago se revirar.

— Então... eu fui drogada — afirmei, com a voz embargada.

O médico assentiu, com um olhar sério.

— Sim. E pelas características do efeito, é provável que a substância tenha sido ingerida por via oral. Você se lembra de ter comido ou bebido algo pouco antes de começar a se sentir mal?

Lembrei do suco. O copo deixado na mesa de centro. O sal entregue a Nahuel.

— Sim… — sussurrei. — Eu bebi um suco. Antes disso, fui até a porta… meu vizinho pediu sal… eu fui até a cozinha… depois disso, minha visão ficou turva.

O médico fez uma anotação.

— Esse dado será útil. O hospital vai emitir um relatório e você pode apresentá-lo à polícia, caso decida fazer um boletim de ocorrência.

Assenti, mas minha mente estava em outro lugar. Em Jacob.

— Eu preciso falar com ele. — minha voz falhou.

Renée se levantou e segurou minha mão com carinho.

— Você precisa descansar, Renesmee. Se acalmar. Jacob está ferido… e confuso. Você precisa estar forte para encarar essa conversa. Ele vai ouvir você, mas no momento certo.

— Ele acha que eu o traí, Renée… — sussurrei, com o coração em pedaços.

— E você vai provar que não. Mas agora… só cuida de você… e do seu bebê. O resto a gente enfrenta junto, como sempre.

Fechei os olhos por um momento, tentando conter a avalanche de sentimentos. Medo. Raiva. Cansaço. Coração quebrado.

Mas eu não era mais só Renesmee.

Agora… havia uma vida dentro de mim.

E eu lutaria por ela. Por mim. Por nós.



Narrado por Jacob


A água quente do banho não foi capaz de lavar o gosto amargo que ainda pesava na minha boca. Meus músculos estavam tensos, e meus pensamentos um caos. Cada vez que fechava os olhos, a imagem dela naquele quarto... daquele jeito... voltava como um soco no estômago.

Saí do banheiro com a toalha nos ombros, os cabelos ainda pingando. O cheiro de café recém-passado indicava que não estava sozinho. Me vesti com pressa, e ao entrar na sala, encontrei Bonnie e meu pai sentados, me esperando como dois juízes prontos para emitir sentença.

— Bom dia — disse Bonnie, com um tom contido.

— Jacob, precisamos conversar — meu pai começou com firmeza.

— Não há o que conversar — cortei seco, indo até o armário e pegando a camisa que mais rápido encontrei. — Eu vi com os meus próprios olhos. Vi ela… com outro.

— Você viu ela drogada! — Bonnie rebateu, erguendo-se da cadeira. — E viu um homem no quarto dela. Isso não prova que ela o traiu, Jacob! Você sabe disso.

— Você quer mesmo acreditar que aquilo foi coincidência? — soltei, batendo a porta do armário. — A gente ia se casar! Duas semanas, Bonnie! E ela...

— Ela foi drogada! — Billy disse, mais alto do que o normal. — A menina estava em estado de confusão. Você mesmo disse que ela mal conseguia levantar da cama!

Eu respirei fundo, os punhos fechados. Olhei para os dois, mas já havia tomado minha decisão.

— Não vai mais haver casamento — declarei. — Que se danem os Cullen, que se dane essa aliança, que se dane tudo. Eu não quero mais ver a Renesmee na minha frente.

Bonnie caminhou até mim, segurando meu braço.

— Jacob, escuta. Você está magoado. Mas agora é a hora de agir com cabeça fria. Essa garota não é qualquer uma. Ela foi criada com mentiras. Ela tá tentando entender a própria origem. E você… você também faz parte disso.

— Eu cansei de tentar entender todo mundo — murmurei, soltando o braço com firmeza. — Ela me enganou. E eu não vou cair nessa outra vez.

Abri o cofre no canto do meu quarto, digitando a senha sem nem pensar. Peguei a pasta vermelha. A mesma que eu jurei nunca abrir… não antes da hora. Mas se era isso que ela queria, se a verdade era o que a Renesmee tanto buscava…

Eu iria entregar.

Billy entrou atrás de mim, preocupado.

— O que você vai fazer com isso, Jacob?

Virei para ele, com os olhos escurecidos pela raiva e a dor.

— Vou dar a Renesmee o que ela quer. Toda a verdade. A história que ela tanto procura. Cada nome, cada rosto, cada mentira. — Balancei a pasta na mão. — E depois disso… ela vai decidir sozinha se ainda quer fazer parte disso tudo.

Passei por eles sem olhar para trás, determinado, quebrado por dentro, mas decidido.

Billy me chamou, mas eu o ignorei.

Porque, às vezes, a maior dor não vem da traição… vem de perder alguém que você nunca teve por completo.



Narrado por Renesmee


O controle remoto deslizava por entre meus dedos sem que eu realmente prestasse atenção no que passava na televisão. Era como se tudo estivesse em pausa, menos o peso no meu peito. Desde que acordei naquele hospital, nada mais parecia fazer sentido. O som das vozes, os flashes da memória confusa, o gosto amargo de algo que eu não lembrava de ter vivido.

Renée tinha estado comigo há pouco. Cuidou de mim como uma mãe faria e prometeu voltar assim que resolvesse uma pendência no centro. Eu estava sozinha. Sozinha demais com meus pensamentos — e com o medo crescente do que Jacob poderia estar sentindo.

O toque da campainha me despertou de imediato. Meu coração acelerou. Minhas pernas hesitaram, mas me levantei. Cruzei a sala em passos lentos, como se estivesse indo em direção a um destino inevitável. Quando abri a porta, ali estava ele.

Jacob.

Alto, imponente, com o rosto mais frio do que eu já havia visto. Meu coração bateu mais forte, como se buscasse um abrigo naquela presença tão familiar. Mas seus olhos não me acolheram. Eles estavam vazios.

— Jake… eu posso explicar… — comecei, dando um passo à frente, sentindo a emoção subir à garganta.

Ele não me deixou continuar. Apenas ergueu o braço e estendeu uma pasta escura. Um objeto aparentemente comum, mas que trazia consigo algo muito maior do que eu podia imaginar.

— Isso é o que você quer — disse ele, com a voz firme, sem um traço de hesitação. — A verdade que você tanto procurou.

Franzi o cenho, sem compreender de imediato. — O quê?

— A verdade, Renesmee — repetiu, duro. — Foi por isso que você nos manipulou. A Claire, o Quil, a mim… minha família inteira. Você cavou tudo isso. E agora estou te dando o que veio buscar. — Seus olhos queimavam. — Toma. Isso é tudo o que você queria.

Olhei para a pasta. Minha mão trêmula a pegou, quase sem controle. O couro sintético dela parecia queimar meus dedos. Eu não sabia o que havia ali, mas sabia o peso que carregava.

— Jake… por favor… — tentei mais uma vez.

Mas ele apenas tirou algo do dedo. A aliança.

Vi o brilho dourado brilhar brevemente antes de ele fechá-la na mão.

— O nosso noivado termina aqui.

Minhas pernas ameaçaram fraquejar. Ele me encarou por mais um instante, como se estivesse buscando alguma última prova de arrependimento — ou talvez desejando que fosse mentira.

Mas não disse mais nada.

Virou-se e saiu, deixando a porta entreaberta… e me deixando com o silêncio que gritou mais alto que qualquer discussão.

Olhei para a pasta em minhas mãos. E, pela primeira vez em meses, tive medo da verdade que tanto desejei encontrar.